Mapa 6 Identificação dos equipamentos culturais na região Centro-Oeste da cidade de São Paulo
4.1 TEMPOS JUVENIS EM DISPUTA NO ESPAÇO URBANO
4.1.1 Sentidos da escola em territórios marginalizados
Em um país marcado pelas desigualdades e com escassez de oferta de atendimento adequado para os jovens, os estudantes convivem com dificuldades para a melhoria nas condições de vida, com baixos indicadores de acesso e permanência escolar. Como destacado por Mannheim (1969), o grau de mudanças em uma sociedade interfere no significado atribuído aos jovens e no papel que a educação deverá desempenhar. Em um território marcado por grandes distâncias sociais, o conceito de juventude é entendido como uma fase de instabilidades que, associadas à exclusão e a outros problemas sociais típicos das grandes cidades, fazem com que o grupo jovem se encontre em uma situação específica de risco ou vulnerabilidade social (SPOSITO; CARRANO, 2003).
Nós tivemos uma vida um pouco mais privilegiada depois que minha mãe se casou e passou a morar com meu pai na região central. Até os meus sete anos, habitamos uma pensão localizada no bairro do Cambuci/São Paulo. Viéramos de uma família periférica, de Pernambuco. Não tínhamos uma vida digna. Por isso, uma pensão era, para nós, um privilégio, principalmente considerando a crise financeira pela qual passávamos. Aos meus sete anos, fui morar em Itapecerica, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, numa região periférica também; onde, inclusive, que já foi considerada um dos bairros mais perigosos do Estado de São Paulo. Quando eu morava no Centro, minha residência era uma casa de um cômodo, numa pensão, afinal o Cambuci sempre foi um lugar de pensões, casas antigas. Após a separação da minha mãe, a gente foi morar em Itapecerica, como disse. Uma das regiões perigosas. Atualmente, a nossa casa é de dois cômodos, que eu divido com meu irmão e com minha mãe, tranquilo, assim...As minhas condições de vida durante a infância foram bem difíceis, porque, apensar de termos ‘privilégios’, não poderíamos contar com nossa mãe durante a semana, apenas aos sábados e domingos. Mas nesses dias ela nos dava atenção e levava-nos para passear. Nunca tivemos brinquedos de boa qualidade. E sempre os ganhávamos da patroa da minha mãe, que é doméstica. Uma tia minha ajudava a diminuir o impacto de sua ausência, recebendo-nos em sua casa nos feriados prolongados e alguns finais de semana. É como uma segunda mãe para mim. Depois que saímos do Centro, fomos morar em Itapecerica e mudamos de casa aproximadamente quatro vezes. Por isso, também tive de mudar de escola em diversos momentos. Simultaneamente, para minha mãe, não foi possível acompanhar de perto minha vida escolar. Então, como acontece com toda criança, ela era convocada na escola, porém não havia meios de ela me ajudar continuamente. Após chegar precisava fazer comida e arrumar a casa, portanto, não tinha tempo para conseguir ver meus cadernos. Suas intervenções limitavam-se a broncas genéricas como “Ó, vocês, estão bagunçando na escola”. Com relação às atividades escolares, as pessoas que me ajudaram realmente foram minha tia, já mencionada, e seu marido na época
(G. O., 17 anos).
Sob a perspectiva das narrativas juvenis, percebeu-se que os sentidos atribuídos à escola na periferia paulistana estão atrelados a um conjunto de questões que se interligam ao cotidiano dos jovens: a busca por (re)significar os espaços de diálogo na escola, a mobilização e participação dos estudantes na composição das reivindicações sociais e as diversas formas de
apropriações do espaço urbano. Sob essa óptica também se percebe que a cidadania tem sido negada cotidianamente pela exclusão dos direitos sociais e políticos e humanos.
Meus pais nasceram na Bahia e, ainda jovens, vieram para São Paulo, onde se conheceram e eu nasci. O meio onde nasci e cresci, considero tranquilo e raramente conflituoso. Meu pai e avós são pessoas que têm tamanha importância em minha, pelo exemplo e lições de vida, conselhos e incentivos. O ensino médio foi essencial para meu crescimento pessoal, mesmo com o ensino sucateado. Foi o período em que houve um contato mais próximo de alguma matérias como (Sociologia e Filosofia) e obras literárias fundamentais para a minha formação crítica e para a superação da alienação. A estrutura da minha família consiste em pai, mãe e irmã, residimos na região da Zona Oeste da cidade de São Paulo desde o nosso nascimento. Meus familiares possuem uma grande influência em minha vida acadêmica, pois, sempre me apoiaram e incentivaram para eu dar continuidade aos estudos. Para a constituição do meu percurso existencial eu sempre procurei manter o forte vínculo com minha família e parentes, especialmente com minha irmã e primas, onde há troca mútua de experiências e conhecimentos. Assim como colegas e amigos que tive a oportunidade de conhecer no ensino médio e mantenho relações até os dias atuais e possuem grande relevância em minha vida. Sempre que possível nós vistamos exposições, bibliotecas, teatros, praças e centros culturais (Y. S., 17 anos).
Nesse contexto de acessos negados, constatou-se o quanto a desigualdade socioespacial atinge a escola pública na cidade de São Paulo e, consequentemente, tem contribuído para acentuar a desigualdade territorial do acesso, da permanência e da qualidade da educação pública no Brasil. Tal como constatou Sposito (2005), os jovens brasileiros viveram a expansão recente das oportunidades educacionais em um contexto de crise social.
Mesmo em territórios desiguais, com trajetórias cerceadas pelas condições excludentes, a luta por reconhecimento da existência e não de resistência ou subversão da ordem social (FERREIRA, 2010) tem sido um marco nas narrativas desiguais dos jovens. O ponto fulcral comum aos jovens no processo de escolarização é a reivindicação não apenas do direito à educação, mas de toda a infraestrutura e condições necessárias para que a cidadania plena possa ser realizada: “Sem os estudos e o desenvolvimento intelectual, seríamos invisíveis pela sociedade” (B. M. S., 16 anos).
Cabe aqui citar o relato de um entrevistado que considera a escola pública como algo positivo para a condição juvenil.
Na chegada da minha adolescência, houve uma reviravolta, porque eu comecei a me preocupar com questões políticas, depois que tive acesso às informações antes desconhecidas. Tal mudança se deveu às ocupações da escola. Além disso, consigo trabalhar às vezes de maneira informal e ganho algum dinheiro, mas, mesmo assim, minha vida é bastante atribulada. Já trabalhei numa lanchonete que era de uma tia minha. Já trabalhei na feira “Tijuana”, já fiz alguns outros “freelas”23, mas nada
muito pesado nem registrado formalmente. As ocupações que eu tive com dezesseis anos não são as mesmas que outras pessoas têm. Vejo pessoas de dezesseis anos trabalhando como peão de obra. Acho que isso é um problema, porque é possível ver quais pessoas conseguem ter acesso a algumas coisas. E por essa questão minha de ter acesso, fez com que não conseguisse alguns serviços. Preciso concluir a escolar para poder ingresso no ensino superior, por isso entrei no ensino médio. Cursá-lo é importante, sem ele o cidadão não vai para frente. Tendo momentos bons e ruins, meu percurso escolar está sendo traçado com sucesso, pois não tive repetências. Avalio meu ensino médio na rede estadual como algo de suma importância. Experimentei alguns projetos interessantes que possibilitaram um crescimento intelectual, cultural e social (G. O., 17 anos).
Percebe-se que os jovens reivindicam em suas ações no interior da escola a promoção da participação social e política e, consequentemente, o reconhecimento como sujeitos de direitos universais e singulares:
Sempre houve muito apoio e incentivo em relação a continuidade dos estudos por parte dos meus familiares. Cursei o Ensino Fundamental I na EMEF Daisy Amadio Fujywara. No Ensino Fundamental II, mudei para a E.E. Guiomar Rocha Rinaldi porque era mais perto da minha casa e o período mais favorável. O ingresso no ensino médio possui grande relevância, pois foi o período em que tive mais contato com as diversas visões do mundo, discussões sobre assuntos importantes para a cidadania, participação política e engajamentos culturais e sociais (Y. S., 17 anos).
A percepção de que a escola oferece boas condições para o reconhecimento dos jovens como sujeito de direitos reflete-se nos discursos, sob a possiblidade de emancipação social dos jovens:
Hoje tenho 18 anos e permaneço no ensino médio. Acredito que na época das ocupações estudantis e as nossas mobilizações pela cidade foi um momento bem revolucionário na minha vida, porque foram tempos de descobertas, nos quais pude ampliar minha visão para a realidade. Consegui enxergar melhor a sociedade, os fatos, e de que maneira eles podiam afetar a mim, ao próximo e minha família (G. S.,
18 anos).