Capítulo 7: Aspectos sensitivos
7.1 Sensações e realidade
Tomemos como ponto de partida da nossa reflexão uma observação em torno das sensações presente na primeira parte das BPP de Wittgenstein. Ele nos diz que “Sensação: isto é, aquilo que se considera como algo imediatamente dado e concreto, que precisa apenas olhar para reconhecer; aquilo que está realmente ali. (A coisa
[Sache], não seu emissário).”248
É possível notar nesta observação que, além de uma primeira concepção de sensação, há uma relação entre ver e sentir, e isto fica mais claro nesta outra referência: “[...] como se observa que os homens veem? “[...] eu posso, por assim dizer, convencer-
me, de que os homens veem?” 249
Esta indagação não pode ser feita com base na observação empírica: e isto porque, de certa forma, eu aprendi a usar a palavra “ver”, sem a necessidade de “ver que algo ou alguém vê” ou “ver-me ver”, mas sob a forma de uma relação a objetos e de comportamentos reativos específicos. Eu posso fazer os movimentos de abrir e fechar os
248 MS 134, 9 = BPP I, § 807. Original: “Empfindung, das ist das, was man für unmittelbar gegeben und konkret hält, was man nur anzuschauen braucht, um es zu erkennen; das, was wirklich da ist.
(Die Sache, nicht ihr Abgesandter.)”
249 MS 136, 7b-8a = BPP II, § 75. Passagem original e completa: “‘Sehen und Vorstellen sind verschiedene Phänomene.’ — Die Wörter ‘sehen’ und ‘vorstellen’ werden ungleich verwendet. ‘Ich
sehe’ wird anders verwendet als ‘Ich stelle mir vor’; ‘Sieh!’ wird anders verwendet als ‘Stell dir vor!’; ‘Ich versuche, es zu sehen’ anders als ‘Ich versuche, mir’s vorzustellen’. — ‘Aber die Phänomene sind eben: daß die Menschen sehen und daß wir uns Dinge vorstellen.’ Ein Phänomen ist etwas, das man beobachten kann: Wie beobachter man nun, daß die Menschen sehen?
Ich kann z.B. beobachten, daß die Vögel fliegen, oder Eier legen. Ich kann Einem sagen: ‘Siehst du,
diese Geschöpfe fliegen. Schau, wie sie mit den Flugeln schlagen und sich in die Luft erheben.’ Ich kann auch sagen: ‘Siehst du, dieses Kind ist nicht (fliegen) blind; es sieht. Schau, wie es der Kerzenflamme folgt’. Aber kann ich mich sozusagen davon überzeugen, daß Menschen sehen? ‘Menschen sehen.’- Im Gegensatz wozu? Dazu etwa, daß alle blind sind?”
olhos, e ao fazê-los, determinar os limites entre ver e não ver, e então eu posso, com relação ao que é visto, descrevê-lo, evitá-lo ou ir em sua direção, etc.
Não concebemos o ver, de um lado, e o mundo, de outro, mediado pela visão que informa sobre o mundo. Há uma relação onde o papel objetivo da percepção, como resultado, é determinado pela diferença em relação ao papel subjetivo da ação a qual para ser definida pressupõe a objetividade percebida. Ou seja, há uma co-definição gramatical entre percepção e vontade cuja base é um jogo de linguagem, uma prática, e
não implica qualquer convencionalidade definitória.250
Nos termos das observações gramaticais de Wittgenstein, a questão fundamental reside no nível de operação entre subsistência objetiva e atribuição de significado, e, em seguida, na unificação desses dois elementos. A atribuição de subsistência objetiva está ligada à possibilidade de localização da sensação: a sensação sem uma localização precisa não pode, por definição, nos dar informações sobre a realidade objetiva: se algo subsiste objetivamente, subsiste em algum lugar entre o limite de todos os lugares, mas não em nenhum lugar. Para que uma sensação expresse algo acerca da realidade objetiva, ela deve portar e determinar, de forma autônoma, as informações acerca da própria localização. Vejamos o seguinte exemplo:
Imagine que a ponta de lápis fosse colocada em contato com a minha pele em um lugar qualquer, então eu poderia dizer que sinto onde ela está. Mas eu sinto onde a sinto? ‘Como você sabe que agora a ponta toca sua coxa?’ – ‘Eu sinto’. Sentindo o contato, eu sei seu local; mas devo por isso falar de uma sensação do local? E se não há uma sensação do local (Ortsgefühl), por que deveria haver uma sensação de posição (Gefühl der Lage)? 251
A “sensação de contato” não contém elementos que irão determinar o seu caráter espacial. Não há uma sensação de coceira ou dor ligando contato a uma sensação de local. Podemos ser tentados a dizer que a sensação acontece no meu corpo, e eu sinto onde estão as partes do meu corpo. No entanto, esta expressão é incorreta:
[...] Meu antebraço está neste momento em uma posição horizontal e eu gostaria de dizer que sinto isto; “[...] como se ‘a própria sensação corporal’ (Körpergefühl) estivesse arranjada ou distribuída horizontalmente, da mesma maneira como, por exemplo, partículas de fumaça ou poeira sobre a superfície de meu braço estão distribuídas no espaço. Logo, não é realmente como se eu sentisse a posição de meu braço, e sim como se eu sentisse meu braço, e a sensação tivesse tal e tal posição. O que, porém, isso significa: eu
250 MS 136, 83b = BPP II, § 271. 251
MS 133, 89r-89v = BPP I, § 785. Original: “Denk dir, eine Bleistiftspitze würde an irgendeiner
Stelle mit meiner Haut in Berührung gebracht, so kann ich sagen, ich fühle, wo sie ist. Aber fühl’
ich, wo ich sie ist fühle? ‘Wie weißt du, daß die Spitze jetzt deinen Schenkel berührt?’ — ‘Ich fühle es’. Dadurch, daß ich die Berührung fühle, weiß ich ihren Ort; aber soll ich darum von einem Ortsgefühl reden? Und wenn es kein Ortsgefühl gibt, warum muß es ein Gefühl der Lage geben?”.
simplesmente sei como ele está - sem que o saiba porque ... Como também sei onde sinto a dor – mas não o saiba porque ... [...] 252
Eu sinto a dor, a pressão, mas a posição eu não sinto, eu a conheço. Se eu não soubesse como o meu corpo é distribuído e orientado eu não poderia saber a localização da sensação. É, por este motivo, ao que parece, que é muito mais fácil cometer erros em localizar uma sensação no interior ou nos dentes do que em um braço253.
Também é um exagero dizer que eu sinto o meu braço para indicar um conteúdo das sensações: eu posso, por exemplo, “sentir” que meu braço está anestesiado. Neste caso, não sinto pressão, dor ou qualquer sensação sobre isso, e ainda, o “sinto” insensível.
Uma assim chamada “sensação de posição” mostra a incorreta colocação a respeito da natureza da “sensação”, ou seja, “saber” sobre a percepção, até mesmo o fato de que possui gradações, assim como as sensações propriamente ditas: não
podemos dizer que temos uma “sensação de posição mais ou menos forte”254.
Podemos pensar que, se as “sensações de posição” não são sensações autênticas, pelo menos as “sensações de movimento” são, visto que às vezes, quando se está em dúvida, estas são invocadas para determinar e orientar a posição do próprio corpo. Wittgenstein escreve a este respeito nas BPP I, como citamos a seguir:
Sentimos nossos movimentos. Sim, realmente os sentimos; a sensação não é semelhante a uma sensação gustativa ou de calor, mas a uma sensação tátil: a sensação de quando a pele e músculos são pressionados, puxados, deslocados. 255
E ainda:
Como posso precisar da orientação dos meus movimentos durante meus movimentos? Pois como posso, antes que o movimento tenha iniciado,
252 MS 133, 89v = BPP I, § 786; Z, § 481. Original: “Ja, es ist seltsam. Mein Unterarm liegt jetzt
horizental, und ich möchte sagen, daß ich das fühle; aber nicht so, als hätte ich ein Gefühl, das immer mit dieser Lage zusammengeht sondern (als fühlte man etwa Blutleere, oder Plethora) – sondern, als wäre eben das ‘Körpergefühl’ des Arms horizontal angeordnet oder verteilt, wie etwa ein Dunst oder Staubteilchen an der Oberfläche meines Armes so im Raume verteilt sind. Es ist also nicht wircklich, als fühlte ich die Lage meines Arms, sondern als fühlte mein Arm, und das Gefühl hätte die und die Lage. D.h. aber nur: ich weiß einfach wie er liegt-ohne es zu wissen, weil […] Wie ich auch weiß, wo ich den Schmerz empfinde-es aber nicht weiß, weil […].”
253 MS 148, p. 3r = LSD, p. 03. 254
MS 133, 86r = BPP I, § 771.
255 MS 133, 93v-94r = BPP I, § 796; Z, § 479. Original:“Wir fuhlen unsere Bewegungen. Ja, wir fuhlen sie wirklich; die Empfindung ist nicht ähnlich einer Geschmacksempfindung oder einer
Hitzeempfindung, sondern einer Tastempfindung: der Empfindung, wenn Haut und Musikeln gedrückt, gezogen, verschoben werden.”
encontrar entre todos os músculos aqueles que vão me dar a sensação correta de movimento? 256
Em outros termos, um movimento pode ser mais ou menos violento, pode implicar torção mais ou menos acentuada, e tudo isso pode despertar sensações mais ou menos intensas. No entanto, as sensações cinestésicas ou “sensações de movimento”
são, na realidade, sensações “que são provocadas através de movimentos”257 e não como
se pode pensar, sensações-de-movimento, ou seja, sinalizadoras “de que é assim”. Parece que dizer que as sensações provocadas pelo movimento, tais como aquelas provenientes de um fator exógeno, são ajustadas ao propósito de perceber o próprio corpo e, a partir dessa percepção, se pode desenvolver o movimento. Isso constitui um equívoco, pois “a sensação não informa nada sobre como estamos
movimentando”258.
Se assim o fosse cada movimento devia partir da imobilidade como um movimento aleatório, e só então, extrair as informações suficientes para orientar-se, devendo ser capaz de direcionar voluntariamente os membros de uma forma ou de outra. Se fosse a sensação cinestésica a nos ensinar (informar) o movimento que estamos fazendo, então devemos estar em dúvida ou completamente incapazes de nos mover corretamente quando as sensações que provêm dos nossos membros são alteradas
devido ao cansaço, dores musculares ou queimação na pele.259
O fato de que a sensação não contém as informações sobre o movimento pode ser visto, por exemplo, ao tentar aprender um novo movimento simplesmente pela atenção às sensações provenientes do nosso corpo em movimento. Pode acontecer que ao aprender uma nova coordenação dos dedos para tocar piano não sabermos ainda como se faz para mover os dedos. Isso porque o movimento (como condição do movimento) é um saber em torno do movimento, e não a mera sensação.
A tentação que devemos resistir aqui é aquela típica de formular uma hipótese teórica e verificá-la empiricamente. É verdade que na ausência das sensações musculares também a nossa capacidade para identificar a localização de nossos
256 MS 133, 94r = BPP I, § 797. Original: “Wie kann ich bei meinen Bewegungen die Leitung des
Bewegungsgefühls brauchen? denn wie kann ich, ehe die Bewegung angefangen hat, aus all den Muskeln die aussuchen, di emir das richtige Bewegungsgefühls geben werden?”
257 MS 133, 86r-86v = BPP I, § 772. 258 MS 133, 86r-86v = BPP I, § 772. 259
membros seria prejudicada260, mas isso significa que tais sensações apenas contribuem para determinar a localização, não que a determinam com certeza.
Wittgenstein faz a distinção das sensações quanto à sua localização: ele coloca, de um lado, as sensações de tato, temperatura local, sabor e dor, as quais são localizadas no corpo, e do outro, as sensações provenientes da visão, audição e olfato, localizadas em algo fora do próprio corpo. O primeiro grupo é essencial para determinar o limite entre o sujeito e a realidade objetiva. Deve-se notar, neste ponto, que a noção de realidade objetiva tem pelo menos dois fatores distintos que a determinam: a objetividade da sensação está relacionada à sua espacialidade, pois sensações difusas ou indeterminadas são atribuídas a mudanças ou limites subjetivos. No entanto, a realidade das sensações está ligada à sua relação de limitação da corporeidade, enquanto agente. Uma observação de Wittgenstein pode nos permitir melhor aproximação deste segundo ponto: “Não é um fato importante que o teatro apresenta-nos cores e sons, mas não sensações táteis? Talvez se pudesse imaginar o uso de aromas e sensações de
temperatura, mas não de sensações táteis”.261
O limite traçado nesta passagem é um limite graduado: cores e sons são encarnações usuais da distância representativa, que ocorrem fora do meu corpo, como correspondente aos estados de consciência da visão e audição. Odores e sensações de temperatura, bem como o gosto, que já estão em um lugar no meu corpo, e o seu uso na representação podem ser admitidos como uma forma de realismo. Embora ainda não estejam intimamente vinculados com a atividade do sujeito que sente um cheiro, um sabor ou a temperatura, indicam, necessariamente, uma relação entre interior e exterior.
Por sua vez, para as sensações de dor e de pressão despertadas pelo movimento relacionado, a representação torna-se impossível, isto porque foi abalado o limite entre a representação e a realidade. O espectador no teatro pode até sentir os odores, ou exprimir tais sensações mediante atuação, sem deixar sair da representação. O que ele não pode é sentir os movimentos do corpo, as sensações de pressão ou a dor que o provocam, assim como o ator mostra senti-los, e isto porque, neste caso, se perderia a distância representativa que separa o sujeito, agora personagem representado, e o objeto representado.
260
MS 137, 116b = LSPP I, § 387.
261 MS 133, 86v = BPP I, § 773. Original: “Ist es nicht eine wichtige Tatsache, daß das Theater uns
Farben und Töne vorführt, aber nicht Tastempfindungen? Man könnte sich etwa die Verwendung von Gerüchen und von Temperaturempfindungen vorstellen, aber nicht die von Tastempfindungen.”
O elemento distintivo fundamental aqui é dado pelo fato de que as sensações táteis não acontecem simplesmente, mas são resultados de um fazer. Do mesmo modo, a dor, enquanto sentida, provoca uma reação ativa: um envolvimento ativo atravessa o limite entre interioridade e realidade.
As sensações são portadoras das informações sobre o mundo objetivo, não o
seu conteúdo, mas a sua organização em relação à localização e ação262. E Wittgenstein
já havia mencionado sobre este assunto, com o exemplo de sensação da dureza de um objeto por meio de um bastão, no qual se está inclinado a dizer que a dureza é sentida na
ponta do bastão e não na mão que o sustenta.263
De fato, a dureza, ou a forma, ou qualquer outra qualidade objetiva é, enquanto tal, já uma estrutura das sensações, algo que poderia talvez ser expresso em termos de uma “inferência de base sensorial”, muito mais do que o conteúdo de uma sensação objetiva. O “sentir”, pode-se dizer, é sempre já um ato intencional, é sempre já direcionado a um objeto, e o significado percebido é o que está a emergir como parte de um percurso. O que consideramos como sensação objetiva é uma espécie de sinal presente de uma correlação ausente, ou melhor, ainda não tematizada e que representa o significado geral.
A reflexão de Wittgenstein mostra que os movimentos ativos e receptivos formam uma unidade cuja natureza é irredutível às sensações objetivas, mas que determina a realidade atribuída às sensações, não como tendo conteúdo objetivamente arranjado, mas concebendo-as como parte de um sistema de relações e correlações onde, por exemplo, uma pressão tem uma posição, um ruído tem uma fonte e uma direção, e o sabor é o sabor de um determinado alimento.
Além das sensações táteis, sensações de posição e sensações de movimento, Wittgenstein dedica especial atenção às duas outras ordens de sensações, a saber, sensações de dor e de cor. Todavia, no momento, não vamos nos deter na análise das mesmas.
Assim, as sensações, próximas ou periféricas, assumem significado apenas como um ponto de conexão em um sistema. Uma sensação, como “objeto”, está de modo determinado diante do sujeito apenas como um momento emergente de uma conexão funcional. Esta observação nos permite entender a relação, frequentemente confundida, entre sensações e sua apreensão por parte do sujeito que as vivencia.
262 MS 136, 4a = BPP II, § 62. 263
Além disso, as sensações são consideradas como o nível de “dados” imediatos e concretos, como apontamos no início deste item. E tal imediatismo, implícito na gramática da sensação, pode levar, e muitas vezes o faz, a concebermos a sensação como algo que está além do discurso linguístico e comumente julgável. Muitas vezes, somos inclinados a dizer que as sensações são eminentemente privadas, pois não sabemos o que o outro sente, mesmo que se possa, de alguma maneira, transmitir essas sensações à linguagem. No entanto, a partir do que temos observado neste item, deve emergir evidentemente como a validade de um jogo de linguagem, intersubjetivamente jogado. E neste jogo, é essencial para o reconhecimento de cada significado, que a sensação seja também “sensação” reconhecida.
Mas, então, em que sentido, pode-se falar que as sensações são algo como que “privado”?