CAPÍTULO 5 – O PROCESSO 5.678/76: A LUTA POR DIREITOS PARA
5.4 SENTENÇA DO PROCESSO 5.678/76
O processo teve alguma repercussão nos veículos de imprensa brasileiros. Um dos jornais que abriu certo espaço para publicar as especulações sobre a sentença foi o jornal carioca Última Hora:
PORTO ALEGRE – O acordo a ser homologado na Justiça Federal, entre as vítimas da talidomida [...] e os três laboratórios responsáveis pela fabricação
do remédio, além do Governo, que concederá pensão vitalícia, acontecerá na próxima quarta-feira. [...]. Os laudos elaborados pelos médicos geneticistas indicados pelo juiz da 5ª Vara Federal de Porto Alegre e pelas partes em questão estão em fase de conclusão. Por isso, o acordo está previsto para dentro de uma semana – explicou Walkírio, salientando que nem todos que ajuizaram a ação contra os laboratórios e a União receberão a indenização e a pensão.
O advogado das vítimas explicou que os médicos examinam cada caso individualmente, com o objetivo de constatar se a pessoa é realmente vítima da talidomida e o grau do dano. Walkírio não tem previsão de quantas pessoas serão beneficiadas com o acordo, mas calcula que o número não será inferior a 150, em todo o País. (ÚLTIMA HORA, 17 fev. 1983, p. 10). Em 5 de abril de 1983, a Justiça Federal de Primeira Instância, através do juiz Luiz Dória Furquim, homologou o acordo feito entre as partes. Tal acordo previa pagamento de indenização por parte dos laboratórios137 e pensão vitalícia, a ser
paga pela União Federal seguindo os critérios de natureza dos danos, déficit laborativo e tipificação de dependência,
[...] tudo em conformidade com as especificações e respectivas gradações determinadas nos laudos médico-genéticos, segundo a soma individual de pontos que vier a ser obtida na escala abaixo indicada, sendo atribuído a cada ponto, o valor correspondente a ¼ (um quarto) do maior salário mínimo vigente no País, reajustável a cada ano posterior à data do início de vigência da pensão, conforme o índice de variação nominal das Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTNs). (PROCESSO 5.678/76, fl. 3935).
O quadro da escala de pontuação mencionada no acordo assinado pelo Dr. Luiz Dória Furquim é reproduzido abaixo:
QUADRO 6 – ESCALA DE PONTUAÇÃO POR DANOS
137 A sentença descrevia, quanto a responsabilidades futuras, para os casos dos laboratórios Ceil e Syntex, “1. Uma vez que não foi confessada a ação e/ou reconhecida a procedência do pedido, fica sujeita, ainda, à definição judicial, a discussão sobre a responsabilidade em eventuais e futuras ações judiciais, ratificando cada parte, sua posição assumida nestes autos”. (PROCESSO 5.678/76, fl. 3945). 1. Físico Discreto 1 ponto Moderado 2 pontos Severo 3 pontos 2. Estético Discreto 1 ponto Moderado 2 pontos Severo 3 pontos Parcial 1 ponto
FONTE: Processo 5.678/76, fls. 3935-36
Assim, o sistema de cálculo das pensões obedeceu ao critério de mapeamento do corpo com deficiência, estabelecendo como 16 o número máximo de pontos para cada um dos demandantes e valor máximo de pensão de quatro salários mínimos, critérios esses que estavam regulamentados na Lei n. 7.070/82, já mencionada anteriormente.138
As perícias médicas foram realizadas por médicos indicados pelo Poder Judiciário. Eram eles, Dr. Francisco M. Salzano; Dra. Márcia Schmidt; Dr. Pedro H. Saldanha e Dr. Cláudio C. Ortega. Segundo seu relatório (anexo ao processo), foram examinados documentos referentes a 252 demandantes, “[...] todos portadores de graves defeitos físicos.” (PROCESSO 5.678/76, fl. 3910). O processo pericial foi minuciosamente explicado nas páginas subsequentes. Realizado em duas fases (na primeira, exames dos autores primitivos, os 146 primeiros demandantes; e, na segunda, os 106 que foram inseridos no decorrer da ação). Os dados analisados pelos referidos médicos eram objetivos, como se percebe pelo relatório produzido acerca de cada um dos casos. (Figura 4 – Ficha de avaliação individual – Perícia Médica).
138 Conforme o Ministério da Saúde, “[...] em 1982, o governo brasileiro, após intensa campanha midiática e pressão dos interessados, assim como o resultado da sentença do Processo das Vitimas da Talidomida, assumiu a responsabilidade pela tragédia brasileira e sancionou a Lei nº 7.070, de 20 de dezembro de 1982, concedendo pensão vitalícia às vitimas.” (BRASIL, 2014, p. 20).
3. Déficit Laborativo Total 2 pontos
4. Tipo de Dependência 4.1 Higiene Parcial 1 ponto Total 2 pontos 4.2 Alimentação Parcial 1 ponto Total 2 pontos 4.3 Deambulação Parcial 1 ponto Total 2 pontos 4.4 Vestuário Parcial 1 ponto Total 2 pontos
FIGURA 4 - FICHA DE AVALIAÇÃO INDIVIDUAL – PERÍCIA MÉDICA
Conforme indicam os médicos no referido parecer,
O diagnóstico diferencial com a grande maioria das síndromes referidas deve ser efetuado inicialmente pela abordagem genética (cariograma e heredograma) e semiologicamente através da verificação do envolvimento de alterações ósseas préaxiais das extremidades. [...]. Os defeitos das extremidades são os mais conspícuos porque, apesar de raros, são facilmente observáveis. (PROCESSO 5.678/76, fls. 3901-3902).
Sendo assim, concluída a sentença do juiz, através do acordo, os laboratórios
Sintex e Lafi comprometeram-se em depositar em juízo a quantia “[...] equivalente a
55.000 (cinquenta e cinco mil) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional (ORTNs).” (PROCESSO 5.678/76, fl. 3937), a ser dividida igualmente entre os 121 demandantes da ação. Os valores foram estimados em Cr$ 500 mil com relação a grau mínimo, e Cr$ 2,5 milhões quando atingisse o grau máximo, ou seja, quando causasse o comprometimento físico dos membros superiores e inferiores. Os autores do processo, segundo a sentença,
[...] concordam, de forma expressa, – com a obrigação de pagamento assumida pela SYNTEX DO BRASIL S/A., reconhecendo que esta sociedade não importou, fabricou, distribuiu ou comercializou produtos à base de talidomida, sob qualquer forma e a qualquer tempo, e que participa deste acordo apenas para por fim ao processo. O mesmo se aplica a CEIL LTDA. (PROCESSO 5.678/76, fl. 3947).
A décima sétima cláusula do acordo evidencia outro aspecto perverso da história da luta por direitos. O juiz declarou que os demandantes deveriam renunciar a qualquer direito regressivo ou benefício que estivessem recebendo ou tivessem a percepção de receber futuramente, tanto do governo da República Federal da Alemanha como da empresa Grunenthal, o que se estendia à fundação alemã, criada para assistência das pessoas com síndrome da talidomida e mantida também, segundo a sentença, com recursos do governo da Alemanha:
Com intuito de se evitar qualquer solução de continuidade quanto aos benefícios que os AA. estejam percebendo ou venham a perceber da Stiftung “HILFSWERK FÜR BEHINDERTE KINDER – Fundação de Ajuda às Crianças Prejudicadas”. (PROCESSO 5.678/76, fl. 3949).
Não foram encontrados argumentos para a decisão do juiz Furquim. Atualmente, a empresa alemã recebe pedidos de indenização, pelas consequências da talidomida, do mundo todo. O próprio sítio eletrônico da Grunenthal possui uma
página destinada a disponibilizar informações referentes ao ingresso do pedido, sobre a talidomida, como também sobre a fundação mantida pela indústria farmacêutica. Sobre as indenizações Grunenthal informa:
Nossa posição é clara: há uma rede estabelecida de suprimento financeiro de pessoas afetadas por talidomida na Europa. A Thalidomide Foundation pagou mais de 100 milhões de euros, dando suporte às vítimas em 38 países com pagamentos mensais entre 662 € e 7.620 € incluindo afetados na Espanha, porque suas mães tomaram preparações contendo talidomida Grünenthal. (CONTERGAN-GRUNENTHAL, 2017). 139
No caso do Brasil, a ação judicial correu durante sete anos na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, e findou-se através de um acordo entre as partes. Dessa forma, a compensação pelos danos causados pela talidomida ocorreu fora dos tribunais. Antes mesmo da elaboração do acordo, tramitou na Câmara Federal, um Projeto de Lei (PL 6.368/82, transformada meses depois na Lei n. 7.070/82) que pleiteava uma renda mensal para os nascidos com embriopatia por talidomida.
Embora as indenizações e as pensões vitalícias incidissem sobre “problemas emergentes”, como descrito no processo, existem outros aspectos da vida que não foram levados em conta. Walkírio destacou no processo um aspecto fundamental na vida das pessoas com deficiência por talidomida:
[...] o maior desafio, a batalha suprema desta guerra contra a talidomida
consiste, precisamente, na luta pela reabilitação, pelo bem-estar e pela felicidade de todas as crianças, tão impiedosamente marcadas pelo tranqüilizante [sic] malévolo, de tal sorte que as mesmas se tornem cidadãos úteis a si, à pátria e à coletividade. (PROCESSO 5.678/76, p. 21,
grifos nossos).
Por fim, destaca-se que tais resultados foram obtidos mediante intensa participação das famílias que procuraram a ABVT para iniciar a ação coletiva, como forma de construção dos direitos para seus filhos que tinham a síndrome. Nesse sentido, evidencia-se essa percepção sobre o Processo 5.678/76, que se constitui como uma das primeiras manifestações da luta pelos direitos para as pessoas com a síndrome da talidomida.
139 “Our position is clear: There is an established financial support system for people affected by Thalidomide throughout Europe. The Contergan Foundation, in which Grünenthal has paid more than 100 million Euros, supports affected individuals in 38 countries with monthly individual payments between 662 € and 7,480 € including those affected in Spain, provided that their mothers took a Thalidomide-containing product from Grünenthal.” Disponível em: <http://www. contergan.grunenthal.info/thalidomid/ Home_/de_DE/328800285.jsp>. Acesso em: 21 jul. 2017.