CAPÍTULO 1 – ENTRE A SOCIEDADE DE RISCO, A DEFICIÊNCIA E OS
1.1 SOCIEDADE DE RISCO
Brynner e Stephens (2001) indicam que a década de 1950 “[...] proclamou uma era de novos sonhos. Otimismo e energia estavam em todos os lugares em 1957. A Segunda Guerra retrocedeu na memória e o baby boom do pós-guerra atingiu seu ápice.”23 (BRYNNER; STEPHENS, 2001, p. 1, tradução nossa). De acordo com os
autores, a ciência disseminou massivamente inovações para a vida cotidiana, “[...] com a ilusão de que o Mundo do Amanhã já tinha começado a chegar. Esposas poderiam servir o jantar em 20 minutos. [...]. E parecia que o DDT24 estava prestes a
23 “The birth of utopia in the 1950s proclaimed an era of new dreams. Optimism and energy were everywhere in 1957, as World War II receded into memory and the postwar baby boom reached its crest.” (BRYNNER; STEPHENS, 2001, p. 1).
24 Sigla para o Dicloro-difenil-tricloroetano, composto químico utilizado como pesticida, que, além dessa função, promoveu a contenção do avanço de doenças como malária, febre amarela e febre tifoide. Assim como a talidomida, o DDT foi sintetizado na Alemanha, em 1874, e seu criador, o químico suíço Paul Müller, recebeu o prêmio Nobel de Medicina, em 1945, pelo desenvolvimento da fórmula. D’Amato, Torres e Malm (2002) indicam que o uso de DDT foi conveniente durante a
eradicar os insetos de uma vez por todas.”25 (BRYNNER; STEPHENS, 2001, p. 1,
tradução nossa).
A década de 1950 se abriu como momento oportuno para o desenvolvimento de diversos tipos de indústrias. Se o mundo se recuperava dos abalos econômicos, sociais e políticos causados pela Segunda Guerra Mundial, países diversos continuavam a valorizar o poderio bélico das nações26, ao passo que cresciam
também os interesses por novos produtos em variados setores científicos e tecnológicos. Para o período analisado, desconheciam-se, ou simplesmente desconsideravam-se, assim, as possibilidades de risco27 acerca de avanços dessa
“nova natureza tecnológica”. Por outro lado, segundo Hobsbawm (1995), “[...] gerações inteiras se criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava- se firmemente, podiam estourar a qualquer momento e devastar a humanidade.” (p. 224).
Beck (2010), ao assistir os impactos de Chernobyl, escreve A sociedade de
risco, originalmente publicada em 1986, em que entende que a sociedade
contemporânea se desenvolveu econômica e cientificamente de tal forma que mal controla os efeitos e as consequências de seu próprio progresso. Ele adverte que a pós-modernidade apresenta-se como a sociedade de risco, em que os progressos que se acreditavam ser possíveis na modernidade (até meados do século XX) geraram problemas e demandas em âmbito global. Nas palavras do sociólogo,
Segunda Guerra no combate ao tifo e a piolhos em soldados, passando, então, a ser usado em diversos países devido a seu baixo custo e eficácia garantida.
25 “Tomorrowland had already arrived. Housewives could serve TV dinners in twenty minutes. […]. And it seemed as if DDT was on the verge of eradicating insects once and for all.” (BRYNNER; STEPHENS, 2001, p. 1).
26 Hobsbawm (1995) indica que “[...] a Guerra Fria encheu o mundo de armas num grau que desafia a crença. Era o resultado natural de quarenta anos de competição constante entre grandes Estados industriais para armar-se com vistas a uma guerra que podia estourar a qualquer momento [...]. Todo mundo exportava armas. Economias socialistas e alguns Estados capitalistas em declínio, como a Grã-Bretanha, pouco mais tinham a exportar que fosse competitivo no mercado mundial.” (p. 250).
27 Assim, define-se risco como uma possível consequência de um evento futuro, evento negativo com impactos atingindo um grupo amplo de pessoas com características múltiplas. A partir das reflexões de Mendes (2015), os riscos são divididos em três classificações: naturais, antrópicos tecnológicos e antrópicos sociais. Os primeiros se referem a eventos de ordem da natureza, que geram impactos na população e no meio ambiente, podendo ser terremotos, furacões, tsunamis, etc. Riscos antrópicos tecnológicos tratam da possibilidade de danos originados a partir de meios tecnológicos e industriais. Podem ser citados como exemplos os desastres de Chernobyl (1986), na Ucrânia, e de Bhopal (1984), na Índia. Já os riscos sociais, nas palavras do próprio autor, são uma “[...] projeção institucional de possíveis ameaças às lógicas de regulação e de controlo [sic] social dos Estados e das instâncias internacionais.” (MENDES, 2015, p. 47), ao mesmo tempo que envolvem questões relacionadas à identidade, à justiça e à legitimidade sociais.
Essa dinâmica que suprime as fronteiras do perigo não depende do grau de contaminação ou da disputa em torno de seus efeitos. Muito pelo contrário, todas as medições já são feitas sob a guilhotina da consternação generalizada. (BECK, 2010, p. 7).
O autor cita, porém, não se refere mais detidamente à indústria farmacêutica, contudo é possível apropriar-se das reflexões por ele realizadas sobre o contexto das décadas de 1950 e 1960 e concordar com sua tese a respeito da sociedade de risco.28
Assim, a talidomida seria uma consequência negativa do desenvolvimento incisivo da indústria sobre a sociedade durante os anos 1950.
Na reflexividade29 dos processos de modernização, as forças produtivas perderam sua inocência. O acúmulo de poder do “progresso” tecnológico- econômico é cada vez mais ofuscado pela produção de riscos. Estes somente se deixam legitimar como “efeitos colaterais latentes” num estágio inicial. Com sua universalização, escrutínio público e investigação (anticientífica), eles depõem o véu da latência e assumem um significado novo e decisivo nos debates sociais e políticos. (BECK, 2010, p. 15-16).
Beck indica que o risco pressupõe cálculo e estimativa de danos, portanto serve como um alerta acerca de possíveis perigos futuros. Pode-se pensar que o controle de medicamentos e testes realizados atualmente têm como medida os episódios ligados à falta de testes específicos ou suficientes com a talidomida na década de 1950, antes de sua comercialização.
Segundo o sociólogo, os riscos são produzidos em escala industrial, mas individualizados juridicamente e minimizados politicamente. Nesse contexto de paradoxos desconcertantes e esperanças envoltas em desespero (BECK, 2010), convivem diferenças sociais, econômicas e políticas, que são aprofundadas e seguidas de problemas ecológicos e de segurança alimentar, por exemplo. Utilizando a Sociologia como ponto de partida para compreender melhor essas novas
28 Risco também remete à noção de perigo. Contudo, o autor destaca que nem todo perigo envolve a premissa de risco. Perigo, na concepção adotada de Luhmann, para Mendes (2015), significa algo “[...] atribuível a um fator externo e não controlável.” (p. 27). Assim como Mendes, Giddens (1991) afirma que “[...] perigo e risco estão intimamente relacionados mas não são a mesma coisa. A diferença não reside em se um indivíduo pesa ou não conscientemente as alternativas ao contemplar ou assumir uma linha de ação específica. O que o risco pressupõe é precisamente o perigo (não necessariamente a consciência do perigo). Uma pessoa que arrisca algo coteja o perigo, onde o perigo é compreendido como uma ameaça aos resultados desejados [...]. Risco e confiança se entrelaçam, a confiança normalmente servindo para reduzir ou minimizar os perigos aos quais estão sujeitos tipos específicos de atividade. [...]. O que é visto como risco ‘aceitável’ – a minimização do perigo – varia em diferentes contextos, mas é geralmente central na manutenção da confiança.” (p. 36-37).
29 Conforme indicam os autores analisados, em especial Beck (2010), esse conceito diz respeito ao modo como a sociedade de risco se converteu no mundo pós-industrial: tema e problema.
configurações e propor ações para seu enfrentamento, Beck cria a teoria da sociedade global de risco. Para ele, podem ser elencados cinco processos que levaram a modernidade a entrar em crise, sendo eles: globalização, individualização, novas relações de gênero, subemprego e riscos globais (catástrofes ambientais causadas pela industrialização e colapso de mercados financeiros, por exemplo).
Em obra posterior, Beck (2015) complementa que a sociedade perdeu o controle dos riscos que emanam do alto grau de desenvolvimento científico e tecnológico, processo esse que não está alheio ao contexto econômico global. As exigências de alta produtividade, a ciência utilizada sem critérios e os impactos gerados pela indústria hiper competitiva reafirmam uma economia voltada às tendências neoliberais, modelo que triunfou no mundo ocidental de 1945 a 1975 (PEREIRA, 2012) e, novamente, a partir de meados da década de 1980 até os dias atuais. E isso pressupõe o aumento da concentração de riqueza ao mesmo tempo em que são desconsiderados direitos sociais e necessidades humanas mais básicas. (PEREIRA, 2009).
A fé no conhecimento científico proporcionou a expectativa veemente em um futuro grandioso e promissor. A realidade mostrou-se menos otimista: devastação de florestas inteiras, produção industrial em escala nunca vista e geração de seus subprodutos depositados na natureza, além da exploração de matérias-primas como se fossem bens inesgotáveis. O que se vivenciou, em vários episódios da história depois da Segunda Guerra Mundial, foram os impactos negativos gerados por uma sociedade que privilegia o consumo excessivo imposto pela sociedade industrial avançada, o que significa dizer que as consequências trazidas pelo desenvolvimento da indústria tornam a sociedade precária. Nesse sentido, os efeitos lesivos no corpo social também podem ser entendidos como a pujança da indústria. Na medida em que o desenvolvimento econômico e tecnológico se expande, os riscos também se ampliam. Portanto, não há fronteiras territoriais ou societárias para a sociedade de risco, e, para além de segmentos que contam com a propriedade para sua autoproteção, uma parcela significativa da população recebe o impacto dos efeitos dessa indústria, sem garantia alguma de segurança. Para Castel (2010),
Se ser protegido é estar em condições de enfrentar os principais riscos da vida, esta segurança parece hoje duplamente em falta: não só pelo enfraquecimento das coberturas “clássicas”, mas também por um sentimento generalizado de impotência diante das novas ameaças que parecem inscritas no processo de desenvolvimento da modernidade. (p. 61).
Beck também alerta para o fato de que, à medida que tais riscos são democratizados, as riquezas e o conforto, frutos dessas novas tecnologias, não o são. Sem demora, a população mundial começou a se deparar com tais reflexos da industrialização e com a obrigatoriedade de criar soluções e defesas para tais problemas. Beck denomina esse processo de “modernidade reflexiva”. As relações de consumo tornaram-se canais de manifestação da sociedade de risco, ao expor um produto, vendê-lo em determinadas condições (impróprias ou não suficientemente testadas) já se oferece risco ao consumidor.
Giddens (1991) utiliza conceitos e categorias próximas às de Beck e sugere que, para entender as novas configurações da sociedade, devem ser focalizadas as descontinuidades a partir da seguinte agenda: ritmo, escopo e natureza das instituições. Assim, a própria modernidade apresenta-se com aspectos dúbios, pois, se houve ampliação de conforto, acesso a bens e segurança, por outro lado, a rigidez do trabalho industrial, a hiper especialização na produção e atividades humanas, os regimes totalitários e o capitalismo foram fatores negativos no processo, o que gerou abalo da confiabilidade na expansão tecnológica e no progresso. Ao discutir sobre confiança e risco, Giddens explica o caráter dicotômico presente na atualidade:
A modernidade, como qualquer um que vive no final do século XX pode ver, é um fenômeno de dois gumes. O desenvolvimento das instituições sociais modernas e sua difusão em escala mundial criaram oportunidades bem maiores para os seres humanos gozarem de uma existência segura e gratificante que qualquer tipo de sistema pré-moderno. Mas a modernidade tem também um lado sombrio, que se tornou muito aparente no século atual. (GIDDENS, 1991, p. 12-13).
E, a partir dessa conjuntura, conclui que
O mundo em que vivemos hoje é um mundo carregado e perigoso. Isto tem servido para fazer mais do que simplesmente enfraquecer ou nos forçar a provar a suposição de que a emergência da modernidade levaria à formação de uma ordem social mais feliz e mais segura. A perda da crença no “progresso”, é claro, é um dos fatores que fundamentam a dissolução de “narrativas” da história. (GIDDENS, 1991, p. 15).
Giddens, assim como Beck, reflete sobre a compreensão do fracasso da modernidade. Entende-se que esses dois sociólogos observaram que, durante a modernidade, a racionalização da vida tornou-se o centro das preocupações. Nesse contexto, o Estado se mostra incapaz e avesso a mediar as demandas sociais e
oferecer proteção face aos riscos e aos perigos crescentes. O papel inábil do Estado no controle de medicamentos colocados à venda no mercado será apontado e relacionado diretamente ao caso da talidomida, sendo essa uma realidade de diversos países, incluindo o Brasil. A relação conflituosa entre sociedade e capital fez com que o Estado se inclinasse para os interesses liberais e, a partir do final da década de 1970, neoliberais, num período marcado pelos
[...] cortes nos gastos sociais, o desmonte dos direitos sociais, a desqualificação das instituições de bem-estar, o questionamento do caráter público da política, o desprezo pelos pobres, dentre outros atentados contra um legado de conquistas construído pelos movimentos democráticos, entre os anos 1945-1975 [...]. (PEREIRA, 2009, p. 16-17).
Atualmente, não existe meio de medir com exatidão os efeitos dos riscos e suas consequências30, por isso se discutem e se resolvem esses riscos conforme as
demandas surgem, dentro da dinâmica social. O Estado atua como regulamentador, criando leis sempre posteriores a tais demandas. Portanto, a confiança não se liga ao risco, mas à contingência que, para Giddens (1991), se caracteriza pela crença na credibilidade de sistemas ou instituições.
Na sociedade de risco, os conflitos sobre a distribuição dos males que se produz se sobrepõe aos conflitos sobre a distribuição dos bens sociais (renda, emprego, seguridade social) e geram um efeito de responsabilização. Emergem, então, as questões: Responsabilizar quem? Produtores dos riscos? Estado? Consumidores?
Esses questionamentos são aprofundados nos capítulos seguintes, quando, tomando-se os episódios relativos à história da talidomida, serão apresentados os eventos referentes à produção, ao consumo e à proibição da droga no Brasil, bem como os desdobramentos decorrentes desses acontecimentos.
Como efeito dos riscos não considerados pela indústria farmacêutica nem pelo Estado, a síndrome da talidomida acometeu milhares de crianças nos países em que a droga foi consumida. Essa história é aqui tomada como exemplo da concretude de tais riscos. Ademais, observou-se também, através das fontes analisadas, uma segregação social relacionada ao tratamento dispensado às pessoas com deficiência
30 Beck (2010) afirma que, na sociedade pré-industrial, riscos coletivos sempre existiram, como a fome e a peste, por exemplo, eventos que demandavam nível de racionalidade que permitia certo cálculo de riscos e previsibilidade. Quanto aos riscos individuais, como doenças e acidentes, o Estado, nesse caso, atuava como providente.
em decorrência da talidomida. Entende-se tal segregação como a insistência na diferenciação entre pessoas com deficiência e pessoas “normais”, questão essa permeada pelos aspectos da desvantagem, da tragédia pessoal e do preconceito, respaldada pelo modelo biomédico. E é essa relação entre a deficiência e o modelo biomédico o alvo da reflexão que se segue.