EXISTENTIAL PHENOMENOLOGICAL ANALYSIS OF MANGA OYASUMI PUNPUN
2.2 A Sra Onodera
Ao dar seguimento nos capítulos e já concluída a história de Seki, a trama inicia novos conflitos voltados para a Sra. Onodera, que é a mãe do protagonista, o adolescente Punpun. A Sra. Onodera é uma mulher angustiada, frequentemente, se questiona e se arrepende das decisões que tomou no passado, ela possui uma péssima relação afetiva com Punpun, neste momento da história, se encontra doente prestes a passar por uma cirurgia.
No hospital, antes da cirurgia, Sra. Onodera conhece um rapaz chamado Harumi, que sofreu um acidente com a namorada, mas depois disso, não conseguiu ir visitá-la por se sentir culpado. O diálogo com esse rapaz traz à tona memórias sobre seu divórcio e violência que sofreu do marido, ela insiste para que Harumi visite sua namorada e se livre das desculpas que dá para si mesmo.
No meio deste diálogo, ela conta para Harumi sua vida, dizendo que nunca tentou se encontrar, sempre esperou ser encontrada, pois já sabia o quanto era desprezível. Após se despedir de Harumi, Sra. Onodera chega à conclusão de que “[...] Não tenho objetivos na vida, eu só estou vivendo por viver, porque morrer é muito assustador” (ASANO, 2019, p. 24). Nota-se que ela se encontra desprovida de sentido para a sua existência, sob este aspecto, Sartre (1987, p. 16) afirma: “consideramos que todo homem que se refugia por trás da desculpa de suas paixões, todo homem que inventa um determinismo, é um homem de má fé”.
Figura 5 - Sra. Onodera reflexão
Fonte: Mangá Oyasumi Punpun (2019)
De acordo com Sartre (2013), o sentido para a vida se dá a partir do momento da definição de um projeto e da realização do mesmo. Ao viver usando da má-fé, sem estabelecer um projeto para sua própria vida, sem assumir a responsabilidades por suas escolhas e esperar que um outro escolhesse por ela aquilo que era de sua responsabilidade, a sra. Onodera percebe que sua vida passou e ela não possui objetivos e nem perspectivas, mas continua vivendo por medo da morte, ela se questiona: “Mas e se eu acabar morrendo? E se a operação fosse um sucesso e eu vivesse?” (ASANO, 2019, p. 27).
A angústia refere-se a angústia das possibilidades de escolhas, Sartre (2007) usa do termo Angústia com influência de duas concepções filosóficas, de Kiekegaard e Heidegger. A concepção que gira em torno deste artigo se baseia na noção de Kiekegaard, em que ele entende a angústia como vertigem da liberdade. Além disso, destaca-se que medo e angústia devem ser diferenciados, a angústia consiste naquilo que o sujeito possui frente as próprias possibilidades de escolha, enquanto o medo consiste no produto da correlação do sujeito com os objetos em-si. Diante disso, Sartre elucida:
A angústia se distingue do medo porque medo é medo dos seres do mundo, e angústia é angústia diante de mim mesmo. A vertigem é angústia na medida em que tenho medo, não de cair no precipício, mas de me jogar nele. Uma situação que provoca medo, pois ameaça modificar de fora minha vida e meu ser, provoca angústia na medida em que desconfio de minhas reações adequadas a ela (SARTRE, 2007, p. 73). Pode-se observar que a Sra. Onodera se angustia por dois fatores, primeiro, porque se depara com o medo da morte, mas ela também se angustia ao pensar nas possibilidades que permeiam a sua vida. Ela percebe que por muito tempo não teve consciência das responsabilidades e usou, muitas vezes, de desculpas para determinar as causas de seus atos. Assim, após a conversa com Harumi, a Sra. Onodera vai para seu quarto e reflete sobre a sua função no mundo, ela não se vê necessária para ninguém. Nessa direção, Sartre (2007, p. 639) afirma que “[...] é preciso que o homem se reencontre a si mesmo e se convença de que nada pode salvá-lo dele próprio”.
A cirurgia da Sra. Onodera foi bem-sucedida, ela encontra uma carta que Harumi deixou onde diz que ele a admira por ela admitir os seus erros, por admitir que viveu esperando que os outros escolhessem por ela, por admitir que viveu tentando se determinar em algo que não era, como mostra o excerto: “[...] as pessoas mudam e conforme os anos passam, os ambientes também. Eu acho que está tudo bem em não haver uma maneira certa de viver” (ASANO, 2019, p. 28).
A mudança da qual Harumi fala nada mais é para Sartre (2013) que a consciência humana que se projeta para um futuro de possibilidades, que se constrói conforme sua vivência e suas escolhas, por ser justamente livre para fazê-las. Cada pessoa vive de um jeito, não há realmente uma maneira certa de viver, pois depende da relação que cada um possui com seu contexto de vida, no entanto, acima de qualquer coisa o homem é livre. Segundo Sartre (2007, p. 68), “[...] a liberdade humana precede a essência do homem e torna-a possível: a essência do ser humano acha-se em suspenso na liberdade. Logo, aquilo que chamamos liberdade não pode se diferençar do ser da realidade humana”.
Uma questão interessante que surge nesta breve relação entre a Sra. Onodera e Harumi consiste no fato de que a presença do Outro é capaz de lançar um olhar para si mesmo. Sartre afirma que “[...] só posso definir-me em relação ao outro” (SARTRE, 2007, p. 496). A experiência de Harumi de se colocar no lugar da Sra. Onodera e de apontar para ela algumas de suas reflexões denota o exemplo da fechadura de Sartre (2007, p. 334), segundo o qual afirma que “o ato de olhar pela fechadura faz com que nos depararemos com o Outro; esta ação permite que nos enxerguemos através da ação do Outro observado”. Isso significa que o Outro propicia o questionamento da própria existência.
Portanto, tratando do “olhar”, Sartre vai falar do princípio do relacionamento Eu e Outro, relacionamento esse que se dá na objetividade. Isso se dá no momento que o Outro objeto, torna-se presença para o Eu. Isto é, existe de fato um Outro que olha para o Eu, e o Eu é visto pelo Outro.
[...] a relação originária entre eu e o Outro não é somente uma verdade ausente que viso através da presença concreta de um objeto em meu universo; é também uma relação concreta e cotidiana que experimento a cada instante: a cada instante o Outro me olha (SARTRE, 2007, p, 332).
Dois sujeitos agora são objetos um para com o outro: o que era para-si (sujeito) ao ser olhado aparece ao outro como em-si (objeto). Logo, “[...] Deixo de ser transcendência, ou seja, um ser que é o que não é e não é o que é, para tornar-me o que sou, alguém definido. Transformo-me, assim, numa
transcendência transcendida” (SCHNEIDER, 2011, p. 148, grifo da autora). O olhar é a maneira de
apreensão mais estável, profundo e individualizado que o ser humano possui, é aquele que proporciona compreender e apreender o outro em sua individualidade complexa.
Recuperada da cirurgia, a Sra. Onodera decide por estabelecer um objetivo para sua vida: ser uma mãe melhor para Punpun. “[...] Nós somos aquilo que ainda não somos” (SARTRE, 2007, p. 82). Isso é projeto, projeto não é alguma coisa, mas virá a ser ao se realizar. Esse movimento da consciência de transcender a si, de projetar é fruto da liberdade (SILVA, 2010). É a liberdade de ser, ou seja, esse poder de escolher que faz o homem partir para o encontro de si mesmo.
Após estes acontecimentos, ocorre um salto temporal de dois anos, e, então, a sra. Onodera morre após descobrir um câncer enquanto ainda estava no hospital em decorrência da cirurgia que havia realizado. Diante destas breves exposições, a próxima seção se dedicará a história do protagonista principal, o Punpun.