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7 DISCURSOS DAS MULHERES PRIMÍPARAS

7.4 Sobre as mulheres em construção

Ao ser questionada sobre o que é ser mulher, Cravina (MlrPRIV) defendeu que ser mulher é ser forte em vários aspectos, desmistificando a ideia do “tem que”. “Não é que mulher tem que ser forte. Acho que é, mulher é forte, ponto”.

Apesar de Dália (MlrPRIV) ter expressado que se sentiu “uma mulher maravilha por ter parido”, ela também refletiu sobre o quanto é difícil ser mulher no Brasil. Na sua percepção, mercado de trabalho e maternidade é algo bem difícil de conciliar.

Olha, é difícil, não é fácil. Eu vou te falar que é difícil, porque a gente passa pelo processo da gravidez, né. Por mais sadia que seja sua gravidez, você tá num estado diferente, não adianta, né. É uma cascata de hormônios funcionando dentro de você, coisa que você não pode controlar, né. E aí ao mesmo tempo essa mesma mulher que tá grávida, com essa cascata de hormônio funcionando nesse estado diferente, ela tá no mercado de trabalho. E aí ela passa pelo processo de gestar essa criança, depois parir esse bebê e aí tem a licença maternidade que te tira também do mercado de trabalho. O retorno é muito difícil. Então, por isso que eu falo que ser mulher no Brasil não é fácil, por esse lado.

Interessante foi Verbena (MlrPRIV) ter sinalizado que era mais fácil se perceber enquanto mulher do que definir em palavras o significado de ser mulher. A vontade dela era dizer várias coisas, mas as palavras não conseguiram traduzir todos os seus sentimentos. Em geral, acreditava que ser mulher “É ser fêmea, é ser um animal, de certa forma. Fêmea. Ser adulta, ser consciente das minhas responsabilidades e dos meus atos. Acho que é isso, a princípio é isso. Eu ia dizer tanta coisa”.

Tulipa (MlrPRIV) repetiu a pergunta em voz alta como se buscasse inspiração para definir algo que passou a ter outro significado com a vinda de seu filho.

O que é ser mulher? Ah, eu acho que ser mulher é poder ter uma família, ter filhos, né? Poder ter um marido, poder carregar dentro do ventre um filho, né. Agora que depois que tem filho, tudo é o filho, né? É uma pergunta que se você tivesse feito pra mim antes de engravidar, eu não ia nem saber responder. Depois que a gente tem filho, a gente pensa, a gente pensa, né, que a mulher é ali, que ela é uma chave principal pra um crescimento de

uma família, numa relação, né. Ela que carrega os filhos, que pode gerar, então, pra mim, ficou esse ponto aí, de poder carregar no ventre o filho, né.

A correlação entre ser mulher e sua capacidade de procriar apareceu em outros discursos. Como a exemplo de Esmeralda (MlrSUS), que até sinalizou que a mulher para ser considerada enquanto tal, não precisaria necessariamente passar pela experiência da maternidade. Contudo, acreditava que quem passasse por essa vivência, teria uma percepção diferenciada do que é ser uma mulher.

Nossa, agora eu me sinto mais, parece que a gente se sente mais mulher. Pra ser sincera ainda mais. Não sei se, porque existem mulheres que fala: não, não penso em ter filho, não quero e tananana”. Mas eu acho que toda mulher que sonha em um dia em ser mãe, quando isso acontece, ela se sente mais mulher. Porque foi isso que aconteceu comigo, eu hoje me sinto mais mulher. Depois do parto eu me sinto. Grávida eu já me sentia, mas depois que você tem ele nos seus braços, nossa. Aí você se sente como se tivesse completo, né.

Safira (MlrSUS) até atribuiu o ser mulher à capacidade de procriar, mas acrescentou outro ponto: de ser aquela que também poderia assumir outros papéis. Como a exemplo o de ser mãe, de ser uma esposa, uma filha. Nesse sentido dos papéis, Jade (MlrSUS) atrelou o ser mãe a ser um bom exemplo. Enquanto Rubi (MlrSUS) retomou a associação de mulher à força, ainda destacando que jamais um homem passaria pela experiência de um parto normal. “Uma mulher é força, né. Mulher é forte. Os homens falam que mulher é frágil, mas não é não. Homem nenhum aguentaria um parto normal, sairia correndo. Mulher é força”.

Todas foram unânimes ao afirmar que a experiência do parto foi um divisor de águas em suas vidas. Esmeralda (MlrSUS) falou sobre seu amadurecimento após a experiência de ter se tornado mãe, principalmente, porque ela passou a pensar não somente nela, mas no bebê também. Sensação também compartilhada por Jade (MlrSUS). Já Safira (MlrSUS) disse ter se sentido mais realizada e amorosa, enquanto Rubi (MlrSUS) retomou a questão da força como uma medida de mudança na sua própria percepção enquanto sujeito.

Tanto é que depois que eu passei por aquilo, é uma dor horrível, insuportável, parece que você vai morrer. Aí você se sente mais forte depois, né. Por ter passado por uma coisa daquela, vi que não é normal, né. Uma dor de parto não é normal, é insuportável. Se sente mais forte, né?

Cravina (MlrPRIV) também afirmou que foi por meio da experiência do parto que ela percebeu o quão forte ela era e o quão forte ela se tornou enquanto mãe. Nesse sentido,

Tulipa (MlrPRIV) sentiu que após a experiência de gerar um filho e de amamentar – segundo ela, a parte mais difícil de todo o processo –, ela conseguiria fazer qualquer coisa.

Ah, o que eu quiser fazer agora eu consigo [...] eu acho que o que era mais difícil eu já passei na vida, então, tô tendo forças. Essa semana comecei a fazer um curso aí, porque eu falei: “Nossa, a gente consegue, né, consegue fazer as coisas”. Vou voltar a trabalhar na outra semana, já. Então, já tô ativa, já.

De forma inusitada, Dália (MlrPRIV) falou do quanto a vivência do não ter controle sobre os acontecimentos ocorridos no parto, a fez se transformar enquanto sujeito.

Eu gosto demais disso, entendeu? Dessa experiência que eu passei, de ter vivido isso, de ter esperado a natureza agir como deve ser, de ter o meu corpo feito tudo isso, né [...] Minha vida inteira eu controlei meus atos, né. Pela forma que eu penso, pelos conceitos, pelos meus princípios, eu sempre controlei meus atos. E o ato de parir você não controla. O corpo faz o que ele acha que tem que ser feito, né. Independente do que você tá pensando. Então, assim, muda completamente, muda, muda muito depois de ter passado por essa experiência, todo dia eu acho, eu penso nisso, eu penso no parto, todo dia, quase todo dia, vai. Eu relembro um pouquinho, eu gosto de falar. Eu gosto de conversar com pessoas que passaram por isso também e pessoas que tão interessadas em ouvir pra aprender, pra fazer, seguir isso também. Eu gosto!

No mesmo sentido da transformação, Verbena (MlrPRIV) atribuiu ao parto uma nova percepção sobre seu corpo e sobre o ser mulher, que passa por uma aceitação do seu novo momento enquanto sujeito mulher.

E acho que toda a percepção do corpo, não só do corpo, mas do corpo feminino. E meu corpo feminino tem pelos, meu corpo feminino tem estrias. A própria percepção do ciclo, quando eu comecei a tentar engravidar. E agora, né de como tá voltando a menstruação e perceber, assim, essa variação hormonal, essas mudanças e tudo. Então essa minha percepção como mulher mudou bastante.

Outro ponto sinalizado por Verbena foi quanto ao aspecto revolucionário em sua vida após a experiência de ter se tornado mãe, pois ela foi uma adolescente que sempre dizia que não queria ter filhos. Assumir que ela queria já foi uma grande e significativa transformação. Tanto que ter passado pela gestação, pelo parto e estar vivenciando o puerpério, ainda era um processo em construção.

Para mim foi muito transformador [...] Fui uma adolescente que não queria ter filhos [...] E eu acho que primeiro assumir isso pra mim, me libertar disso: “Não, eu quero ter filho. Olha, eu posso querer ter filho também!”

Acho que eu tinha um pouco de medo dessa carga que é muito maior pra mulher. Então eu falava: “Não, não vou ter. Não vou ter de jeito nenhum, pra depois sobrar pra mim. Não, eu não vou ter filho”. Então, assumir isso. Assumir esse desejo é compreender melhor isso, aceitar isso primeiro. Todo esse processo de engravidar. Foi muito transformador. E ainda é. Porque ainda tem dias de enlouquecer, eu não sei quando isso vai passar.

Aliada aos processos vivenciados pelas mulheres mães, temos a atuação de uma política pública sobre o parto e nascimento, que tem como uma de suas propostas substanciar de forma positiva esse período vivenciado pelas mulheres. A partir da perspectiva dos profissionais que a manuseiam tecnicamente, o próximo capítulo delineia, dentre outras questões, a construção político-normativa desse cenário.