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A REAÇÃO DO CENTRO REPUBLICANO: “OS JARDINS PODEM ANIQUILAR-NOS”

No documento martalucialopesfittipaldi (páginas 109-124)

3 O RETORNO À CORTE: DO ENTUSIASMO DOS PRIMEIROS ENCONTROS AO

3.1 A REAÇÃO DO CENTRO REPUBLICANO: “OS JARDINS PODEM ANIQUILAR-NOS”

nos jornais. De volta à Corte, em 1854, passou a colaborar em vários deles; a escrever críticas literárias, peças teatrais; poesias. A partir de 1870, com a criação do Clube Republicano e da publicação de seu Manifesto, destacou-se politicamente, embora mais no plano extraparlamentar do que efetivamente assumindo um cargo político, pois sofreu várias derrotas eleitorais durante a década de 1880 que foram atribuídas à sua pouca inflexão na defesa clara e intransigente da causa abolicionista. No entanto, logo depois do lançamento do Manifesto Republicano intensifica sua atuação política e jornalística, assumindo a direção de A

República, órgão oficial do partido recentemente criado na Corte com sua ativa participação. Passou mais tarde por outros vários

órgãos da imprensa carioca, como em O Globo, O Cruzeiro e, finalmente, O País, cuja direção assumiu em 1884. Principal articulador civil do golpe militar de 15 de novembro de 1889, assume a Pasta das Relações Interiores e da Agricultura no início do Governo Provisório (SILVA, Eduardo (Org.). Ideias políticas de Quintino Bocaiuva: cronologia, introdução, notas bibliográficas e textos selecionados. Ministério da Cultura. Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, 1986, vol. I, pp. 21- 32)

2 Conforme anúncios da Gazeta de Notícias: GRANDE queima sem igual. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, ano 15, n. 98,

Joaquim Saldanha Marinho foi descrito por Jardim como um homem de forte compleição física, apesar de septuagenário, cujos modos eram expansivos e carinhosos. A mesa de sua casa sempre reunia, além da numerosa família, muitos amigos e correligionários. Foi lembrado também o papel desempenhado pelo liberal republicano por ocasião da “Questão Religiosa”, ainda nos anos 1870. Saldanha Marinho era então grão-mestre de uma das vertentes do Grande Oriente do Brasil, cujos membros estavam divididos em Vale dos Beneditinos, sob sua liderança, e Vale do Lavradio, comandada pelo visconde do Rio Branco. Esses dois círculos maçônicos foram definidos na década anterior em função de descontentamentos quanto ao processo eleitoral ocorrido para a direção do Grande Oriente do Brasil e também, em grande parte, em função do posicionamento do próprio grupo liderado por Marinho sob influência da corrente maçônica francesa, que não aceitava a ideia de Maçonaria relacionada exclusivamente à filantropia.

Se o círculo dos Beneditinos, chefiado por Saldanha Marinho, defendia uma atuação mais vigorosa e política na defesa do racionalismo, da liberdade de consciência, enfim, dos princípios caros à modernidade, o círculo do Lavradio assumia uma posição monarquista e regalista (BARATA, 1995, p. 131).

Essas divergências não impediram a união dos dois círculos, entre os meses de maio e setembro de 1872, por ocasião da grande agitação provocada pela chamada questão religiosa. Eram tempos em que a Igreja Católica do Brasil, seguindo uma orientação observada internacionalmente, empenhava-se em um processo de reorganização interna que ficou conhecido como romanização do clero católico. A romanização foi “[...] um movimento de condenação aos chamados ‘erros modernos’: o progresso, o racionalismo, o liberalismo, a liberdade religiosa.” (BARATA, 1995, p. 131). A Maçonaria, que até aquele momento poderia ser considerada como “[...]uma das instituições mais organizadas do País, passava a sofrer fortes ataques da Igreja Católica ultramontana/conservadora, que era a Igreja ‘oficial’ do Estado.” (BARATA, 1995, p. 131).

Foi breve a existência da Obediência única em função da união dos círculos maçônicos como resistência ao ultramontanismo. Descontentamentos relacionados à derrota do visconde do Rio Branco para a direção do órgão maçônico levaram novamente à divisão anterior, situação que foi remediada em 1882 pelo pedido de demissão de Saldanha Marinho do cargo de grão-mestre do círculo dos Beneditinos. Assim, quando Jardim o conhecera, em setembro de 1888, ele já não exercia um cargo de liderança na Maçonaria, mas era reconhecida sua importância como um dos grandes ícones da reivindicada secularização, sendo o anticlericalismo maçônico alinhado à defesa do ideário liberal e cientificista que, já na década passada, alcançara grande espaço.

um dos redatores e signatários do Manifesto de 1870, passando a presidir o Centro Republicano do Município Neutro, derivado daquela organização embrionária da nova legenda. Assumira desde 1887 a presidência do Partido Nacional com a autoridade naturalmente imposta pela sua histórica atuação política na organização do movimento republicano, tendo representado o principal vínculo entre os dissidentes do Partido Liberal, em grande parte ligados às profissões autônomas, e a lógica estamental. Essa ala majoritária era desvinculada do universo rural e formada por médicos, advogados e muitos profissionais da imprensa que “[...] movimentava-se num mundo de transações comerciais dependentes dos quadros partidários e ou sociedade de cortes” (ALONSO, 2002, p. 106).

Marinho teve condições de fazer a ponte entre os liberais em radicalização e o universo tradicional do império pela sua grande experiência política. Entrou na arena político-partidária em 1848, quando se elegeu como deputado geral. Não mais se desvinculou da Corte, para onde se transferiu no exercício do curto mandato interrompido pela dissolução da Câmara em decorrência da queda do Gabinete Liberal. Assumiu a redação do Diário do Rio de Janeiro, ao lado de seu futuro correligionário político, Quintino Bocaiuva, em 1860, década que também representou o seu retorno para a representação política. Foi novamente eleito como deputado geral, primeiro pelo Rio de Janeiro, em 1861, e depois por Pernambuco, em 1867. Entre as duas legislaturas, esteve na presidência da província de Minas Gerais e de São Paulo.

Ainda em 1868, nova queda dos liberais, desta vez dirigidos por Zacarias de Góis e Vasconcelos, provocou a cisão no Partido Liberal e a radicalização de parte da dissidência. A partir de então, Saldanha Marinho tornara-se um dos mais representativos membros do movimento intelectual contestador da geração de 1870, embora muito mais velho que a maioria de seus integrantes, como Quintino Bocaiuva, que ingressou na vida pública sob sua proteção. O advogado pernambucano foi citado por Ângela Alonso como exemplo de interação entre gerações. Nas palavras da autora, líderes políticos já consagrados como Saldanha Marinho, assim como professores como Benjamim Constant e Tobias Barreto, atuaram como “[...]mediadores na mobilização dos moços” (ALONSO, 2002, p. 46).

Por ocasião de sua morte, em maio de 1895, os principais jornais do Rio de Janeiro dedicaram-lhe homenagens que excederam as primeiras páginas. Fora velado em sua residência situada na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca (JOAQUIM Saldanha Marinho, 1895, p. 1), espaço sempre aberto, conforme Jardim (1891b), a amigos e correligionários políticos, ambiente familiar a todos estendido. Aos 79 anos, o então senador pelo Distrito Federal fora lembrado como o “patriarca da República” (O GRANDE Morto, 1895, p. 1), cuja morte fizera a cidade enlutar-se. Não só os edifícios públicos, mas também todas as redações da imprensa carioca, associações e grande número de casas particulares puseram a bandeira em funeral.

Os encontros e desacertos vividos por Jardim a partir de sua chegada à Corte serão analisados com base, principalmente, em suas próprias memórias e na correspondência de Saldanha Marinho. As percepções sobre os primeiros encontros foram registradas não de formas destoantes, mas reveladoras das

razões dos desencontros iniciais entre o recém-chegado e as lideranças partidárias do Rio de Janeiro. Como já salientado, Jardim destacou o entusiasmo com que fora recebido pelos modos generosos do velho Saldanha Marinho, cuja expansividade o retraíra no primeiro contato ocorrido no escritório de advocacia da Rua do Rosário, onde veio também a se estabelecer. Essa efusividade foi confirmada pelo chefe republicano, em carta ao correligionário mineiro João Pinheiro: “Recebi-o de braços abertos” (MARINHO, 1889).

Confessou, no entanto, o seu pronto estranhamento com a postura do recém-chegado que vinha de São Paulo “ostensivamente para fazer conferência” (MARINHO, 1889). Lembrou que lhe facultou inclusive as portas de seu escritório, cujo uso teria sido desvirtuado: “notei desde logo que ele procurava, não se limitando à sua missão, proselitismo.” Referia-se Saldanha Marinho, pelo conteúdo geral da carta, às investidas de Silva Jardim no sentido de reorganizar o partido no município neutro, ou “o Centro”, como se referia de forma abreviada o seu líder. Contaria, para tanto, “justamente” com a ajuda de Cândido Barata Ribeiro. O advérbio justamente nos revela uma crítica ao perfil político do médico baiano e, ao mesmo tempo, o receio de que, nele, Jardim encontraria grande apoio para suas ideias e ações.

Com efeito, Barata Ribeiro acompanhou o tribuno durante toda a sua trajetória política, auxiliando-o na expansão da propaganda pela província fluminense. Foi citado como um dos cerca de cinquenta correligionários no Rio de Janeiro que o apoiariam francamente e teria dito ao novo amigo: “Sem uma revolução nada podemos fazer. Estimo vê-lo pregar as ideias que alimento” (JARDIM., 1891b, p. 167). Jardim veio, portanto, acirrar, entre os republicanos do município neutro, “a falta de coesão e de unidade de vistas” (MARINHO, 1889) que o próprio Saldanha Marinho apontava em sua correspondência.

Em suas memórias, Jardim sugeriu que o “velho Saldanha” esteve sempre a evitar tomada de posições: “tinha grande tato no dizer as coisas, optando sempre pela atitude média, sem contradizer radicalmente a pessoa alguma” (JARDIM, 1891b, p. 179). Só na intimidade seria conhecida a sua opinião. George Boehrer corrobora as considerações de Jardim, mas de uma forma mais direta, destacando que Saldanha Marinho manteve uma posição indecisa contra a campanha do tribuno. Pessoalmente, era favorável à atuação do jovem bacharel; recusava-se, no entanto, a comprometer-se à medida que a campanha do correligionário, recém-transferido para a Corte, expandia-se. Além disso, era “amigo extremado” (BOEHRER, 1954, p. 199) e de longa data de Quintino Bocaiuva, vice-presidente do Partido Republicano Nacional, com quem logo Jardim entraria em atrito.

Opino, porém, e com base no próprio autor, que Saldanha Marinho procurava fazer frente às ambições de Jardim, reforçando, para tanto, uma reivindicada coerência com a linha política moderada. Era “[...] o chefe, nominal e por último, verdadeiro do Partido, que com sua presença deu-lhe estabilidade e um ponto de reunião” (BOEHRER, 1954, p. 66). Portanto, não houve indecisão de sua parte com relação

às propostas do jovem correligionário que chegava de São Paulo com grandes planos. Ele foi solícito a princípio, oferecendo-lhe lugar no escritório de advocacia e a direção da coluna republicana no jornal O

País. No entanto, o bacharel pernambucano, assim como Quintino Bocaiuva, passou a se afirmar como

um republicano de orientação moderada, de acordo com o documento fundador do partido, o Manifesto Republicano de 1870.3

Afora esses motivos, publicamente alegados, como veremos, pelas primeiras manifestações de descontentamento recíproco decorrentes do Congresso Nacional realizado em maio de 1889, a chegada de Jardim gerou desconfiança seguida de mal-estar entre lideranças fluminenses e paulistas. Na mencionada carta a João Pinheiro, Saldanha Marinho confessava seu profundo desgosto com o procedimento do jovem colega de profissão, que logo havia começado a demonstrar infidelidade e ingratidão. Teria chegado ao cúmulo, exclamava o advogado pernambucano, de tentar obstar o envio de recursos para o Centro Republicano na intenção de fazer caixa para o seu próprio grupo.

A troca de correspondência entre Saldanha Marinho e João Pinheiro aconteceu em fevereiro de 1889, a pouco mais de cinco meses da chegada de Jardim e, nesse curto intervalo, a sucessão de vários acontecimentos foi minando a relação do jovem advogado com as antigas lideranças do partido. Porém, inicialmente, seus feitos foram enaltecidos por parte da imprensa carioca e parecia haver, de forma geral, uma grande expectativa em torno do seu já conhecido ritmo de trabalho. Em 33 dias, realizara 30 conferências nas províncias paulista e fluminense.4 Sua transferência definitiva para a Corte assegurava o passo acelerado da campanha, tendo em vista sua pretensão, já anunciada, de estender a propaganda a outras províncias, visando, de forma imediata, a Minas Gerais, onde os descontentamentos com a Abolição abriam chances de crescimento para a legenda republicana.

Começara na coluna Partido Republicano de O País, até então dirigida por Aristides Lobo, quem passou a substituir, logo depois de sua chegada à Corte, por determinação de Saldanha Marinho. Eram ainda tempos de prestígio para o tribuno que chegava de São Paulo emprestando ares de renovação às atividades partidárias. Mencionou seu antecessor naquele importante jornal de circulação diária, que, em 1889, atingiu uma tiragem de 26 mil exemplares com o “homem de maior atividade na direção do Partido.” Nas lembranças de Jardim, Aristides Lobo conservava o ar severo e rígido de um Robespierre, era “de poucas palavras”, mas, em compensação, escrevia continuamente para o Diário do Povo, em São Paulo (JARDIM, 1891b, p. 183).

3 Panfletos de autoria de Saldanha Marinho, anteriores ao Manifesto de 1870, têm sido analisados para destacar que “a revolução

no plano da retórica seguiu invicta apesar da escolha reformista”. VITAL, Dievani Lopes. A Retórica da Revolução para além do Manifesto do Centro e do programa do Clube Radical: Saldanha Marinho em o Rei e o Partido Liberal. (1869). ANAIS da XIV Semana de História Política: Res-publica: caminhos e descaminhos da cidadania brasileira/ XI Seminário Nacional de História Política, Cultural e Sociedade. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2019, pp. 310-326.

Sua atuação em O País foi muito curta, logo se desvencilhou da responsabilidade de direção da coluna republicana. Em suas memórias, Jardim atribuiu a desistência à moderação excessiva da linha editorial do jornal, então sob a direção de Quintino Bocaiuva, o que também teria determinado a sua demissão de todos os encargos partidários. Marinho relembrou, na missiva a João Pinheiro, esses episódios que, além de desagradáveis e surpreendentes, seriam também um indicativo do ensejo do propagandista em proclamar a “sua independência e assim angariar simpatias à sua desejada chefança” (MARINHO, 1889). Contou também que o interpelou sobre os reais motivos de seu procedimento, pedindo-lhe franqueza. A resposta, inesperada, foi classificada como ilícita, principalmente porque proferida ante correligionários políticos: “Permita-me que não seja franco.” (MARINHO, 1889).

No mesmo período, Jardim também deixou o escritório de Saldanha Marinho, onde até então vinha trabalhando, estabelecendo-se na Rua do Ouvidor em sociedade com Sá Valle. Entre os eufemismos que utilizou para não assumir, já em tempos republicanos, a gravidade dos desentendimentos com aquele que chamou de “bondoso chefe”, relembrou o que parece ter sido uma das principais causas de discordância. Recebera sugestões para dedicar-se ao movimento nas províncias, mas resistira: “Não, não se deve abandonar a propaganda nas províncias, porque elas incitam a capital; mas aqui é que é preciso combater até vencer. As revoluções feitas no interior do País abortaram todas. O Rio de Janeiro monopolizou a vida nacional” (JARDIM, 1891b, p. 183). Ou seja, ele vinha ganhando visibilidade como conferencista e julgava ser preciso ecoar, de modo ainda mais forte, o movimento desde a Corte. Seus métodos, contudo, eram por demais ousados. Sua contundência, e muito provavelmente a notoriedade que vinha alcançando, não agradavam ao grupo moderado, capitaneado por lideranças históricas como o presidente e o vice-presidente do Partido Republicano Nacional – Saldanha Marinho e Quintino Bocaiuva, respectivamente.

Jardim transferiu sua coluna para o jornal Gazeta de Notícias, passando também a publicar no jornal Novidades, órgão dirigido por Alcino Guanabara, que anunciou o novo colaborador, ressalvando, porém, a não completa concordância com as ideias por ele expressadas.5 Tal anúncio foi feito em 2 de dezembro, mesmo dia do aniversário do monarca brasileiro, que, naquele ano de 1888, foi lembrado festivamente por uma turba imensa de populares – em sua grande maioria homens de cor –, que invadiu o Paço Imperial (SCHWARCZ, 2002, p. 448). Prolongadas homenagens já tinham ocorrido no retorno do monarca ao Brasil. Os africanos fizeram-se presentes. A Sociedade Vida Nova União da Nação Cabinda anunciou que iria em passeata ao palácio para demonstrar seu ‘“profundo amor e reconhecimento ao pai da Augusta Redentora da raça negra”’ (KRAAY, 2019, p. 159).

Mesmo com tantas manifestações de apreço popular ao velho imperador, Jardim dedicou-se a

5 O início da colaboração de Jardim no jornal de Alcindo Guanabara foi registrado em: O “NOVIDADES”. Novidades. Rio de

atacá-lo diretamente nas páginas do Novidades. O proprietário do jornal fazia, como lembrou Evaristo de Moraes (1985), forte oposição ao gabinete João Alfredo, informação reiterada por Nelson Werneck Sodré (1999), que afirma ter sido o jornal fundado por um agrupamento de homens de fortuna com o objetivo de defender a manutenção do cativeiro. Em sua estreia nas páginas do periódico, Jardim deixou claro que iniciava uma nova fase movido pelo seu reiterado compromisso público de divulgar a ideia republicana: “Independo e concorro. Quer isto dizer que aqui escrevo subjetiva e objetivamente o globo dos meus correligionários do município neutro e das províncias [...] reservando-me embora certa liberdade exterior de movimentos.” (PROLÓQUIO, 1888, p. 2).

Foi curtíssima a duração de sua coluna naquele diário. Seu último texto assinado em Novidades foi no dia 14 de dezembro, isto é, cerca de duas semanas depois de anunciado o início da sua colaboração. Nele, Jardim ironizava o retorno de D. Pedro II como chefe de Estado. O “imperador moribundo” promovia, na verdade, a acefalia governamental, que dava espaço à “hidra de muitas cabeças”, o que vinha sendo desastroso para o Brasil. E se a “vida vegetativa” e “inútil” do monarca se prolongasse? A bondade e a caridade nacional continuariam a manter o fetiche da monarquia? Jardim alertava que já era hora de se remover o grande empecilho para o progresso brasileiro: “o que faremos nós diante do obstáculo, do

fetiche: a piedade não se fará covardia: removeremos o obstáculo, abateremos o fetiche.” (ACEFALIA,

1889, p. 2)

Três dias depois, talvez em função do ataque direto à figura fragilizada, porém prezada e popular, do monarca de longas barbas brancas,6 o jornal informaria a suspensão da coluna Pela República, informando, sucintamente, que não havia, entre o colunista e a direção daquela folha, “solidariedade de parte a parte.” (NOVIDADES, 17 dez. 1889, p. 1). Àquela altura, início de dezembro, e, portanto, radicado há apenas três meses no Rio de Janeiro, o tribuno já havia organizado a fundação do Partido Republicano da Província do Rio de Janeiro. Foi escolhido delegado da capital e presidente da comissão executiva, também integrada, entre outros, pelo já citado herdeiro do barão das Palmeiras, Antônio Santos Werneck, que, na criação do Partido Republicano de Paraíba do Sul, teria inserido o argumento de que as novas adesões vinham depois da Abolição e não por causa dela. Jardim teria se apropriado dessa fórmula apresentada, inserindo-a também no manifesto do Partido Republicano da Província do Rio de Janeiro. Não à toa, incluiu, em sua fala de “independência e concurso”, o apoio dos correligionários provinciais, sobretudo aqueles que lhe proporcionavam “maiores contatos e simpatias” (JARDIM, 7 dez. 1888, p. 2).

6 D. Pedro II, que já partira com a imagem combalida pelos problemas de saúde, voltara seriamente enfermo. A diabetes o afastava

cada vez mais dos momentos fortes do seu longo reinado. “Visto desse ângulo, era quase um fantasma de si próprio, um fantasma da realeza.” No entanto, de forma paradoxal, pela simpatia que despertava, sua imagem mitificada era desvinculada da própria instituição que representava. Assim, ao mesmo tempo em que a Monarquia naufragava, o monarca atingia o mais alto grau de sua popularidade. SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 443-444.

Vinha mantendo uma rotina de compromissos. No final de outubro, falara aos comerciários nas dependências da Associação dos Empregados do Comércio, tendo, na ocasião, recebido o título de sócio honorário da entidade. A essa reunião, compareceram também muitos estudantes das escolas superiores. Tratou-se dos meios de ativar a propaganda republicana.7 No início de novembro, estivera entre os integrantes das seis lanchas que foram buscar a bordo José Lopes da Silva Trovão, que retornava ao Brasil depois de uma longa temporada na Europa.8 Mais tarde, a presença dele na tumultuada conferência que encerraria as atividades de Silva Jardim no movimentado ano de 1888 poderia atestar o seu apoio ao jovem tribuno já então em notório processo de divórcio com a direção partidária. No entanto, menos ruidosos

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