Requerentes de asilo na Dinamarca
PAÍS INSTITUIÇÃO FUNÇÃO DO ENTREVISTADO
4. CAPÍTULO | AS INSTITUIÇÕES, AS POLÍTICAS E AS PRÁTICAS
5.1. P ERFIL DAS MULHERES REFUGIADAS EM P ORTUGAL E NA D INAMARCA
5.1.1. M ULHERES REFUGIADAS EM P ORTUGAL
Em Portugal as 10 requerentes de asilo, refugiadas recolocadas e retomadas e beneficiárias de proteção subsidiária entrevistadas, têm entre os 21 e os 45 anos e são provenientes do Paquistão, da Síria e da Nigéria. Uma refugiada da capital Síria reside em Lisboa, duas refugiadas recolocadas são provenientes de cidades rurais da Nigéria e vivem atualmente no Fundão, cinco refugiadas e beneficiárias de proteção subsidiária são provenientes de diferentes cidades rurais do Paquistão e duas refugiadas recolocadas em Castelo Branco, vieram da cidade de Alepo, na Síria.
Todos os nomes citados são fictícios por forma a assegurar o anonimato e a preservação de identidade, convergindo com a solicitação de algumas das participantes. Não constituindo qualquer impedimento para o alcance dos objetivos, adotou-se a generalização do anonimato para todas as participantes, conforme referido previamente no capítulo metodológico.
Em Lisboa reside Rakia (nome fictício), a única mulher entrevistada em Portugal com habilitações académicas de ensino superior, licenciada em Engenharia de Tecnologias de Informação (TI) em Damasco, capital da Síria. Para além do domínio da língua oficial do seu país de origem, árabe, fala fluentemente inglês e está a aprender português. Tem 35 anos, estudou, depois casou e foi mãe de dois filhos, uma delas menina. Viveu em Damasco até 2011, momento em que a guerra na Síria se intensificou. Mudou-se para o Qatar, onde estava o marido desde 2010, progredindo na sua carreira profissional na área da engenharia. Rakia trabalhou como engenheira de TI nos dois países árabes, mas em Portugal não conseguiu emprego compatível com as suas habilitações, por isso decidiu investir numa área distinta, abrindo uma empresa própria na área da restauração.
118 Em Castelo Branco foram entrevistadas cinco mulheres paquistanesas, contactadas através da associação de desenvolvimento Amato Lusitano que tem vindo a assegurar apoio à comunidade migrante através do Plano Municipal para a Integração dos Migrantes (PMIM).
Estas mulheres refugiadas e beneficiárias de proteção internacional eram provenientes de diferentes cidades e aldeias do Paquistão, mas apresentavam perfis semelhantes relativamente às dimensões socioculturais, religiosas e profissionais. No que concerne à educação, apesar de terem sido mencionados pelas próprias diferentes níveis de ensino, essa distinção foi impercetível nas descrições sobre a esfera privada e pública. No entanto, as experiências antes da migração e as suas consequências no projeto migratório diferenciam-se em algumas mulheres.
Sumily tem 37 anos e o 9ºano de escolaridade tirado na Alemanha, país onde viveu até aos 16 anos. Ficou retida em Portugal quando tentava voltar para o país Europeu onde viveu, saiu, mas foi retomada ao abrigo do Regulamento de Dublin25, que determina que apenas um Estado-Membro (o país em que a pessoa foi registada pela primeira vez), seja responsável pela análise do processo de asilo. Entre conversas em inglês e com recurso a uma intérprete em Urdu, conta-me que estudou enquanto esteve na Alemanha, quando regressou com os pais à cidade de origem de Faisalabad, localizada na província de Punjab no Paquistão. Sem saber que a estadia seria permanente e não temporária como lhe tinha sido dito, a sua vida mudou radicalmente. As normas socioculturais e religiosas remeteram-na para uma vida exclusivamente confinada ao espaço doméstico, o uso de burka é obrigatório nas raras saídas de casa, usualmente para ver familiares. Sumily pertence a uma minoria religiosa, perseguida na sua região, “as pessoas que seguem esta religião estão sempre em perigo. Não saía de
casa, só acendíamos a luz quando alguém ia lá a casa”, explica. Não lhe foi permitido
continuar a estudar, foi forçada a casar com um homem mais velho, escolhido pelos pais e declaradamente contra a sua vontade. Durante 20 anos a sua vida confinou-se ao lar, à revolta e depois ao conformismo de abandonar os sonhos que tinha - estudar, ser enfermeira e trabalhar num lar de idosos na Alemanha. Sumily fala urdu, alemão e inglês básico.
25 Regulamento (UE) N.o 604/2013 do Parlamento Europeu e do Conselho de 26 de junho de 2013 que
estabelece os critérios e mecanismos de determinação de que apenas um Estado-Membro (o país onde a pessoa foi registada a primeira vez) seja responsável pela análise de um pedido de proteção internacional apresentado por um nacional de um país terceiro ou por um apátrida https://eur- lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32013R0604&from=PT
119 O Paquistão é um país multilíngue, com seis idiomas principais e mais de 59 idiomas secundários. No entanto, os idiomas usados pelos domínios do poder (governo, setor corporativo, media e educação) são inglês e urdu. O inglês é predominante nas elites urbanas. O pashto é falado nas áreas tribais do Paquistão e é também usado como domínio de poder, sendo a segunda maior língua falada no Paquistão (Saeed, Rehman & Usmani, 2018).
As outras quatro mulheres paquistanesas entrevistadas residentes em Castelo Branco são oriundas de Nowshera, uma cidade localizada na fronteira Noroeste e de Rabwah, situada na província de Punjab. Têm entre 29 e 40 anos e dominam a língua pashto. Das duas línguas oficiais do Paquistão, apenas o urdu é usado com muitas limitações por algumas mulheres, as entrevistas realizam-se com recurso a intérpretes nas línguas dominantes.
Amyra tem 40 anos e refere que estudou até ao 12º ano, no entanto a escola era sobretudo para aprender as normas da religião Islâmica e a língua predominante da região, o pashto. Casou com 25 anos e tem quatro filhos, três rapazes e uma menina de 8 anos. Vivia com o marido e os filhos, confinada a vida familiar e doméstica e com normas socioculturais e religiosas restritas, o uso da burka era obrigatório, “as mulheres não podiam sair à rua,
passear, nem mesmo ir à mesquita”, adverte. Amyra passou pela Holanda antes de vir para
Portugal e viajou antes do marido, numa estratégia familiar que definiu o projeto migratório, aprofundado posteriormente.
Zafira é oriunda de uma pequena aldeia paquistanesa onde as dificuldades económicas aliadas a ameaças de grupos talibãs, motivaram o abandono. Tem 39 anos, e sete filhos, seis raparigas e um rapaz, três delas participantes deste estudo. Casou com 18 anos, nunca estudou e a sua vida era descrita de forma similar às outras paquistanesas entrevistadas.
“A vida da mulher lá é fazer comida, tratar dos filhos, usar burka e era tudo muito
limitado, não podia sair de casa, só com o marido e se fosse algo muito importante”,
descreve Zafira.
Gumar casou quando tinha apenas 15 anos. Tem cinco filhos, dois dos quais adolescentes do sexo feminino, uma delas participante do estudo. Nunca estudou e tem em comum com as mulheres paquistanesas entrevistadas, uma vida confinada ao espaço doméstico. Domina a língua pashto e refere o usa da burka como uma marca do seu país que preferiu abandonar. A
120 dependência do marido é estendida à sua história de vida, às memórias e às opiniões em geral, as primeiras respostas eram dadas após tentar consultar o marido via telefone e depois de lhe ser repetidamente explicado que as respostas eram opcionais, mas que seriam relevantes se fossem dadas exclusivamente por ela.
Biaz tem 29 anos, casou com 19 e tem dois filhos, um dos quais uma menina de 6 anos que começou a estudar em Portugal. Tem o 10ºano tirado na escola da sua aldeia e nunca trabalhou, como aliás nenhuma mulher da sua aldeia. Vivia com toda a família do marido e para além de estar limitada ao espaço doméstico, também neste contexto as regras eram restritas.
“Não me podia sentar perto do meu marido, estando na presença de familiares e dos
sogros, não podíamos comer juntos, primeiro comia ele e só depois podia ir eu comer, não podíamos falar á vontade, só podíamos estar perto e falar dentro do quarto, mesmo para brincar com os meus filhos tinha limitações, aqui sinto a família de outra maneira”,
relata Biaz.
Na mesma cidade do interior foram ainda entrevistadas duas mulheres da cidade de Alepo, na Síria. Acolhidas pela CARITAS, enquanto membro da PAR, estas refugiadas foram entrevistadas nas suas casas, por opção das próprias e apenas com a tradução via telefone de uma intérprete.
Famira está grávida do oitavo filho aos 33 anos, casou aos 17 anos e dos nove membros do agregado familiar, apenas duas são do sexo feminino, uma mulher e uma menina de 14 anos, a única filha que também participou no estudo. No início da conversa a filha demonstrou querer ficar, mas foi a própria mãe que pediu para ficarmos a sós, preferindo ser traduzida via telefone por uma intérprete desconhecida. Famira está em Portugal há 2 anos, fala apenas árabe e nunca estudou ou trabalhou fora de casa.
Alnaz, tem 45 anos, é casada e mãe de cinco filhos. É a única mulher desta família. Sou recebida na sua casa por ela, pelo marido e um dos filhos. Alguma insistência cordial por parte do marido e do filho em permanecerem no mesmo espaço, compelem-me a reforçar que a entrevista previamente explicada e aceite, deverá ser individual. Acedem ao pedido e ficamos a sós com a tradutora de árabe, a única língua que Alnaz domina. Está a estudar
121 português, mas “para quem não estudou é mais difícil aprender, o meu marido já percebe
melhor”, explica. É muçulmana, mas na sala a árvore de Natal já está montada, “é uma celebração daqui todos têm e nós também quisemos ter”. Alnaz descreve um dia-a-dia
confinado à vida familiar e doméstica, mas com permissão para sair de casa com códigos de vestir opcionais. Apesar das duas mulheres provenientes da Síria apresentarem um nível de educação similar ou menor do que as mulheres paquistanesas, as normas socioculturais em que viviam, descrevem-se de forma distinta e sugerem diferenças relevantes na determinação do projeto migratório, aprofundado mais à frente neste capítulo.
No Fundão foram acolhidas duas jovens nigerianas provenientes do navio Aquarius. Anna e Dendali chegaram em setembro de 2018, num grupo de 19 pessoas, entre elas 16 eritreus e um nigeriano. Desde novembro desse ano que mantemos o contacto, retomado em fevereiro e novembro de 2019. Anna e Dendali têm 22 anos, mas uma atitude inocente e infantil que contrasta com as experiências vividas ao longo do trajeto. Falamos em inglês, língua oficial da Nigéria, apesar dos sotaques dificultarem a compreensão imediata, a interação facilitou a comunicação.
Anna vem de uma pequena vila do interior da Nigéria, viveu com a mãe até terminar o liceu, dividia-se entre a escola, os trabalhos domésticos e as atividades na Igreja. Depois mudou-se para outra cidade com a irmã mais nova e a instabilidade e insegurança motivaram a saída.
Denladi, tem a mesma idade, mas há muito que não vivia com a mãe. “Durante o período
escolar estava em casa de uma mulher. Ela pôs-me a estudar, mas antes de ir para a escola tinha que limpar, cozinhar e fazer tudo...”, adverte.
Estudou até ao liceu e depois foi viver com a irmã mais velha, aprendeu a ser cabeleireira e trabalhava numa loja antes de sair do país, mas a ameaça crescente do grupo Boko Haram26
aceleraram a saída do país.
Se por um lado as descrições de vida, de normas sociais, culturais e religiosas das mulheres oriundas de países do Médio Oriente contrastam com os discursos das mulheres
26 Boko Haram é um grupo armado não estatal que procura estabelecer um califado no estado da
Nigéria. A violência contra mulheres e meninas é adotada pelas fações do Boko Haram, uma característica intrínseca às operações diárias do Boko Haram baseadas na ideologia Salafi-Jihadi (Waldron, 2019).
122 vindas de África, outros fatores demonstram-se comuns como as ameaças vividas e a insegurança exponenciada pelo facto de serem mulheres.