As ações públicas e privadas de turistifi cação das cidades objeti- vam o desenvolvimento econômico, produzindo novas formas do/ no espaço urbano. As “cidades” disputam turistas. A princípio, nos Estados Unidos e na Europa, e mais recentemente nos países lati- no-americanos, surgem projetos de renovação urbana, principal- mente em áreas centrais e frentes marítimas que ao longo do tempo passaram por processos de esvaziamento e transformação de uso. Esses projetos demonstram o esforço em inserir a cidade na com- petição global do turismo, sob a lógica do mercado, tornando-a de- pendente dos grandes empreendedores (PASSOS, 2014). De acor- do com Vainer (2011), as práticas de intervenção e planejamento da cidade seguiram um viés mercadológico e transformaram a sua confi guração espacial. A promoção dos megaeventos esportivos insere-se nessa lógica de reestruturação do espaço urbano das me- trópoles. O caso das Olimpíadas de Barcelona em 1992 é um dos exemplos mais descritos e reconhecidos.
Para Mascarenhas (2008), o caso da cidade de Barcelona tornou- -se paradigmático, já que os jogos olímpicos foram utilizados como “ponto inicial” para o desenvolvimento urbano. Nesse caso, “[...] o governo local investiu vultosas quantias e implementou projetos urbanísticos de elevada envergadura, redefi nindo centralidades e constituindo um verdadeiro marco na evolução urbana” (p. 116). As Olimpíadas de Barcelona também foram utilizadas para proje- ção de uma imagem positiva da cidade, incrementando o turismo e atraindo investimentos externos.
No Nordeste do Brasil, precisamente na década de 1990, a atividade turística foi pensada por sua dimensão econômica. É nessa década que emergiram, do poder público federal, várias ações destinadas a organizar o setor no país e criar condições necessárias à sua expan- são (CRUZ, 2005). Percebe-se uma íntima ligação entre os princí-
pios do empreendedorismo urbano e as propostas de turistifi cação das cidades, principalmente nas capitais nordestinas associadas às práticas marítimas modernas. Nesse contexto de turistifi cação, os megaeventos tornaram-se expressões nítidas do urbanismo neoli- beral por permitir, em curto tempo, transformações associadas a interesses locais e nacionais. Na maior parte das vezes, não se tra- ta de um evento de grandes proporções, mas de um conjunto de atividades esportivas, econômicas e culturais que exijam, para sua realização, a construção de grandes projetos urbanos e a formação de consensos públicos (SILVA, 2014).
Na visão de Vainer (2007), talvez esta seja, hoje, uma das ideias mais populares entre os planejadores urbanos: “[...] a cidade é uma mer- cadoria a ser vendida, num mercado extremamente competitivo, em que outras cidades também estão à venda” (p. 78). Nessa pers- pectiva, os administradores da cidade (governadores e prefeitos) utilizam as mais variadas opções do marketing urbano para promo- ver, turisticamente, os aglomerados urbanos. Harvey (2008) conclui que as cidades estão cada vez mais se inovando para acelerar a re- produção do capital, e a consequência disso é um falso modelo de desenvolvimento urbano e um menosprezo aos direitos sociais:
Las innovaciones defi nen nuevos deseos y necesidades, reducen el tiempo de rotación del capital y mitigan la fricción de la distancia, lo cual limita el âmbito geográfi co em el que el capitalista puede buscar suministros ampliados de fuerza de trabajo, matérias pri- mas y demás insumos productivos (HARVEY, 2008, p. 24).
Ainda de acordo com este autor, as cidades são vistas como “atores políticos” que necessitam adequar-se às normas do mercado para desenvolver suas economias. Dessa forma, a globalização exige das cidades conteúdos normativos e projetos de urbanismo para atrair capital, em especial o de origem turística.
Para Ribeiro (2000), desde o fi nal da década de 1980, as grandes cidades são revalorizadas por trabalhos de conteúdo normativo, contendo diagnósticos, modelos, regras e recomendações para
resolver os seus problemas materiais e imateriais, aumentar a sua competitividade no cenário mundial e, assim, inseri-las na rota da recuperação e do desenvolvimento. Castells e Borja (1996) afi rmam que as grandes cidades devem responder a cinco tipos de objetivos: nova base econômica, infraestrutura urbana, qualidade de vida, integração social e governabilidade. Ressaltam os autores que es- sas cidades, somente gerando uma capacidade de resposta a esses propósitos, poderão, por um lado, ser competitivas para o exterior e inserir-se nos espaços econômicos globais, e, por outro, dar ga- rantias a sua população de um mínimo de bem-estar para que a convivência democrática possa se consolidar.
Um estudo inédito feito pelos Ministérios da Cultura e da Economia da França deu um grande destaque ao efeito dos eventos culturais para a atração de novos investimentos e o aumento do turismo. A chamada “indústria cultural” contribuiu sete vezes mais com o PIB francês do que a indústria automobilística, como destaca o jornal francês La Tribune:
Dans un rapport commun au ministère de la Culture et au minis- tère de L’Economie inédit, le gouvernement constate que l’impact de l’industrie culturalle total atteint 104 milliards d’euros, soit près de 6% de la valeur ajoutée dégagée em France. La culture contri- bue 7 fois plus au PIB français que l’industrie automobile avec 57,8 milliards d’euros de valeur ajoutée par an. Son coût total pour la collectivité approche 21,5 milliards d’euros sur le même sujet (La Tribune, 2014, economie France).
A partir dessas premissas, o Estado, em países como o Brasil, atua de maneira a incrementar políticas urbanas para promover reuniões, feiras, eventos e shows com certa periodicidade nas grandes cidades dos “negócios”, dos “eventos” e da “cultura”. Os governos públicos e o setor privado unem-se para promover uma imagem de cidade moderna e efi ciente na economia global. O Estado permanece como principal indutor da organização espacial do território brasileiro. Santos (2004) observa que o Estado altera suas regras e feições num jogo combinado de infl uências externas e realidades internas.
No Ceará, o turismo é uma das atividades econômicas considera- das estratégicas, tendo em vista os recursos empreendidos em ma- rketing local e em infraestrutura urbana nos espaços com maior fl uxo de visitantes. A forma do planejamento turístico no estado vincula-se aos princípios do empreendedorismo e do planejamen- to urbano-metropolitano. Dessa forma, compreender a teia de re- lações entre o urbano e o turismo é relevante para entendermos o papel das ações na/da Copa para as capitais nordestinas, principal- mente a capital cearense.
As intervenções de turismo pós-copa em Fortaleza que queremos demonstrar neste artigo estão ligadas ao discurso de consolidação da imagem litorânea da metrópole e sua ampliação, incluindo a ca- pacidade de sediar eventos e feiras de negócios. No trade turístico de Fortaleza, os eventos são considerados como a nova realidade da atividade, possibilitando o desenvolvimento de novos destinos, de capitais e municípios com estrutura já ambientada ou em via de projeção para a sua independência econômico-fi nanceira. Couti- nho afi rma que
Um evento pode ser considerado um mix de atividades e serviços, com diversos fatores que promovem a prática da atividade turísti- ca e pode alavancar economicamente uma cidade, um bairro, uma rua, tornando-se uma excelente oportunidade de desenvolvimento para o setor (COUTINHO, 2007, p. 3).
Outra ramifi cação que desponta com o turismo pós-copa é o de ne- gócios, que na capital cearense tornou-se ponto fundamental na ges- tão do governo do estado nas intervenções na cidade – implantação do Centro de Eventos do Ceará, reforma do Centro de Convenções do Ceará e criação do calendário para eventos no estado (Setur, 2014). Para Píccolo (2011), “[...] o turismo de negócio é praticado por ho- mens de “negócios” que viajam por diferentes partes do mundo no intuito de realizarem atividades de interesse pessoal ou empresarial. Tais viagens podem ocorrer de maneira individual ou em grupos”. Ao longo dos anos 2000, estudos detalharam os resultados dos programas federais que nortearam os investimentos públicos nos
polos turísticos nordestinos (DANTAS, 2008). Conclusivamente, as análises indicam o papel relevante das ações e dos investimentos efetuados a partir das versões do Prodetur (I, II e Nacional) para consolidar o espaço litorâneo (e, mais especifi camente, o metropo- litano) como espaço turistifi cado. No Ceará, o litoral oeste (grande parte do total) e o litoral leste receberam tais recursos. O projeto ca- racterizou-se pela reestruturação da infraestrutura em todo o lito- ral, especialmente direcionado ao oeste, já que essa faixa litorânea não apresentava fl uxos turísticos consolidados como o litoral leste. A atuação do setor público e privado no Ceará, nos últimos cinco anos, reforça os argumentos de um governo que buscou na Copa do Mundo de 2014 um “legado”: fortalecimento da imagem positiva da cidade de Fortaleza e de seus demais atrativos associados, em especial o litoral. Dessa forma, partimos da premissa da metrópo- le enquanto produto histórico, para projetos de desenvolvimento urbanístico que agregam não apenas dimensões tecnológicas/ar- quitetônicas, mas também os vieses político, social e econômico. O empreendedorismo urbano, os megaeventos e as novas facetas da atividade turística promoveram efeitos não somente na capital, e essa é uma questão central e relevante. A dinâmica abarca uma escala mais abrangente: a do espaço litorâneo metropolitano.