No campo da responsabilização civil, os órgãos colegiados do TJDFT têm adotado a Teoria do Desvio Produtivo, caracterizada pelo desperdício de tempo útil imposto pelo fornecedor ao consumidor que busca solucionar problemas ou ver reconhecido um direito violado. Ponderam que não é o mero descumprimento do contrato que enseja reparação por dano moral, mas a desnecessária perda de tempo causada pela indiferença abusiva do fornecedor quanto ao atendimento das reclamações do cliente.
Nesse contexto, os Julgadores entendem ser cabível fixar inde- nização para compensar o lapso temporal que poderia ter sido empre- gado na realização de outros afazeres, como trabalho, lazer, estudos ou quaisquer outras atividades. Na maioria dos casos julgados pelo TJDFT, o contratante buscou, por inúmeras vezes, solucionar administrativamente a controvérsia antes de se valer do provimento jurisdicional, de sorte que, segundo os Magistrados, a via crucis enfrentada pelo consumidor não pode ser considerada mero dissabor do cotidiano.
Acórdãos representativos da matéria:
Desª. Leila Arlanch
Os diversos serviços e consequentes trocas de peças no veículo da autora pelas rés, indicam com segurança que os problemas referidos pela consumidora eram reais, in- dependentemente dos vícios serem de fabricação ou oca- sionados por falha na prestação de serviço. A qualidade do produto vendido pela concessionária viola as dispo- sições protetivas esculpidas no CDC, por conseguinte, infere-se que não se adquire um veículo zero quilômetro apenas pela segurança que ele pode proporcionar, mas também pela utilidade, conforto, estilo e até status. Se o fabricante vende a imagem de que o veículo apresenta todos os atributos acima mencionados, deve cumprir sua proposta, sob pena de ludibriar o consumidor. Conside- rando que o automóvel se transformou em instrumen- to de trabalho, e o consumidor paga preço razoável pelo conforto agregado, os defeitos que exigem frequência exagerada de idas ao concessionário para reparo, resul- tando em desvio produtivo, rendem abalo emocional ao consumidor, que reclama reparação sucessivamente e por prazos consideráveis. (TJDFT, 7ª Turma Cível, Acór- dão n. 1104338, 00185461220158070001, Relatora Desª. Leila Arlanch, DJe de 5/7/2018.)
Revist a de d out R ina e Ju R isp R udência. 54. B R asíl ia. 110 (2). Ju R isp R udência / J an -J un 2019
Des. Romeu Gonzaga Neiva
A Teoria do Desvio Produtivo, desenvolvida pelo jurista Marcos Dessaune, firmou o en- tendimento que cristaliza a percepção incômoda das situações injustas e indignas que permeia a todos, focando num ponto essencial da afronta que se faz por estas ações contra o consumidor: o tempo produtivo perdido como elemento econômico palpável, mesmo que não necessariamente metricamente apurado. A escassez e finitude do tem- po faz dele um bem precioso a ser valorado e merece proteção. A máxima do “tempo é dinheiro” pode ser apropriada em vários sentidos da vida econômica e jurídica, pois as remunerações do trabalho têm no tempo sua base, o judiciário o utiliza para cadenciar os atos processuais e o tem como exigência, além de tê-lo como parâmetro “razoável de duração de processos”, a televisão conta os segundos para valorar seus serviços, e tantas outras circunstâncias em que o tempo é a medida de sucesso, fracasso, ganhos e perdas. Porque, então, o consumidor mal atendido poderia infindamente dispor do seu tempo em benefício exclusivo do fornecedor desidioso? A teoria do Desvio Produtivo do Consumidor defende que todo tempo desperdiçado pelo consumidor para a solução de problemas gerados por maus fornecedores constitui dano indenizável. Se ao cida- dão é imposta a necessidade de dispor de horas de trabalho, de lazer, de convívio com a família e de tantas outras atividades produtivas para buscar suprir uma deficiência criada por outrem, justo seria que fosse ressarcido deste custo a que foi impelido a “de- sembolsar”. (...) O tempo perdido constitui um bem irrecuperável na vida do cidadão. A simples perda de tempo em razão de fatores cotidianos não pode ser imputada ao fornecedor e moldá-lo como desidioso. Se aplica ao conceito de desvio produtivo do consumidor aquelas perdas ocasionadas pelas falhas reiteradas do produto e prestação de serviços, mormente à assistência ao consumidor, ao impor a ele o descaso, a inefi- ciência, a negligência e a procrastinação infindáveis, que em muito extrapolem o razo- ável e aceitável. (...) Neste diapasão, vários doutrinadores e julgados têm forjado o en- tendimento que o tempo desperdiçado em prol da resolução de problemas advindos de vícios de produtos adquiridos e serviços contratados de mau fornecedores constituem desvio produtivo do consumidor e merece indenização. (...) do exposto, é justo que o
incontável tempo produtivo desviado do consumidor para sanar problemas origina- dos pela apelada e os aborrecimentos, dissabores e angústias por eles causados, que em muito superam a normalidade, impõe-se que a estudante seja indenizada por danos morais. (TJDFT, 7ª Turma Cível, Acórdão n. 1167581, 07007495320188070008,
Relator Des. Romeu Gonzaga Neiva, DJe de 7/5/2019, grifo no original.)
No mesmo sentido, recentes julgados dos Juizados Especiais deste Tribunal:
Juiz Asiel Henrique de Sousa
7. Em abono a esse entendimento cresce na jurisprudência a Teoria do Desvio Pro- dutivo do Consumidor, já adotada por Tribunais de Justiça e pelo STJ, que reconhece que a perda de tempo imposta ao consumidor pelo fornecedor, de modo abusivo, para o reconhecimento do seu direito enseja indenização por danos morais. 8. O que se indeniza, nesse caso, não o descumprimento contratual, mas a desnecessária perda de tempo útil imposta ao consumidor, o qual poderia ser empregado nos afazeres da vida, seja no trabalho, no lazer, nos estudos, no descaso ou em qualquer outra ativida- de, e que, por força da abusiva desídia do fornecedor, é empregado para o reconheci- mento dos direitos do consumidor. (...) 10. No caso em exame, observa-se que o autor solicitava mensalmente a retificação de sua fatura telefônica, o que lhe demandava tempo demasiado. 11. Dado o contexto fático probatório, tenho como certo que a situ- ação dos autos não se contém no mero descumprimento contratual. Para, além disso, ingressar no campo da omissão abusiva no atendimento dos reclamos do consumidor, tudo a ensejar indenização por danos morais. (TJDFT, 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais do Distrito Federal, Acórdão n. 1167896, 07442113620188070016, Relator Juiz Asiel Henrique de Sousa, DJe de 15/5/2019.)
Revist a de d out R ina e Ju R isp R udência. 54. B R asíl ia. 110 (2). Ju R isp R udência / J an -J un 2019
Juiz Fabrício Fontoura Bezerra
9. (...) O dano moral decorre de uma violação de direitos da personalidade, atingin- do, em última análise, o sentimento de dignidade da vítima. Pode ser definido como a privação ou lesão de direito da personalidade, independentemente de repercussão patrimonial direta, desconsiderando-se o mero mal-estar, dissabor ou vicissitude do cotidiano, sendo que a sanção consiste na imposição de uma indenização, cujo valor é fixado judicialmente, com a finalidade de compensar a vítima, punir o infrator e pre- venir fatos semelhantes que provocam insegurança jurídica. 10. Os fatos narrados na petição inicial superam o mero aborrecimento do cotidiano, pois ensejaram empenho extraordinário da recorrida, idosa de 85 anos, em resolver a situação, o que resultou em perda valiosa de seu tempo, com base na teoria do desvio produtivo, em ida e aber- tura de processo no PROCON, ligações, angústia e frustração na expectativa de solu- ção de seu caso, além do sentimento notável de indignação com o ocorrido. (TJDFT, 1ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do DF, Acórdão n. 1165199, 07495273020188070016, Relator Juiz Fabrício Fontoura Bezerra, DJe de 23/4/2019.)
Juiz João Luís Fischer Dias
8. Quanto ao dano moral, aplica-se ao caso a Teoria do Desvio Produtivo, já reconhecida pela jurisprudência pátria, diante da irreparável perda de tempo sofrida pelo consu- midor para a resolução da questão, que se estendeu por volta de 1 ano e 3 meses até o ajuizamento da demanda judicial. Neste intervalo, conforme documentado nos autos, o autor fez diversos contatos telefônicos com a recorrente, bem como compareceu em 3 situações distintas ao Procon/DF para registrar reclamações pela falha na prestação do serviço da ré, fatos que trazem angústias que superam o mero aborrecimento. (TJDFT, 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais do DF, Acórdão n. 1163290, 07080038320188070006, Relator Juiz João Luís Fischer Dias, DJe de 12/4/2019.)
Revist a de d out R ina e Ju R isp R udência. 54. B R asíl ia. 110 (2). Ju R isp R udência / J an -J un 2019