ASPECTOS ECONÔMICOS, SOCIOCULTURAIS E ECOLÓGICOS
MANDIOCA COMESTÍVEL
3. ASPECTOS ECOSSOCIOCULTURAIS E FILOSÓFICOS DA MANDIOCA
3.2 TERRITÓRIOS HABIT VERSUS MANDIOCA E SUSTEN TABILIDADE
Os territórios habitados pelos povos originários, assim como os terri- tórios rurais de agricultura de subsistência, são habitualmente espaços permeados pela mandioca desde seu plantio, passando pela colheita, processamento, e marcando socialmente os sujeitos envolvidos, até consumo. A partir de uma narrativa do povo Apurinã6, apresentam-se essas etapas que envolvem a mandioca e seus territórios habituais.
O plantio é uma atividade que envolve toda a família: enquanto o homem abre as covas para, junto com um filho, irem enterrando a maniva (caule da mandioca que serve de muda), a mãe vai cobrindo as covas com terra. Quando as raízes estão crescidas, são arrancadas da terra pelos homens,
6. Povo originário fixado no vale do Rio Purus – Amazonas. População em 2014 estimada em 9.487 indivíduos.
que já separam as manivas para o próximo plantio. São eles que levam a produção de mandioca para a aldeia, onde fica a Casa de Farinha, local onde é fabricada. As mulheres descascam e lavam as raízes da mandioca para os homens ralarem. Como a quantidade a ser produzida é, em geral, grande, utilizam uma pequena máquina rústica, chamada caititu (em alu- são talvez aos catetos, porcos silvestres que atacam roças de mandioca). É também o homem quem espreme a massa no tipiti, um cilindro trançado de cipó, cuja extremidade superior é amarrada ao alto de uma estrutura de troncos finos. Um travessão preso à extremidade inferior vai puxando, de modo a retirar da massa todo o seu líquido. Num grande forno abastecido a lenha, a farinha é esparramada no tacho de cobre onde, com o auxílio de uma pá, os homens a torram. Os Apurinã consomem a mandioca na forma de farinha, beiju e caiçuma – bebida fermentada. A farinha asso- ciada ao peixe é a base da dieta Apurinã, que é complementada por frutas silvestres como piquiá, bacuri, cacau bravo, buriti, abacaba, açaí e patuá. (MUSEU do ÍNDIO, 2020, p. 1-2)
Na transcrição acima depreende-se as etapas de manuseio da man- dioca e a função social dos envolvidos neste, bem como os aspectos sustentáveis da produção, além de suas técnicas. O plantio enquanto tarefa familiar, situação rotineira para indígenas e família de agricul- tores rurais, o processo de aprendizagem via tradição comum entre os povos originários está presente na narrativa. Quando pensa-se no trabalho familiar de agricultores não indígenas, percebe-se uma dis- sociação da tradição, mas infere-se a necessidade de mão de obra. A presença da criança junto aos pais é percebida como natural entre os denominados indígenas e faz parte do processo de aprendizagem da vida e manutenção dos traços culturais e do cuidado de Gaia.7 A pre- sença das crianças na roça de não indígenas pode ser entendida como ausência à escola formal, logo, como ausência de processo educativo,
ou ainda questionar-se como a educação do campo absorve o currícu- lo oculto dessas crianças.
O aproveitamento do caule da planta demostra a autonomia dos pro- dutores e o reuso da natureza, logo atende a uma das premissas da susten- tabilidade. Elementos da produção sustentáveis e de manejo responsavel- mente ecológico são perceptíveis na narrativa sobre produção mandiocal. A dinâmica produtiva da mandioca narrada acima traz claramente a divisão sexual do trabalho, com requisitos relacionados à condição biológica de suportar peso. Há presença de técnicas e ferramentas não agressivas ao meio ambiente, por utilizar tração humana, sem uso de combustíveis ou elementos químicos, remetendo à condição de sus- tentabilidade presente na forma de produção da mandioca pelos selva- gens/povos originários, a qual pode ser entendida através das percep- ções filosóficas de Mello (2012, p. 90):
Seja em trânsito ou de forma mais estável, na moradia, nas edificações e territórios que compõem uma situação, a aprendizagem da potência de habitar o mundo, que é parte do processo autopoiético de criar um modo de vida, ocorre pelo desenvolvimento de um cuidado de si, que desde tem- pos antigos foi pensado como algo que incluía o cuidado com a casa e com a terra. Em A hermenêutica do sujeito, Foucault nos apresenta uma espécie de “estágio” no campo, num sítio onde se pode dedicar-se à sustentabili- dade, que constituía parte do aprendizado romano do cuidado de si, que incluía leituras como Da agricultura de Catão e Econômico de Xenofonte. Corroborando com Mello (2012), destaca-se que manusear o meio am- biente com cuidado e cuidando de si mesmo é tornar-se ecologicamente humano. A reunião social na casa de farinha é demonstração de compor- tamentos comunitários e de partilha das tarefas e dos resultados, pois ins- taura-se o coletivo. Novamente a casa /oca para além da mandioca/raiz é o espaço da casa/oca de farinha, logo, habitat em que os sujeitos trazem seu pertencimento e interagem com os pares, reacendendo, assim,
As perspectivas que se voltam para os sentidos locais da existência se ocupam com a estruturação de seu habitat a partir da casa ou moradia. Nesta ocupa- ção, a segurança e o conforto mostram-se preocupações comuns na efetiva- ção de um modo de vida e o design do espaço e de seu uso quanto a recursos, alimentos, energias, edificação, resíduos, conduzem o processo autopoiético do corpoema à criação de uma obra de arte ambiental que transfigura o espa- ço segundo o desejo de apropriação que se desenvolve. (MELLO, 2012, p. 91) A dimensão comunitária, que tem cunho social e ecológico na pro- dução da mandioca, pode ser entendida no viés de Mello (2012, p. 104): Essa dimensão comunitária da relação com a natureza no âmbito do ecos- sistema é considerada por Bookchin como algo que conduz o ser humano a um uso mais inteligente e cuidadoso da natureza, na medida em que o leve a perceber de que modo sua vida está interrelacionada com a dos ou- tros seres, humanos, animais e vegetais.
Esgotada a análise da dimensão comunitária, destaca-se o caráter rudi- mentar da máquina rústica, caititu, com nome alusivo a animal, utilizada pelos Aipurinã para processamento da mandioca e enlaçá-la com a aná- lise de Montaigne sobre selvagem, quando assim escreveu que “eles são selvagens como nós chamamos selvagens os frutos que a natureza por si por seu progresso ordinário, produziu” (CASCUDO, 1940, p. 14). A cons- tatação de Montaigne decorre de sua observação detalhada e filosófica dos nossos povos originários, chegando a ser considerado por Cascudo (1940, p. 9) “um prematuro americanista”, e que hodiernamente poderia ser con- siderado um prematuro decolonialista8, tendo em vista que
8. O pensamento decolonial objetiva problematizar a manutenção das condições colonizadas da epistemologia, buscando a emancipação absoluta de todos os tipos de opressão e domina- ção, ao articular interdisciplinarmente cultura, política e economia de maneira a construir um campo totalmente inovador de pensamento que privilegie os elementos epistêmicos locais em detrimento dos legados impostos pela situação colonial (REIS; ANDRADE 2018, p. 3).
O estudo de Montaigne sobre os canibais merece divulgação, é uma reu- nião de dados etnográficos curiosos, muitos não são encontrados noutras fontes. Ele ouviu marinheiros e mercadores fazendo relação com os via- jantes da França, Antártica, hospedou muito tempo quem viverá 12 anos no Brasil do meio século quinhentista, apaixonou-se pelo assunto e reuniu em sua casa uma coleção de armas e utensílios indígenas. (CASCUDO, 1940, p. 8)
O consumo aparece de forma variada, seja pela presença do beiju, o “pão de índio”, versão salgada acompanhada de proteína de peixe, e ainda há a receita frugal. A alimentação age como elo entre os mem- bros da comunidade, promovendo as memórias afetivas nutricionais. Por esse breve relato, demonstra-se as múltiplas possibilidades que se estende da produção até o consumo humano da mandioca.