CAPÍTULO I Políticas Públicas de Gênero: um sobrevoo pelo Brasil, Pernambuco e
5 Secretaria da Mulher do Município de Petrolina
A Secretaria da Mulher de Petrolina foi aberta em novembro de 2007, mesmo ano que a Secretaria Estadual da Mulher do estado de Pernambuco, e uma das primeiras nas cidades do interior do estado. Essa coincidência temporal não se deu por acaso. Pautado nas novas demandas por descentralização das políticas, já expostas anteriormente, o governo do estado de Pernambuco já tinha o interesse em expandir as políticas para as mulheres pelos municípios do estado desde a abertura da sua Secretaria Estadual da Mulher. A relação político/partidária profícua que o governador nutria com o prefeito de Petrolina, de então, também foi crucial para a rapidez em que esta secretaria foi criada.
No entanto, ter sido inaugurada no final do ano, depois de o orçamento do município de 2008 já ter sido aprovado, gerou dificuldades no primeiro ano de funcionamento. Estas dificuldades iam desde sua estrutura de funcionamento, ao orçamento para levar a cabo políticas para as mulheres da cidade. Assim, com os poucos funcionários que a nova secretária conseguiu, às duras penas, remanejar para vir a compor sua equipe, e com os
64 Ambos os cursos contam com a formação de educadoras e recreadoras das crianças, filhos das mulheres que
móveis e materiais que conseguiram por meio de doações e captação de projetos, a secretaria conseguiu se manter funcionando.
Como não possuíam orçamento além do que tinha sido destinado às políticas para as mulheres de uma diretoria da Secretaria de Desenvolvimento Social do período, a equipe da recente Secretaria da Mulher precisou funcionar por meio da captação de editais do Governo Federal e estadual e por meio de parcerias com outras secretarias do município e ONGs locais65. À medida que as demais secretarias do município possuíssem projetos que dialogassem com ações voltadas à aquisição de direitos e cidadania para a população feminina, logo a equipe da Secretaria da Mulher se aproximava para fazer um trabalho em conjunto. Assim, com o apoio destes agentes e a boa vontade de ONGs locais, que sempre que podiam trabalhavam em conjunto, principalmente na área de saúde da mulher, a Secretaria conseguiu se manter e até começar e finalizar o projeto de construção do Centro de Referência de Atendimento da Mulher (CRAM), projeto este oriundo de verbas diretas do Governo Federal.
No ano de 2014 a Secretaria da Mulher de Petrolina deixou de existir enquanto secretaria autônoma e passou a fazer parte da Secretaria de Cidadania, se tornando Secretaria Executiva da Mulher. A justificativa para esta mudança estava toda baseada em cortes orçamentários devido às dificuldades financeiras alegadas pela gestão municipal. Para a atual secretária, essa mudança não foi de um todo ruim, haja vista que, segundo ela “não adianta existir sem força”, ou seja, não adianta funcionar como uma secretaria se não possui orçamento que lhe dê jus ao termo. Para a secretária estar submetida à Secretaria de Cidadania podia até ser positivo para elas, pois ganhariam mais destaque e se beneficiariam do orçamento desta secretaria.
Atualmente, a Secretaria Executiva da Mulher de Petrolina, diferente da Secretaria Federal e estadual, não possui tanta organicidade, não possui amplo corpo de funcionários – na verdade, compondo a secretaria só possuem a secretária, uma funcionária responsável pela área administrativa e financeira, e uma recepcionista – e ainda passa pro dificuldades orçamentárias de modo que as dificulta ter um cronograma de programas e ações que possam executar por conta própria, sem a parceria com outra secretaria. O recurso que possuem normalmente é que aquele que conseguem captar por meio de editais.
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Devido a estas restrições e aos arranjos políticos que se seguiram desde a sua fundação, esta secretaria se subdivide em três eixos centrais: no CRAM (Centro de Referência em Atendimento à Mulher), no projeto “Crack é possível vencer”, e na Diretoria de Direitos Humanos66.
O CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) surgiu por meio da demanda do Governo Federal a fim de que as mulheres, principalmente às vítimas de violência de gênero, pudessem ter um tratamento especializado. Ele é um espaço de acolhimento e atendimento psicológico, social e de orientação jurídica à mulher em situação de violência para que esta venha a superar a situação que a fez procurar o centro, fortalecendo-a e resgatando sua cidadania. O CRAM possui uma sede bem estruturada com uma recepção ampla com recepcionista, sala de reunião, sala para cursos ou seminários, sala para recreação para as crianças que vão com as mulheres que serão atendidas, com quatro educadores e salas de atendimento às mulheres. Estas são ocupadas por uma psicóloga, uma assistente social, um advogado e a coordenadora do local. O CRAM recebe mulheres ora encaminhadas de outros equipamentos relacionados ao atendimento da mulher, como hospitais, a DEAM, pela própria Secretaria da Mulher ou por demanda espontânea (por mulheres que ouviram falar da existência do centro por meio da mídia, ou pelas campanhas realizadas nos bairros).
O projeto “Crack é possível vencer”, por sua vez, é originário do Governo Federal e possui os eixos prevenção, cuidado e autoridade. Segundo a secretária, o argumento do prefeito em alocar este projeto com a Secretaria da Mulher é que, ao fim e ao cabo, seria a mulher quem sofreria mais com o abuso do crack, sendo ela a usuária ou não, no papel de mãe, filha ou esposa. O objetivo deste programa é fortalecer os equipamentos, como os hospitais, os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), a Guarda Municipal, a Polícia Militar, e as Secretarias de Saúde, de Proteção Social, de Segurança Cidadã e de Educação, e estimular o trabalho em rede. O intuito é pensar uma aproximação ao usuário que esteja desatrelada da perspectiva ofensiva.
A diretoria de Direitos Humanos é relativamente nova para esta secretaria. Antes vinculada à Secretaria de Juventude, as demandas referentes à população LGBT (lésbicas,
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O objetivo, neste momento, é trazer uma visão geral desta secretaria, sua estrutura organizacional e seus projetos. No decorrer das discussões serão levantadas as especificidades das ações e órgãos mencionados aqui, assim como a sua relação com a prática das políticas para as mulheres da cidade.
gays, bissexuais e transgêneros em geral)67 e à questão racial, em especial à mulher negra, passaram para a alçada da Secretaria Executiva da Mulher. Segundo a atual secretária, o trabalho para este público já havia sendo feito pela sua gestão, por meio de atividades sobre anemia falciforme, referentes ao dia da Visibilidade Lésbica e ao projeto que viria a contemplar as profissionais do sexo, em especial às mulheres transexuais.
Além destes eixos centrais, esta secretaria é responsável por uma lavanderia comunitária em um dos bairros populares da cidade que contempla dez famílias; e também pelo casamento coletivo realizado para 100 casais anualmente. O primeiro passa por problemas relativos ao baixo atendimento e à enorme despesa mensal e o segundo, pelo menos em sua última versão, tem causado polêmica. Devido aos seus interesses por questões LGBT, a Secretaria abriu uma edição de casamento para casais heterossexuais e homossexuais. A iniciativa causou desgosto de uma parcela da população, principalmente os religiosos, que foram para as rádios protestar.
Devido às dificuldades orçamentárias, os eixos acima citados, e as questões relativas aos direitos das mulheres, são contemplados por meio de campanhas, muitas em parceria com outras secretarias, como a de saúde, por exemplo, ou são alocados sob a responsabilidade de outros órgãos do executivo.
Desse modo, programas federais e municipais caros às questões de gênero como o projeto “Minha Casa Minha Vida” e o “Bolsa Família”, citado páginas atrás, são alocados na Secretaria de Habitação e Secretaria de Cidadania, respectivamente. O projeto “Nova Semente”, que está vincula ao Governo Municipal, é um projeto permanente de criação de creches e fortalecimento da educação em tempo integral, que conta com uma articulação entre executivo e as comunidades. Este projeto funciona da seguinte maneira: as comunidades, organizadas em associações de bairro, conseguem uma casa ou espaço no bairro em que se localizam (que pode ser cedido ou alugado pela comunidade). A aquisição do espaço fica sob responsabilidade da comunidade, assim como também, os móveis e os materiais de infraestrutura. O bairro deve ter uma demanda mínima de 60 crianças. A prefeitura, então, encaminha uma funcionária da Secretaria da Primeira Infância para averiguar as condições do local, assim como os bombeiros e arquitetos da prefeitura. Depois de vistoriado o local, uma
67 A receptiva à alocação desta pasta na Secretaria Executiva da Mulher não é recorrente no cenário nacional.
Normalmente ela esta alocada nas Secretarias de Direitos Humanos. Como o município não possui tal secretaria e como esta pasta, pelo visto, estava sendo negligenciada ou invisibilizada na secretaria anterior a que estava alocada, a equipe do executivo do município achou melhor passa-la a quem tinha um real interesse em, pelo menos, dar visibilidade à causa.
associação parceira da prefeitura neste projeto disponibiliza o gerenciamento e a estrutura organizacional e operacional das novas creches, como o material pedagógico, por exemplo. Um instituto, também parceiro, provê orientação pedagógica, apoio à equipe de coordenação, capacitação inicial e continuada dos profissionais envolvidos e instrumentos de trabalho para as unidades, as gestoras e as sementeiras (forma como são chamadas as educadoras e cuidadoras). Desse modo, os pais ou responsáveis pelas crianças podem levar os filhos às 6:40 e só pegá-los às 18 horas. As crianças podem ficar nas creches dos 6 meses aos 5 anos, idade que começam a ter acesso às escola municipais de educação infantil. Este projeto não está sob a responsabilidade da Secretaria Executiva da Mulher, e sim da Educação e não se baseia em nenhuma discussão mais aprofundada de gênero68.
As campanhas que contam com a participação da Secretaria Executiva da Mulher acontecem normalmente em datas comemorativas, como: o Mês Internacional da Mulher (em março), que conta com ações baseadas em atendimento psicossocial para mulheres, palestras socioeducativas em bairros, ação social, com fornecimento de serviços como retirada de documentos e procedimentos como aferir a pressão arterial, por exemplo, seminários sobre a rede de atendimento à mulher, formações de funcionários dos equipamentos voltados ao atendimento das mulheres em gênero e violência de gênero, oficinas de beleza e panfletagem sobre a violência contra a mulher (normalmente em parceria com alguns CRAS – Centro de Referência em Assistência Social – da cidade); o Outubro Rosa que conta com atividades educativas para pacientes e profissionais da saúde, agendamento de mamografias e citologias oncóticas por meio de busca ativa realizada pela equipe da Secretaria de Saúde, distribuição de materiais educativos e atividades esportivas públicas para as mulheres (normalmente em parceria com a Secretaria de Saúde do município); o dia da Visibilidade Lésbica, onde normalmente são realizados seminários e palestras sobre homossexualidade, homoafetividade, saúde da mulher lésbica, e violência contra este segmento da população. Ocorrem, também, exibição de filmes e debates sobre a temática; Os 16 dias de Ativismo69 período onde é
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O fato de os referidos projetos estarem alocados nas secretarias citadas não é de um todo estranho. Normalmente é assim que estão localizados nas estruturas municipais. O que chamo a atenção, principalmente, é a ínfima, ou nenhuma, participação da Secretaria da Mulher do Município nestes projetos, de modo que a tão aclamada transversalidade nas políticas para as mulheres não se efetiva.
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A Campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres” é uma mobilização anual, praticada por atores da sociedade civil e poder público. Desde sua primeira edição, em 1991, já conquistou a adesão de cerca de 160 países. Mundialmente, a Campanha se inicia em 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, e vai até 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, passando pelo 6 de dezembro, que é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres (http://www.compromissoeatitude.org.br/16-dias-de-ativismo-uma-mobilizacao-mundial-pelo-fim- da-violencia-de-genero/ acesso em 07 de junho de 2016)
realizado intensa panfletagem sobre a violência contra a mulher e divulgação dos equipamentos de atendimento às mulheres, e seminários com foco na violência contra a mulher negra e as mulheres na esfera do poder.
Estas campanhas e ações normalmente acontecem todo o ano, e quase sempre com a mesma metodologia. Além das campanhas, a Secretaria também aloca projetos. Estes podem ser do Governo Federal, como o “Mulheres Mil”, ou capitaneado pela própria secretaria, como o de “Profissionais do Sexo”.
O primeiro tem por objetivo fornecer cursos profissionalizantes para as mulheres. Na cidade de Petrolina, até o momento da minha conversa com a secretária, já tinha sido oferecidos cinco modalidades de cursos, como para cuidadora de idosos e crianças, almoxarife de obras e agentes turísticos, por exemplo. Os cursos são realizados ou no CRAM ou no Instituto Federal de Tecnologia –IF Sertão, o parceiro da Secretaria neste projeto, responsável pela seleção dos profissionais que ministram as aulas. Cada turma possui em média 35 mulheres que recebem uma bolsa para se manter no curso.
O segundo foi um projeto que tinha por objetivo ofertar formações em associativismo e cooperativismo para as profissionais do sexo cisgênero ou transgênero70, que trabalham em casas de prostituição ou nas ruas. Além das formações, o projeto também visou uma palestra sobre saúde da mulher e testes de doenças sexualmente transmissíveis como HIV e Hepatite B.
Para além das ações acima citadas, é possível notarmos uma atenção quase que central nos temas referentes à violência contra as mulheres. As ações de formação, os seminários, palestras, campanhas, ações nas ruas, panfletagens e preocupações cotidianas quase que em sua totalidade estão voltadas à violência contra as mulheres. Para além dos condicionantes e sentidos relacionados a esta preferência71, é importante salientar que esta é uma bandeira extremamente cara aos movimentos feministas e de mulheres no Brasil, assim como para os organismos Federal e Estadual da mulher (BONETTI, 2007, p.88-93), dando o tom das políticas públicas para as mulheres em todas as esferas. O modo como este termo surgiu nos eventos acompanhados, e nas falas das agentes de políticas para as mulheres na cidade, e quais concepções a ele estavam relacionadas, serão analisadas a partir do próximo capítulo.
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Cisgênero significa a pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Transgênero são aquelas pessoas que não se identificam com o gênero que lhe foi determinado (JESUS, 2012, p.10).
71 Estes sentidos serão discutidos à medida que o tema for solicitado nas descrições etnográficas e suas