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Representar referentes concretos

No documento O desenho como substituto do objecto (páginas 161-163)

O desenho como reflexo de um ‘modo de ver’ e comunicar

1. Entender o desenho do objecto num sentido alargado

1.1. Representar referentes concretos

O desenho ao contrário da escrita, registo gráfico que evoluiu rapidamente no sentido de uma formulação cifrada, manifesta-se como visualização da realidade. Quer dizer, o desenho é, em si, uma recriação visual onde participa a experiência da realidade segundo a mediação dos sentidos118

. A designação – ver – refere-se à forte participação da percepção visual na nossa relação, assimilação e entendimento do mundo, tornando- se desse modo sinónimo de compreensão.119 Assim, a imagem do desenho constitui-se

como representação à qual reconhecemos algum grau de semelhança com aspectos interiorizados da realidade visível, mesmo quando representamos com linhas aquilo que são só manchas e cores.

Riscar o limite de um corpo num suporte pressupõe desde logo capacidade de sintetizar a realidade e um poder para recriar na mente, a partir da natureza da linha deixada, uma correspondência com a experiência vivida dos corpos.

Os desenhos são realidades distintas que pretendem passar por, ou tomar o lugar da coisa representada, mas constituem sempre uma síntese de informação, conhecida e/ou observada dos corpos, mesmo quando procuram iludir através de uma imagem bem proporcionada, absolutamente descritiva, pormenorizada e detalhada nas partes. Massironi (1982) explica como todos os desenhos são o resultado de um processo de ênfase e exclusão de informação, consoante o sujeito e tudo o que ele comporta, sendo que o acto de representar é um processo activo e selectivo de informação. Desenhar depende, portanto, em muito, do olhar que queremos lançar sobre determinada

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“ Não há representação sem mediação corporal dos sentidos.” (Silva, 2002, anexo III)

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“ Uma das particularidades da filosofia ocidental (e por consequência de toda a filosofia que aceita a sua herança) é o papel privilegiado que desempenha entre os nossos «cinco sentidos», o da vista. Heraclito afirma que «os olhos são melhores testemunhos que os ouvidos», e Demócrito que as palavras reproduzem as coisas «como reflexos num espelho ou num rio». A partir de Platão, a inteligência perfeita é comparada a um «sol», o conhecimento à «luz» e as ideias devem seu nome ao «que se vê», sem implicar qualquer misticismo da visão como «a arte de ver as coisas invisíveis» (segundo a irónica definição que dá Swift) (…) Sabe-se que a criança, pelo nascimento, recebe primeiramente pelo ouvido e não pela vista, as primeiras «impressões» do meio ambiente. Seria curioso analisar, ainda que por alto, a mutação psíquica e social que, a seguir, vai privilegiar o olhar. (…)” (Legrand, 1991, p. 385)

realidade: Hockberg120

afirma: “A maneira como uma pessoa volta a olhar para o mundo tanto depende da sua consciência do mundo, como dos seus objectivos – ou seja, das informações que procura.”

Á parte de práticas desenhativas livres, como pulsão natural, terapêutica, ou objectivando uma consciência artística e estética, o desenho, em certos casos estabiliza- se aproximando-se de soluções codificadas da realidade. Também aqui funcionam os pressupostos de selectividade de informação, mas de modo consciencializado e com vista a alcançar um benefício comunitário. A necessidade de descrever referentes físicos concretos (uma flor, um insecto, um membro do corpo humano) (…)” resulta na ciência em deliberações prévias, conceptuais sistemáticas, que excluem a participação do sujeito, ou a sua expressão121, e que procuram

“ (…) dispor de uma maneira tanto quanto possível organizada, detalhada e legível, uma quantidade significativa e suficiente de informação para permitir conhecer e identificar o referente por aquilo que o caracteriza e constitui e que eventualmente, influenciará e definirá a sua aparência” (Vaz, 2001, p.70, 68 e 69)

Sabemos que a produção de imagens participa na constante aferição do modo como entendemos a realidade. “O acto de desenhar é então um modo de apreensão do mundo material que contribui para a consciência de si, para o contacto com esse mundo material e para a construção do que chamamos realidade (…)” (Rodrigues, 2002, p. 65).

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Citado por Massironi (1982, p. 74)

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Em representações livres, completamente á parte de convenções, objectivos e constrangimentos de comunicação, as imagens do desenho encerram características psicológicas do indivíduo nas qualidades do gesto como nas suas escolhas, o que significa muitas vezes a valorização de objectos alvo, fixações e ‘fantasmas interiores’, factores associados em parte à questão da expressividade. A expressividade de um desenho é muitas vezes assumida pelo grafismo personalizado, caligráfico, energético, ou mesmo como espontaneidade. Estes elementos, quando autênticos, são a manifestação de uma personalidade própria e, como tal, da expressão do ‘eu’. Um traço pode, porém, na sua calma e fluidez expressar a leveza de uma pena a cair, tal como um mimo expressa com um gesto no ar: forma não concretizada de desenho. Expressar é pois exprimir, do latim exprimere: espremer, fazer sair, revelar, significar, representar. Mas a expressividade alcança outras latitudes e balança entre aquilo que são características da coisa representada, por exemplo, um rosto pode ser considerado expressivo (como tendo uma personalidade distinta ou revelando um emoção, sentimento, um movimento próprio e característico), e uma projecção que o sujeito faz em determinada coisa, onde por exemplo revê algo que represente o seu estado interior de coisas. Pode ainda ser a expressão de uma ideia ou conceito sem que no entanto participe a expressão do sujeito; por exemplo a Justiça. Existem também elementos expressivos que fazem parte de uma consciência colectiva, por exemplo: uma árvore que tem o nome chorão, pelo facto do movimento descendente da copa ser associado a tristeza.

É de resto sabido que a escolha de uma maneira de representar ou de uma técnica em detrimento de outras é influenciada não apenas pelos objectivos da representação mas essencialmente por uma atitude cultural e estética.

Com efeito, as imagens produzidas aferem também o modo como voltamos a interpretar a realidade, a representa-la novamente, e assim sucessivamente. Funciona de modo análogo à memória, cuja função tem um papel determinante no conhecimento do mundo: permite-nos reter um conjunto de experiências e observações, que podemos sobrepor, avaliar e possivelmente de cada uma retirar e articular novos entendimentos do objecto. Entendimentos esses que se alargam muito além do conhecimento da sua exterioridade e materialidade.

No documento O desenho como substituto do objecto (páginas 161-163)