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6. O PAPEL E AS COMPETÊNCIAS DO SUPERVISOR

6.1. O SUPERVISOR DO SETOR DA CONSTRUÇÃO CIVIL NO BRASIL

O setor da Construção Civil tem características peculiares que influenciam a atuação do nível de supervisão, concedendo-lhe também fatores específicos de atuação e, principalmente, de desenvolvimento de competências, como foi apresentado na parte introdutória desta dissertação.

Retomando, o que parece mais interferir na aprendizagem e no desenvolvimento de seus profissionais é a mobilidade do local no qual ocorre a produção, fazendo com que as equipes de trabalho atuem de forma nômade e ocasionando a descontinuidade do fluxo do processo produtivo, que precisa ser iniciado e adequado a cada novo projeto ou obra. Isso afeta diretamente a atuação do supervisor da construção e salienta a importância da aprendizagem no local de trabalho, abordada na seção 4 do presente estudo.

Segundo Classificação Brasileira de Ocupação, informação disponibilizada pelo Ministério do Trabalho, a posição de supervisor da construção civil tem como condições gerais de exercício do trabalho ser presencial e realizado em equipe, de terceiros ou próprias, sob supervisão ocasional. Tal trabalho pode ser realizado a céu aberto, em ambiente fechado, e, muitas vezes, subterrâneo, sendo os supervisores expostos a ruído intenso, poeira e radiação solar. Podem, também, ficar expostos a materiais tóxicos. Os supervisores trabalham sob pressão, o que pode levá-los à situação de estresse.

Quadro 6: Descrição sumária da ocupação de supervisor da construção civil

“Supervisionam equipes de trabalhadores da construção civil que atuam em usinas de concreto, canteiros de obras civis e ferrovias; elaboram documentação técnica e controlam recursos produtivos da obra (arranjos físicos, equipamentos, materiais, insumos e equipes de trabalho); controlam padrões produtivos da obra, tais como inspeção da qualidade dos materiais e insumos utilizados, orientação sobre especificação, fluxo e movimentação dos materiais e sobre medidas de segurança dos locais e equipamentos da obra; e administram o cronograma da obra.”

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (Disponível em: www.mte.com.br).

Em termos de formação e experiência, o requerido para os supervisores é que tenham Ensino Fundamental e qualificação profissional básica entre duzentas e quatrocentas horas- aula e experiência de cinco anos ou mais. Isso reforça a importância da aprendizagem formal para sua atuação.

As funções descritas para a posição de supervisor da construção, conforme a Classificação Brasileira de Ocupação, parecem ser contempladas pelas funções e responsabilidades do supervisor apresentadas anteriormente por Certo (2003) e Bittel e Newstrom (1990), respeitando termos específicos do setor. São elas:

a) supervisionar trabalhadores em canteiros de obras civis; b) elaborar documentação técnica em canteiros de obras civis; c) controlar recursos produtivos da obra;

d) administrar o cronograma da obra; e e) controlar padrões produtivos.

Estas atividades, que apresentam-se detalhadas no Anexo I desta dissertação, evidenciam-se a complexidade de atuação dos supervisores de obras ao se verificar as atribuições mencionadas que exigem o conhecimento das atividades operacionais e de algumas responsabilidades gerenciais.

O material também apresenta o conjunto de “competências” que o supervisor deve possuir, que, no entanto, não segue claramente uma definição ou linha conceitual de competência explorada neste estudo, misturando elementos como atribuições, recursos, capacidades e atitudes (Quadro 7).

Quadro 7: Competências do supervisor da construção civil Liderar equipe de trabalho

Demonstrar persuasão Demonstrar iniciativa Demonstrar autocontrole Comunicar-se com eficiência Raciocinar com rapidez Demonstrar dinamismo Raciocinar por analogia Demonstrar auto-organização

Relacionar-se com superiores e subordinados Demonstrar senso espacial

Demonstrar senso visual Atentar para detalhes

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (www.mte.com.br).

A lista do quadro explicita que, apesar do conceito de competência permear importantes discussões atuais no mundo organizacional, este ainda se encontra “em via de fabricação”, conforme já citado por Wittorski (2004, p.77).

6.1.1. Estudos nacionais sobre competências no setor da construção civil

Como já explicitado na justificativa deste estudo, apesar de ser um setor com características peculiares, poucas pesquisas existem nas principais publicações sobre administração a respeito do desenvolvimento de competências gerenciais na construção civil. Um grupo de pesquisa que tem desenvolvido investigações no tema é o Norie – Núcleo Orientado para Inovação da Edificação – Engenharia Civil – da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dentre os estudos sobre o tema, destacam-se os trabalhos de Hirota (2001), Lantelme (2004), Lantelme et al. (2005) e Hirota e Lantelme (2005), que são profissionais da área de gerenciamento de construção. No entanto, não há nenhum no nível da gerência operacional investigada no presente estudo.

O trabalho realizado por Lantelme et al. (2005) com gerentes de construção, especificamente engenheiros, menciona que o desenvolvimento da competência destes gerentes ocorre “através(sic) da experiência profissional, num processo informal de

aprendizagem, caracterizado pela aquisição de capacidades e conhecimentos tácitos” (p, 70), valorizando a experiência e a observação de comportamentos e a postura dos profissionais e fazendo com que se construa um comportamento conservador em relação a inovações gerenciais. Os autores citam que o processo de desenvolvimento gerencial na construção está relacionado à aprendizagem situada de Lave e Wenger (1991), pois seus conhecimentos e capacidades estão impregnados dos significados atribuídos pela comunidade de profissionais com os quais os gerentes aprendem sua função. Os autores utilizaram o método de pesquisa- ação durante 15 meses, buscando identificar se a abordagem da aprendizagem-ação contribuía para o desenvolvimento da competência gerencial. Segundo o estudo, esta abordagem é descrita como uma reunião periódica de um pequeno grupo de pessoas, denominado set, para discussão de problema de atividade profissional, por meio do compartilhamento de informações e experiências e levantamento de questões. Estas reuniões têm o objetivo de induzir as pessoas à reflexão e desafiá-las a buscar soluções com base em seus próprios conhecimentos, investigando o processo de aprendizagem ocorrido e desenvolvimento da competência gerencial. A conclusão do estudo mostra que a abordagem é adequada para o desenvolvimento da competência e que esta não ocorre em saltos, requerendo um processo em ciclos contínuos e progressivos de aprendizagem, nos quais o desenvolvimento e a mobilização do conhecimento acontecem por meio da reflexão sobre a ação gerencial.

Outro estudo, de Hirota e Lantelme (2005), aponta que o perfil dos profissionais de Engenharia Civil dificulta a disseminação de idéias inovadoras do Sistema Toyota de Produção, bem como a implementação de conceitos associados à Produção Enxuta. Utilizam o conceito da competência para dar a noção da decisão e ação de colocar o conhecimento na prática e utilizam a abordagem da aprendizagem-ação para o desenvolvimento de determinadas competências específicas. Os resultados mostraram que as reuniões periódicas com o grupo de gerentes engenheiros permitiram identificar barreiras de origem cultural e cognitiva para a aplicação dos conceitos e princípios da Produção Enxuta na construção. Outra barreira foi a do conhecimento tácito utilizado na análise e resolução dos problemas, fruto da experiência pessoal e profissional que guiava os gestores a ações automáticas. Nesse sentido, o processo de questionamento regular proporcionado pela abordagem da aprendizagem-ação auxiliou os gestores a perceber este tipo de ação, mostrando inconsistências entre seu discurso e prática.

Ambos os estudos citados caracterizaram o ambiente da construção civil como sendo de cultura conservadora e baixa velocidade de inovação, no qual se valoriza muito a experiência passada e se questiona a introdução de novas formas de pensar e agir.

A abordagem da aprendizagem-ação parece ser muito interessante por promover sistematicamente a reflexão sobre as experiências dos engenheiros gerentes; no entanto, à primeira vista, pode ser dificultada para o nível de supervisão, no formato e prazo relatados, em função das condições de trabalho em que atuam os supervisores da construção, lidando com problemas operacionais diários e com metas de desempenho de, no máximo, um ano.

Assim, como já foi mencionado, o foco deste trabalho não é validar uma abordagem, mas verificar como ocorreu o processo de aprendizagem que contribuiu para o desenvolvimento das competências dos supervisores.

Não obstante, estes estudos ressaltam a importância de se investigar a aprendizagem que ocorre nos profissionais deste setor, dada suas características peculiares e o fato da construção civil ser de vital importância no cenário econômico nacional.