2. Cidadania – a política em ato
2.3. Sujeitos políticos: da pluralidade e diversidade dos protagonistas
Por fim, debruçamo-nos sobre a questão dos sujeitos políticos da cidadania, ou seja, aqueles que a protagonizam, que lhe dão corpo e dinamismo. Efetivamente, a partir das décadas de 1960 e 1970, e em estreita relação com a transição do regime de acumulação fordista para um regime de acumulação flexível e concomitante perda de vitalidade do movimento sindical, assistiu-se ao aparecimento de novas subjetividades políticas articuladas em torno de questões como a orientação sexual, a “raça”, o ambiente ou o consumo. Clara Irazábal (2008), sublinha, a este respeito, a crescente relevância de uma ampla gama de expressões de cidadania forjadas em torno de questões de género, sexualidade, etnicidade, idade, classe e religião que, até há bem pouco tempo, permaneciam por desvendar. Expressões como multi- nível, nómada, performativa, sustentável, entre outros, qualificam hoje diferentes formas de cidadania, lançando alguma luz sobre a sua natureza multifacetada e dinâmica.
A construção da cidadania passa também pela tentativa de resistir à exclusão e invisibilidade a que os grupos sociais dominantes remetem os “outros”. Na formulação de Isin
(1997: 1998), «a emergência da cidadania como espaço político apenas pode acontecer quando o poder de uma classe dominante é efetivamente desafiado». A construção da cidadania implicou sempre que aqueles a quem, efetiva e substantivamente, era negado um lugar justo no edifício social (os “sem-parte”), se erguessem e exigissem que as suas vozes fossem ouvidas e reconhecidas por aqueles (aristocracia e oligarquia) que detinham o poder e exerciam o controlo e dominação sociais (ver Rancière, 1999; Zizek, 2006). Como sugere Isin (2002a, 2005), a cidadania existe, no preciso momento em que a suposta naturalidade das virtudes dominantes é questionada e a sua arbitrariedade revelada, quando a hierarquia estabelecida é revertida, redefinida e repensada, quando os dominados, estigmatizados, oprimidos e marginalizados se realizam enquanto grupos e constituem enquanto sujeitos políticos. A cidadania existe quando é exercida e estes sujeitos políticos se (des)envolvem, participando na conflitualidade, demonstrando uma predisposição para a ação, uma vontade de exercer a liberdade, em suma, assumindo a dignidade de se considerarem como iguais (Borja, 2003).
Contrariar e resistir à exclusão passa, por vezes, pela utilização de tácticas espaciais em que grupos sociais excluídos desestabilizam as práticas sócio-espaciais dominantes e se tornam geograficamente visíveis e politicamente atuantes. Nas últimas décadas, o ativismo LGBT, como antes a luta pelos direitos civis ou o movimento feminista, é provavelmente o caso mais notório de um movimento que opera em geografias subterrâneas para reivindicar direitos e ao mesmo tempo desestabilizar noções convencionais de heteronormatividade, procurando obter ganhos materiais e contribuir para a redefinição das instituições. Existe, como já vimos, uma multiplicidade de espaços e escalas através das quais estas geografias subterrâneas ganham forma, integrando espaços materiais de interação e organização, configurando espaços mais intangíveis de comunicação e imaginação.
Os sujeitos políticos da cidadania são cada vez mais complexos, plurais e diversificados. Através da análise crítica de inúmeras transformações verificadas nas sociedades contemporâneas, com destaque, por exemplo, para o extraordinário desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação, alguns autores têm chamado a atenção para novas formas de produção cognitiva, imaterial e biopolítica (Berardi, 2005, 2009; Hardt e Negri, 2000; 2005; Matos, 2012), concomitante fortalecimento do precariado (ver Antunes, 2003, 2011; Antunes e Alves, 2004; Harvey e Wachsmuth, 2012; Standing, 2011) e explosão de novas formas de organização e intervenção política, ou seja, de novas
cidadanias (ver Carmo, 2012; Graeber; 2002, 2009; Mendes, 2008a; Norris, 2002; Purcell, 2013; Rebelo, 2003; Santos, 2002).
De um modo que consideramos verdadeiramente inovador, Isin (2008b) esboçou uma perspetiva nova centrada nos atos políticos que instituem a cidadania e que são levados a cabo por diferentes sujeitos políticos. Assim, no mundo contemporâneo, como vimos antes, assiste- se à produção de novos (e por vezes paradoxais) sujeitos políticos, novas subjetividades e identidades, novos locais de luta e novas escalas de identificação e, através deles, a cidadania, tradicionalmente compreendida como estatuto legal de pertença ao Estado, como temos visto, passou a ser vista cada vez mais como conjunto de práticas – sociais, políticas, culturais, simbólicas – reivindicativas que se manifestam em vários locais e escalas (ex: cidadania íntima, cidadania cultural, cidadania multicultural, cidadania sexual, cidadania transgénero, cidadania do consumo, cidadania ocupacional, cidadania cosmopolita, cidadania de afinidade, cidadania diaspórica, cidadania ambiental/ecológica, cidadania pós-política, cidadania pós- moderna) (ver Balibar, 2008; Carvalhais, 2004, 2007; Christopherson, 1994; Ciprut, 2008; Faulks, 2000, 2002; Gilbert e Veronis, 2013; Miller, 2007; O'Byrne, 2003; Silva, 2004; Standing, 2009). Reconhecendo que a cidadania substantiva é condição de possibilidade da cidadania formal, o propósito desta reorientação analítica é o de compreender o processo de instituição da cidadania através dos seus próprios atos constituintes, rompendo as ordens, práticas e habitus existentes e produzindo protagonistas que se constroem na ação.
Dando continuidade ao esforço de aprofundamento da reflexão em torno da cidadania, que temos vindo a acompanhar, Isin (2009a) viria, posteriormente, a colocar o enfoque sobre a sua natureza fluída e a necessidade de conceber um novo vocabulário para a apreender. A partir do reconhecimento de que emergiu um novo sujeito – cidadão ativista – que toma o seu lugar no palco da história, sugere-se que este processo está relacionado com o aparecimento de novos direitos (civis, políticos, sociais, urbanísticos, sexuais, ecológicos, culturais), locais (corpos, tribunais, ruas, media, redes, fronteiras), escalas (urbana, regional, nacional, transnacional, internacional) e atos (voto, voluntariado, blogging, protesto, resistência, organização), através dos quais os atores se transformam a si próprios (e a outros) em cidadãos. Consequentemente, afirma Isin (ibid.: 270), a cidadania deve ser entendida não como estatuto de pertença mas sim «como uma instituição em fluxo inscrita nas lutas sociais e políticas que a constituem». Daqui decorre que os cidadãos não devem ser apreendidos a partir do seu estatuto formal (ver Boudreau, 2013). É, aliás, frequente a existência de sujeitos
sem estatuto formal de cidadania que agem como cidadãos, constituindo-se como aqueles com direito a ter direitos, ao mesmo tempo que se produzem novos locais de contestação, pertença, identificação, resistência e luta que atravessam fronteiras, limites e territórios, envolvendo, assim, múltiplas e sobreponíveis escalas de contestação, pertença, identificação e luta.
Ao abrir a política como espaço de contestação e ação através do qual os sujeitos se tornam políticos, revelam e ativam o que até então permanecia oculto, modificando desse modo a paisagem política e ampliando o horizonte do possível, a cidadania possibilita a emergência de subjetividades políticas (Isin, 2009b). O seu questionamento crítico, exercício que damos agora por concluído, implica pois repensar e ampliar não apenas o político mas também aquilo que é ser humano e viver em sociedade (ver Clarke, 1994).
Quadro 2.1. Ideias a reter para a pesquisa empírica (Capítulo 2)
i) a cidade e os espaços urbanos são vistos como contextos geográficos privilegiados para o desenvolvimento da cidadania, sobretudo porque é neles que as contradições entre diferentes conceções de cidadania (substantiva/formal, concreta/abstrata, etc.) se revelam mais contundentes, onde os antagonismos e tensões associadas à sua construção e a sua constante reinvenção têm lugar, onde as relações de proximidade e os múltiplos encontros propiciam o diálogo, o debate e a negociação;
ii) a cidadania é cada vez mais vista como um fenómeno multi-escalar, um processo “glocalizado” que se desenrola às escalas local, nacional e internacional. Continua, porém, a existir uma tensão entre a escala do Estado-nação e a da cidade, que se encontra espelhada na noção de pensamento escalar. Esta, visa sobretudo circunscrever e invisibilizar a cidadania enquanto prática e afirmar a sua configuração liberal-vestefaliana enquanto estatuto jurídico-legal;
iii) os sujeitos políticos da cidadania, aqueles que a protagonizam, são cada vez mais complexos, plurais e diversificados, edificando-se em torno de novas subjetividades e práticas sociais e políticas. É a partir das ações e práticas concretas dos sujeitos, anteriormente invisibilizados e sem voz, que a cidadania se materializa, transformando a paisagem política e ampliando o horizonte de possibilidades existenciais.