CAPÍTULO 5. A COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA SOB A LUZ DO PRINCÍPIO DA
5.1. Considerações Iniciais
5.1.2. Sobre as justificações racionais autorizativas do poder de tributar. 113
Já em relação às justificações racionais que autorizam o Estado a tributar, poderíamos assim resumir os pontos principais da construção argumentativa:
i) Desde o nascimento do Estado Fiscal, a justificação racional ao poder de tributar sempre esteve presente. Desde o “Bill of Rights” de 1689 em seus artigos 4 e 10, já se revelava a percepção da necessidade de adequação das receitas às despesas, bem como à legitimidade destas últimas para justificar a cobrança das primeiras, sendo incompatíveis com a legitimidade e a justiça a instituição de tributos sem justificação prévia e aceitação “popular”. Que do Estado Fiscal Liberal, passando ao Estado Fiscal Social, até o advento do Estado Democrático e Social de Direito, o que muda não é a necessidade ou não de justificação, mas apenas quais as razões que justificam a tributação.
ii) A tributação do Estado democrático e social de Direito, ou Estado do século XXI, somente se justifica na medida em que contribui para o gozo da liberdade coletiva. Que o poder de tributar já não mais se justifica em si mesmo, mas apenas e tão somente para fazer frente à atuação estatal que na exata proporção da medida de riqueza retirada da sociedade civil seja apta para a construção da liberdade coletiva e da inclusão social.
iii) Para a concretização do princípio republicano, não se admite que o povo, em cujo nome o poder é exercido, possa ser lesado até por meio de uma tributação voltada apenas para os interesses do Estado150. “O princípio republicano leva-nos, necessariamente, como podemos notar, ao princípio da destinação pública do dinheiro obtido mediante a tributação. Que a lei que cria um tributo e que, nestes termos, exercita a competência tributária deve, em tese, atentar somente para os interesses do povo e para o bem-estar do país 151”.
150 CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de Direito Constitucional Tributário – 29ª rev. ampl. e atual. – São Paulo: Malheiros, 2013, p. 70.
151 Ibdem, 85.
iv) A República reconhece a todas as pessoas o direito de só serem tributadas em função do superior interesse do Estado. Os tributos só podem ser criados e exigidos por razões públicas. Em consequência, o dinheiro obtido com a tributação deve ter destinação pública, isto é, deve ser preordenado à mantença da res pública. Que, por isso, a pessoa política, quando exercitar a competência tributária, deve ter a cautela de verificar se está acolhendo com boa sombra o princípio republicano.
v) Se o tributo, enquanto preço da liberdade coletiva, “tornou-se muito alto e o resultado, pífio”; se “o agigantamento do Estado ... já não era garantia de melhor distribuição de renda ou de eficiência econômica”; se
“a tributação excessiva torna-se inconciliável como o modelo de Estado do século XXI”; imperiosa a conclusão pela necessidade de reconstrução das normas jurídicas tributárias que tratam da competência e das limitações constitucionais ao poder de tributar.
vi) A incapacidade de planejamento e a comprovada incapacidade de realização deverão representar limites ao poder de tributar. Como decorrência, o planejamento da despesa pública não pode ser visto apenas como etapa da realização da despesa, mas torna-se pré-requisito indispensável para o exercício da competência tributária e a consequente realização da receita.
5.1.3. Sobre o Princípio da Eficiência.
Quanto à referência ao princípio constitucional da eficiência, merecem destaque, para análise das implicações que se seguirão e que se referem à competência tributária, os pontos que seguem:
i) Por meio da Emenda Constitucional nº. 19 de 1998, o legislador constituinte derivado visou corrigir um “mal”, consubstanciado no modelo burocrático de Administração Pública. Para saná-lo, prescreveu como
“remédio” a implementação de um novo modelo de administração do
aparelho de Estado, chamado “gerencial”, com foco em resultados, estes medidos em relação ao aumento e à melhoria de direitos dos administrados em geral. Tal modelo gerencial se fundamenta no
“princípio constitucional da eficiência”.
ii) O princípio da eficiência não é mero “enfeite” submisso ao princípio da legalidade, mas sim princípio constitucional de mesma hierarquia. Se a legalidade nos é fundamental por assegurar que lei seja um espelho da vontade do povo; o princípio da eficiência determina que a vontade do povo “saia do papel” e se realize concretamente. A eficiência não se contrapõe ou se submete ao princípio da legalidade, mas pretende ir além desta, não se contentando com o respeito formal à legalidade que não logra atingir os objetivos constitucionalmente previstos de atendimento ao cidadão. Para respeitar o princípio da eficiência, a Administração Pública deverá, para além de “cumprir a Lei”, demonstrar que atingiu as metas estabelecidas, ou seja, que entregou resultados.
iii) Quanto ao seu sentido e alcance, o Princípio da Eficiência é norma jurídica que tem por escopo determinar que o Estado Brasileiro, quando no exercício de qualquer uma de suas funções, sejam elas administrativas, legislativas e/ou jurisdicionais, vise sempre maximizar resultados. Não em relação aos seus processos internos, mas fundamentalmente em relação ao seu “cliente final”, a sociedade brasileira, especialmente no que tange à conquista dos objetivos fundamentais e a maximização da realização de direitos e garantias fundamentais e sociais constitucionalmente previstos; pretendendo sempre realizar o melhor, mais amplo e mais seguro desempenho, respeitada a melhor relação de custo/benefício.
iv) No que se refere às implicações do princípio da eficiência, se o exercício da competência tributária é um dos instrumentos através dos quais o Estado obtém suas receitas; se as receitas são fundamentais para a realização dos direitos; e se ao Estado compete, de um lado, retirar do seio social apenas o montante de riqueza estritamente
necessária para a realização destes misteres e, de outro, buscar a excelência de suas ações, considerada a melhor relação de custo/benefício; imperiosa a conclusão de que os limites do exercício da competência tributária deverão ser obtidos a partir das correlações de custo/benefício.
v) Apesar das dificuldades e da distância existente entre a realidade do aparelho de Estado brasileiro e a administração gerencial, o princípio da eficiência, pautado no gerenciamento por resultados, foi alçado à categoria de princípio constitucional e deve, portanto, ser buscado e implementado. Para além de ser um imperativo constitucional, esta mudança é necessária para que se concretizem as liberdades coletivas tão almejadas pela comunidade brasileira, em face da falência do modelo burocrático.
vi) No modelo de estado gerencial, se devidamente observado o princípio constitucional da eficiência, o exercício da competência tributária para instituir e majorar tributos somente se justificará como última ratio, após comprovadamente esgotadas todas as possibilidades de solução.
Justificamos este esforço de retomada dos argumentos desenvolvidos até aqui pelo fato de que este último capítulo pressupõe a assunção destas “premissas”.
É de fundamental importância, para que possamos construir uma nova estrutura para a competência tributária, oriunda de uma “nova” limitação constitucional ao poder de tributar, que consideremos tais aspectos de justiça, de racional justificação ao poder de tributar e da necessidade de busca da eficiência. E, uma vez assumidas como válidas, plausíveis, justas e compatíveis com o ordenamento jurídico pátrio tais premissas, temos que as implicações que se seguem, no que se referem a uma nova visão acerca do exercício da competência tributária estritamente limitada por tais valores constitucionais, para além de serem apenas lógicas e possíveis, representam a alternativa mais justa para a sociedade brasileira, ao exigir do aparelho do Estado mais respeito aos recursos públicos, absoluta transparência e muito mais eficiência na consecução de seus misteres constitucionalmente consagrados. Sendo assim, desde já salientamos que este esforço argumentativo
não se presta a justificar uma limitação “exótica”, “diferente”, “excêntrica” ao exercício da competência tributária, pela simples pretensão de inovar. Diferente disso, estes argumentos têm como fim último reavaliar os “arranjos institucionais”, propondo modificações que tendam à melhor realização da justiça no “mundo dos fatos”, tal qual nos sugere AMARTYA SEN, de forma absolutamente coerente com o sistema constitucional brasileiro.
Passemos a esta construção, não sem antes revisar os aspectos relacionados às limitações constitucionais à competência tributária, tal qual vem sendo trabalhadas pela doutrina pátria.