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7 PRODUTO EDUCATIVO: PERCURSOS FORMATIVOS COM

7.3 ENCONTROS

7.3.3 Terceiro Encontro

Esse encontro foi constituído com objetivo de fazer emergir as implicações e aproximações, entre as diversas culturas imateriais e as escolas da Serra. Entre as culturas estudadas, ressaltamos as práticas com o Congo e a Folia de Reis, como possibilidade para um trabalho de reconhecimento das culturas invisibilizadas. Além disso, analisamos as práticas educativas em torno dos patrimônios culturais imateriais, como potencializadoras de transfigurações nos sujeitos em suas memórias, identidades e pertencimentos.

Os momentos foram direcionados com minha contribuição enquanto professora responsável, e com a importante colaboração da Prof.ª Elinete Antunes do Nascimento, coordenadora do Congo Mirim de Nova Almeida, carinhosamente conhecida por “tia Neném”, que compartilhou suas experiências com o Congo Mirim nas escolas em que atuou. As professoras cursistas envolveram-se de forma fluida no movimento, escutando de forma sensível, dialogando ideias e vivências ligadas ao cotidiano escolar e a cultura do Congo na Serra. Trazemos agora mais três perguntas trabalhadas momentos antes com as docentes:

1 - Após os estudos realizados, como você considera a cultura imaterial e sua aplicação em sala de aula?

2 - Você já ouviu falar do Congo na Serra? Sabe do que se trata? A escola em que você atua já trabalhou esse tema?

3 - Você já ouviu falar da Folia de Reis na Serra? Sabe do que se trata? A escola em que você atua já trabalhou esse tema?

“Quão importante, interessante é saber agora e compreender que a cultura imaterial perpassa e vislumbra toda uma história”.

Ginga

“A cultura imaterial atravessa gerações e esse conhecimento necessita ser aplicado, trabalhado com nossos alunos em sala de aula.”

Cantoria

“Se trata de uma cultura de gerações, não vejo muito no contexto escolar”. Coroa

“A escola em que estou nunca trabalhou o tema”. Estandarte

“Sim, já ouvi falar da Folia de Reis, não conheço muito, não sei do que se trata”. Fita

“Cresci vendo o Congo passar, meu pai participava do Congo, tocava instrumento”. Princesa

“A tempos atrás eu nem tinha interesse em conhecer, o que me levou a me interessar um pouco foi meu filho participar de uma aula de campo na escola”.

Casaca

Ao analisar as questões tivemos algumas percepções: a primeira foi de que, praticamente todo o público acredita na necessidade e importância do trabalho com a cultura imaterial nas escolas, algo que já havíamos notado nas respostas de uma pergunta semelhante aplicada em outro encontro. As narrativas nos inclinam a compreender que os docentes possuem anseios por conhecer de forma mais aprofundada a temática, considerando-a necessária no universo das práticas pedagógicas. A segunda percepção foi que: mais da metade do grupo, nunca ouviu falar ou não sabe dizer o que é, o Congo ou a Folia de Reis, essa última cultura demonstrou ser ainda menos conhecida.

Outra questão que surgiu, foi a quase ausência de trabalhos com o Congo e a Folia de Reis no cotidiano das escolas. Essas duas inferências, nos levam a algumas afirmativas ligadas a falta de visibilidade das culturas populares em seus sujeitos, dentro de seu contexto local, nas diversas instituições. Partindo desse “embaraço”, burilamos internamente o seguinte questionamento: como os sujeitos podem reconhecer e se apropriar de suas culturas, se corremos o risco de em ambientes focais para fruição educacional, como as escolas, da não abordagem dessas produções?

Fotografia 18 - Professora Elinete Antunes (de preto à frente) após o diálogo com o grupo em 26 de outubro 2019

Fonte: Arquivo pessoal da autora (2019).

Nesse mesmo encontro, tivemos outra colaboração significativa, que foi exercida pela Prof.ª mestranda Elisa Barcellos da Cunha e pela Prof.ª Dra. Ana Flávia Souza Sofiste, essas colaboraram realizando uma oficina sobre a importância do brincar enquanto produção cultural imaterial nas escolas. A vivência coletiva teve por principal proposta, a produção de um estudo sobre jogos e brincadeiras, considerando o fomento de culturas lúdicas, aprendizagens e pertencimentos nos sujeitos presentes na escola.

Reconhecemos que a cultura do brincar não fora o foco do nosso estudo, contudo nos permitimos trabalhá-la por ser uma cultura imaterial inerente ao cotidiano das escolas nos anos iniciais, porém pouco reconhecidas como cultura importante para formação dos sujeitos. Esse exercício, também objetivou analisar formas de preservação e ressignificação do brincar enquanto patrimônio cultural imaterial. Após um momento expositivo/dialógico, foi proposto as docentes cursistas, a participação em experimentos com brincadeiras e aprendizagens na área interna e externa do centro de formação, o grupo aceitou, participando ativamente. Essa experiência coletiva fora produtiva e prazerosa dentro do nosso processo formativo.

Fotografia 19 - Práticas brincantes com docentes cursistas em 26 de outubro de 2019

Fonte: Arquivo pessoal da autora (2019).

7.3.4 Quarto Encontro

As ações formativas deste dia tiveram o propósito de trazer algumas considerações criticas, relacionadas á importância da cultura imaterial, a partir de uma análise ampliada das expressões do Congo e da Folia de Reis em Nova Almeida/Serra. Focamos na relevância do reconhecimento dessas culturas, tendo em vista suas potencialidades para tratar das relações étnico-raciais na educação escolar.

As ações desse encontro foram distribuídas da seguinte forma: pela manhã tivemos a importante colaboração da Prof.ª Dra. Marina Rodrigues Miranda da Universidade Federal do Sul da Bahia, que ministrou a oficina intitulada: “Pedagogia dos tambores das casacas e das flechas”, com a intenção de fomentar discussões em torno do reconhecimento das culturas e etnias. A professora conduziu uma “experiência do sensível” com as docentes cursistas, usando elementos da natureza como terra e artefatos culturais indígenas e afro-brasileiros. Em roda e com um pequeno punhado de terra na mão (foi proposto antes que as docentes trouxessem dos locais que considerassem importante em suas vidas), as docentes compartilharam suas experiências, enquanto educadoras que são atravessadas por questões étnicas e culturais. No período vespertino direcionei a ação, partilhando com o grupo sobre uma experiência de campo realizada nesta pesquisa, durante as apresentações do Congo e da Folia de Reis, na comunidade de Nova Almeida entre janeiro e março de 2019.

Para esse encontro, nos amparamos pelos estudos de Antônio Nóvoa (1992) (2002), que defende uma identidade profissional pluridimensional para os professores. Para as discussões étnicas e culturais, nos direcionamos pelas pesquisas de Kabengele Munanga (2012) (2005). Foi oportunizado as docentes momentos de interação e de partilha de suas vidas, durante os diálogos nos deparamos com os seguintes relatos:

“Eu sendo branca me incomodava, porque eu tenho irmãos negros, minha irmã é negra, meu esposo é negro e eu, em uma família de negros, percebia que meu tom de pele prevalecia por eu ser branca, aquilo me incomodava”.

Vozes

“Eu fico pra morrer quando falam: fulano não tem cultura [...] cultura, a gente já nasce dentro dela’.

Cantoria

“É banalizar a cultura daquela região, simplesmente colocam tudo num balaio sacodem e: está aí”.

Foliã

“Eu estou aprendendo muito, estou levando para uma turminha de 1º ano aqui na Serra, vou levar essa experiência para resto da vida está sendo maravilhoso”.

Rainha

“Eu levantei a importância das técnicas africanas que vieram para cá, ai eu fui valorizando os negros na minha aula, e os meus alunos negros, durante a semana inteira escutei a conversa entre eles, eu no quadro passando dever e ouvindo, tá vendo, foi a gente lá atrás”.

Coroa

Os diálogos nos encaminham para alguns questionamentos: o pouco conhecimento dos professores e os escassos reconhecimentos sociais, relacionados às culturas indígenas e afro- brasileiras. Essas questões acabam culminando em preconceitos e desvalorização dessas produções culturais, “alimentando” a persistência do racismo nas escolas. Essa realidade nos foi apresentada por Caprini (2017), quando apontou que, os educandos por vezes, convivem em suas comunidades com a cultura popular, mas essa, muitas vezes, não é reconhecida

dentro do espaço escolar, gerando um processo discriminatório. As narrativas docentes demonstraram a importância da realização de momentos dialógicos, para o debate das questões ligadas à diversidade étnica e identidade docente. Percebemos pelos relatos de experiência, que houve uma gradativa transformação nas práticas dessas docentes cursistas, que passaram a olhar o assunto sob uma nova perspectiva.

Fotografia 20 - Docentes cursistas participando de oficina em 09 de novembro de 2019

Fonte: Arquivo pessoal da autora (2019). Professora Marina Miranda ao centro.

7.3.5 Quinto Encontro

Tivemos como principal objetivo para esse momento, a realização de reflexões sobre a realidade dos projetos e recursos didáticos existentes na escola, sobretudo voltadas para relações étnico-raciais, fazendo observações sobre seus usos, potencialidades e fragilidades. Como no caminho da pesquisa corremos o risco da ocorrência de imprevistos, esses vieram a ocorrer neste encontro, devido ao período dramático de chuvas e alagamentos no estado, o encontro que estava marcado para o 23 de novembro, foi transferido para o dia 27 de novembro.

Nessa data fomos convidados pela Coordenação dos Estudos Étnicos Raciais da Serra, a unir os nossos momentos, aos diálogos dos professores participantes do evento “AfroCelebrart” que ocorreria neste dia. O evento ocorre anualmente para celebrar e homenagear, os profissionais da educação que trabalharam projetos com a temática étnico-racial nas escolas. Percebendo que boa parte de nossos objetivos coadunavam, aceitamos participar da ação. Compreendemos que conhecer os diálogos provenientes dos projetos de “outros” professores,

somaria para nossa reflexão sobre as produções didático-pedagógicas, envolvendo a temática da diversidade étnico-racial. Ademais sabemos que as trocas de experiências, entre o coletivo atingido pelo processo opressor, se projetam como parte do caminho para emancipação dos sujeitos, como demonstramos em Paulo Freire (1987, p.29): “Descobrem que pouco sabem de si mesmos como problema. Descobrem que pouco sabem de si, de seu “posto no cosmos”, e se inquietam por saber mais”.

Foi muito importante para o grupo participar da ação, puderam assim, vislumbrar as possiblidades e desafios de cada projeto apresentado pelos professores, que, diga-se de passagem, desenvolveram projetos belíssimos envolvendo arte, música e cultura. Contudo, nesse encontro tínhamos mais alguns propósitos planejados, pretendíamos que as professoras cursistas fizessem avaliação do nosso produto educativo e ainda, apresentassem o memorial com ação desenvolvida por elas na escola. Não foi possível realizar esses propósitos nesse dia, devido à dinâmica do evento. Por isso, remanejamos esses momentos para o último encontro em Nova Almeida.