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As repercussões dos acidentes de trabalho extrapolam para além do espaço institucional.

Ao serem questionados sobre a influência do acidente na vida profissional, os entrevistados relatam que esta ocorrência desencadeou um processo reflexivo a respeito dos hábitos que vinham sendo adotados. Certas reflexões permaneceram em nível de análise e transformação dos próprios hábitos:

“Agora mesmo, já sei: nunca mais vou embrulhar coisas deste tipo. (...) A gente está bem orientado: não amassar papel nenhum. Qualquer curso que tu vai, dizem que não se amassa papel nenhum. Mas é uma bobeira que dá na hora. (...) Serviu

como lição. "(Tl)

"Mas serviu, serviu para pensar. Serviu para parar: para que se expor àquilo? De repente eu tive sorte porque tomei poucos dias ( referindo-se à medicação). Tive sorte que o paciente não era positivo. Tive sorte... "(T2)

trabalho, através da ampliação de sua experiência, criando um ambiente propício à discussão e à reflexão coletiva, foi apresentado por um trabalhador:

"Eu estava conversando com eles (colegas da mesma categoria) a respeito até do uso da luva, e eles falaram que achavam que era bobagem, e eu falei: Não. E tentei até um pouco assustar eles; até mesmo para o bem deles, falei: Não, deve de usar que isso aí épara o teu bem mesmo(...)”(T5)

O fragmento da fala do T2 “tive sorte”, remete a identificar o trabalho como uma mesa de jogo (“tive sorte”), onde os jogadores (trabalhadores) negociam, agem, não sabendo a jogada (ação) do outro, não sabendo como se processam muitas da regras do jogo (organização do trabalho). A cada jogada, existem duas possibilidades: vencer o jogo (sair hígido), ou perder (sair contaminado pelo acidente). É uma grande jogada de sorte (processo de trabalho). O trabalho não pode ser apreendido como sendo um “jogo da sorte”, pois a possibilidade de perder significa muito mais do que encerrar uma jogada e partir para outra, na mesma mesa. Significa iniciar outra jogada em mesas diferentes, ou seja, na mesa do adoecimento, que acompanha a contaminação.

Assim sendo, não pode ser considerado como um jogo, é uma vivência, uma exterioridade do ser humano, de suas potencialidades e capacidades.

Ao se tratar da influência do acidente, na vida pessoal dos trabalhadores, nota-se que alguns deles tiveram grande dificuldade de falar sobre esse aspecto, limitando-se a responder sim ou não. Isso ocorre, certamente, por se tratar da privacidade do problema, momento em que os medos, as ansiedades, as preocupações afloram com maior intensidade e, portanto, trazem mais lembrança dos sentimentos vividos. Esta limitação foi respeitada pelos sentimentos envolvidos e por não existir continuidade da entrevista neste ponto.

Já os trabalhadores, que conseguiram expressar tais influências, relatam seu predomínio no aspecto emocional: a ansiedade de espera do resultado dos

exames a cada coleta, a necessidade de afastar-se temporariamente do trabalho para absorver melhor o ocorrido, a ansiedade pela medicação e seus efeitos colaterais. Mesmo os trabalhadores, que fizeram alusões às repercussões do acidente na vida pessoal, limitaram sua problemática ao espaço/ambiente do trabalho, ou seja, limitaram-na aos aspectos que envolvem seu tempo no trabalho. Não se reportaram a outros espaços/ambientes, mesmo quando questionados, com exceção de um trabalhador.

As falas abaixo demostram a limitação das repercussões ao seu tempo no trabalho:

“Não! Eu não sou uma pessoa normalmente estressada. Só mudou cada vez que eu tinha que esperar o resultado lá na porta do laboratório. ”(T2)

“Andava irritada no trabalho, e sempre com enjôo. ”(T4)

A influência do acidente na vida dos trabalhadores envolve sentimentos difíceis de extemalizar, o que faz com que os trabalhadores permaneçam fechados em si mesmos, não permitindo ou não querendo a intervenção de outros profissionais. A não extemalização impede que esses sentimentos sejam devidamente compreendidos tanto pelos trabalhadores que os experienciam como pelos demais. Sua compreensão, no entanto, tomaria possível que, a partir do seu compartilhar, servissem como importantes argumentos para a transformação do trabalho.

Recorre-se a certas falas, que demonstram, claramente, o quanto as experiências vividas em qualquer das esferas, que compõem a totalidade do trabalhador, podem ter influências tanto negativas quanto positivas em sua vida. Essas influências podem conduzir a alterações em seu modo de viver, de trabalhar, de refletir.

“Eu acho que, psicologicamente, mudou muito. Algumas reações físicas aconteceram, mas eu acho também que, por causa do meu estado emocional. (...) Nesse período, eu tentei me alimentar melhor, porque eu sou muito desregrada em questão de alimentação. De manhã eu não gosto de tomar café, então eu saio sem tomar nada. Eu comecei a comer uma frutinha de manhã, almoçar melhor, evitar algumas coisas, dar uma controlada nisso para poder reagir melhor. Eu acho que fo i isso que eu fiz. Em primeiro lugar fo i emocional. Fiquei muito mal emocionalmente. O físico reagiu, com certeza, mas eu tentei controlar. Procurei apoio psicológico na época também. ”(T3)

Para este trabalhador, o acidente levou à ocorrência de uma revisão de hábitos costumeiros, para reforçar ou incluir hábitos saudáveis na vida, como o “simples” café da manhã. Serviu, apesar de toda a angústia que provocou, como um tempo de reflexão sobre sua vida sobre seus hábitos.

“No dia (do acidente,) eu cheguei a ficar gelada, nunca vi minha mão tão gelada. Um calorão e a minha mão gelada, acho que de susto também na hora. Fica um monte de confusão na cabeça: será que pega? A í tu vai para as teorias. Será que pega? Será que em cinco segundos é verdade que morre o vírus? A gente fa z uma retrospectiva. (...) A cada HIV a gente fica pensando: será que vai vir positivo? Tem coisas que passam, mas sempre tem aquela insegurança. A gente não tem tanta certeza. ” (Tl).

O fato concreto, vivido por este trabalhador, traz medos, ansiedades e incertezas para um mundo onde só as certezas podem existir. E, de repente, ocorre um “contratempo” que abala todas as certezas, todas as seguranças. O acidente, no depoimento do Tl, vem ao encontro desta reflexão, representando a “quebra” da certeza, para a certeza da incerteza.

Ao abordar o aspecto de não aceitação de incertezas pelo trabalhador da saúde, Capella (1996, p.55) relata que, “na área da saúde, por razões culturais, há a negação da dúvida, da incerteza, da diversidade. Demonstrar dúvida,

incerteza, sempre foi sinônimo de ignorância e insegurança. Por detrás desta armadilha, não se possibilita uma relação dialética, onde dúvidas e certezas, a segurança e o medo, o igual e o diferente podem ser discutidos Talvez as “tantas certezas” impeçam que o ser humano perceba suas fragilidades diante das situações de risco.

Da fala acima, retira-se um importante reflexão das entre-linha: o acidente pode ser gerador de questionamentos, que fundamentem o fazer posterior, isto é, se os questionamentos gerados no momento do acidente forem utilizados, a posteriori, subsidiarão a reflexão sobre a prática cotidiana. Não que o acidente seja necessário para a existência do fazer refletido, mas, partindo de sua existência concreta, que seja estímulo individual e coletivo para tal.

Quando da análise das repercussões dos acidentes, foi detectada a necessidade de propiciar momentos de discussão, reflexão conjunta, buscando o entendimento das relações interpessoais, de poder, de produção, que são parte desta organização, como forma de sair do aparente individualismo que envolve os trabalhadores e mascara a premência de modificações. Sozinho, toma-se extremamente difícil, não só modificar estratégias, atitudes, pensamentos, mas também perceber a amplitude do processo de trabalho, visto ele estar e ser fragmentado, sem a participação dos trabalhadores em todas as suas etapas.

Estas reflexões poderiam dar continuidade, com enormes contribuições, às pequenas conquistas que tem sido feitas com relação à prevenção de acidentes, que toma possível almejar um processo de trabalho, onde a ocorrência de acidentes seja a mínima possível, ou até inexista, um processo de trabalho que produza a saúde dos trabalhadores.

Quimioprofilaxia: um bloqueador do potencial de risco

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