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Unidades elementares de relevo e biodiversidade

A topografia do terreno, associada ao direcionamento em relação aos pontos cardeais, cria ambientes bastante diferentes entre si, dentro da bacia hidrográfica, tanto em relação ao solo, aos nutrientes, como à umidade. A tendência das encostas voltadas para o sul, por exemplo, no nosso hemisfério, é serem mais úmidas por receberem pouca insolação durante o inverno, uma vez que o caminho do sol segue tão mais para o norte quanto maior a latitude do local. As encostas que recebem mais diretamente o sol da tarde, voltadas portanto, para o oeste, também tendem a ser mais secas que as voltadas, para o leste.

A conformação do relevo também atua de forma determinante no solo, criando diversidade no ambiente. O perfil de uma encosta normalmente tem o topo convexo para o céu, podendo ser reto na parte mediana ou ter apenas um ponto de inflexão, sendo côncavo na parte inferior (Figura 1). A superfície convexa é controlada pelos escorregamentos, especialmente o rastejamento, e tende a exportar nutrientes, matéria orgânica, água e solo. Nas partes inferiores, as encostas são controladas por transporte de água, que sobrepuja o rastejamento, e são normalmente côncavas para o céu (Bloom, 1970). Nessas áreas, acumulam-se os materiais provindos de outras partes do relevo.

Fig. 1. Perfil de uma encosta, mostrando o topo convexo e a base côncava.

Tomando como base que as superfícies convexas são normalmente exportadoras e as côncavas são acumuladoras, podem-se relacionar algumas partes da paisagem no tocante a características do solo, como disponibilidade de nutrientes, teor de matéria orgânica, umidade, entre outras. Além das linhas do perfil da encosta, examinam-se também as linhas de nível que, da mesma forma, podem ser côncavas (superfícies coletoras de água), retas ou convexas (superfícies distribuidoras de água), o que teoricamente cria 9 situações com diferentes níveis de exportação ou acúmulo de material. Com as duas linhas convexas, tem-se a área de máxima exportação e com as duas linhas côncavas, a área se transforma em um local de máximo acúmulo (Figura 2).

convexo

reto

1 2 3 4 5 6 8 9 7

N Linha de nível Linha de perfil

1 Convexa Convexa 2 Reta Convexa 3 Côncava Convexa 4 Convexa Reta 5 Reta Reta 6 Côncava Reta 7 Convexa Côncava 8 Reta Côncava 9 Côncava Côncava

Fig. 2. Tipos de vertentes, observando-se as linhas de nível côncavas (coletoras de

água), retilíneas e convexas (distribuidoras de água), bem como as linhas de perfil da encosta côncavas (de lavagem, acúmulo), retas e convexas (rastejamento, exportação), criando-se os níveis crescentes de acúmulo e decrescentes de exportação.

Muitas espécies são adaptadas a determinados microambientes, pois

desenvolveram características fisiológicas, biológicas, etc., que as permitem viver nesses locais, muitas vezes vencendo obstáculos que limitam a vida. Da mesma forma, as espécies cultivadas também apresentam preferências por determinados microambientes e, em sua maioria, adaptam-se aos locais mais férteis. A

observação das espécies nativas e das cultivadas nos microambientes da

paisagem, assim como a percepção das relações existentes entre essas nativas e as próprias plantas cultivadas, são critérios interessantes que podem levar à composição de sistemas bastante integrados ao meio. Muitos dados já são comuns na sabedoria popular, arraigados pelos muitos anos de experiência contínua. Ao se pensar em plantar bananeiras, é bem provável que se escolham áreas de acúmulo, se possível, com linhas de nível côncavas, que são as cabeceiras de nascente. Um outro exemplo é a existência de espécies indicadoras. Muitos agricultores sabem que, onde há um grande pau d'alho, pode-se plantar feijão, que certamente a produção será boa, assim como notam que o guapuruvu (Schizolobium parahiba) prefere as regiões boas para a bananeira, ou seja, com linhas de nível côncavas.

Muitas outras espécies também são observadas para indicação de um local adequado ao plantio de diversas culturas. Essas associações, muitas vezes inseridas na tradição cultural, podem refletir relações importantíssimas entre as espécies e entre essas e o meio, permitindo melhor entendimento do sistema e a elaboração do planejamento e do manejo mais adequados para o lugar.

Devido às adaptações de muitas espécies aos ambientes diferenciados, a introdução de sistemas produtivos muito impactantes pode apresentar riscos de perda permanente de biodiversidade. As áreas mais críticas são protegidas pela lei e devem permanecer intactas por serem Áreas de Preservação Permanente, ou

o

seja, os topos de morro, terrenos com declividade maior ou igual a 45 , áreas próximas a rios, lagos ou nascentes são áreas não destinadas à implantação de sistemas produtivos. Seria interessante que os sistemas de produção, ainda que localizados em áreas permitidas, seguissem vários outros critérios que atendessem à minimização de impactos e a busca por maior sustentabilidade. Os manejos dos sistemas produtivos que englobam e se baseiam nos processos naturais tendem a ter menor perda de recursos e de biodiversidade, podendo ter escala ampliada de produção. Quanto mais distante do ambiente natural for o sistema produtivo, menor a escala de produção que o ambiente suporta, menor a sustentabilidade do sistema. Por exemplo, um sistema de produção baseado em pastagem e gado está extremamente distante de uma floresta tropical, tanto em termos de diversidade, como de biomassa, ciclos de nutrientes, ciclo hidrológico, entre outros aspectos. É de se esperar, portanto, que seja baixíssimo o grau de

sustentabilidade de uma pastagem na floresta Amazônica, o que deve indicar que essa atividade não deveria ser recomendada para esse ambiente ou, no máximo, ter ali uma escala extremamente reduzida. A manutenção desses sistemas inadequados ao ambiente tem um custo que, na maioria das vezes, não se limita aos gastos financeiros com insumos, mas é subsidiado pelos recursos naturais, como o solo, a água, a biodiversidade. A exploração dos recursos naturais, ou seja, o uso dessa riqueza sem a preocupação em mantê-los se traduz numa perda incalculável de bens ambientais, o que é uma ação irracional, por mais paradoxal que pareça, tomada por seres humanos, tão racionais.

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