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A corredenção de Maria

No documento MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA (páginas 132-136)

a ideia que se impõe aos cristãos do Oriente não é a da intercessão de um santo junto a Cristo, uma vez que essa pode ser facultativa, mas sobretudo a ideia da unidade de todos os santos em Cristo, da união eclesial, da inseparabilidade de Deus e dos seus santos65.

Outro elemento que deve gozar de destaque é que a mediação de Maria como a da Igreja é uma participação na mediação do Espírito Santo.

Esse influxo salutar é apoiado pelo Espírito Santo, que, assim como estendeu a sua sombra sobre a Virgem Maria, dando na sua pessoa início à maternidade divina, assim também continuamente sustenta a sua solicitude para os irmãos do seu Filho (RM 38).

Assim, a mediação de Maria e da Igreja é uma ação no Espírito Santo, contudo cremos que a expressão ainda não alcança o verdadeiro lugar do Espírito nessa questão. Ele ainda é um elemento que ratifica a ação de mediação, mas não é apresentado como o Mediador por excelência, como o Intercessor ao Pai junto do Cristo. O esquecimento da centralidade do Espírito Santo nesse ponto é que vai acarretar a expressão de Maria como “Medianeira de todas as graças”, questão essa que trataremos mais adiante.

Nesta seção, evitamos unir a compreensão da mediação de Maria com a questão da sua corredenção, mesmo cientes da implicação que um termo tem sobre o outro. Nossa escolha foi de caráter metodológico, de modo que possamos melhor tratar do tema nessa parte da pesquisa.

Redentor, e por isso colaborou com a redenção da humanidade. Nesse contexto, dizer Redentora equivale a dizer “Mãe do Redentor”67.

A mudança conceitual do título dá-se no século XII, quando se abandona a compreensão de Maria enquanto “causa do Redentor” (mediante sua maternidade) para Maria enquanto “causa da redenção”. Isso porque o título de Redemptrix não se vincula mais à colaboração de Maria na encarnação, mas à sua presença aos pés da cruz. Sustentando essa concepção passam a coexistir tanto o título de Redemptrix quanto o de coredemptrix. Aos poucos deixou-se de nomear Maria como Redemptrix até que, no século XIX, o título desapareça por completo68.

O termo “Corredentora” aparece pela primeira vez num documento oficial da Igreja em 1908, na Acta Apostolicae Sedes. Não pelo Papa em exercício, Pio X, mas pela Congregação para os Ritos, em 13 de maio de 1908. Logo em seguida é encontrado em outros documentos do Santo Ofício, no ano de 1913 e de 1914. Contudo, esses documentos são de caráter secundário, tendo como finalidade algo que não se referia diretamente à questão da corredenção de Maria. O Papa Pio XI usou o termo duas vezes em situações que também não tocam a questão teológica da compreensão de Maria como “Corredentora”69.

Antes do Concílio Vaticano II, um grupo de cinquenta bispos expressou o desejo de uma dogmatização do título de “Corredentora”, mas a oposição a esse título mariano foi maciça, prevalecendo as expressões de advogada, auxiliadora, segurança, medianeira, como já tratamos anteriormente70.

João Paulo II, que tanto ressaltou a “Mediação de Maria” na Redemptoris Mater, já não utilizou tanto o termo “Corredentora” em seu magistério, limitando seu emprego em discursos públicos e nunca numa encíclica71.

4.5.2. Reflexão teológica sobre a corredenção de Maria

A defesa em favor do título afirma que, quando se diz “Corredentora”, entende-se Maria “com o Redentor”, “junto dele” e não “igual ao Redentor”, uma vez que o prefixo co provém do latim cum, que significa “com” e não “igual a”. Desse modo, o título estaria a

67 Ibid., p. 56-57.

68 Ibid., p. 57.

69 Ibid., p. 60-61.

70 Ibid., p. 63-64.

71 Ibid., p. 64-65.

favor da afirmação de que Maria cooperou de modo excepcional à obra da redenção de toda a humanidade72.

De fato, seus adeptos sempre estiveram atentos aos perigos inerentes a essa expressão devocional, como podemos observar em G. Roschini:

Devemos guardar-nos, porém, de exagerações. Assim, seria exagero considerar-se a cooperação de Maria como uma cooperação colateral, como a que se verifica, por exemplo, nos esforços de dois ou mais homens para carregar um peso. Jesus é o único redentor: [...]. Maria coopera com Jesus, mas dependentemente dele, subordinadamente a Ele. Ela é, portanto, causa secundária, subordinada, embora verdadeira, real e eficaz, de nossa redenção73.

Na Patrística, o termo busca apoio teórico no paralelismo entre Jesus-Adão e Maria- Eva, sobretudo na interpretação de Irineu de Lião, na obra Contra os hereges. Entende-se dessa leitura das fontes patrísticas que a “nova Eva” está ao lado do “novo Adão”74.

Recorre-se também à distinção entre “redenção objetiva” e “redenção subjetiva”. A redenção objetivamente se dá na obra salvífica de Cristo, ao passo que subjetivamente sua aplicação é individual, é uma adesão pessoal e livre ao dom da redenção75.

No caso de Maria, ela participou de modo excelente da redenção subjetiva, modo esse que pode ser qualificado como “ativo”, pois ela é a “causa do Redentor” e esteve junto a Ele desde seu fiat na Anunciação até a morte na Cruz, quando, de modo singularíssimo, associa sua maternidade à imolação do sacrifício de seu filho. Como explica L. Veuthey:

Então, Maria é Corredentora no senso mais completo da palavra. O seu sofrimento, como todo o sofrimento, adquire valor redentor na Paixão do Filho de Deus, mas em unidade com este, sendo plenamente corredentor e complementar à Paixão do Senhor76.

A forma como Maria participa do evento da cruz enquanto “redenção subjetiva”, juntamente com a compreensão linguística do termo e o referido dado patrístico, corresponde aos elementos centrais que endossam o termo “Corredentora de toda a humanidade”.

Contudo, é considerável deduzir a impertinência desse título, por um conjunto de fatores.

72 Ibid., p. 66. Não é nosso objetivo aprofundar na questão, contudo, a explicação para o uso do “co” em sentido de “com” não parece fazer muito sentido. Basta, por exemplo, pensar na palavra “coautor”: quem é coautor é igualmente autor com outro autor.

73 ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p. 85. Interessante observar que G.

Roschini, enquanto defensor do termo “Corredentora”, usa o vocabulário “cooperação” entendo-o como correlato a “corredenção”.

74 MUNSTEMAN, Maria correndentora?, p. 67.

75 Ibid., p. 67; TESTA, Emmanuele. Maria terra vergine. I rapporti della Madre di Dio con la SS. Trinità (Sec. I- IX). Jerusalem: Franciscan Printing Press, 1985, p. 75.

76 VEUTHEY, Dottrina mariologica, p. 29-30.

Partindo da questão linguística, o prefixo “co-” em nossas línguas ocidentais modernas, na maioria dos casos, implica, de forma direta ou implícita, uma compreensão de igualdade entre as partes, como por exemplo: coadministrador, copresidente, coassociado, etc.

Isso nos leva a crer que a aplicação contemporânea do título não favoreça a unicidade da redenção operada em Cristo, segundo 1Tm 2,5-6. Essa deficiência mostra a ambiguidade do termo, pois a justificativa, por mais que se encontre conveniência nessa utilização, não corresponde ao título. E se gera incerteza e a explicação não está à altura do que se espera, ele não deve ser utilizado77. Cremos que a posição sucinta, mas densa, de Ambrósio venha resumir bem essa questão, pois, segundo o bispo de Milão, “Jesus não precisou de qualquer ajuda para a redenção de todos”78 e isso deve gozar de clareza no vocabulário teológico e devocional.

O título também representa um retrocesso na reflexão mariológica pós-Vaticano II, pois ele guarda consigo uma linguagem maximalista. Apoiado numa linguagem (neo) escolástica, parte de princípios linguísticos e patrísticos, para, num segundo momento, procurar o suporte bíblico, tratando as Escrituras como um elemento secundário que se forje em prol de uma argumentação mariana. Essa não foi a metodologia aplicada pela Lumen Gentium, no seu capítulo VIII79.

Outro ponto que se questiona é o valor aplicado às supostas aparições de Maria em Amsterdã, dirigidas a Ida Peerdeman. Uma “revelação particular” não é princípio de uma proclamação dogmática, pois não é um ato de interpretação da Palavra de Deus consignada nas Escrituras, como também não está inserida no sensus fidei. E procurar uma ligação entre Amsterdã – pedindo a proclamação dogmática da “Corredenção Universal de Maria” - com Lourdes (1858) –, que foi vista como uma confirmação da proclamação dogmática da Imaculada Conceição (1854), é ignorar a ordem dos eventos, pois, primeiro, houve a definição do dogma, para, em seguida, assumir a aparição como uma possível explicitação do dogma80.

Também acreditamos que se destaca nessa reflexão certo exagero com relação à leitura de Jo 19,25-27. Maria, na perspectiva de João, está unida à pessoa do seu filho crucificado, mas o acento que o evangelista enfatiza é sua presença como figura representativa do “Povo da Aliança”. Se ao evento redentor da cruz está unido o “Povo da Aliança”, seria um exagero

77 MUNSTEMAN, Maria correndentora?, p. 72-74.

78 AMBRÓSIO, Tratado sobre o Evangelho de Lucas, 10, 132 (Sources chretiennes, 52, p. 200).

79 Ibid., p. 77-79.

80 Ibid., p. 82. Deve-se recordar também a questão de que, em Lourdes, na considerada aparição da Virgem Maria ela teria se apresentado com a expressão “Eu sou a Imaculada Conceição”, o que não corresponde literalmente ao conteúdo do dogma definido pela Ineffabilis Deus.

só ver nesse momento Jesus e sua mãe. Isso nos faz lembrar a crítica de J. B. Metz com relação à interpretação da morte de Jesus, como um ato isolado de todo o sofrimento da humanidade, que se reflete de modo especial no filme de M. Gibson, A paixão de Cristo (2004), quando o teólogo questiona:

Será que não eliminamos da anunciação cristã da paixão, sem nenhuma preocupação e depressa demais, o grito das pessoas nas insondáveis histórias de sofrimento do nosso mundo? Não afastamos demais a história do sofrimento de Cristo daquela história do sofrimento da humanidade?81

A mãe de Jesus, nessa hora, pode ser entendida como representante do “grito” das pessoas que sofrem toda forma de violência unida ao “grito” de Jesus na cruz. Mais que as dores de alguém tão importante, mas que não sabemos sua localização na hora da morte de seu filho, Maria, enquanto figura, mostra-nos que “a paixão de Cristo se mistura à história da paixão dos homens”82.

Outro ponto de suma importância é a relevância ecumênica do termo. O título de

“Corredentora” seria um empecilho a mais no diálogo ecumênico entre as Igrejas, sobretudo em relação ao Protestantismo. Cremos que, depois do Concílio Vaticano II, não é possível qualquer elaboração mariológica que se abstenha da responsabilidade para com a questão ecumênica em seu discurso.

Enfim, o ponto que nos é mais caro nessa discussão é o obscurecimento do papel do Espírito Santo nesse título mariano. Nessa discussão mariológica a favor da corredenção de Maria, não se leva em consideração a participação do Espírito Santo na obra da redenção operada pelo Cristo. Muito mais do que Maria é o Espírito Santo quem participa da vida de Jesus desde a encarnação até sua morte e ressurreição, pois em toda a vida de Jesus é o Espírito a unção e o sopro que o animava em toda obra redentora. Ao Paráclito, sim, devido a uma igualdade divina é que se aplica, com toda a força da expressão, o prefixo “co-”, afirmando que é o Espírito Santo o “Corredentor Universal”, salvaguardando o que é específico na missão do Filho e do Espírito Santo83.

No documento MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA (páginas 132-136)