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UMA PÉROLA DE MÃE

2.4. Um encontro com a dor da infância desamparada

O Século XX se inicia sob o signo da Primeira Guerra M undial, conflagrada no continente europeu em 1914. Nesta época, Pérola residia com o esposo e os filhos em Govans — distrito de Baltimore, no estado de Maryland — para onde haviam se mudado em 1912, com o objetivo de garantir aos filhos uma verdadeira educação norte americana. Com a Guerra, Pérola talvez tenha pensado em voltar ao Brasil, mas esta não seria uma boa ideia diante de um conflito, para o qual, segundo Garambone (2014, p. 15), não existiria até aquele tempo nenhum paradigma de comparação. Em extensão, o conflito envolveu “países da Ásia e América do Norte e Latina,

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além de colônias e domínios europeus da África. Na disputa iniciada no coração da Velha Europa”. Em intensidade, “tanto em relação ao número de vítimas, quanto ao uso de armas e tecnologia até então inéditas em conflitos bélicos, como o carro blindado, o avião, as granadas de mão, o submarino ou a metralhadora”.

Se Pérola decidiu ficar nos Estados Unidos, Albert, por sua vez, continuava a realizar viagens ao Brasil e à Europa, por conta dos negócios. E foi em uma dessas viagens para a Europa que os Byington sentiram de perto o terror da Guerra. Em 1915, o navio em que ele viajava para a Europa naufragou após ser bombardeado por alemães, ceifando mais de 1000 vidas. Albert foi um dos poucos sobreviventes. A tragédia ocorrida com o proprietário das empresas Byington foi destaque na imprensa brasileira. Com a manchete: “A guerra na Europa, uma emboscada dos alemães”, O Correio Paulistano noticiava, no dia 10 de maio, que o empresário Albert Byington havia sobrevivido à tragédia do Lusitânia. Os ventos da Grande Guerra chegavam ao Brasil. Mas nesse momento apenas como notícia de importância internacional. Afinal, nos dois primeiros anos (1914-1916), não se cogitava a entrada do país no conflito (GARAMBONE, 2014).

Já, nos Estados Unidos, o clima de guerra gera uma atmosfera de medos, incertezas e inseguranças para homens e mulheres. No entanto, salienta Françoise Thébaud (1991) que esse impacto não seria igual para “um e outro sexo”. A autora ao analisar o papel das mulheres na Primeira Guerra Mundial, afirma: Ao romper a ordem familiar a guerra não se apresenta apenas como luto, mas também como “uma possibilidade de abertura de novas atividades, vivências e experiências para as mulheres” (p. 32). Quaisquer que sejam as consequências da I Guerra na vida de Pérola Byington, o campo do trabalho é o que podemos examinar melhor, ajudando-nos a compreender como sua atuação à frente de uma seção da Cruz Vermelha (C.V.) mudaria os rumos de sua trajetória.

O movimento internacional da Cruz Vermelha foi fundado em 1863 pelo suíço Jean Henri Dunant, que - durante uma viagem - se defronta com a dor de milhares de pessoas feridas e mortas pela guerra126. Movido pela compaixão, cria uma instituição de caráter humanitário para

126 Sobre a origem da Cruz Vermelha ver. DUNANT, Henry. Lembrança de Solferino. Comitê Internacional

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atender aos feridos e necessitados, não apenas em tempos de guerra, mas também em tempos de paz (CAMPOS & OGUISSO, 2009).

Sob muitos aspectos, Pérola provavelmente já tinha ouvido falar na Cruz Vermelha. Havia algum tempo que a médica Maria Rennotte — ex-professora e amiga — defendia a criação dessa instituição. Segundo Mott (2005), seu objetivo era garantir assistência e saúde para a população mais pobre e profissionalização de voluntárias e enfermeiras. No início, sua ideia não foi aceita. Somente em 1912, Maria Rennotte e Mary Elizabeth McIntyre reuniram-se em São Paulo com várias mulheres da elite e membros do poder político, para criar a filial paulista da Cruz Vermelha127, o que nos leva a supor que se Pérola não tivesse viajado para os Estados Unidos, certamente faria parte desse grupo. A filial paulista estava subordinada à Cruz Vermelha Brasileira (CV), criada há quatro anos na cidade do Rio de Janeiro, e esta se reportava à Cruz Vermelha Internacional, com sede em Genebra (CAMPOS & OGUISSO, 2009). Esta rede fortalecia o sentido institucional desenvolvido pelas diversas sociedades da Cruz Vermelha espalhadas pelo mundo. Portanto, diante da ausência de fontes sobre a atuação de Pérola Byington na CV norte-americana, acreditamos que a experiência de Maria Rennotte, sobre a CV paulista, possa nos trazer alguns indícios sobre o significado social de uma “Dama da Cruz Vermelha”, nome dado ao comitê que deu origem à Seção Feminina da Cruz Vermelha.128

Não obstante à distância, devia existir alguma afinidade entre as ações de Pérola e de Maria Rennotte. Ambas eram protestantes. Ambas se preocupavam com ações de proteção materno-infantil e desejavam intervir na realidade social. Contudo diferiam quanto à imagem de si. Pérola encarna a “mãe exemplar”, dedicada aos filhos e à casa, que vê na maternidade sua principal função social. Personagens da aliança entre mulheres e médicos, descrita por Martha Freire (2006), Pérola é a representante das mães, enquanto Maria Rennotte, professora e médica, é a representante feminina dos “médicos-filantropos”, examinados por Luiz Otavio Ferreira e Gisele Sanglard (2010).

Sanglard e Ferreira (2014) chamam a atenção para o papel que a filantropia ocupa no Brasil da Primeira República. Para estes autores, diante da grave situação da mortalidade infantil,

127 A sede social da Cruz Vermelha funcionava na Rua Libero Badaró n. 7.

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que colocava em risco o projeto de nação construído na virada do século XIX para o século XX, coube à filantropia garantir a assistência à infância desvalida em vários países.

De forma geral, foi isso que aconteceu com a Cruz Vermelha paulista. Inicialmente, suas ações não receberam apoio popular, pois acreditava-se que sua função era apenas prestar auxílio ao governo em tempos de guerra “e sendo o Brasil uma nação essencialmente pacífica (…) não tinha aqui razão de existir entre nós” (RENNOTTE apud MOTT, 2005, p. 60).

Com o tempo, a população foi percebendo que ela também se ocupava de outras questões, como demonstra a matéria publicada no Correio Paulistano em 29 de setembro de 1914:

A benemérita instituição da Cruz Vermelha continua a prestar grandes benefícios, nesta grave crise (…) A sociedade paulista tem, porém, sabido recompensar os esforços das distinctas senhoras, que se acham à frente daquelle instituto de caridade, fundado especialmente para socorrer a infância desamparada. (ACERVO HEMEROTECA DIGITAL).

Não sabemos até que ponto as informações de Maria Rennotte sobre as ações da Cruz Vermelha paulista chegaram à Pérola. Possivelmente, sua mãe lhe escreveu relatando o trabalho que vinha desenvolvendo. Todavia, de forma direta ou indireta, as ideias da professora do colégio Piracicabano se fizeram presentes. Ainda nos Estados Unidos, Pérola irá tomar “parte em campanhas para angariar fundos para instituições de proteção à infância” (MOTT et al, 2005, p. 34). Costumava afirmar que os filhos foram o incentivo para o seu trabalho: “Tendo podido dar- lhes tudo, ela procurou ajudar aos menos favorecidos da sorte. Não podendo dar-lhes a felicidade completa, começou por dar-lhes saúde”129. Tocada pela dor de outras crianças desamparadas,

Pérola que, até então, só se ocupava dos afazeres domésticos, move-se no sentido de mitigar o sofrimento de outros “filhos”. A maternidade, tarefa a qual tinha se dedicado nos últimos anos, deixa de ser uma função exclusiva da vida privada e torna-se uma “função social”.

Por séculos, intensamente idealizada, a noção de “mãe” se traduz por deveres socialmente definidos, não só de cuidar de seus filhos, mas também, de alguma forma, da sociedade em geral. A experiência do mundo privado se estende ao mundo público, consolidando o ideal de “mãe

129 Entrevista dada à Revista Edição Extra, em 1962, acervo Fundo Cruzada Pró-Infância. Acervo Museu de

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cívica”. Conforme aponta Lefaucheur (1991), esta noção concede às mulheres status e visibilidade e as torna figuras centrais na montagem dos sistemas de proteção social em diversos países, seja como beneficiárias das políticas de proteção social, seja como trabalhadoras deste campo que avança e que as aproxima dos desafios postos à consolidação da cidadania.

Assim, bem de acordo com o discurso maternalista da época, as ações voluntárias da Cruz Vermelha moveram as mulheres a novos lugares e novos papéis. O discurso social desse tempo, ao transformar a maternidade no principal papel social feminino e em um dever patriótico, conferiu às mulheres autoridade para exercerem no mundo público o que lhes é outorgado no mundo privado, a administração da casa, dos filhos e da família. Nessas ações, verifica-se o paradoxo descrito por Scott (2002): as mulheres vão se apropriar da maternidade que historicamente as excluía da vida pública, para reivindicar sua inserção no mundo público a partir da maternidade, a qual lhe confere as aptidões necessárias ao exercício de determinadas funções, atuando na consolidação da sua cidadania. Mulheres, sobretudo dos segmentos sociais médios, foram, então, chamadas a “sair” dos seus lares, como aponta Perrot (1991), para exercerem a “maternidade social”.

Com as ações humanitárias desenvolvidas em âmbito internacional, a Cruz Vermelha conquistou credibilidade social. Em pesquisa realizada por Campos e Oguisso (2009), em um portfólio preservado no Centro Histórico Cultural de Enfermagem Ibero-Americana da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, foram encontradas um mil e oitenta e nove matérias jornalísticas sobre a Cruz Vermelha, recortadas do período entre 1916 e 1930. Entre os temas abordados, ganham destaque as atividades voltadas à saúde infantil. De acordo com os autores, “a veiculação das notícias, direta ou indiretamente, proporcionava visibilidade e apontava para a luta simbólica da filial por manter as atividades humanitárias da Cruz Vermelha Brasileira” (p 494). Considerando-se os objetivos da Cruz Vermelha com relação à imprensa, supõe-se que, ao participar de suas ações humanitárias, as mulheres ganham credibilidade, visibilidade e protagonismo social. Um bom exemplo é o reconhecimento oficial e a medalha recebida por Pérola pelo trabalho desenvolvido em Govanstown (MOTT, 2005).

Outra preocupação da Cruz Vermelha era com a formação de quadros femininos para o atendimento aos feridos de guerra. Para atender a esta demanda, em 11 de fevereiro de 1915, a

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presidente da Cruz Vermelha, Anna de Queirós Telles Tibiriçá (sogra de Alice), utilizando as páginas do Correio Paulistano, tornava público o curso gratuito de enfermagem da Cruz Vermelha130. O curso - com aulas ministradas pelas Drª Maria Rennotte e pela Drª Casemira Loreiro, médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - funcionou com regularidade até o final da primeira Guerra Mundial, entrando em período de refluxo (MOTT, 1999; PORTO & SANTOS, 2006). Em 14 de junho de 1917, quatro meses antes de o Brasil romper o pacto de neutralidade e declarar Guerra à Alemanha, o mesmo jornal noticiava a formatura de quarenta e uma enfermeiras da Cruz Vermelha (PORTO & SANTOS, 2006).

Com o fim da Guerra, a família Byington retorna ao Brasil. O regresso a São Paulo representou a retomada do trajeto iniciado nos Estados Unidos. Na chegada, encontram uma São Paulo em franco processo de urbanização, com dificuldades habitacionais e sanitárias e que, ao lado de outras cidades brasileiras, sofria com epidemias, como a da gripe espanhola, que, em 1918, matou milhares de pessoas. (MATOS, 1995). Diante deste cenário, uma inquietação se apresentava, mobilizando-a para traçar um novo caminho no espaço público. O reencontro com Maria Rennotte, a querida professora do colégio Piracicabano, que, então, dedicava-se à medicina e à filantropia, deve ter contribuído para sua decisão de participar da Cruz Vermelha paulista. “Ao longo da década de 20, os jornais noticiaram os diferentes cargos e funções por ela exercidos na associação: comissão de propaganda, tesoureira, secretaria, diretora do departamento feminino” (MOTT et al, 2005, p. 34).

Mas suas ações não se limitaram às atividades da Cruz Vermelha. Em 11 de setembro de 1928, o jornal O Diário Nacional noticiava a participação de Perola Byington, ao lado de outras senhoras da elite paulista, na venda de “rosas da caridade” no centro comercial, para angariar fundos para a construção de um Sanatório Santa Cruz em Campos do Jordão, para o atendimento de tuberculosos pobres131. O mesmo jornal noticiava, em 17 de janeiro de 1929, a entrega de um

130 Acervo da hemeroteca digital, disponível em: <http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/>. Acesso em:

20 set. 2016.

131 Acervo da hemeroteca digital, disponível em: <http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/>. Acesso em:

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auxílio de Perola à “Associação Promotora de Instrucção e Trabalho para cegos”132. A essa

altura, Pérola já havia entrado pelas portas da Filantropia. Só nos resta saber aonde ela chegará...

2.5. “A Nação caminha para o futuro pelos pés da criança”133

A participação de Pérola Byington nas ações da Cruz Vermelha foi uma inspiração feliz, pois a convivência com Maria Rennotte — médica e grande conhecedora das questões ligadas à assistência materno-infantil — e com as mães e crianças atendidas pelas ações institucionais, consolidou a assistência à infância como seu campo de atuação. Imbuída pelo espírito filantrópico que, segundo Gisele Sanglard e Otávio Ferreira (2010), dominava a sociedade de elite da Primeira República, Pérola Byington dirige seu capital social, político e financeiro para a montagem de uma vasta rede de proteção materno-infantil na capital paulista. Seu protagonismo filantrópico emerge no contexto brasileiro das primeiras décadas do século XX. Período de efervescência intelectual, alimentada por uma geração de médicos e filantropos, vinculados ao movimento de Reforma Sanitária. (KROPF & LACERDA, 2009), geração esta que ficará conhecida pela montagem de uma política de saúde voltada para a infância.

A saúde torna-se o elemento-chave para o desenvolvimento do país. Esse discurso, presente nas ações médico-sociais de Alice Tibiriçá, conforme já visto, também estará na atuação filantrópica de Pérola Byington. Mas, diferentemente de Alice, seu alvo não são os doentes, seja de lepra ou tuberculose, mas a infância. Para ela, “o grau de civilização de um povo mede-se pelo que faz pela criança, pela maneira com que encara e soluciona seus problemas”134. Uma das

questões mais recorrentes no discurso médico sobre a infância, o que já vinha sendo apontado desde o final do século XIX e ganhou maior ênfase à medida que se transformou em uma questão de soberania nacional, era a mortalidade infantil. Diante de alarmantes índices de mortalidade

132 Acervo da hemeroteca digital, disponível em: < http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/>. Acesso em:

20 set. 2016.

133 Folder da Cruzada Pró Criança de 1934 – Fundo Cruzada Pró-Infância. Acervo Museu de Saúde Pública

Emílio Ribas / Instituto Butantan.

134 Folder da Cruzada Pró Criança de 1934 – Fundo Cruzada Pró-Infância. Acervo Museu de Saúde Pública

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infantil, que, segundo Pérola “chegam a gerar a ideia sombria de que o destino da criança, em nossa terra, é morrer”, o futuro do país estava comprometido 135.

Na capital da República, experiências como as dos médicos Fernandes Figueira e Moncorvo de Figueiredo, apresentadas por Sanglard e Ferreira (2014; 2010), trazem importantes elementos sobre esse debate nos meios intelectuais. A constatação de que as causas do alto índice de mortalidade infantil estavam na ausência de conhecimento sobre os princípios básicos da higiene, principalmente nas camadas mais pobres, levou a reivindicação por profissionais especialmente destinados à assistência materno-infantil, tanto através da institucionalização da pediatria como cadeira médica, descrita por Giselle Sanglard e Luiz Otávio Ferreira (2010), quanto pela formação de quadros femininos para conduzir a “pedagogia materna”, como afirma Martins (2008). 136

Nessa aliança entre mulheres e médicos, descrita por Freire (2006) e Martins (2008), os cursos de visitadoras compõem um espaço de afinidades eletivas de ambos137. Médicos, como

Carlos Chagas, vão sinalizar a importância das visitadoras para as ações sanitárias do período (KROPF & LACERDA, 2009). Eis o que ele diz sobre as visitadoras: “sem nenhum exagero, asseguramos que não se poderá mais admitir uma administração sanitária moderna, a qual falte esse órgão valioso de ação representado pela enfermeira visitadora” (O JORNAL, 1922). Já as mulheres, “embebidas na atmosfera de busca de progresso e modernidade, possivelmente enxergaram, na adesão à ideia de primazia da ciência (…) um caminho conveniente na tentativa de alcançar uma transformação no seu lugar na sociedade” (FREIRE, 2006, p. 51).

Os cursos de “Visitadoras” no Brasil oferecem um bom estudo de caso. Eles emergem por iniciativa do Estado, pretendendo capacitar, de forma rápida, a força de trabalho feminina para atuar no incipiente sistema de proteção social. A educação sanitária torna-se a pedra de toque da política de saúde pública (FARIAS, 2005). Em São Paulo, o curso de Educação Sanitária foi

135 Fotografia de quadro de avisos da Cruzada – Fundo Cruzada Pró-Infância. Acervo Museu de Saúde Pública

Emílio Ribas / Instituto Butantan.

136 Existe uma multiplicidade de nomes pelos quais essas profissionais se tornaram conhecidas: Visitadoras

sanitárias, visitadoras sociais, enfermeiras sanitárias, educadoras sanitárias etc. Todos atendiam à mesma função. A experiência das Visitadoras foi abordada por vários autores, destacam-se Vieira (2013) Rocha (2005) e Faria (2006).

137 Para Michel Löwy (1990), “a afinidade eletiva não se desenvolve no vazio ou no azul puro da

espiritualidade pura: ela é favorecida ou bloqueada por condições históricas determinadas, econômicas, sociais, políticas e culturais”. (p. 186)

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fundado, em 1925, pelo médico higienista Geraldo Horácio de Paula Souza, no Instituto de Higiene de São Paulo138. Três anos antes, Carlos Chagas havia criado na Capital Federal o Serviço de Enfermeiras Visitadoras, precursor da Escola de Enfermagem Anna Nery (KROPF & LACERDA, 2009). Ambos contaram com o apoio da Fundação Rockefeller, uma instituição filantrópica norte-americana, que atuou como referência institucional e pedagógica no Brasil e no mundo.

A mortalidade infantil era “culpa das mães que não estavam criando bem filhos” (MARTINS, 2008, p. 146). Nesse sentido, sua superação se daria por ações educativas direcionadas a elas que eram, e ainda são, apontadas como as responsáveis pelos cuidados com a prole. O futuro da nação e o progresso do país dependiam de que a mulher cumprisse bem o seu papel social de mãe. No espaço privado, criando filhos saudáveis para a pátria, mas também no espaço público, educando as mães. Nessa experiência, estabelece-se, nas palavras de Lefaucheur (1991), um casamento entre mulheres e Estado providência, em que as mulheres ora são objetos das ações assistenciais do Estado ora profissionais responsáveis por essas ações.

Para a formação desse novo campo, foram recrutadas professoras primárias, importantes aliadas na obra de divulgação das noções de higiene139. Rocha ressalta que a criação desse curso

representou a possibilidade de reorientação profissional para uma geração de professoras (2005, p 74). Embora Pérola não tenha realizado o curso, não se sabe por quais motivos, certo é que seu protagonismo filantrópico está irremediavelmente associado às Educadoras Sanitárias. Não apenas por ser esse um espaço de sociabilidades de uma geração de mulheres intelectuais que consolidam a proteção à infância como um campo de atuação feminina, mas também pelo papel preponderante que a Associação de Educadoras Sanitárias terá na fundação da Cruzada Pró- infância.

138 O curso tinha duração de um ano e seis meses e oferecia conhecimentos teóricos ─ sobre organização do

serviço – e aulas práticas – sobre técnicas de vacinação e atendimento à família, além de visitas domiciliares, os últimos seis meses eram dedicados às atividades práticas em estágios nos serviços sanitários estaduais. (FARIAS, 2006, p. 192).

139 Embora o curso fosse direcionado aos membros do magistério, que deveriam apresentar diploma do curso

normal do Estado, comprovante de exercício do magistério em grupo escolar há mais de seis meses, não havia nenhuma exigência quanto ao sexo do candidato. Todavia, na primeira turma não houve a matrícula de nenhum homem. (ROCHA, 2005).

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As ações de educação sanitária movem as mulheres em direção a novos lugares e novos papéis. O mundo privado se estende ao mundo público, consolidando um ideal de “mãe cívica”. Exaltando a maternidade como um dos fundamentos dos direitos e deveres das mulheres. O maternalismo ora privilegia o acesso feminino às profissões, que são uma expressão da maternidade social, ora aponta para a necessidade de políticas direcionadas à proteção da maternidade e da infância. O maternalismo constrói uma identidade feminina no campo da proteção social. Ao tratar a maternidade como uma função social e não apenas como uma função familiar, indica que o discurso maternalista do início do séc. XX rompe com a tradicional dicotomia entre as esferas pública e privada. (BOCK, 1991) E isso significa um ganho na história