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6. Individualidade, linguagem e emoção como ponto de partida para

6.7 Relatos biográficos – seis jovens entre os sonhos, os desejos, as

6.7.6 Caso 6 – Taciana: mãos que cuidam – trabalho doméstico, trabalho com

6.7.6.5 Trabalho e vida privada no mesmo espaço e tempo

Antes do atual emprego, Taciana trabalhou entre os Bairros Meireles e Aldeota em duas “casas de família”, como ela mesma diz. Ambas não deram certo pelo excesso de

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função, tendo que ser empregada doméstica e cuidadora de idosos, ou babá. Nos dois casos ela mesma pediu para sair.

Atualmente a jovem mora perto da Escola no bairro Aldeota, na Rua Nunes Valente, onde trabalha como empregada doméstica e cuidadora de uma idosa. Sua patroa sofre de esquizofrenia, e por isso, além de doméstica, como consta na sua carteira de trabalho, ela divide diariamente com uma colega, os cuidados paliativos. A colega de trabalho, embora tenha a carteira de trabalho assinada como doméstica, realiza a função de técnica em enfermagem, sendo apenas responsável pela medicação e serviços com a saúde da patroa, chegando às 10:00h e saindo às 16:00h.

Taciana acha injusto e é descontente com essa situação, pois considera que a colega não faz nada, pois trabalha menos tempo e ganha mais que ela. Taciana tem a carteira assinada como doméstica, mas além das tarefas de limpeza e cozinha, também regula a quantidade e horários dos remédios da patroa, que soma mais de dez remédios por dia. Compadecida com a situação da senhora, comenta: “coitada, é tanto dinheiro pra nada, porque a mulher é doida de pedra”. Uma das incumbências do seu trabalho é como acompanhante em tempo integral, inclusive no noturno. Diz que há noites que a patroa passa a noite batendo na porta de seu quarto.

Taciana disse gostar muito do seu trabalho porque tem liberdade para sair e às vezes quando gasta demais recebe ajuda da empregadora. Sobre a relação das duas, ela diz que “já é amor fraternal, que ela é uma ótima pessoa”. Pois quando ela não está em crise fazem companhia uma a outra o tempo todo. Conta que ela é muito compreensiva, é só deixar a comida pronta e pode sair para resolver suas coisas. Como já é uma senhora não pode ficar muito tempo sozinha. Taciana diz não ter para onde ir mesmo, então, ambas ficam em casa “comendo coisas gostosas e vendo televisão”, e que acaba recebendo um “agrado” (em dinheiro) por isso.

Quinzenalmente, no final de semana ela passeia na casa de amigos que moram nos bairros Antonio Bezerra e João XXIII. Mas disse gostar de ficar em casa com a patroa, porque segundo ela: “lá eu tenho televisão, internet, comida, dormida [...] desço pra conversar com os porteiros, vou comprar sorvete, bolo pra nós [...] a gente é como se fosse assim, amigas [...] às vezes eu conto minhas coisas pra ela... até que já namorei o porteiro”. A patroa tem duas filhas que moram noutro estado. O filho mais novo voltou de Recife de uma clínica de reabilitação de dependência química para morar com elas, mas não deu certo, pois voltou a ter problemas com drogas, quebrando tudo em casa e querendo bater na mãe. Por isso, mandaram-lhe para o interior trabalhar com o seu pai. Taciana comenta que ela é a pessoa

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mais próxima e presente na vida da patroa. Elas acabaram estabelecendo uma relação para além do profissional.

Relata que no condomínio só tem moradores idosos, que ela é a única jovem lá, que todas as empregadas domésticas são mais velhas também. Disse gostar do lugar onde mora, por considerar tranquilo e agradável, mas lamenta não ter opções de lazer próximo de casa e a falta de companhia para sair.

6.7.6.6 Planos para o futuro

Ao concluir o Ensino Médio, Taciana pretende fazer primeiro o curso de Técnico em Enfermagem que é seu maior alvo no momento. Comenta que é um sonho que cabe no bolso, já que dá para pagar a mensalidade, que custa entre R$ 250, 00 a R$ 300,00. Ela acredita que este curso ajudará a conseguir um emprego provisório em postos de saúde ou numa Unidade de Saúde de Pronto Atendimento (UPA). Depois acha que consegue um emprego melhor que possa lhe sustentar e lhe renda um salário suficiente para pagar sua faculdade.

Sua patroa lhe incentiva a continuar estudando, lhe orienta a procurar fazer outros cursos e que pagará por alguns deles. A tarde quer fazer o curso de inglês, porque quer muito aprender uma língua estrangeira, e sua patroa também sugeriu que fizesse um curso de culinária, ela gostou da ideia e acha que dá para fazer de manhã, porque é um curso rápido e próximo de casa. Ela não quer ficar com tempo ocioso. Senti que está entusiasmada com as possibilidades de incrementar seu currículo e com o apoio que a patroa acenou.

Mas ao perguntar sobre qual seu propósito profissional, Taciana tira uma novidade da cartola dizendo que gostaria de fazer um curso superior ou avançado de computação. Questiono surpresa de onde ela tirou essa ideia já que em todos os contatos que tivemos até então, ela nunca havia mencionado este alvo. Ela rir e diz que é porque gosta muito de mexer em aparelhos tecnológicos e acha que tem facilidade de manusear estes artefatos. Ao mesmo tempo, ela diz saber das dificuldades de estudo e aperfeiçoamento nesta área.

Taciana, assim como as colegas Maitê e Scarlet, revela ter interesse pelo campo da tecnologia da informática, e também cita que é uma área com especialização muito cara, já que é um ramo muito procurado no momento. Percebo que a praticidade e o uso massificado das redes sociais, via inovações tecnológicas, criam um fascínio nos jovens a ponto de confundirem identificação profissional com afinidade para o uso social desta ferramenta.

Em seguida ela diz que vai tentar a área da enfermagem porque acha que é mais garantido para arranjar emprego. Ao aprofundamos a conversa, peço Taciana que abstraia as

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facilidades e as dificuldades que cada uma dessas intenções profissionais carrega e apenas se imagine executando um ofício que lhe realize por muito tempo. Ela pensa e diz que seus testes vocacionais sempre apontam para área de humanas e de saúde, e diz: “é acho que a ‘saúde’ é a que mais me chama. Me imagino com um jaleco branco ajudando as pessoas [...] entre as máquinas e as pessoas, fico com as pessoas. As máquinas são muito frias”.

Pergunto de onde ela acha que veio suas ideias, escolhas e planos de futuro, e ela disse: “da necessidade de trabalhar [...] minhas ideias vem da minha responsabilidade”. Como sua família não tem condições de se manter e de ajuda-la, disse:

Quero uma coisa que me assegure, que me estabilize no futuro. Se fizer o curso (técnico) de enfermagem, depois passar pra uma faculdade, tentar um concurso pra um hospital, se eu passar vou tá garantida pro resto da vida [...]. Aí vou poder ajudar minha mãe e meu pai. Tá entendendo como só tem eu? Então toda responsabilidade deles dois fica pra mim [...].

A jovem acha que não recebeu influência das pessoas, porque nunca teve quem lhe dissesse como deveria proceder na vida, então foi levando a vida do jeito que quis, conta ela. Mas percebo uma contradição. Quando ainda estava morando com os pais, conta que sua mãe lhe mandava seguir de tal maneira, mas ela não seguia por pirraça e, às vezes, porque queria outra coisa mesmo. A impressão que tenho é que ela ignora ou coloca em descrédito a opinião da mãe. Pois conta que, quando sua mãe foi lhe deixando mais à vontade ela até acabava seguindo tais indicações, como era o que mãe gostaria que ela fizesse: “estudar, fazer curso”, ela cita. Ela demonstra dificuldade de acatar as orientações da mãe por insubordinação. Apesar dos poucos recursos, dentro do possível, a mãe de Taciana é extremamente presente e participativa na formação instrucional da filha. Muito mais até do o que pai, que a jovem tanto elogia, mas que pelo que narra, é alcóolatra, meio introspecto e pouco participativo na formação da filha.

Ela não pretende mais voltar para Guaraciaba do Norte, pois não gosta da cidade porque diz que sua mãe controla os horários dela e “o povo é muito mexeriqueiro”, comenta. Mas explica o maior motivo pelo qual não cogita mais voltar para lá:

Porque lá é uma cidade que a gente não tem muita oportunidade, tá entendo? A gente não pode sonhar com uma coisa grande. Então, a maioria das meninas da minha idade, do tempo de escola, o que elas tão? Ou elas se casaram e tem filhos, essas mais do interior, ou então o resto foram pra outras cidades, foram pra Fortaleza, Rio de Janeiro, São Paulo. Então é uma cidade que não tem muito pra pessoa crescer. Agora que surgiu faculdade lá, porque não tinha. Lá se a pessoa quisesse fazer faculdade ia pra Sobral ou pra Tianguá. Lá só tem emprego quem é amigo do prefeito, quem não for, mesmo sendo concursado, ele manda pra longe. Ai penso que não compensa.

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Então o que eu quero? Quero fazer uma casa simples, mas bonita, em cima da casa da minha mãe e abrir um espaço de garagem pro um carrinho. Pra quando eu for passear, ou pra quando um dia eu voltar (...). Meu sonho é poder sustentar eles dois quando eles tiverem mais na velhice. Mas o que eu quero mesmo é ter um canto aqui pra mim, e quando eles tiverem com uma certa idade, eles virem pra onde estou. Porque não vai precisar eles tarem saindo muito, e nem vão mais precisar trabalhar. Então eles dois ficam comigo em casa, tá ótimo. Mas aqui (em Fortaleza).

Sempre quando alguém precisa de ajuda, chamam Taciana. Por isso ela acha que se encaminhará para enfermagem, por acreditar que será possível ajudar mais gente. Sobretudo, quem não tem condições de pagar, que não tem acesso para ir pra médico. Descreve-se como uma pessoa alegre, sorridente, comunicativa, e acha que até poderia ser psicóloga porque costuma ouvir e aconselhar as pessoas (é o que ela pensa sobre o psicólogo).

Acha que sabe ajudar os outros, mas lamenta não saber se ajudar, e deixa entrever alguns fragmentos de insatisfações afetivas. Mas considera que sua vocação é ajudar as pessoas, e confessa que:

Se pudesse sairia pelo mundo, que nem tem gente que vai pra Amazônia. Eu adoro viajar, mesmo tendo viajado pouco. Aí queria ir pra aquelas aldeias, ajudar os índios. Gosto de fazer experiências [...]. Eu penso nas recompensas não por dinheiro, mas as recompensas que vem Deus. Melhor ajudar as pessoas, hoje é todo mundo ocupado, não tem quem cuide dos doentes. Máquina todo mundo mexe, todo mundo vê... Agora pessoas nem todo mundo é capaz de as outras. Eu penso assim.

Comenta que uma senhora moradora do prédio em que mora e trabalha é muito grata pela ajuda que Taciana já lhe prestou. Frequentemente, esta senhora lhe incentiva a estudar e ingressar no ensino superior, dizendo que ela é muito capacitada. Mas a jovem contesta dizendo: “Acho que não sou tão capacitada assim, que nem o filho dela, por exemplo, que estuda no Christus37 e passo o dia estudando”. Questiono se ela acha que não tem a mesma capacidade ou não a mesma condição de dedicação de estudos que o jovem citado tem, já que ela mesma disse que ele passa o dia estudando. Ela pensa e diz:

Eu passo o dia correndo [...] não posso me dar ao luxo de passar o dia estudando que nem ele. Tenho que me sustentar e ajudar meus pais. Acho que no mercado de trabalho não vou ter tanta chance por causa desse fator. Porque tem gente que tem muito mais estudo do que eu, que pode ter vários cursos, pode fazer estágio pra ter mais experiência... e ser mais qualificado. [...] mas com tudo isso, vou continuar lutando até vencer! [...] e como me esforço bastante... espero muitas alegrias na vida.

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