4 A TEOLOGIA CRISTÃ DIANTE DO SOFRIMENTO HUMANO
4.1 Sofrimento e Mistério Pascal
Ao sofrimento é conferido o sentido último, sobrenatural, quando colocado diante da pessoa de Jesus de Nazaré, diz nosso teólogo. Todo sofrimento, qualquer que seja sua etiologia, quando unido à Cruz de Cristo pela fé e caridade do paciente, participa (consciente ou inconscientemente) da redenção da humanidade e alcança, por isso, a salvação pessoal. Em poucas palavras, eis o sentido cristão da dor. O Corpo Místico, na terra, isto é, os crentes unidos pela fé e amor a Cristo constituem uma sociedade em parto até o fim do mundo, em dor no tempo (“Completo em meu corpo o que falta à paixão de Cristo”, Cl 1,24), em espera da bem aventurada eternidade. Todo sofrimento é convertível, cristianizável, recuperável para o sentido global da aventura humana.49 Contudo, o teólogo deixa claro que nada dispensa a luta contra o mal sob todas as suas formas (a libertação integral). Entretanto, existem conflitos de valores, hierarquias de urgências, preços a pagar no caminho das metas que escolhemos.50
A respeito disso, o nosso autor afirma que Deus, para quem justiça e misericórdia se confundem, não se rejubila com o mal do ser humano. Esmagado pelo sofrimento, o ser humano encontra no seu íntimo, em sua fé, este ponto de apoio: sabe que Deus domina séculos e nações, não com seu desprezo ou total ignorância, mas com sua sabedoria e sua benevolência. Esta certeza que ultrapassa as ciências humanas e todo verificável de que Deus chama o ser humano através do seu Verbo Eterno à comunhão de vida com ele, aponta para a razão última de sua fé e esperança.51
Em Cristo, Deus assumiu de certo modo o sofrimento dos seres humanos. A Encarnação é toda para a Redenção e, esta é toda para o ser humano, tal como ele é. Tudo que é próprio do ser humano, Cristo assume para levar até Deus, no fim da estrada do belo, no fim
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Cf. ibid., p. 37.
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Cf. LEPARGNEUR, H. Lugar atual da morte. op. cit., p. 36. “Escrevendo isso não aceitamos diminuir em nada com estas palavras fáceis que enganam os incautos, o drama do mal, o mistério do sofrimento, a atrocidade indiluível de muitas dores. Não pretendemos justificar nada. Quem somos nós para arvorar-nos em advogado de Deus e de sua obra? Tentamos clarificar o pouco que está em nosso alcance. ‘Quem me libertará deste corpo de morte? ’ exclamava São Paulo (Rm 7,24). De que adianta negar o óbvio, esconder as chagas, fugir dos limites?”.
50
Cf. ibid.
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da estrada do horror. Em Cristo, amor e compaixão não se limitam a unir seres mortais e finitos; promove, isto sim, um comum destino de graça e glória.52
A misericórdia de Deus se manifesta antes da vinda do Verbo. Javé se revelou como o “Deus das misericórdias”, segundo a expressão paulina. A escolha de Israel pelo Criador é gesto de misericórdia que culmina com o perdão oferecido ao povo tantas vezes.53
De uma a outra extremidade da história da salvação, da salvação de Israel, do mundo, de cada ser humano particularmente, Javé-Deus repete: “Se ele me invocar, eu o ouvirei,
porque sou compassivo” (Ex 22,26). Diz nosso teólogo:
Ninguém tem razão nesta vida de desesperar da onipotência e da misericórdia divinas. Estamos longe de um Deus que não tivesse nada a manifestar-nos além da exigência de um dever. Nossa salvação é primeiramente iniciativa e dom de Deus. Ele se interessa pela nossa salvação mais que nós mesmos. O sentido da descoberta das misericordiosas iniciativas divinas –sem milagres – é o sentido espiritual que deve desenvolver-se em todos os cristãos.54
Para Lepargneur, o sofrimento plantou na mente humana uma interrogação fundamental e primordial. Basta lançar um olhar sobre as literaturas místicas, profanas e religiosas para se perceber o papel cultural do sofrimento como incentivo da procura que constrói o ser humano.55 O teólogo pergunta: Será que nada há para se descobrir na trama e sabedoria do sofrimento, como descobriu Jó? A inteligibilidade do sofrimento ou do mal não será o sinal mais autêntico da transcendência de Deus? Sofrer é não entender, surpreender-se com uma contingência tão absurda que choca o espírito, tanto quanto o corpo. O ser humano, ao ajuizar o assunto, tende a apontar um culpado, como uma espécie de meia-salvação da dor e do perigo.56
52
Cf. ibid., p. 178.
53
Cf. ibid., p.179: “Essa misericórdia está presente mesmo onde a Justiça parece escondê-la aos nossos olhos, como quando lemos em Ezequiel que “o olho divino não terá piedade”. Mas Javé que teve piedade de Jó, tem ainda piedade de Jonas tragado pelo oceano: ele faz reerguer-se da fossa a sua vida; tem também piedade dos ninivitas que fazem penitência, como o Pai do filho pródigo terá piedade daquele que retorna”.
54
Ibid.
55
Cf. LEPARGNEUR, H. Antropologia do Sofrimento. op. cit., p. 214. Dois mil anos antes de nossa era, no escrito Egípcio ‘Diálogo do desespero com sua alma’ podemos ler: “A quem falar hoje? Estou esmagado pela miséria na ausência de todo confidente. A morte está diante de mim, como quando o céu se descobre, como quando um homem passa pela iniciação...’ Na mesma época, outro poema similar nascia na Babilônia,
Louvarei o Senhor da sabedoria, onde lemos: ‘Andava como príncipe e agora tornei-me como escravo. A
cólera de meus companheiros me destruiu. O dia é suspiro e a noite lágrimas. O mês é silêncio e o ano luto’. De redação mais tardia, os judeu-cristãos conhecem no mesmo estilo as Lamentações Bíblicas de Isaías, o livro de Jó, os salmos de gemidos e outros trechos proféticos. Quase contemporâneas, as tragédias gregas giram em torno do Destino que esmaga impiedosamente: ‘Clamarei alto meus sofrimentos infinitos’, conta o coro dos persas (Ésquilo)” (Ibid., p. 214-215).
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O sofrimento é a presença do mal no corpo e na mente do ser humano, o que levanta toda a problemática da simbólica do mal, expressa na linguagem, nos rituais, na arte, especialmente na arte cristã.57
Durante longos séculos, em contexto cristão, a resposta essencial à dor era a fé em Deus, ora por parte do sofredor para agüentá-la, ora por parte daquele que ajudava quem sofria. Na difundida obra do século passado Cristianismo e os Tempos Presentes, de Mgr. Dougaud se lê:
Quanto mais reflito, mais me surpreende o pouco que puderam os homens a respeito do problema da dor. Há seis mil anos (desde a criação do mundo, no cálculo da época) que a dor, feita abutre de Prometeu, abre sulcos em nosso peito, esmaga o nosso coração. E o que fazemos face à dor? Ou negamo-la, o que é loucura; ou tentamos suprimi-la, o que não passa de sonho; odiamo-la, o que só pode aumentá-la; ou tentamos distrair-nos e esquecê-la, o que acrescenta uma nova dor à outra.58
Por outro lado, Lepargneur considera que a religião ensinou a amar a dor. A dor torna- se objeto desta paixão chamada amor. Talvez seja isto que a Religião tentou de mais sublime sobre a terra. Temos de reconhecer que se isso não é sonho, é solução completa, radical e, evidentemente divina do problema da dor. Muitas outras pessoas que não podem negar a dor e tem sabedoria para suprimi-la, sem influência da religião, curvam a cabeça sob seus golpes e seguem em frente, mudas, silenciosas, desesperadas. Os livros que enaltecem a dor quase não penetram mais a cultura secularizada do nosso tempo. O núcleo do pensamento neste âmbito é que somente com a religião cristã é possível suportar a condição humana. O problema é que a maioria não está interessada em vivência cristã ou fé católica.59
Um olhar sobre os progressos e as limitações da medicina atual ilustra o que se pode esperar na luta para eliminar a dor e o sofrimento. Simultaneamente os crentes descobrem a limitação do poder de Deus e os doentes a limitação do poder da medicina.60
57
Cf. ibid., p. 216: “Nesta, há necessidade de representar as forças hostis que espreitam o homem e armam-lhe ciladas, barram-lhe o caminho, esforçam-se por desviá-lo da salvação. As figuras do mal devem aguçar sua vigilância”.
58
Ibid., p. 217.
59
Cf. ibid., p. 218: “Não será mais fácil chegar a acordos pragmáticos na base de um humanismo ateu, do que esperar a conversão do mundo ao Vaticano e às suas doutrinas antes de conseguir condições mínimas de coexistência humana?”.
60
Cf. ibid., p. 219: “Trata-se amiúde da mesma dor, do mesmo sofrimento. Haverá um terceiro responsável? Depois do Destino, o Pecado; depois do Pecado, a Doença; e depois?”.