matrimônio que o Verbo se encarnou e, pela força do Espírito Santo, desposou toda a humanidade com Deus.
Outro acento que gostaríamos de salientar é uma expressão que A. Serra usa para falar de Maria como a testemunha dos “caminhos de Deus” quando canta seu Magnificat. O exegeta fala que Maria esposou exemplarmente a vontade de Deus (Lc 1,38) e perseverou na fé41. A imagem de Maria como alguém profundamente unida à vontade de Deus e perseverante em todas as situações de sua vida a essa vontade divina é algo que vale a pena ressaltar na reflexão teológica e na piedade mariana. Maria na força do Espírito Santo assumiu de tal modo o projeto de Deus como que numa aliança de profundo amor e entrega.
A partir desse momento, o Templo de Jerusalém será apresentado como “morada de Deus”, ou, melhor dizendo, “habitação do Nome de YHWH”. Lembremos que
o templo não hospeda estátuas; seu centro é a arca, que conserva em seu interior o documento da aliança. Portanto, ele se destina a conservar a memória histórica da intervenção de YHWH na história, conduzindo o povo pelo deserto e fazendo aliança com ele43.
Não somente o Templo de Jerusalém serve como representação prototípica para representar Maria como “morada de Deus”. Também podemos recorrer à imagem da cidade de Jerusalém. Jerusalém é o lugar iluminado pela glória do Senhor, sendo Ele mesmo sua fonte de luz (Is 60,1-2;19-20)44.
Jerusalém, então, é a cidade da glória do Senhor numa expressão materna. As antigas cidades eram protegidas por muralhas que podem conferir a ideia de um grande ventre, onde em seu interior vivem Deus e o seu povo. Deus vive no seio de Jerusalém por causa do Templo (Sl 2,6; 74,3; 78,54) e faz dela “mãe universal”, pois se espera que todos os povos, hebreus e gentios, se reúnam nela para adorar o Senhor como um só povo (Is 56,6-7; 66,18- 21; Tb 14,5-7). Isso é o que faz da “Cidade Santa” uma verdadeira “metrópole”, ou seja, uma
“cidade mãe”45.
Desse modo, essas compreensões simbólicas do Antigo Testamento refletidas à luz dos textos do Novo Testamento nos levam a Maria de Nazaré que “concebeu em seu seio” (Lc 1,31) o Verbo de Deus pela força do Espírito (Lc 1,35) como o “lugar” onde Deus manifestou sua intervenção histórica por excelência. Sublinhando a ênfase pneumatológica dessa questão, podemos dizer que Maria é “Templo do Espírito Santo”, seu “Sacrário”.
Segundo C. I. González, a expressão “conceberás no teu seio” (Lc 1,3146) é uma redundância em vista de enfatizar o “seio de Israel” que é o tabernáculo e a Arca da Aliança, de modo que “no seio de Maria faz-se presente (na carne de seu Filho) a glória do Senhor em seu Templo”47.
Essa expressão da relação entre o Espírito Santo e Maria, sintetizada na compreensão de que o Espírito repousa em Maria como num lugar sagrado fez eco na Patrística. João Damasceno dizia: “Ó Virgem, [...] templo não decorado de ouro ou de pedras animadas, mas
43 TABORDA, Francisco. A Igreja e seus ministros. Uma teologia do ministério ordenado. São Paulo: Paulus, 2011, p. 34.
44 GONZÁLEZ, Maria evangelizada e evangelizadora, p. 276-277.
45 SERRA, Aristide. La Donna dell’Alleanza. Prefigurazioni di Maria nell’Antico Testamento. Padova: Edizioni Messaggero, 2006, p. 221-225.
46 Essa redundância está literalmente no texto grego. Foi, no entanto, omitida na Bíblia traduzida pela CNBB, em vista de um vernáculo mais escorreito.
47GONZÁLEZ, Maria evangelizada e evangelizadora, p. 52.
radiante do Espírito, ao invés de ouro”48. A mesma expressão aparece em Gregório de Nissa, dizendo que a carne de Maria se torna “receptáculo do Espírito Santo”49.
Podemos citar também Ambrósio que, polemizando quanto à possibilidade de divinizar Maria, irá dizer que
a encarnação é obra do Espírito Santo [...]. Não duvidamos que também o Espírito se deve adorar, quando é adorado Aquele que segundo a carne nasceu por obra do Espírito. Mas ninguém aplique isso à Virgem: Maria era o templo de Deus, não o Deus do templo50.
Outro elemento que nos ajuda na compreensão de Maria como “lugar santo” em que se manifesta a glória divina, ligada ao Templo, era a compreensão de que esse lugar era onde, de modo privilegiado, Deus se encontrava com a humanidade51. Essa compreensão pode ser aplicada a Maria no título “sacrário do Espírito Santo”.
O termo “sacrário do Espírito” aparece primeiramente com Isidoro de Sevilha52, enquanto os outros Padres optam pelo termo “arca da Aliança” para expressar o mistério da encarnação do Verbo no seio de Maria, em sua coloração pneumatológica53.
Também a imagem de Maria enquanto Sacrário do Espírito Santo foi aplicada à defesa de sua virgindade perpétua. Retomando os textos de Ex 40,34-35, 1Rs 8,10-11 e 2Cr 5,14 em que Moisés e os sacerdotes não podiam entrar no Templo, impedidos pela nuvem / glória do Senhor, esse impedimento foi considerado uma prefiguração da “inviolabilidade” de Maria54.
Maria entendida como “Sacrário do Espírito Santo”, juntamente com outras expressões de lugar sagrado, será uma forma de compreensão do mistério de Deus em Maria de modo recorrente como podemos ver na patrística, na reflexão teológica e na piedade popular de um modo geral55.
48 JOÃO DAMASCENO, IV Homilia na natividade da b. Virgem Maria, 10. In: PG 96,677.
49 GREGÓRIO DE NISSA, Homilia no Natal. In: PG 46, 1141.
50 AMBRÓSIO, Do Espírito Santo 3, 79s. In: PL 16, 765.
51 BULGAKOV, Il roveto ardente, p. 107.
52 ISIDORO DE SEVILHA, Nascimento e morte dos Padres. In PL 83, 148.
53 LANGELLA, Maria e lo Spirito, p. 32.
54 GONZÁLEZ, Maria evangelizada e evangelizadora, p. 257.
55 Gostaríamos de encerrar essa parte lembrando que a imagem de “sacrário” é aplicada a Maria também em relação a Jesus. Um exemplo é a Marialis cultus, quando Paulo VI, falando da concepção do Verbo pela força do Espírito Santo, a partir de Lc 1,35 e Mt 1,18.20, ensina que os “Santos Padres descobriram em tal intervenção do Espírito uma ação que consagrou e tornou fecunda a virgindade de Maria e a transformou em Palácio do Rei ou Tálamo do Verbo, em Templo ou Tabernáculo do Senhor e em Arca da Aliança ou da Santificação títulos ricos de ressonâncias bíblicas” (MC 26).