PERÍODO MAO: ENTRE A MOBILIZAÇÃO DE MASSAS, DE UM LADO, E O ESTADO E A ECONOMIA, DE OUTRO
2.4 A VONTADE DAS MASSAS PARA CONSTRUIR A ECONOMIA E O SOCIALISMO
2.4.8 Síntese com Alguns Resultados Econômicos e Sociais
A era Mao foi de caos e retrocesso na China, como insiste a maioria das interpretações hoje no Ocidente? Na verdade, a China tornou-se um país industrializado no final da década de 1970 (HOBSBAWN, 1995, p. 354). Acrescente-se, porém, que se tratava de uma industrialização com nível tecnológico ainda muito baixo e enfrentando grandes dificuldades econômicas. No período maoísta, houve um processo de industrialização e de rápido crescimento econômico. Com efeito, as taxas de crescimento foram duas vezes maiores do que na Índia. A China, entre 1952 e 1978, teve o seu PIB aumentado anualmente em 6,2% (AMIN, 2001, p. 58-61). A indústria destacou-se com a taxa de 9,4% ao ano, e os serviços cresceram a 4,5%, enquanto a agricultura teve o menor desempenho relativo com 3,4%. A China foi dotada de indústrias de base: a oferta de energia elétrica aumentou de 36 vezes, a produção de carvão passou de 66 para 618 milhões de toneladas e a de aço aumentou de um para 32 milhões de toneladas. A produção agrícola não foi descurada: entre 1952 e 1978, a produção anual média de cereais aumentou de 160 para 280 milhões de toneladas.
Esses dados mostram que Mao não desprezava, em termos concretos, o crescimento econômico, concentrando-se apenas na ideologia e na luta de classes. Outro fato que demonstra a preocupação de Mao com o ritmo e o desempenho da economia consiste na própria experiência do Grande Salto com sua tentativa de rápida transformação econômica (além de outros objetivos políticos e ideológicos). Para Mao, a economia (e a ideologia e o socialismo) daria um grande salto à frente, se tudo dependesse apenas do desejo, se vontade e realidade se confundissem meramente. Acrescente-se, porém, que, em Mao, a economia não era só vontade, como demonstram seus escritos, como As dez grandes relações, e suas formulações de políticas e programas econômicos à frente do Estado chinês.
As necessidades de defesa e a estratégia de redes industriais razoavelmente autônomas em grande parte do país eram dois fatores que condicionavam a estruturação da
economia maoísta (HART-LANDSBERG; BURKETT, 2004, p. 55). Em 1956, Mao (1977b, p. 311-2) especulava sobre a possibilidade de um período de paz, por exemplo, de cinco anos. Assim, nos quatro primeiros anos seria possível desenvolver fortemente a indústria costeira já instalada e, no quinto ano, antes da nova guerra, seria feita a transferência dessa indústria para o interior do país. Ademais, a maior parte das novas empresas deveria ser criada no interior para “equilibrar gradualmente a distribuição geográfica da indústria e facilitar os preparativos para enfrentar uma guerra”. É claro, todavia, que essa proteção do interior do país para as instalações industriais eram, de fato, vulneráveis à guerra, com o uso da aviação, na época.
Essa estruturação da economia testemunhou algumas distorções e limitações importantes, conforme Amin (2001, p. 62). Apesar da retórica de Mao sobre o desenvolvimento proporcional dos diversos setores, a prioridade da indústria pesada, inclusive a produção de insumos básicos, foi excessiva, revelando a sobrevivência da influência da forma de industrialização soviética. Para gerar uma unidade do produto interno bruto (PIB) gastava-se, na China, muito mais energia e aço do que em países desenvolvidos. A indústria pesada gerava pouco emprego e restringia a transferência da mão de obra excedente do campo para as cidades. Essa indústria pesada representava três quartos do conjunto da atividade industrial, revelando a insuficiência da manufatura de bens de consumo. Por isso mesmo, essas distorções prejudicavam a eficiência dos investimentos, com uma dinâmica exacerbada de oferta de bens de produção para servir à demanda da própria indústria de bens de produção. A indústria era responsável por uma parcela de 48% do PIB enquanto a agricultura detinha 28% e os serviços, mostrando as dificuldades dos setores comerciais e financeiros, representavam apenas 24%. Nas trocas internacionais, a China manteve-se com uma participação restrita.
Tabela 1 - Participação da China no comércio mundial (em %)
1948 1953 1963 1973 Exportações 0,9 1,2 1,3 1,0 Importações 1,1 1,7 0,9 1,1
Fonte: Organização Mundial do Comércio (2003).
Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett (2004, p. 27-30) assinalam que a China sob Mao conquistou pleno emprego, segurança social e igualdade, mas, no final do período maoísta, os trabalhadores estavam frustrados com o persistente controle hierárquico nas empresas, enquanto a economia enfrentava dificuldades. Houve greves em 1976-7e as manifestações de homenagem a Zhou Enlai em abril de 1976. No capítulo econômico, a
produção agrícola cresceu apenas um pouco mais do que a população, os investimentos agrícolas mostraram-se inadequados, as trocas desiguais favoreciam a indústria. As comunas eram um arranjo organizacional de maior radicalização ideológica e igualitarismo, com saúde, educação, habitação e seguridade social, por um lado, mas tinham uma administração rígida e autoritária, por outro.
François Godement (1989) faz um balanço extremamente crítico do período maoísta. Para ele, na China, em vez da mobilidade e ruptura anunciadas pela retórica de Mao, teria havido uma paralisia. Ele apóia-se em dados (controversos) que só apareceram no início da década de 1980, no auge da denúncia de Deng Xiaoping contra Mao e do lançamento das reformas econômicas. Nessa época foram divulgadas, por exemplo, estatísticas econômicas como parte de um esforço de jogar uma pá de cal no legado, reconhecidamente contraditório de Mao, mas uma herança que está muito longe de ser carimbada como “paralisia provocada pelo maoísmo”.
Então, Godement denuncia que a taxa de acumulação, preservando o tipo soviético de planificação, foi de 43% em 1959 e manteve-se em aproximadamente 30% na década de 1970. Mas, observe-se que 30% de taxa de acumulação em um país em industrialização como a China faz sentido, tem lógica. A indústria pesada teria atraído e concentrado 76%-77% dos investimentos, entre 1954 e 1977. O desenvolvimento industrial e urbano teria sido financiado pelo campo, através da subavaliação dos preços agrícolas. Muitos projetos de industrialização do interior, com defeitos de planificação e gestão, inviabilizaram- se, e preservou-se quase a mesma desigualdade geográfica industrial anterior. Não apareceu o fenômeno da “kulakização”, mas teria havido conservação de zonas de miséria camponesa. Teria havido, também, uma estagnação dos salários, mantidos sem aumento do seu poder aquisitivo de 1957 a 1978. Apesar dessa forte condenação global, Godement (p. 293) ensaia uma tímida ressalva:
A teoria maoísta funcionou, sobretudo, como uma espécie de “Potemkim” para uso do Terceiro Mundo, a ponto de se ter esquecido hoje, quando se tenta refutá-la, de preservar o valor dos progressos quantitativos importantes ocorridos na China Popular (basta pensar na multiplicação por seis do Produto Nacional Bruto), embora tais progressos não apresentem nenhum caráter de inovação teórica. (grifo nosso). Em razão dessas críticas e do que se passa hoje na China, é inevitável o exame do período maoísta e de sua direção na economia, considerando a contradição da busca da igualdade e do pleno emprego ao lado da pobreza e das novas formas de opressão das massas.
A retórica da linha de massas justificava a iniciativa popular e o controle local das atividades econômicas. Como já foi visto anteriormente, houve uma decisão do Estado em disseminar pequenas indústrias na área rural. Os efeitos sociais decorrentes do tipo de industrialização, da coletivização na agricultura e gestão do conjunto da economia estão associados ao igualitarismo de Mao. As diferenças de renda foram submetidas a esse igualitarismo (DAVIS; YANJIE; SHAOGUANG, 2005, p. 21).
Há pouco tempo, Harry Magdoff e John Bellamy Foster (2004, p. 2) afirmaram, categórica e peremptoriamente, que “em fins dos anos 1970 (...), a China tinha se tornado uma sociedade altamente igualitária, provavelmente a mais igualitária da terra, em termos de distribuição de renda e atendimento das necessidades básicas”. Pode-se concordar com isso e admirar o feito, em pouco tempo, em um país atrasado, com população imensa e escassa área agricultável, em meio a convulsões políticas. Todavia, deve-se acrescentar que se tratava da combinação de igualdade e condições de vida muito modestas, inclusive contando com limitada taxa de crescimento do consumo anualmente ao longo do período maoísta.
Na estruturação dos direitos sociais dos trabalhadores, cada empresa assumia a responsabilidade pela aposentadoria, pensões, assistência à saúde, educação, habitação. Nas áreas rurais, cada comuna popular tinha o dever de viabilizar as mínimas condições de vida das massas trabalhadoras. Os direitos, a garantia de emprego e as condições sociais constituíam o chamado iron rice bowl.
Em 1976, a maioria dos chineses tinha, pela primeira vez na história, recursos sociais, embora modestos: alimento, moradia, roupa, educação básica e assistência média primária. O consumo médio de alimento, medido em calorias, estava acima da média dos países do Terceiro Mundo. A expectativa de vida aumentou de 35 anos para 68 anos, em 1982. O número de matrículas na escola primária foi multiplicado por seis. Na velha China, com uma tradição brutal de inferiorização, submissão e humilhação das mulheres, houve avanço na condição social feminina, apesar da persistência de graves problemas de discriminação, até hoje. Não havia favelas nas cidades, nem camponês sem terra. O ópio, o jogo e a prostituição foram eliminados. O Estado chinês, com Mao, erradicou a fome endêmica e centenas de milhões de pessoas foram retiradas de condições miseráveis.
Na China, a pobreza estava e ainda está concentrada, principalmente, no campo. As diferenças regionais são pronunciadas, sobretudo entre a região costeira desenvolvida e o
Oeste atrasado do país. As rendas dos camponeses variavam de uma província para outra, enquanto a política de maior igualdade salarial dos operários perpassava todo o país. Em 1978, o coeficiente Gini para a área urbana era de 0,16 e de 0,22, para a área rural (AMIN, 2001, p. 59). Apesar das políticas de descentralização econômica, o Estado, com Mao, não conseguiu transpor as desigualdades regionais.