Capítulo IV – Trabalho Pedagógico na práxis: movimentos de transformação?
4.1 Trabalho Pedagógico na EJA EPT: como se materializa?
A práxis no trabalho pedagógico está intimamente ligada ao seu papel de proporcionar “a ação de transformação do homem sobre uma matéria natural, natureza imediata, ou natureza já mediatizada ou trabalhada, que serve de objeto de uma nova ação” (VÁZQUEZ, 2011, p. 232). Quando o homem é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto da práxis, isto é, quando esta atua sobre si mesmo, tem-se, então, a práxis política.
A práxis política pressupõe a participação de amplos setores da sociedade. Persegue determinados fins que correspondem aos interesses radicais das classes sociais, e em cada situação concreta a realização desses fins é condicionada pelas possibilidades objetivas inscritas na própria realidade. Uma política que corresponda a essas possibilidades e que exclua todo aventureirismo exige um conhecimento dessa realidade e da correlação de classes para não se proporem ações que desemboquem inexoravelmente em um fracasso. A luta tem de ser, portanto, consciente, organizada e dirigida; e a necessidade de travá-la dessa forma explica a existência dos partidos políticos (VÁZQUEZ, 2011, p. 233).
Trazendo essa relação estabelecida pelo autor, entre os interesses das classes sociais e a ação organizada dos partidos políticos para o ambiente escolar, compreendemos que, mudar
29 Construiu-se esse entendimento a partir das vivências teóricas e práticas da pesquisa e, especialmente,
transformações vivenciadas no Grupo de Interlocução, com destaque para os momentos em que os professores percebem a valorização de seu papel na formação dos estudantes e a importância de ampliar os espaços de participação da classe trabalhadora nas decisões e na política de EJA EPT. Além disso, para evitar possíveis erros de interpretação, reforçamos que nesta perspectiva de compreensão não se pretende afirmar que, necessariamente, o Trabalho Pedagógico está na Práxis, mas, sim, de que a transformação acontece quando o TP é práxico, isto é, considera-se a dimensão política do TP.
uma determinada realidade social, transformando o ideal em real, implica não somente conhecer a realidade que se pretende transformar, mas também, reconhecer as relações dialéticas presentes na sociedade dividida em classes antagônicas e pensar coletivamente, de forma organizada e dirigida para não frustrar a atividade da práxis revolucionária30.
Os professores, como um dos sujeitos do trabalho pedagógico responsáveis por mediar o processo de produção do conhecimento, veem algumas dificuldades de realização da práxis, em seu trabalho pedagógico individual. Esse trabalho se movimenta do geral para o particular, isto é, do trabalho pedagógico institucional para o dos professore, e destes para os estudantes. Tais dificuldades foram evidenciadas por eles no grupo focal, ao responderem a pergunta: como acontece o trabalho pedagógico no curso? Neste momento as manifestações revelaram:
Part. 1: Eu vejo um mosaico ainda né? Nós ainda temos muitas iniciativas individuais. A gente está muito nas disciplinas. A gente trabalha nas disciplinas. As PPIs já melhoraram um pouco, mas a questão de integrar as disciplinas ainda é bastante disciplinar e aí cada um desenvolve seu trabalho. Cada professor tem o seu jeito, cada um trabalha sua metodologia. Part. 2: É eu acho que... eu também vejo como um ensino tradicional, na disciplina. Parece que a modalidade PROEJA ou o que sustenta a modalidade PROEJA alguma outra forma de direcionamento mesmo, didático. É difícil até porque nós não somos só professores do PROEJA né? Um pouco você está cheio de aula né? E ainda o PROEJA. Acho que também isso pesa para nós né?Part. 3: Eu vejo uma atuação assim, como que eu posso dizer... uma atuação mais condescendente talvez, exatamente por essa condição deles de trabalhadores e que acaba aqui, mesmo na condição pedagógica. Isso vai influenciar bastante também até na forma dessa cobrança que a gente tem em cima do estudante do médio diurno e deles, porque, exatamente entendendo a situação não há como cobrar do mesmo modo (GFP, 12/12/2018).
Percebe-se, então, nos destaques acima, que, mesmo conhecendo a realidade que pretendem modificar, existem dificuldades de organização e direcionamento coletivo das ações, indicando serem estes alguns dos fatores que dificultam a efetivação da práxis no trabalho pedagógico da EJA EPT. Porém, para que a práxis se realize é possível adequá-la a fins, como assinala Vázquez (2011, p. 222). “Esse modo de articulação e determinação dos diferentes atos do processo ativo distingue radicalmente a atividade especificamente humana de qualquer outra que se encontre em um nível apenas natural”.
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A necessidade da práxis revolucionária que conduz a essa solução não surge de uma contradição entre a história e a verdadeira essência humana, mas, sim, de uma contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. O proletariado não é agora o ser que encarna o sofrimento humano universal, ou o trabalhador que nega sua essência humana no trabalho, mas, sim, antes de tudo, o membro de uma classe social que, pelo lugar que ocupa na produção, e por estar vinculado à forma mais avançada de produção, entra em conflito com a classe dominante e, ao adquirir consciência da necessidade da revolução, leva-a a cabo para abolir o domínio de todas as classes. A classe revolucionária aparece de antemão, apenas pelo único fato de contrapor-se a uma classe, não como classe, mas, sim, como representante de toda a sociedade, como toda a massa da sociedade, diante da única classe, a classe dominante (VÁZQUEZ, 2011, p. 157-158).
Entende-se que no contexto dos Institutos Federais, a adequação a que se refere o autor poderia ser atribuída ao Currículo Integrado que se estrutura a partir do Projeto Político Pedagógico (PPC) e contém elementos para promover a:
[...] a articulação entre a formação acadêmica e o mundo do trabalho, possibilitando a articulação entre os conhecimentos construídos nas diferentes disciplinas do curso com a prática real de trabalho, propiciando a flexibilização curricular e a ampliação do diálogo entre as diferentes áreas de formação (PPC, 2014, p. 25).
O excerto, retomado do capítulo anterior, evidencia que no documento norteador está prevista a articulação entre as disciplinas do curso e o mundo do trabalho com vistas à formação integral dos estudantes, porém, de acordo com os relatos dos professores, na prática não se efetiva essa integralidade. Tal constatação leva a outros questionamentos: será que apenas o currículo não consegue dar conta da formação integral desses estudantes? E a responsabilidade institucional não estaria sombreada por ou desvirtuada para outro sujeito do pedagógico?
Nos grupos focais com os estudantes do primeiro e terceiros anos, também foram investigadas suas percepções acerca do TP. Para isso, realizou-se a mesma pergunta do grupo focal com os professores: Como acontece o TP no curso? E, acrescentou-se ainda: Quais as atividades pedagógicas do curso vocês mais gostam e das quais menos gostam? “Houve um
momento de silêncio ensurdecedor, os estudantes apenas se olhavam, alguns de cabeça baixa para evitar serem suscitados a falar” (Diário de Campo, 29/11/2018). Ao iniciarem as
manifestações os estudantes do primeiro ano disseram:
Part. 1: Eu acho que eles estão aí ao nosso dispor, porque quando a gente precisa a gente corre lá e eles estão à disposição para ajudar. Part. 2: Nesse sentido, mas, se precisar eles estão sempre prontos sim. Sempre tem um ou outro para dar uma ajuda, pelo menos no meu ver. Part. 3: Eu gosto mais de trabalhar lá na prática e menos em sala de aula. Part. 4: Eu também gosto mais da prática. Acho que a prática incentiva a gente aprender mais fazendo do que a gente não fique em sala de aula ali só escrevendo, só escrevendo, só escrevendo. E na prática você coloca a mão, você fazendo e o professor simplesmente só te orienta o que você tem que fazer, ajuda bastante. Part. 5: Eu já gosto mais é das matérias mesmo, porque eu não quero prosseguir no curso, para mim tanto faz as aulas práticas. Quem fez o Enem, por exemplo, está muito tempo sem estudar elas ajudam. Então, basicamente, eu prefiro as matérias mesmo. As aulas práticas são boas. A gente faz as coisas tudo, mas para mim mesmo só as matérias (GFE – 1, 29/11/2018, grifos nosso). No grupo focal com os estudantes do terceiro ano, as contribuições foram as seguintes:
Part. 1: No meu ponto de vista, na minha humilde opinião, eu acho que acontece ao natural, os professores eles acabam nos cativando assim e deixando nós à vontade e a coisa começa a fluir ao natural. Fazem desafios né, testar o conhecimento de cada
aluno nos seus devidos tempos e espaços, tem paciência com nós né. Part. 2: As aulas práticas são assim as que a gente mais gosta as que a gente está mais ali presente, a que a gente aprende mesmo. Porque só na teoria a gente não vai aprender nunca. Quando nós começamos anojar nós partimos para prática né, então não dá tempo de não gostar (risos). Part. 3: A parte teórica ela é sempre mais chata né, sempre mais chata! Mas é necessária a teoria para você ter uma noção para praticar, mas é meio cansativo, a gente quer ir direto no bolo entende? (GFE – 3, 29/11/2018, grifos nosso).
Manifestou-se nas falas dos estudantes e nas dos professores um dissenso quanto ao entendimento de como se materializa o TP no curso, o qual se acentua e torna-se mais perceptível nos estudantes do primeiro ano. Fenômeno que se entende “justificável” até certo ponto, tendo em vista que estão no início de sua trajetória formativa e, respeitado o tempo de aprendizagem de cada um deles, poderá ser necessário um período maior para o desenvolvimento das subjetividades. Por outro lado, parece existir uma dificuldade de linguagem entre os professores e os estudantes ou, ainda, do TP desenvolvido ser uma práxis imitativa, em que “[...] ao se renderem à rotina, à performatividade que abala seu trabalho cotidiano, os professores recaem no que Sánchez Vázquez (2007) denomina práxis imitativa, reiterativa e repetitiva” (FERREIRA; RIBAS, 2014, p. 137). Essa afirmação se sustenta quando os professores, ao responderem como acontece o TP no curso, destacaram:
Part. 1: a questão de integrar as disciplinas ainda é bastante disciplinar e aí cada um desenvolve seu trabalho, cada professor tem o seu jeito, cada um trabalha sua metodologia e, Part. 2: é difícil até porque nós não somos só professores do PROEJA, né, um pouco você tá cheio de aula né e ainda o PROEJA (GFP 12/12/2018, grifos nosso).
Constata-se, então, que, mesmo inconscientemente, alguns professores se renderam ao cotidiano intenso e diversificado de ações que integram a realidade dos professores da Educação Básica, Profissional, Técnica e Tecnológica (EBPTT), nos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. Nestas instituições, os professores atuam em diferentes níveis e modalidades, desde o EM até a Pós-Graduação e, ainda, fazem pesquisa e extensão. Essas particularidades exigem deles um dinamismo surpreendente, nem sempre fácil de alcançar. Somam-se a essas particularidades as especificidades de se trabalhar com a EJA e, como resultado disso, afloram outras questões como, por exemplo, no trecho destacado acima
“um pouco e você tá cheio de aula né e ainda o PROEJA”. Os indícios são de que esta carga
de trabalho diverso sobre os professores acaba por, indireta e inconscientemente, transformar a atuação na EJA em sofrimento, mais uma turma dentre as diversas turmas, dos diversos eixos, principalmente, no caso dos professores que lecionam componentes curriculares da área
básica. Por esse motivo, a práxis do trabalho pedagógico acaba não se materializando, quando demandaria um posicionamento pedagógico diferenciado.