3.6 Tipologias de redes
3.6.2 Tipos específicos de redes
Os tipos específicos de rede referem-se às tipologias definidas por estudiosos do tema, os quais têm desenvolvido pesquisas que sustentam tais propostas.
Ernst (1998)apud Castells (2000, p.209-210), ao sistematizar as muitas informações sobre a
formação de redes entre empresas na economia global, aponta que a maioria das atividades econômicas nos setores mais importantes é organizada em cinco tipos diferentes de redes, a saber:
? Redes de fornecedores: envolvem a subcontratação e acordos entre um cliente e seus
fornecedores, e acordos entre um cliente e seus fornecedores de insumos intermediários para a produção;
? Redes de produtores: abrangem todos os acordos de co-produção que oferecem
possibilidade a produtores concorrentes de juntarem suas capacidades de produção e recursos financeiros e humanos com a finalidade de ampliar seus portifólios de produtos, assim como sua cobertura geográfica;
? Redes de clientes: são os contratos e acordos firmados entre as indústrias e distribuidores,
canais de comercialização, revendedores com valor agregado e usuários finais nos grandes mercados de exportação ou nos mercados domésticos;
? Redes de coalizões-padrão: são formadas por potenciais definidores de padrões globais
com o objetivo explícito de prender o maior número de empresas possível a seu produto proprietário ou padrões de interface.
? Redes de cooperação tecnológica: são formadas com o objetivo explícito de facilitar a
aquisição de tecnologia para projetos e produção de produtos, capacitar o desenvolvimento conjunto dos processos e da produção, permitindo acesso compartilhado a conhecimentos científicos genéricos e de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
Para Miles e Snow (1986), as redes são classificadas de acordo com seu maior ou menor grau de integração em redes internas, estáveis ou dinâmicas, com as características descritas a seguir:
? Redes internas: arranjo com a lógica da integração vertical, no qual as transações são
efetuadas entre unidades especializadas, coordenadas e pertencentes a um organismo central;
? Redes estáveis: arranjo que se situa entre a integração vertical e o mercado, no qual uma
organização nuclear delega atividades, que não são consideradas centrais para a organização, a outras organizações;
? Redes dinâmicas: arranjo mais próximo das negociações de mercado, no qual uma
organização central coordena as atividades das demais organizações responsáveis pelas operações.
De acordo com Cassaroto Filho e Pires (1999), as redes podem ser diferenciadas em:
? Rede top down, na qual uma organização pode se tornar fornecedora de uma organização-
mãe, ou, principalmente, subfornecedora. É uma estrutura organizacional em rede na qual a fornecedora é altamente dependente ou submissa à organização-mãe, e, portanto, tem
pouca ou nenhuma flexibilidade ou poder nos destinos da rede;
? Rede flexível, na qual as organizações se reúnem num consórcio com objetivos amplos ou
restritos, simulando a administração de uma grande organização, mas com maior flexibilidade para produtos diferenciados. O consórcio ocorre quando várias organizações se reúnem para criar uma nova organização responsável por executar determinadas operações, ou para, juntas, enfrentarem a concorrência, ou para atender a ambos os objetivos.
A Rede top down é constituída por uma organização-produtora, a qual é provida de materiais e insumos exclusivamente por organizações-fornecedoras selecionadas, as quais, por sua vez, podem ter seus próprios fornecedores também. A Rede flexível é constituída por organizações-produtoras que se juntam em consórcio, recebendo, por sua vez, os fornecimentos necessários das organizações-fornecedoras para elaborar os produtos solicitados e oferecê-los às organizações-clientes.
Outro tipo de classificação utilizada para analisar as redes de empresas é a sua divisão em redes verticais e horizontais, conforme Castells (2000):
? Redes verticais: compreendem os relacionamentos que ocorrem ao longo da cadeia
produtiva, como parcerias de empresas com seus fornecedores, as terceirizações, as parcerias estratégicas de fabricantes com distribuidores, a gestão da cadeia de suprimentos e demais formas de cooperação que se estabelecem entre fornecedores e clientes;
? Redes horizontais: os relacionamentos se estabelecem entre empresas rivais, que
produzem e oferecem produtos similares, atuam no mesmo ambientes e competem pelos mesmos clientes, como consórcios, associações comerciais, etc.
Wood (2000) considera três tipos de estruturas de rede:
? Estrutura modular: as atividades consideradas essenciais são desempenhadas no interior
da empresa e as atividades de apoio são desenvolvidas por empresas terceirizadas;
? Estrutura virtual: os fornecedores, clientes e/ou concorrentes se ligam apenas
temporariamente;
? Estrutura livre de barreiras: as funções, papéis e tarefas são menos rígidos dentro da
De acordo com Grandori e Soda (1995), a partir da revisão e organização de vasta literatura, as redes de empresas podem ser classificadas em função de duas dimensões. Na primeira dimensão, as redes são classificadas segundo seus mecanismos de coordenação, grau de centralização e formalização, enquanto que, na segunda dimensão, as redes são classificadas segundo a forma como o poder é distribuído entre os atores.
Três tipos básicos de redes empresariais são propostas por esses autores na primeira dimensão:
? Redes sociais: têm como característica a informalidade;
? Redes burocráticas: têm como característica a regulação dos relacionamentos por me io de um contrato formal;
? Redes proprietárias: têm como característica a formalização do acordo de propriedade.
Na segunda dimensão de Grandori e Soda (1995), as redes são definidas em função de como o poder é distribuído entre seus participantes. Nesse caso, elas podem ser simétricas ou assimétricas:
? Redes simétricas: arranjos nos quais o poder não está centralizado em um dos membros;
? Redes assimétricas: arranjos nos quais existe um agente que exerce poder de forma diferenciada em relação aos demais participantes.
Sanches (2003), baseado em Grandori e Soda (1995), propôs uma classificação para as redes que pode ser vista no Quadro 10.
Redes Simétricas Assimétricas
Sociais Pólos e distritos industriais interlocking directorates
Rede de fornecedores vinculados informalmente a uma empresa
Burocráticas Associações comerciais, federações e consórcios
Acordos de licenciamento e contratos de franquia
Proprietárias Joint ventures Capital venture
Quadro 10: Redes de empresas segundo Grandori e Soda Fonte: SANCHES, 2003, p.91.
Citando diversos trabalhos de Bessant e Tsekouras (1998, 1999a, 1999b), Teixeira e Guerra (2002) introduzem um importante tipo de rede organizacional, a rede de aprendizado.
Segundo Teixeira e Guerra (2002, p.99), a partir de experiênc ias internacionais e estudos teóricos sobre aprendizado organizacional, passou-se a definir rede de aprendizado (learning
network) como “um conjunto de empresas, com algum grau de coordenação formalmente
estabelecido, que se reúnem com o objetivo de aumentar o pool social de conhecimentos e informações”.
Essas redes de aprendizado podem ter diferentes classificações, conforme pode ser visto no Quadro 11.
Tipo de rede Alvo do aprendizado Exemplos
Profissional Aumentar o conhecimento e as capacitações profis sionais visando atingir a melhor prática na área.
Rede organizada por entidade de categoria profissional.
Setorial Melhorar a competência em algum aspecto do desempenho competitivo de um setor, por exemplo, conhecimento tecnológico.
Rede organizada por sindicato patronal, associação de indústria ou entidade de pesquisa voltada para um setor.
Regional Aumentar o conhecimento sobre temas de interesse regional. Por exemplo, rede de pequenas e microempresas voltadas para exportação, difusão tecnológica e me lhorias gerenciais, etc.
Cooperativas de aprendizado que podem levar à formação de clusters.
Cadeia de suprimento
Alcançar padrões de qualidade, custo e atendimento demandados por cliente(s) ao final de uma cadeia de suprimento (supply chain).
Rede de firmas que participam de uma cadeia de suprimento com grandes clientes finais.
Promovida pelo governo
Iniciativas nacionais ou regionais visando melhorar o desempenho competitivo de grupos de empresa, em termos de conhecimentos sobre novas tecnologias, exportação, marketing, etc.
Redes organizadas por agências regionais ou setoriais de desenvolvimento.
Tópica Aumentar o conhecimento sobre uma nova técnica, em um campo particular e suas aplicações. Por exemplo, uma nova tecnologia de interesse comum de várias empresas.
Clubes de “melhores práticas”.
Quadro 11 - Tipologia de redes de aprendizado Fonte: TEIXEIRA; GUERRA, 2002, p.99.
Como demonstrado, existem diversas tipologias propostas por diferentes autores, baseadas em variados marcos conceituais. Tomando por base os autores mencionados, pode-se classificar a rede em estudo neste trabalho, a rede de aprendizado, conforme os seguintes os critérios:
a) Classificação genérica:
? quanto à nacionalidade: local
? quanto ao número: poli-rede
? quanto à propriedade: privada
? quanto aos processos de negócios conjuntos: integrada ? quanto ao sentido abstrato-concreto: físico
? quanto ao acordo: formal
? quanto ao tempo: variável
? quanto ao setor de atuação: industrial, comercial e serviços
? quanto ao tamanho: similar
? quanto ao grau de integração de layouts: sedes independentes
b) Classificação específica:
Com relação às classificações específicas apresentadas, a rede em estudo neste trabalho possui características que pode classificá-la como uma rede de cooperação tecnológica (ERNST, 1994), dinâmica (MILES; SNOW, 1992), flexível (CASSAROTO FILHO; PIRES, 1999),
social e simétrica (GRANDORI; SODA, 1995), estrutura livre de barreiras (WOOD, 2000),
não se aplicando aqui a tipologia de Castells (2000). Sobretudo, a rede em estudo se caracteriza como uma rede de aprendizado, segundo a definição proposta por Teixeira e Guerra (2002), do tipo tópica, em que a melhoria e desenvolvimento da gestão empresarial constitui-se no seu objetivo primário.
Uma vez apresentada a tipologia de redes e definido o tipo de rede tratado nesta pesquisa, será abordado no próximo tópico, especificamente, os atributos presentes em redes organizacionais que lhes garantam o sucesso no atingimento dos seus objetivos intrínsecos.