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CAPÍTULO II – EVOLUÇÃO DO TURISMO, DOS SEUS IMPACTOS E A SUA

2.3 Turismo, sustentabilidade e desenvolvimento local

Para Cunha (2009), o turismo é uma forma de ocupação do tempo livre e de prazer. Para Greenwood (1977, citado por Pérez, 2009), é uma forma de destruição de valores, e, para outros ainda (De Kadt, 1991), citado por Pérez (2009), é algo que aumenta a riqueza e bem- estar e cria novas oportunidades, entre as quais, de negócio. É esta variedade de diferentes perspetivas que torna este conceito complexo.

Como referido no item anterior do presente capítulo, o turismo nem sempre é sinónimo de desenvolvimento, podendo mesmo ser prejudicial, quando os impactos negativos são mais relevantes do que os positivos. Deste modo, consolida-se a necessidade de apostar numa estratégia de turismo sustentável, em que o desenvolvimento vai ao encontro das necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias necessidades (Hobson e Essex, 2001).

A OMT (http://www.unwto.org/, acedido em 12/06/2014) define o turismo sustentável como um turismo consciente dos impactos económicos, sociais e ambientais do desenvolvimento turístico e que, ao mesmo tempo, tem em consideração as necessidades dos visitantes, da indústria, do ambiente e das comunidades de acolhimento. Este conceito contraria um desenvolvimento baseado no crescimento económico, que de acordo com Bilhim (2004: 72), pode definir-se como “o aumento da produção ou do produto total de um país ao longo de um determinado período.” Bilhim (2004), refere uma política assente nesta forma de

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desenvolvimento e que, tendo sido o objetivo da maior parte dos países, tem criado inúmeras desigualdades, classificando-o como “desumano” (Bilhim, 2004:74).

Samuelson e Nordhaus, citados por Bilhim (2004: 74), afirmam que algumas das preocupações causadas pelo crescimento económico são:

 o aquecimento global;

 o aparecimento do buraco de ozono;  a desflorestação;

 a erosão dos solos;  a extinção de espécies.

Na nossa perspetiva, estas preocupações comprovam que uma falsa ideia é criada quando se diz que o crescimento económico, só por si, aumenta a qualidade de vida das populações quando, pelo contrário, em muitos casos a reduz.

Foi na Cimeira de Joanesburgo que se reconheceu a importância de um desenvolvimento sustentável do turismo como uma atividade única capaz de promover o desenvolvimento de países do dito terceiro mundo.

Como já foi referido no ponto 1.3, há uma nova conceção de desenvolvimento baseada na sustentabilidade e no crescimento equilibrado, que, de acordo, com Cunha (2009) passa por:

 equilíbrio entre a utilização dos recursos naturais e o crescimento económico;  preservação e valorização do ambiente e do património cultural;

 criação de novos produtos e serviços;

 incentivo à participação das comunidades locais.

De acordo com Pérez (2009: 144), desde que o turismo seja sustentável, existem fortes razões para se apostar na área, como por exemplo:

 a contribuição para o respeito mútuo entre humanos e sociedades;  ser fator de desenvolvimento pessoal e coletivo;

 ser fator de desenvolvimento sustentável;

 motivar atividades benéficas para os países e as comunidades de destino;

 motivar o aproveitamento e enriquecimento do património cultural da humanidade;  gerar obrigações dos agentes de desenvolvimento turístico.

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Para Pérez (2009), o turismo sustentável é um modelo de desenvolvimento e um instrumento de ordenamento territorial que tem, como princípios, a rentabilidade económica, o respeito pelo meio ambiente, os ecossistemas, a justiça e equidade social (distribuição social da riqueza). A sustentabilidade deve, assim, ser tida em conta desde o início do desenvolvimento turístico.

Na tentativa de dar resposta a estes princípios, foi criada a Carta Europeia de Turismo Sustentável, que estabelece as estratégias para a sustentabilidade do desenvolvimento turístico. Os vários países que a assinaram, comprometem-se a seguir oito pontos orientadores (http://www.icnf.pt/portal/turnatur/ts/cets – consultado em 28/12/2013):

1. “Proteger e valorizar o património natural e cultural da área protegida. 2. Providenciar aos visitantes uma experiência de qualidade durante a sua visita.

3. Proporcionar aos visitantes informação sobre as qualidades específicas da área protegida.

4. Estimular a oferta de produtos turísticos específicos que permitam a descoberta e a compreensão do meio natural e cultural da área protegida.

5. Assegurar que o turismo suporta e não reduz a qualidade de vida dos habitantes locais.

6. Aumentar o conhecimento sobre a área protegida e sobre os assuntos da sustentabilidade entre todos aqueles que estão envolvidos no turismo.

7. Aumentar os benefícios do turismo na economia local.

8. Monitorizar os fluxos de visitantes para reduzir os impactos negativos.”

O turismo é uma das formas de conservação do património de uma comunidade, pois permite o contacto intercultural, contribui para a diversidade cultural e estimula o mútuo respeito entre culturas, sociedade e nações (Pérez, 2009). O turismo possibilita ainda, a uma comunidade, apresentar-se num mundo global, pois, enquanto produtor e consumidor de bens simbólicos com significação social (elementos como narrativas, imagens, literatura de viagens, brochuras e património cultural), promove as identidades. Pode-se considerar o património como uma recriação da história que apresenta a identidade de um grupo, estando as suas funções a ser reinventadas, com os visitantes a quererem viver o património e a experimentá-lo.

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O facto de o património estar constantemente ameaçado faz com que seja fundamental a sua identificação e classificação. Isto fará com que ele seja gerido e divulgado, transformando os diferentes recursos em possíveis produtos turísticos enquadrados no ambiente local.

Para se desenvolver a atividade turística, é necessária a existência de recursos (naturais, culturais, eventos, atividades desportivas, infraestruturas). Assim, são elementos de oferta de diferenciação turístico-cultural possíveis de identificar:

 artesanato (e.g., a olaria em grés, artefactos em madeira, tanoaria, latoaria, cestaria, sacas e tapeçarias em tiras de farrapos);

 tradições (e.g., festas religiosas e romarias);  gastronomia local (e.g., lampreia, sável);

 arte e música (e.g., riqueza de tradições folclóricas);  história da região (e.g., castros);

 trabalho e tecnologia (e.g., moagem, fiação, madeira);  arquitetura;

 vestimenta ou traje;

 atividades do tempo de lazer.

Estes, depois de serem valorizados estética, lúdica e recreativamente tornam-se produtos turísticos e são fator de desenvolvimento, porque é através da sua atração que se cria o destino turístico. Os recursos só têm valor turístico quando se transformam num produto turístico. A capacidade de atração de uma região ou país depende de inúmeros fatores relativos às condições naturais (e.g., clima, existência de praias), às infraestruturas existentes (e.g., alojamento, parques) e à capacidade organizativa, criativa e de inovação (e.g., divulgação, atividades aliciantes), sendo este último aspeto fundamental para fidelizar e aumentar o tempo de estadia do visitante. Relativamente ao produto turístico, este é constituído por diferentes recursos (naturais e não naturais) sendo a união de todos os recursos (infraestruturas, equipamentos, serviços e experiências) e consequentes produtos turísticos, que vão criar o destino turístico capaz de fornecer uma experiência única.

No entanto, estes recursos e produtos turísticos necessitam de ser articulados, para que haja a concretização de uma política de desenvolvimento realista e global, com resultados efetivos. A qualidade turística de uma região depende de produtos turísticos completos e com

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diversidade de resposta para o turista, dado que a deslocação a um país obriga ao uso de um conjunto de diferentes bens e serviços como serviços de transporte, alojamento, serviços de restauração e serviços culturais.

Somos de opinião de que, para ocorrer um desenvolvimento sustentável é necessária a criação de parcerias e a realização de um trabalho em rede com todos os intervenientes do turismo, tais como, a própria comunidade, as autarquias e os agentes locais. Tendo em conta que o turista visita o território no seu todo, uma rede de trabalho baseada na ideia de interajuda, promoção e dinamização de toda a região, sem concorrência entre os diferentes interessados, é a base fundamental para o concretizar dos objetivos e o alcançar do desenvolvimento local sustentável. Embora o visitante/turista possa ter, como motivo essencial da sua deslocação, conhecer o património local, todos os restantes serviços que estejam disponíveis implicitamente contribuirão para o sucesso da sua visita.

Assim, cada região deverá encontrar um motor impulsionador de desenvolvimento, recorrendo, para isso, a várias estratégias. A aposta no turismo é um exemplo que, enquanto estratégia de fomento do desenvolvimento regional e local, é caracterizado por um contacto íntimo com a população local por parte do turista, que se desloca ao local motivado por eventos artísticos, científicos, de formação e de informação. Para a concretização de um desenvolvimento sustentável, a comunidade local deve preservar um produto que lhe permita sobreviver e alcançar a prosperidade, sem encarar, ao mesmo tempo, o turismo apenas como um meio de obter ganhos a curto prazo.

No entanto, apesar do consenso gerado sobre a importância de colocar em prática o desenvolvimento sustentável e os seus princípios, a verdade é que este se tem tornado de difícil aplicação por falta de apoio político e atenção devida à causa.

São inúmeros os exemplos que comprovam esta situação. Basta pensar que, não obstante o esforço realizado por diferentes organismos internacionais, que levaram quase duas centenas de nações a assumir vários compromissos na Conferência do Rio, como é o caso do compromisso na redução de emissões de gases e do combate à desflorestação, são poucos os governos que na prática progrediram neste âmbito. Isto revela a falta de compromisso por parte dos governos em reformar políticas energéticas.

Conforme Mourão (2010), a operacionalização deste conceito implica uma política ajustada à evolução das sociedades e tecnologias, às necessidades da população e às situações

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de imprevisto nos sistemas económicos e ecológicos. O mesmo autor refere que a maior parte dos países não dispõem do crescimento económico e que as diferenças de nível de desenvolvimento e de riqueza entre países estão relacionados com a capacidade de implementação do desenvolvimento sustentável. Assim, os países mais pobres não têm estrutura para implementar uma política de desenvolvimento sustentável e os países mais ricos, apesar de lhes ser possível definir outras prioridades para o futuro, continuam a basear-se em sistemas económicos insustentáveis que defendem um crescimento económico acelerado e constante.

Mourão (2010) refere, no entanto, alguns progressos a nível legislativo, com alguma consciencialização das populações sobre a problemática. À medida que o tempo avança, o ambiente continua a deteriorar-se o que torna cada vez mais necessária uma efetiva reformulação cultural e política.

2.4 A importância do Plano Estratégico Nacional do Turismo para o