Capitulo III: A Casa é onde quero estar: Lugar, Memória e Velhice 130
3.2 Tecendo narrativas de idosos 136
3.2.2 As seguranças do morar: a vida após a inclusão no Programa Vila Dignidade 145
Ao abordarem o momento presente é nítida a ruptura que a inclusão no Programa Vila Dignidade causou nas vidas destes idosos, muitos experimentam, pela primeira vez: a certeza de como será o amanhã, a estabilidade financeira, a segurança - de poder escolher o que
comer, de ter onde dormir, de poder dormir a hora que desejar, de poder adquirir bens como mobiliário ou vestimentas novas-, a certeza de estar protegido durante uma chuva forte.
Dona Maria Duffet, apesar de agora estar num lugar que considera “simplesinho”, reconhece que a conquista da Casa pôs fim a incerteza de não ter onde morar e às constantes mudanças: “A gente que não tem casa muda pra cá, muda pra lá, encaixota as coisas, depois larga lá e vai ficando”.
Com sua fala nos damos conta do desgaste físico provocado por tantos deslocamentos, afinal ela já era de idade quando viveu o período de maior incerteza em relação à moradia. Além dele, a força de suas palavras dimensiona o desgaste emocional provocado pela necessidade de se desfazer de seus pertences - objetos que carregou por toda a vida e que carregam sua biografia. Como nos lembra Bosi:
[...] há algo que desejamos que permanece imóvel, ao menos na velhice: o conjunto dos objetos que nos rodeiam. Nesse conjunto amamos a quietude, a disposição tácita mas expressiva. Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade.
Bosi: 1994: 441
Certamente a perda destes objetos representou mais que a dos espaços – que nunca lhe pertenceram e, por isso, sabia que não seriam definitivos. A passagem escolhida para dar o tom de sua narrativa tem haver com o sentimento de frustração diante da necessidade de abrir mão de suas coisas: “Foi difícil desfazer das minhas coisas, a gente fala “nossa, tantos anos”. Mas também a gente não pode se apegar às coisas toda a vida”. Sua fala nos revela o descontentamento provocado pelo desapego forçado: “A gente também vai perdendo o gosto”. Com cada objeto que se vai, vai um pedaço de sua vida.
O drama de Dona Maria Dufett é exclusivo entre o grupo de idosos entrevistado, pois para os demais a realidade era bem diferente. Exceto Seu Irineu e Dona Tereza, que já tinham tudo na Casa anterior, os outros idosos, não tinham o que carregar pra mobilhar a Casa nova.
A carência da maioria dos moradores da Vila Dignidade contrasta com a carência de Arnaldo Antunes, que tem tudo em sua casa, só falta alguém chegar. Na realidade pesquisada faltava quase tudo: fogão, sofá, armário. Só agora os idosos experimentam a felicidade de mobilhar seu Lar, construir a identidade de suas casas, ao mesmo instante em que reconstroem suas próprias identidades.
Página | 147 Se ver no mundo de um jeito diferente, poder desfrutar do privilegio de ter objetos para imprimirem parte de suas memórias - a memória de uma nova vida, ou uma nova fase na velha vida sofrida - é firmar-se no mundo numa outra posição.
Seu Antonio é um dos que não tinham muita coisa pra trazer: “Eu só tinha fogão, geladeira - uma geladeira branca, que estragou, ai comprei essa. Eu não tinha cama, guarda roupa, sofá - o sofá eu comprei aqui -, não tinha guarda louça, mesa, não tinha nada. Fui comprando aos poucos. Essa mesa grandona eu comprei por causa da criançada, quando eles vêm enchem a casa”.
Agora ele tem uma Casa montada e que cuida com muito carinho. Como nos revelou: “Eu gosto da coisa bem caprichada, eu gosto mesmo. As pessoas que vem aqui falam que parece que tem uma mulher morando aqui”.
Dona Maria Rosa fez questão de nos falar das dificuldades enfrentadas no passado para mobilhar sua Casa: “Quando eu fui morar sozinha eu não tinha nada. Minha irmã deu uma xícara, minha sobrinha me deu um garfo, uma colher e um prato. A outra minha sobrinha me deu uma panela. Eu cozinhava alguma coisa na panela, virava num prato, pra poder cozinha outra, e nem por isso eu ia maldizer a Deus”.
A satisfação de poder, na velhice, consumir algum bem, é fator de segurança que merece destaque. Livrar-se dos aluguéis pesados possibilita o investimento em outras necessidades essenciais, como aponta a própria Dona Maria Rosa; “Minha vida financeira melhorou bem mais, depois que eu vim pra cá. E também eu como melhor - o que eu não comia antes eu como de tudo que eu quero”.
A mudança é tão expressiva que, além de comer melhor, é possível pensar em trocar os móveis velhos e materializar o desejo de ter tudo novo na Casa nova: “[...] Tudo que eu tenho eu comprei depois que vim morar aqui. Tudo que eu tenho aqui eu comprei. Agora só falta comprar a mesa, o fogão. A semana que vem eu vou comprar uma cama de casal, porque a minha é pequenininha. Falei: “eu vou comprar se Deus permitir”. Estou terminando de pagar essas coisas e, acabando, compro a cama”.
Seu Abel, que sofria por não ter independência financeira no tempo em que morou no asilo, hoje comemora com orgulho: “Eu não tinha nada, porque no asilo não precisava, fui comprando tudo. Tudo fiado! O que tem aqui é tudo fiado. E agora já está tudo pago. Agora é tudo meu”.
Enquanto a maior parte dos moradores exibe com orgulho os móveis que, em suaves prestações, foram adquiridos para dar uma cara nova para a Casa, e para a vida nova, Seu
Adelino, nos impressiona ao revelar mais uma das muitas facetas das relações que os velhos podem estabelecer com os objetos.
Descreve com detalhes de onde veio cada um dos móveis que estão em sua casa: “Eu não tinha esse armário, o armário de cá é usado, o outro eu comprei lá na casa que vende roupa usada. Comprei pra ter, porque não tinha armário. O armário que eu mandei fazer é esse armarinho velho, era pequeno pra ponha as coisas. Agora vasilha, uns deu vasilha pra mim. Cadeira, essas cadeira não são minhas. A minha sobrinha que deu. Não é meu, eu não comprei ela que me deu. O sofá a mulher de baixo comprou do homem e me deu de presente. Esse outro foi a mulher do João, minha sobrinha, que me deu, porque fizeram o roubo de mim, se favoreceram do meu dinheiro. Eu sei que é errado, sei que está lá o roubo, mas me deram de presente. É velho mas serve, tá bom. É presente que eu peguei. Lá no quarto, o guarda roupa foi a minha sobrinha que me deu, agora esses dois armários eu comprei”.
O excesso de desapego em relação ao mobiliário de sua casa – tem móveis porque os ganhou - nos comove e, na seqüência, a lucidez de suas razões é revela: Algumas pessoas me dizem: “O que você vai fazer com o seu dinheiro quando você morrer? Você deixa de comprar um móvel, uma coisa que você pudia ter na casa, pudia ter mais coisa pra aparecer na casa”. Mas eu pergunto: “o que eu vou fazer com esse móvel? Eu não sei o dia que Deus vai me levar, eu compro hoje, amanhã pode Deus me levar, o que eu vou fazer com o móvel? Não faz mais nada. Então tanto faz ter um móvel na casa como o seu dinheiro, a pessoa não leva, não leva nada”.
Além de evidente na organização e cuidados que todos os idosos, com exceção de Seu Adelino, depositam em suas Casas, a sensação de bem estar, é experimentada nos afazeres do cotidiano. Livrar-se do pesado fardo de ter que sobreviver do suor de seu trabalho tornam as ações do dia a dia mais satisfatórias, pois são realizadas com menos esforços.
A facilidade de deslocamentos, a preparação dos alimentos, os momentos de lazer, que agora são desfrutados sem preocupação: os finais de semana passados na companhia de parentes, a leitura de um livro, a possibilidade de ter novos amigos, tudo isso pode ser percebido e vivido com mais intensidade agora que não precisam mais despender todo o tempo da existência na luta pela sobrevivência.
É poética a descrição do momento presente feita por Seu Adelino: “[...] Agora eu estou nessa vida de regalo. De olhar aqui os outros que tá passando na rua, outro tá lá na cidade, outro tá noutro lugar e prosear com os velhos murcho que nem eu mesmo. É essa
Página | 149 vida! Hoje não tenho necessidade de trabalhar. É pescar, fiz um covo feio que nem eu mesmo. Mas o feio tem direito de ir no rio pescar”.
E não é só isso, Seu Adelino que teve uma vida marcada por carências ganhou muita coisa depois que se mudou: “Depois que vim viver aqui eu tenho mais amigos e ganhei a aposentadoria - há muito tempo eu sou aposentado, mas pra mim não há dinheiro, com tanto roubo. Aqui eu estou segurando mais dinheiro, dou ajuda lá na igreja, mas estou segurando dinheiro. Tenho mais companheiros, aqui todos olham por mim. Muita gente que era estranho agora é conhecido meu e esta me protegendo”.
O relacionamento com a vizinhança é outro ponto que merece destaque, pois nos esclarece sobre os ganhos que uma concepção arquitetônica bem planejada pode proporcionar às pessoas que se utilizam de equipamentos públicos. No caso da Vila Dignidade permite que as pessoas circulem, se vejam e estejam em constante contato umas com as outras. A sociabilidade entre os idosos faz surgir redes espontâneas de cuidados, o que também é fator de segurança, uma vez que se tem a certeza de ter com quem contar quando alguma situação adversa acontecer.
Como evidencia seu Abel que, além de se relacionar bem com todos os vizinhos, conta com a solidariedade e ajuda de Dona Tereza para organizar as atividades do dia a dia: “Em casa eu não faço nada. Pago pensão pra mulher do Chaminé, a Dona Tereza. Daí, ela cozinha pra mim e trás aqui. Ela também lava a minha roupa, faz tudo. Só que eu pago. A amizade é bom por causa disso aí. A amizade e o respeito. Afinal: “[...] o mundo, dá muitas voltas, dá muitas voltas, e numa dessas voltas, pra você cair é fácil, fácil. Depois que você cai, pra levantar é difícil. E as pessoas podem te ajudar”.
Dona Maria Rosa também evidencia a importância desta rede de solidariedade: “Acho que aqui a turma cuida muito de mim. Porque se eu levantar aqui e ninguém vê eu ir pra lá, o povo já vem tudo aqui. Saber se eu estou bem, o que esta acontecendo. E também não pode ter inimizade aqui dentro. Pra mim é muito bom assim, eu gosto”.
Dona Zélia, que tinha sérios problemas com os vizinhos de sua residência anterior nos fala que seu contato com a vizinhança é melhor agora e conclui: “[...] Por essa e por outras, aqui é melhor. Aqui me sinto muito segura. Me relaciono bem com os vizinhos, não vou na casa de ninguém, mas tenho um bom relacionamento”.
Dona Geni também já sente diferença na relação com os vizinhos: “Os vizinhos aqui são tudo bom, só que eu vou falar bem a verdade, eu não conheço tudo ainda. As vizinhas aqui são muito boas”. Dona Geni observa que até com a família o relacionamento é melhor:
“Até com a minha família ficou melhor, ficou bem melhor, porque agora eles vêm mais na minha casa. Principalmente a filha que ficava um ano sem ir na minha casa”. E no relembrar se dá conta de que vivia mesmo sozinha antes da inclusão no Programa: “Pensar bem uma coisa, o Natal e o Ano Novo eu passava sozinha. Só o que morava em cima de mim, esse Gilson morava em cima e eu morava em baixo, que ia na minha casa, porque tava do lado”.
A Vila possibilita também fazer novas amizades através do contato com pessoas que vão ao Condomínio, para conhecer o Projeto, ou realizar ali projetos acadêmicos. Seu Abel gosta da presença dos convidados: “Aqui sempre vêm estagiários. Semana passada estiveram aqui uns de Santo André, vieram com o Projeto Rondon, uma molecada jovem e animada, vieram fazer exercícios com a gente. Isso aqui foi tudo eles que fizeram pra mim”.
Dona Maria Duffet também aprecia as visitas: “[...] tem o pessoal que vem de fora e faz amizade com a gente. Nossa já veio tanta gente. Agora mesmo teve aqui o projeto Rondon, tinha gente de São Paulo, Santo André, Mauá, Poá, Sorocaba, Campinas”.
A melhora no estilo de vida é tamanha, que repercuti na saúde dos moradores da Vila. Dona Maria Duffet gosta de ter assistência médica e enfermeiros visitando-a em sua casa. Dona Geni, que recentemente foi incluída no Programa Vila Dignidade já sente melhoras em sua vida: “Ter vindo pra cá me trouxe muitos benefícios: tenho mais saúde, tranqüilidade, trouxe paz pra minha vida. É uma benção, nossa!”.
Seu Adelino demonstra tranqüilidade por ter profissionais que se preocupam com ele: “Está vindo uns médicos preparar a minha vida: um exame, uma coisa ou outra. Já veio uma dentista examinar se eu queria uma dentadura - escreveram, pegaram o RG e o cartãozinho do SUS, pra pedir uma dentadura. Tão fazendo tudo isso ai”.
Sei Irineu também aponta para os cuidados de saúde de que antes não dispunha: “Eu acho que as mudanças que tiveram depois de virmos pra cá foi tudo pra melhor, tudo coisa boa [...] A saúde minha graças a Deus está controlada: o diabetes, a pressão, o coração está tudo controlado. Temos o posto de saúde aqui pertinho, dois ou três quarteirão, o médico é muito bom. Ele vem aqui a cada dois meses e o que a gente precisa vai no postinho e eles atendem. Tem a enfermeira padrão que é uma pessoa muito boa, atende muito bem a gente, dá muita atenção. Então, aqui é bom por causa disso”.
Seu Abel traz um novo elemento, a autonomia financeira conquistada recentemente: “[...] então, você não vê dinheiro (no asilo) e não ter dinheiro é uma situação ruim, pra qualquer pessoa. Agora, aqui já é o contrário. Saí de lá já me devolveram o cartão. Eu não
Página | 151 gasto um salário mínimo pra passar um mês aqui. Agora sobra um pouco. Então, pra mim “tá” ótimo!”.
E Dona Zélia, aponta principalmente o ambiente, a estrutura física da casa, sem umidade, lixo no quintal e sem a feiúra da casa anterior: “Minha vida mudou em todos os sentidos, principalmente no ambiente. Aqui é mais arejado, você já não precisa estar correndo pondo pano pra não derramar água”.
Dona Maria Rosa, Dona Maria Duffet e seu Irineu apontam para a questão da acessibilidade: a Vila esta bem localizada e é de fácil acesso ao centro, o ônibus passa na porta e, em quinze minutos se chega à cidade.
É evidente, nas narrativas, que a inclusão no Programa Vila Dignidade representou melhoria na qualidade de vida dos idosos, garantindo-lhes segurança e proteções que, de outra forma, não acessariam.
No entanto, despertou nossa atenção, o fato de nenhum idoso identificá-lo como política social ou alternativa aos asilos. Para todos eles, é proeminente a questão da moradia; as demais políticas públicas, que se inter-relacionam na execução do Programa, não são percebidas como conjunto articulado capaz de originar outra coisa que não uma Casa.
Nem mesmo as condicionalidades do Programa que partem da obrigação de pertencer a uma classe etária, ser idoso, ou seja, ter mais de 60 anos - além de ser independente para a realização das atividades de vida diária, ter rendimento mensal de até um salário mínimo, vivenciar situações de risco pessoal e/ou social, residir no município há pelo menos dois anos e não possuir imóvel próprio – caracterizam-no como algo além de uma política habitacional.
Quando incitados a falar sobre velhice e envelhecimento começam a aparecer elementos que podem nos ajudar a entender porque os idosos compreendem o Programa apenas como política habitacional. Entre eles – e na sociedade como um todo - é recorrente a idéia de que a velhice esta no outro ou é um devir que esperam não chegar nunca. O medo de envelhecer se explica pela associação recorrente de velhice/dependência/ demência. Como já observou Concone:
Creio que pudemos perceber que há um temor ligado ao envelhecimento, um medo de ser velho. Medo mais que justificado, dado que o envelhecimento é visto quase que exclusivamente como uma fase de perdas: perdas físicas, perdas sociais, perdas psíquicas, perdas afetivas. Não deixa de ser um horizonte tenebroso que é necessário afastar.
Dona Geni é clara: “[...] eu não me considero “veia”, porque, “veio” mesmo, que vai se entregando, não tem coragem de fazer serviço. Não tem coragem, se acostuma com a sujeira. Não é mesmo?”
Na fala de seu Irineu essa associação também é marcante: “Falar a verdade, eu não me considero muito velho. Porque a pessoa quando é muito, uns fala velho outros fala idoso, quando é muito velho anda mais debilitado. Não pode fazer as coisinhas dele sozinho. A gente aqui faz as coisas da gente sozinho.”
Dona Zélia também faz questão de frisar: “Eu nem sei dizer como é ser velho. Não sei dizer porque eu não sou velha e acho que não vou envelhecer. A gente tem o pensamento bom e enquanto não tiver gaga mesmo, enquanto não esquecer de tudo, eu serei jovem. Quando começar a esquecer, ai já não poderei mais andar sozinha, não poderei mais lembrar das coisas, já estarei velha”.
Seu Abel é enfático: “Acho que não existe velho. Acredito que não! Porque, uma hipótese, você tem trinta anos, eu tenho trinta e dois. Eu sou mais velho, você já me chama de velho, mas outro que vem 29, 28, vai te chamar de velho. E assim por diante, vamos que vamos...”
Dona Maria Rosa, apresenta bons argumentos para não se considerar velha: “Eu não me acho velha porque eu tenho o espírito jovem - não vou também ficar usando uma coisa de jovenzinha, eu sei me colocar. [...] Ah, eu não tenho nem idéia de como seja envelhecer. Não tem gente velha né? Velho é assim: aquela pessoa que está em cima de uma cama, que não pode mais se locomover... Eu não, eu ando, vou ao supermercado. A turma pede pra ir comprar as coisas eu vou, pedi pra ir à padaria eu vou, e ando por ai, e faço amizade com todo mundo”.
Embora nenhum dos idosos assuma o medo de envelhecer, no conjunto, as narrativas evidenciam a força com que este temor se faz presente no imaginário do grupo e alguns idosos nos dão pistas de como é traumático quando os outros os reconhecem como velhos. Dona Zélia fica brava e se ofende quando alguém julga que os moradores da vila são velhos: “Eu não me considero velha. Velho não anda, ou anda caindo os pedaços. Aqui não é um condomínio de velho é um condomínio de idoso. Idosa eu sou. Tem pessoa que fala que aqui é a vila dos velhos, são pessoas cínicas, aqui ninguém se considera velho”.
E seu Antonio não fica atrás na indignação: “[...] o pessoal passa lá na rua, às vezes, gente que vem visitar aqui diz: “vamos lá visitar os velhinhos”, é muito diminuído, sendo que
Página | 153 a gente está com um pouco de gás ainda. Eu acho essa parte ruim. Até falei pra uma que eu estava meio de olho nela, é da igreja também, ela vinha aqui fazer culto comigo, eu falei para ela, ela estava meio investigando eu. Nós estavamos ali nos aparelhos, eu falei pra ela que esse ponto de vista fica ruim pra nós que ela fala: “Ah, nós vamos lá visitar os coitadinhos dos velhinhos”.
Diante destes posicionamentos desenha-se um argumento que inconscientemente justifica o não reconhecimento do Programa como política social. A demanda habitacional é uma marca de nossa sociedade que não diferencia as pessoas, enquanto que a demanda social é fator de diferenciação e exclusão. Assim caracterizar o Programa como política social – como alternativa aos asilos – significa reconhecer-se como diferente e em condição de inferioridade – é ser velho e depende do poder público para viver. Assim é mais digno habitar uma Casa que habitar uma instituição.
Para os idosos de idade mais avançada o processo de envelhecimento parece ser mais consciente, mas no geral, ainda não se consideram velhos porque preservam a autonomia. Dona Maria Duffet nos diz: “Quando era mais nova não pensava que iria envelhecer, até alguns anos atrás era tudo normal pra mim; antes de eu ir ao médico e tomar remédio pra