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2.2 R ELIGIÃO E POLÍTICA EM AÇÕES LOCAIS

2.2.1 Segmento evangélico: adventista e assembleiano

Certa vez, em uma das minhas visitas ao assentamento, conversava com E. na varanda de sua casa, quando um grupo de jovens tendo à frente um senhor, aparentemente o pastor daquele congregação, aproximou-se e nos convidou a se juntar ao grupo. Acontecia naquele momento um encontro de jovens da igreja Adventista do Sétimo Dia. Era visível e audível que estava acontecendo algum evento na comunidade, devido à circulação de jovens saindo de suas respectivas casas em direção à igreja adventista, bem como, os muitos cânticos que ecoavam pelas ruas da comunidade, todos vindos da própria igreja.

Os encontros de jovens adventistas acontecem periodicamente, não sendo a primeira vez que eu tive a sorte de estar no assentamento num dia de evento. O encontro contava com a presença de um pastor, residente da cidade de Parnamirim/RN e responsável por aquela congregação no assentamento. A atuação local da igreja Adventista do Sétimo Dia possui ramificação entre os jovens por meio de entidades como os “desbravadores”. Os desbravadores podem ser assemelhados aos escoteiros, uma organização juvenil para fins de emancipação e disciplinamento dos jovens em ações diversas, masque, geralmente volta-se para a desenvoltura em situações que requer ação imediata, como estar perdido em uma floresta. A diferenciação dos desbravadores é o vínculo religioso que aglutina os jovens numa socialização de princípio religiosos. Os desbravadores são jovens evangelizadores, formados dentro das diretrizes da própria igreja Adventista do Sétimo Dia. Seguem o princípio de evangelizar os seus irmãos, os seus semelhantes, a princípio seria levar o evangelho aos jovens, ou seja, a evangelização acontece por segmentos, dentro de uma coletividade especifica por sujeitos específicos.

Uma das jovens que tive acesso e que faz parte do grupo dos desbravadores é a própria E. Uma moça acanhada, de 24 anos, graduanda do curso em aquicultura pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ela passa boa parte da semana fora, por questões de horários de aula e, por isso, sua relação de permanência no assentamento é diferenciada. Sua mãe, dona T. me esclareceu, em momentos anteriores, que E. passa apenas os fins de semana em

casa, no assentamento. O curso de graduação exigia o empenho de E. em permanecer na cidade de Natal/RN, uma vez que ela tem que passar toda a semana fora do assentamento. Segundo E., o período que precisa passar na capital, dorme na casa de uma amiga. Por cursarem a mesma graduação, ela e a amiga, repartem experiências em relação ao curso, por exemplo, atividade de pesquisa e extensão universitária.

Imagem 3 – Quadro de mapas 2: acima, temos apresentação do assentamento Vale do Lírio em sua extensão territorial com as divisões i) agrovila de moradores e ii) lotes de produção individuais; abaixo, a disposição dos principais locais referenciados dentro do assentamento, sendo i)acesso da RN 316, ii)quitanda da família da Gilmara, iii) Caixa d’água, iv) Igreja Adventista do Sétimo Dia, v) Igreja Assembleia de Deus, vi) capela Católica de Nsa. das Vitórias, vii) horta coletiva organizada pelos jovens, viii) posto de saúde, ix) pracinha local, x) campo de futebol improvisado, e xi) início da área do lotes de produção. Fonte: goo.gl/nwvbBS.

Pergunto a E. sobre a experiência de ter que passar tanto tempo longe da família numa outra cidade. Segundo ela, “gosto bastante, não apenas por meu curso, mas por poder ter contato com outras pessoas”, e continua com um sorriso lateral, “por aqui todo mundo me conhece, sabem com quem ando e o que faço”. A fala de E. mostra como há um poder observador que regula as ações dos sujeitos dentro da comunidade (CASTRO, 2005a). Todos

conhecem uns aos outros. O poder da informação circular por meio de boatos e/ou fofocas (FONSECA, 2000), principalmente de assuntos privados, no que se refere aos assuntos pessoais

de cada um, é impulsionado pela pequenez da comunidade e a proximidade estrutural das casas, bem como, a estrita relação fraternal dos moradores do assentamento. A tranquilidade de E. em saber que numa outra cidade pode circular, agir, expressar-se de maneira menor podada que em relação aos momentos dentro do assentamento, torna o sorriso lateral presente em alguns momentos de nossa conversa, compreensível. Nossa conversa dura pouco, pois com a chegada do pastor em sinal de arrebanhar os jovens, E. entra em casa e troca de roupa. Veste-se com um uniforme verde lodo, característico do grupo de desbravadores, e decide juntar ao grupo recém-chegado e partem juntos em retorna à igreja.

O ajuntamento dos jovens adventistas dar-se em reuniões de estudos bíblicos, normalmente realizados aos domingos; e as reuniões dos jovens que participam do grupo dos desbravadores. Os encontros possibilitam o desenvolvimento de sociabilidades entre os jovens, principalmente, quando visto pelo ângulo do lazer dentro comunidade, uma vez que, como me relatou E.: “acho os desbravadores bem legais. Temos algumas gincanas e atividades de campo. Acampamos vez ou outra”. Pelo que me relatou, E. está no nível de coordenação, uma vez que a gradação hierárquica dentro do grupo varia de acordo com a idade, e E. possui 24 anos. Seu cargo desempenha um papel importante dentro do grupo de desbravadores, pois é a responsável pela organização de atividades lúdicas e de ensinamentos religiosos repassados diretamente aos mais jovens. Por ocupar uma posição de visibilidade dentro do grupo, E. precisa assumir um posicionamento centrado com engajamento nas causas de sua congregação e manter-se empenhada nos estudos universitários, certa de que, para o grupo de desbravadores, é tida como exemplo.

Outro ângulo de ver a relação das jovens com suas respectivas congregações é a observação das jovens que frequentam a Assembleia de Deus. A organização em grupos lúdicos não existe no mesmo sentido que na igreja Adventista do Sétimo Dia. “Os jovens se reúnem apenas para rezar”, falou-me J., uma jovens simpática de 19 anos e mãe de uma miúda menina de 2 anos. Segurando a filha no colo, conversamos sob a proteção de um cajueiro. Contou-me que é evangélica, pertencendo à congregação da Assembleia de Deus.

Passou a fazer parte da congregação há cerca de três anos, período que descobriu sua gravidez. Falou-me que a maioria das jovens que se tornaram mães recentemente pertence a “assembleia” como é denominada a igreja.

Enquanto conversávamos, J. aponta para uma moça que passava e conta-me que ela era namorada do filho do pastor da “assembleia”. Essa jovem apontada por J. não destoa muito da própria J., pois ambas estabeleceram um relacionamento com rapazes de fora do assentamento. O companheiro de J. residia em Parnamirim/RN e no período de descoberta da gravidez dela, decidiu mudar-se para a comunidade e passaram a morar com a mãe de J. num quarto construído ao lado da casa dela. Duas inquietações me vêm à mente: a relação das jovens grávidas em relação à comunidade e a relação amorosa das jovens com rapazes exteriores ao assentamento, além da relação direta de vínculo com a igreja Assembleia de Deus.

Estabelecer contato com alguma igreja na comunidade oferta conforto diante da demanda de atividades dentro da comunidade, dialogando com as observações de Castro (2005a), a qual apresenta a esfera religiosa, principalmente as igrejas cristãs protestantes dentro de uma comunidade rural, como instituição primeira de liberdade individuais dos sujeitos em relação à comunidade em que vive. Duas ou três jovens são apontadas por namorarem rapazes de fora da comunidade, das cidades de Monte Alegre e São José do Mipibu. O diálogo com o meio urbano na busca amorosa é fator decisivo para a construção de um projeto próprio, mas que se desenvolve sob a resguarda da instituição religiosa.

Outra situação encontrada é a da jovem L. Simpática, de 26, de pouca abertura para conversas, aparenta posicionamentos fortes e decididos. Está cursando a graduação em serviço social numa faculdade particular em Natal, precisando deslocar-se com bastante frequência para a capital no intuito de pagar os créditos das disciplinas periódicas de sua graduação. Segundo relata-me, gosta em demasia do curso que escolheu, possuindo planos para o futuro, nos quais a estadia no assentamento não está inclusa. Tanto é a firmeza de seus planos que não se envolve nas atividades que a maioria dos jovens realizam na comunidade. Como me relatou Gilmara, certa vez, “L. nunca participa das nossas atividades, segundo ela é perda de tempo e não leva a nada”. Para L. não há utilidade algumas em ações desempenhadas pelos jovens no local, a exemplo, as diversas formas de atividades de formação política organizadas periodicamente na comunidade.

Os laços desse segmento com a cidade podem ser resumidos na busca por educação enquanto fibra mais forte, mas não descarta o peso dos relacionamentos que acaba por desaguar na produção do segmento das jovens-mães e a formação de novos grupos familiares

ou a ampliação dos já existentes. Na sequência, o grupo de jovens adventistas desenvolve uma ação mais ativa, por articular atividades dentro do assentamento, mas que restringem aos que dela fazem parte e comungam dos mesmos princípios religiosos. Ambas as congregações, aglutinam o fluxo de jovens para dentro dos próprios grupos de sociabilidade religiosa, desenvolvem-se dinâmicas dentro da comunidade que destoam em movimentação dos jovens do segmento católico, por exemplo, quanto a agência política de vínculo com a terra.

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