Da parte do Magistério da Igreja, apenas elencamos alguns documentos pontifícios que tratam da questão da mediação de Maria, a saber: encíclica Adiutricem Populi (1895) de Leão XIII; Ad diem illum (1904) de Pio X; a Merentissimus (1928) de Pio XI e a Radiomensagem de Pio XII por ocasião da solene coroação da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em 194651.
O fruto mais acabado dessa abordagem culminou naquilo que foi denominado
“movimento mediacionista”. Esse movimento encontra-se na esteira de um longo processo para a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, que reuniu em seu percurso uma série de debates teológicos e sistemáticas petições para que se proclamasse esse dogma, sobretudo das coroas de Portugal e Espanha. Alcançando seu objetivo em 1854, logo germinou a ideia de proclamar também a Assunção de Maria ao céu, nascendo outro movimento, agora denominado “assuncionista”. Para a proclamação desse dogma, acreditamos que o caminho foi mais bem preparado e menos conflituoso, uma vez que, desde o primeiro Congresso Mariológico Internancional, ocorrido de 5 a 8 de setembro de 1900, em Lião, tomou-se a iniciativa de recolher assinaturas pedindo tal proclamação dogmática, como também a divulgação do tema em revistas e outros congressos e simpósios mariológicos. Podemos dizer que nasceu em 1900 um verdadeiro “apostolado assuncionista”52.
Concomitante à busca dessa proclamação dogmática é que encontramos o “movimento mediacionista”, tendo à frente o Cardeal Mercier, arcebispo de Malinas, que, a partir de 1920, começa a reunir petições e reflexões em prol de sua causa53.
A petição do Cardeal Mercier foi levada a Bento XV, que, no ano seguinte, aprovou para a Bélgica e para outras dioceses que o solicitaram, a celebração litúrgica de Maria
“Medianeira universal da graça”54.
Novamente, o material recolhido e elaborado pelo Cardeal Mercier foi levado ao Papa, agora Pio XI, que, em 1922, o confiou à análise de três comissões teológicas, estabelecidas em Roma, Bélgica e Espanha. Cada uma dessas comissões estudou separadamente o projeto de proclamação dogmática, sendo que apenas a comissão romana apresentou razões suficientes para que o Papa desistisse da definição55.
Também no Brasil encontramos um forte movimento em prol da proclamação dogmática da mediação de Maria, que tem como principal expoente o Pe. Ignacio Valle, SJ.
51 BOFF, Clodovis, Introdução à mariologia, p. 109.
52 LAURENTIN, Breve trattato sulla Vergine Maria, p. 126.
53 Ibid., p. 126-127.
54 GONZÁLEZ, Maria evangelizada evangelizadora, p. 329.
55 GARCIA-MURGA, María, p. 187.
Sua intenção, denominada como “Grande Cruzada” era a “de levar o maior número de fiéis a encomendar missas: ‘Em honra e nas intenções da Medianeira de todas as graças’”56.
A questão da proclamação da mediação de Maria volta a Roma na preparação do esquema conciliar que culminaria no cap. VIII da Lumen Gentium. Apesar da firme decisão de João XXIII de que não haveria nenhuma proclamação dogmática no Concílio, um número expressivo de padres conciliares era a favor do conteúdo doutrinal da mediação de Maria, porém contrários à oportunidade de uma declaração formal57. Assim,
A saída encontrada pelo redator G. Philips e que agradou ambas as parte foi: 1) constar o fato de que “Maria é invocada na Igreja com o título de... Medianeira...”;
2) colocar este título emblemático no meio de outros, como os de “Advogada, Auxiliadora e Adjutrix”58.
Mesmo com o Concílio Vaticano II, a questão da “Mediação de Maria” ainda se impõe na reflexão mariológica, sobretudo com a clara opção pelo termo que João Paulo II adotou em seus pronunciamentos, catequeses marianas e, de modo mais claro, na Encíclica Redemptoris Mater.
Atualmente, o principal responsável pelo “movimento mediacionista” é Mark Miravalle, teólogo e leigo, professor na Universidade Franciscana de Steubenville (EUA). Seu intento é mais ousado do que o do Cardeal Mercier, pois ele busca alcançar a proclamação dogmática de Maria como “Corredentora, medianeira e advogada”. M. Miravalle recebe o apoio dos que já estavam ligados às petições do Cardeal Mercier e também se baseia nas supostas aparições de Nossa Senhora a Ida Peerdeman (†1960), na Holanda59.
Também se relatam outras supostas aparições marianas em que Maria reivindica um dogma relativo à sua mediação universal e corredenção, como em Kecskemet (Hungria, 1939), Eisenberg an der Raab (Áustria, 1965) e em Marpingen (Alemanha, 1983)60.
De um modo geral, no que tange tanto a mediação universal de Maria como sua corredenção (tema que trataremos a seguir), uma comissão de teólogos, juntamente com a
56 VALLE, Ignacio. Com Maria Mãe de Jesus. Cruzada de Santas Missas em honra e nas intenções da Virgem Medianeira. Santa Maria: Pallotti, 1952, p. 35.
57 BOFF, Clodovis, Introdução à mariologia, p. 109; GONZÁLEZ, Maria evangelizada evangelizadora, p. 329.
58 Ibid., p. 109.
59 MUNSTEMAN, Maria correndentora?, p. 6-7; BOFF, Clodovis, Introdução à mariologia, p. 123. Sobre as supostas aparições de Maria a Ida Peerdeman “chama a atenção o reconhecimento oficial da autenticidade das 56 aparições [...] em Amsterdã, pelo atual bispo de Haarlem, Dom Jozef Punt, em 31 de maio de 2002”. Na opinião de Dom Jozef Punt, mesmo tratando de uma “revelação particular”, as aparições trazem uma forte motivação para a proclamação de um “quinto dogma mariano” (MUNSTEMAN, Maria correndentora?, p. 9).
60 Ibid., p. 7.
Pontifícia Academia Mariana Internacional, em 1997, respondeu negativamente a esses possíveis novos títulos, mantendo-se na linha teológica assumida pelo Concílio Vaticano II61.
4.4.2 Reflexão teológica sobre a Mediação de Maria
O capítulo VIII da Lumen Gentium é claro em sua orientação de que toda a função materna de Maria é uma função subordinada à de Cristo, ou seja, admitindo um múnus à Mãe do Senhor dentro da Igreja, essa função não é paralela à de Jesus, salvaguardando a única mediação de Cristo no plano da salvação62.
Com a encíclica Redemptoris Mater, João Paulo II retoma o título “Medianeira”, um verdadeiro “passo atrás em relação ao Concílio”63. O Pontífice polonês busca sublinhar um lugar de importância para esse título na tradição marial e, mesmo não abandonando seu caráter subordinado e a centralidade da única mediação de Cristo (RM 38), ele especifica que há uma função materna de mediação da Virgem Maria que age “em Cristo” e “no Espírito Santo” em favor da Igreja64. Seu intento de evidenciar mais esse título tem como justificativa a compreensão de que,
visando cooperar, em união com Cristo, na restauração “da vida sobrenatural nas almas”, Maria entrava de modo absolutamente pessoal na única mediação “entre Deus e os homens”, que é a mediação do homem Cristo Jesus (RM 39).
Embora João Paulo II considere pertinente o título mariano, ele mesmo se submete aos limites que o título condiciona, como a mediação única de Cristo, a mediação como algo que acontece na “força do Espírito Santo” e a compreensão de mediação como intercessão (RM 40).
É importante, contudo, que, se reconhecemos o lugar da mediação de Maria, ainda que de modo excelso, não se exclui a mediação da Igreja pela comunhão dos santos. Estando Maria no “mistério da Igreja”, sua intercessão em favor da humanidade tem um caráter comunitário, está vinculada à solidariedade de todo o “corpo de Cristo”. Não se pode esquecer que, em toda a Escritura encontramos homens e mulheres como Moisés e Abraão em atitude de mediação em favor do Povo de Deus.
Concordamos com a Igreja ortodoxa, quando afirma que
61 Ibid., p. 13.
62 PERRELLA, La recezione del capitolo VIII della Lumen Gentium, p. 73.
63 MUNSTEMAN, Maria correndentora?, p. 65.
64 PERRELLA, La recezione del capitolo VIII della Lumen Gentium, p. 73.
a ideia que se impõe aos cristãos do Oriente não é a da intercessão de um santo junto a Cristo, uma vez que essa pode ser facultativa, mas sobretudo a ideia da unidade de todos os santos em Cristo, da união eclesial, da inseparabilidade de Deus e dos seus santos65.
Outro elemento que deve gozar de destaque é que a mediação de Maria como a da Igreja é uma participação na mediação do Espírito Santo.
Esse influxo salutar é apoiado pelo Espírito Santo, que, assim como estendeu a sua sombra sobre a Virgem Maria, dando na sua pessoa início à maternidade divina, assim também continuamente sustenta a sua solicitude para os irmãos do seu Filho (RM 38).
Assim, a mediação de Maria e da Igreja é uma ação no Espírito Santo, contudo cremos que a expressão ainda não alcança o verdadeiro lugar do Espírito nessa questão. Ele ainda é um elemento que ratifica a ação de mediação, mas não é apresentado como o Mediador por excelência, como o Intercessor ao Pai junto do Cristo. O esquecimento da centralidade do Espírito Santo nesse ponto é que vai acarretar a expressão de Maria como “Medianeira de todas as graças”, questão essa que trataremos mais adiante.
Nesta seção, evitamos unir a compreensão da mediação de Maria com a questão da sua corredenção, mesmo cientes da implicação que um termo tem sobre o outro. Nossa escolha foi de caráter metodológico, de modo que possamos melhor tratar do tema nessa parte da pesquisa.