Capítulo 3: Redes Sociais e Redes Migrantes
3.2 Redes Migrantes
3.2.1 Redes e Trajectórias Migratórias
As redes migrantes surgem ligadas às migrações internacionais: uma análise dos padrões migratórios e canais migratórios relacionados com as redes migrantes permitiu verificar que a probabilidade de migração aumenta, se existirem relações entre migrantes no país de acolhimento e não-migrantes no país de origem (Koser, 1997). Essas relações permitem, igualmente, transferir conhecimentos e recursos através das fronteiras de diversos países, quer a nível individual, quer grupal90. Massey (1987) falou-nos do fenómeno da "migração cumulativamente causada", ou expandida para além das condições originais que a forjaram, através de redes que reduzem os riscos económicos ligados à migração (esta última seria encarada como uma estratégia de diversificação do risco). Assim, as redes fortaleceriam a independência dos fluxos migratórios, por duas vias:
86 Cf. Glick-Schiller et al. (1992), Goldring (1992), Basch, Glick-Schiller e Blanc-Szanton (1994), e
Guarnizo (1994).
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Cf. Portes e Rumbaut (1996).
88 Cf. Pessar (1996).
89 Cf. Zolberg, Suhrke e Aguayo (1986), e Zolberg (1989). 90
Cf. Boyd (1989), Portes e Böröcz (1989), Koser (1997), Palloni et al. (2001), Meyer (2001), Wimmer (2004), Gold (2005) e Herz (2015).
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1) Uma grande densidade das conexões de rede equivaleria a uma estrutura social autónoma, apoiando o processo migratório;
2) Diversificando a localização dos membros de uma família, diminuiríamos o risco de rendimento total insuficiente dessa mesma família (Massey, 1987).
Deste modo, as estruturas familiares e comunitárias surgem apoiadas em laços sociais mais ou menos densos, e de menor ou maior alcance. Estudos anteriores, com muitos migrantes, incluindo sul-asiáticos, revelaram que as redes pessoais de amigos e familiares constituem um apoio fulcral à migração91. Deveremos, adicionalmente, distinguir entre redes autóctones, redes étnicas e redes migrantes. As redes autóctones correspondem a um conjunto numeroso e diverso de redes de relações, existentes no ambiente de origem dos migrantes e estabelecidas por actores locais (podendo possuir conexões internacionais), apresentando ligações e graus de interacção variáveis, tanto com redes étnicas, como com redes migrantes, das diversas imigrações presentes no ambiente de acolhimento. Por princípio, quanto melhor um imigrante souber navegar as redes autóctones, conhecer o seu funcionamento e estabelecer contactos ou relações com elas, tanto melhor será a sua adaptação e destreza naquele contexto. As redes étnicas ligam indivíduos com a mesma herança étnico-cultural, religiosa e linguística, entre si - podendo estabelecer conexões, não apenas entre os membros de determinado grupo étnico num dado destino, mas também entre indivíduos desse mesmo grupo étnico, em diferentes destinos ou países, e destes com as mesmas redes étnicas no ambiente de partida. As redes migrantes têm um papel fulcral no auxílio à emigração/imigração, e são mais abrangentes do que as redes étnicas - pelo facto de, em geral, terem ramificações na origem, destino e países intermediários, e de não se centrarem numa herança étnico-cultural, religiosa e linguística muito específica, mas antes numa herança e afinidade conacional (exº: nepaleses), ou numa afinidade entre indivíduos provenientes de nações corregionais (exº: sul-asiáticos).
Consideremos o papel das redes na criação e sustentação de fluxos migratórios - é exemplo, disso mesmo, o conceito de cadeia migratória:
«A cadeia migratória pode ser definida como aquele movimento em que migrantes prospectivos sabem de oportunidades, têm quem lhes forneça transporte, e possuem alojamento inicial e emprego, arranjado por meio de relações sociais primárias com os migrantes anteriores ou prévios. A cadeia migratória é, assim, distinta da migração impessoalmente organizada, concebida como um movimento baseado em recrutamento impessoal e assistência. No período pós-guerra, a migração impessoalmente
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organizada foi exemplificada pelos procedimentos de selecção, transporte, recepção, instrução e colocação, feitos pela Organização Internacional dos Refugiados; outros exemplos claros, são a sequência centenária de esquemas para migração oficialmente assistida, do Reino Unido para as suas colónias e domínios, e também do Sul da Europa para a Argentina e Brasil.» (MacDonald e MacDonald, 1964: 82- 83)
Shah e Menon (1999) descreveram a cadeia migratória através da rede social na experiência dos trabalhadores imigrantes no Kuwait. Baseando-se numa sondagem com 800 migrantes sul-asiáticos do sexo masculino, concluíram que, apesar de uma maioria dos trabalhadores não conseguir enviar remessas para casa ou para os seus familiares, as redes sociais destes trabalhadores no Kuwait tinham-se expandido - primariamente sob a forma de patrocínio a trabalhadores imigrantes adicionais, por parte daqueles trabalhadores imigrantes que já se encontravam no país de acolhimento. Eles descreveram o modo como esse patrocínio funcionava, e delinearam preditores da migração através de um amigo ou parente92, ou do arranjo de patrocínio93 para um trabalhador imigrante subsequente, e também para avaliar o "efeito multiplicador" de tal processo94.
As redes globais resultantes de ligações múltiplas entre uma origem e um destino estimulariam e perpetuariam as migrações. Normalmente, há migrantes pioneiros que estabelecem as primeiras ligações entre a origem e o país de acolhimento: o capital social dentro das redes migrantes tende a diminuir os custos e riscos da migração, para os migrantes que os seguem. Eventualmente, as redes migrantes e contactos estabelecidos podem tornar-se a principal razão pela qual as pessoas continuam a migrar para um dado destino (Dekker e Engbersen, 2012). Massey et al. (1998) defenderam que a migração altera os contextos socioeconómicos nos quais as decisões subsequentes de migrar são tomadas (Massey et al., 1998) - migração cumulativamente causada. Muitos autores consideram que os migrantes, propriamente ditos, não se encontram passivamente à mercê dos processos macro que determinam os fluxos migratórios; são agentes activos, que escolhem destinos em função das redes, e de interesses e motivações singulares (Massey et al., 1998; Brettell e Hollifield, 2008). Outros
92 Neste caso, o facto de o trabalhador ser paquistanês ou indiano, muçulmano e possuir determinadas
competências, eram melhores preditores da sua migração através da rede social (Shah e Menon, 1999).
93 Um quarto de todos os trabalhadores entrevistados tinham arranjado visto para outro trabalhador
imigrante. A duração da sua estadia no Kuwait era um preditor muito forte do arranjo de visto para trabalhadores adicionais. O rendimento mensal, ser casado e muçulmano estavam positivamente associados ao arranjo de patrocínio, por parte do trabalhador imigrante (Shah e Menon, 1999).
94 Os autores verificaram que 0,78 vistos tinham sido arranjados, em média, por trabalhador - já os
trabalhadores paquistaneses, com maior duração média de estadia no Kuwait, tinham arranjado 1,6 vistos para outros, em média (Shah e Menon, 1999).
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investigadores acrescentam que o carácter auto-sustentado dos fluxos migratórios permite que eles não sejam definitivos, nem estáticos ou unidirecionais - mas mutáveis, flexíveis e multidirigidos (Boyd, 1989: 641; Vertovec, 2001). A composição de género das redes migrantes também parece estar intimamente ligada ao padrão migratório observado95.