7.3 ALINHAVANDO REDES E PRODUZINDO NOVOS TECELÕES
7.3.2 Um lugar para estar, ler, se educar e se divertir
As bibliotecas são vistas também como espaços de socialização e convivência. Um local de estudo, de aprendizado, espaço de lazer e de cultura, isto é, “tem essa função social fundamental, tanto na questão da leitura quanto também nessa questão de facilitar a convivência entre as pessoas, contribui de certa forma também até para diminuição da violência indiretamente”, pontua Miguel.
Para montar essa ambiência e esse lugar de convivência, sobretudo para o público infantil e juvenil, os gestores e mediadores se apropriam do conceito de bibliotecas vivas e fogem daquele padrão estigmatizado e estereotipado de biblioteca do silêncio, e é justamente isso que atrai as crianças e que faz com que elas não se sintam intimidadas, mas, ao contrário, permite que elas usem e abusem da biblioteca. Deixo-os continuar:
[...] Uma biblioteca para ser viva, que é o conceito que trabalhamos, ela tem que ter pessoas circulando. Quando as crianças vêm para cá para ler, elas fazem muito barulho e a gente não vai ficar: “Silêncio, silêncio”, controlando. Eu acho que uma biblioteca viva tem que ter barulho, fazer zoada. Hoje está até silencioso aqui, tem dias que está barulhento, barulhento assim, de pessoas circulando, conversando (Sérgio, gestor)
A gente também precisa desmistificar que essa ideia de biblioteca é um espaço morto porque eu cresci ouvindo todo mundo dizer que biblioteca é um lugar de silêncio, na maioria das vezes um lugar muito, muito chato. Por quê? Por que você vem para cá, você não pode abrir a boca, quando abre a boca já tem alguém: “Psiu!”. Então, a criança ela vem, ela lê, mas não pode falar sobre o que ela tá lendo, ela não pode rir, ela não pode se emocionar, o livro ele é uma coisa que ele vai despertar tuas sensações, tuas emoções. Então assim, você tá lendo um livro de piada e você não pode rir, você lê um livro que lhe emociona, você não pode chorar porque você não pode fazer barulho. Então, essa relação que se estabeleceu há muito, muito tempo e tá estabelecida ainda de que biblioteca é um lugar de silêncio absoluto, é um lugar onde não se fala, é um lugar onde não se ri, é um lugar onde não se interage é uma coisa muito complicada ainda, entende? Então, por que eles [estudantes] gostam tanto de fazer trabalho na biblioteca [comunitária]? Porque eles ouviram música, porque eles fizeram dinâmica e eles estavam onde? Na biblioteca. Então, a biblioteca, como diz o próprio livro, é a biblioteca encantadora, ela encantou o olhar dessas crianças (Lúcia, educadora).
A observação da educadora Lúcia é pertinente na medida em que percebe que a construção do saber não se dá apenas de modo isolado e silencioso. Diante das novas
configurações culturais e tecnológicas, e pela própria característica dos interagentes, o trabalho com o público infantil e juvenil exige posturas diferentes àqueles que trabalham em unidades de informação. Caso contrário, corre-se o risco de distanciamento dos interagentes e subutilização do espaço.
Sete pessoas relataram, ainda, terem aprendido a ler e a escrever dentro da biblioteca. Ou a aprimorar a leitura e a escrita, bem como o falar ou se expressar em público. Para Leonardo mudou o
modo de lidar com a escrita, essa coisa mais pragmática, escrevo muito melhor a partir dessa experiência, leio muito melhor, posso compreender os mecanismos de controle, de gestão, de prática de mediações de leitura, ampliou meu repertório de leitura, de títulos, minha relação com a literatura infanto-juvenil.
Além de ser um espaço para a leitura e para a escrita, a biblioteca também se configura como um lugar para estudo e pesquisa. Ela também oportunizou a muitos mediadores, gestores e interagentes o ingresso a um curso de graduação e pós-graduação, e, da mesma forma, o ingresso no mercado de trabalho, resultados do uso da leitura e da informação que eles adquiram no contato com a biblioteca.
Tal uso se refere ao hábito da leitura, à naturalidade do ler, pois esses espaços possuem atividades de leitura diária e trabalham uma metodologia de mediação de leitura que leva o ato de ler a se tornar prazeroso e comum no cotidiano. É por isso que Dora diz: “antes, eu não me
interessava por leitura. Eu tenho livros, só que eu não me interessava. Aí, quando eu cheguei aqui, todo mundo aqui lê, então agora eu me interesso por leitura, pego livro para ler”. O mesmo se aplica a Lorena: “eu lia, mas eu não lia muito, e agora eu tô lendo mais”. É interessante pontuar esse caráter de presença da leitura no dia a dia das bibliotecas, que termina se tornando natural também para seus interagentes.
Nos momentos de visitação in loco, percebemos o quão forte isso é, tanto para os mediadores e gestores como para os interagentes. Na BCEPOMA, as crianças receberam a pesquisadora mostrando seus livros preferidos e entregando-lhe outros para que ela contasse histórias. Ela também observou mães chegando para devolver livros que as filhas tinham levado emprestado.
Quer dizer, é perceptível que isso muda a vida dessas pessoas, já que não é muito fácil encontrar tal comportamento hoje em dia nas comunidades. Não é fácil encontrar um grupo de crianças que, embora possam não ter livros em casa, possuem todos os dias acesso a uma biblioteca e a atividades de leitura duas vezes por semana. Isso certamente deve ensejar outro
horizonte para elas. O contato diário com a literatura, como defendido por Castrillón (2011), com certeza, faz delas crianças diferenciadas, e isso foi visível nos modos de agir entre elas mesmas e entre elas e os adultos.
Os mediadores também percebem o progresso literário dos interagentes, a movimentação maior na biblioteca, e recebem depoimentos de pais e professores sobre a mudança de conduta como o hábito da escuta e a afetividade. Por exemplo, Augusto, Miguel e Estela, respectivamente, evocam que:
[...] Os meninos vieram em peso para fazer a carteirinha. Às vezes, a gente tá aqui e eles invadem a biblioteca. A gente percebe que depois desse projeto, o movimento cresceu, teve um resultado bem bacana. Quem lia continua lendo e quem não lia tá começando a ler. Descobri alguns poetas no meio da escola, algumas crianças que de repente até elas mesmas nem sabiam.
Um pai e uma mãe disse que se surpreendeu, que tava gostando muito da participação do filho no projeto, que o filho voltava empolgado, contando histórias em casa, contando histórias pros coleguinhas, juntava os coleguinhas na rua, aí contava as histórias pros colegas, que contava aqui e ficava pedindo à mãe e à avó para contar histórias para ele [...] teve outra mãe que disse que a filha só pedia para comprar brinquedo, passou a pedir para comprar livro, só que ela ficava muito triste porque não tinha dinheiro para comprar livro porque era muito caro e que ia se esforçar para trazer a filha para frequentar aqui. As escolas chegam para a gente para comentar que os próprios alunos pedem para os professores e cobram dos professores que leiam as histórias para eles e afirmam “Por que na biblioteca faz”.
Também é nítida a função da biblioteca comunitária como instrumento de politização e desenvolvimento da cidadania e autonomia. Um local que, por meio da disponibilização de livros, da mediação literária e da ação cultural, vai atuando num processo de educação cidadã e suas formas de intervenção:
Eu acho que a biblioteca comunitária é esse lugar de acesso à cultura letrada, acesso a um lugar de fortalecimento político, de exercício do discurso mesmo, da prática de falar, do conviver. Atualmente, eu encaro as bibliotecas nesse sentido, para além desse lugar da democratização do acesso, da democratização da informação, mas de produzir uma informação, é um lugar de empoderação, fortalecimento (Leonardo)
Mas essa relação de estar com a biblioteca até hoje é de acreditar que isso aqui é um espaço de transformação, até um espaço mesmo de empoderamento político, humano, das pessoas estarem em um espaço como esse, de ter acesso ao livro, porque o livro no Brasil é caro (Sérgio).
A autonomia, por sua vez, é outra questão incentivada pelas bibliotecas, que inclui, além da já citada maneira de uso e apropriação do espaço da biblioteca, a competência informacional e a autonomia perante os discursos repressivos e dominantes no enfretamento das condições de exclusão social:
[a biblioteca pretende] quebrar essas barreiras que existem e mostrar que todos eles podem fazer o que eles quiserem. Porque o poder público, enfim, todo esse sistema... eles colocam muito a comunidade como um espaço onde eles não têm chance para nada. Eles não têm direito a quase nada e eles são praticamente mão de obra barata. E a biblioteca tá aqui dentro para mostrar que não, que eles podem fazer, eles podem mudar se eles quiserem (Vicente, mediador).
A autonomia também se refere ao protagonismo criativo do sujeito e sua capacidade de fabulação e de emancipação pela apropriação do literário. A literatura se apresenta, portanto, como um elemento criativo que promove a prática de questionamento do mundo (PAULINO, 2016) e reforça as singularidades dos sujeitos, como sublinha outro mediador:
Então, a minha perspectiva maior é a questão da imaginação e do pensamento, do pensar. Se o menino sair pensante, uma pessoa pensante e que imagine coisas, coisas boas, para mim tá tudo certo. Meu objetivo é esse. Até porque não existe uma pessoa pensante se ela não ler. O que faz a gente se tornar um ser pensante é a leitura. A leitura que vai fazer você refletir, mas basicamente é isso: que o menino saia questionador. Então acho que se os meninos entrarem nessa história de eles mesmos inventarem a sua história e não ficar dentro dessa forma que o mundo diz que é assim. Se a moda é amarelo, tem que usar amarelo. Acho que valeu a pena. Pelo menos meu objetivo pessoal é esse aí. É os meninos ficarem pensantes e criadores da sua própria história (Augusto).
Por fim, a biblioteca comunitária também foi frequentemente denominada como uma saída, uma rota de fuga face aos problemas existentes na vida familiar e comunitária. Lia diz que o refúgio dos frequentadores é na biblioteca “diante de algumas famílias que têm desequilíbrio familiar, tem vezes que eles vêm para cá, querem um abraço, querem um beijo”, Sofia também enxerga assim: “eu vejo a biblioteca como uma possibilidade, é um cano de escape, é uma fuga, uma possibilidade que eles têm de sair daquela realidade”. Também é considerada assim por Manuel (que teve de parar os estudos para trabalhar. Por isso, faz menção à “não frequência de ir à escola”);
É uma rota de escape muito grande e é quase um alicerce assim, quem não tem uma frequência para ir à escola, pelo menos tem uma frequência para ir à leitura e através da leitura a gente aprende muita coisa [...]. E isso ajuda a rapaziada, ajuda a molecada, é crucial, se não tivesse isso aqui, a ignorância ia ser total, a gente ia tá lascado (risos).
Para algumas dessas crianças, tem sido um refúgio para um lugar saudável, fora de casa, porque a comunidade não possibilita ter um lugar de lazer, a violência, tudo isso. Então, a criança acaba vindo para cá e muitos se despertam, acho que você consegue ver nos brilhos nos olhos de alguns deles esse desejo de mudança, de aprender [...] É uma saída para a comunidade. Assim, é um espaço, é um equipamento cultural, um equipamento público de construção de sonhos... onde as pessoas vão vir e vão viajar na leitura, vão viajar no conhecimento e também vão ter a possibilidade de construir suas vidas (Felipe).
Esse lugar onde eles se sentem seguros é muitas vezes recordado como o único local de respaldo encontrado. Estela relata o caso de um interagente preso que se lembra da biblioteca na penitenciária: “lembra-se da gente... aí você diz: ‘Poxa, é aqui que ele tem algum apoio’, por que ele não tem escola, ele não tem uma família equilibrada, ele não tem ninguém que o receba e acredite”.
Dessa forma, a biblioteca se apresenta para a comunidade como esse lugar de pertencimento, cujas vantagens de uso e interação incluem a própria ambientação, que mesmo em espaços pequenos são elaborados e decorados de forma aconchegante e propícia ao público leitor; a equipe da biblioteca com atendimento diferenciado ao público, embora seja um desafio cotidiano de aprendizados e trocas; o acervo de grande qualidade encontrado nessas bibliotecas; o encontro com os colegas, entre tantas outras razões que promovem a convivência comunitária.