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A sinergia entre a Igreja e o Espírito Santo

No documento MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA (páginas 106-111)

3.5 Maria como modelo da Igreja

3.5.3 A sinergia entre a Igreja e o Espírito Santo

Se acolhermos como um princípio a ideia de que Maria está visceralmente vinculada à Igreja e que o que dissermos de Maria pode aplicar-se à Igreja, cremos que também é possível aplicar à Igreja o conceito de “sinergia” com o Espírito Santo.

Em sua comunicação no IV Simpósio Mariológico Internacional, D. Bertetto foi muito fiel à sua proposta, atendo-se somente à questão da sinergia do Espírito Santo com Maria, como já apresentamos no nosso segundo capítulo desta pesquisa. Contudo, chamou-nos a atenção o fato de que somente duas vezes e entre parênteses ele fala da sinergia do Espírito Santo com os cristãos, o que nos motivou a retomar esse ponto, não desenvolvido pelo nosso palestrante92.

Vejamos novamente o que o autor entende por sinergia.

O Espírito Santo torna-se um único princípio com Maria sob o plano da ação, e esta ação, por exemplo, a de rezar, pertence a Maria; ela que reza; e o faz junto ao Espírito Santo: o Espírito reza (Rm 8,26); é o Espírito que grita: Abbá (Gl 4,6)93.

Gostaríamos, assim, de eleger como princípio a ideia de que o Espírito Santo é o princípio das ações de Maria e das ações da Igreja.

90 Ibid., p. 256.

91 AMATO, Angelo. María, modelo de oración. In: ROSSINI, C.; SCIADINI, P. Enciclopedia de la oración.

Madrid: San Pablo, 2007, p. 154.

92 BERTETTO, La sinergia dello Spirito Santo con Maria. In: SMI, p. 298.

93 Ibid., p. 296.

A aplicação desse princípio a Maria é relativamente tranquila, uma vez que ela é reconhecida como a “toda-santa”, que livremente não pecou e que viveu sob o influxo da graça. Mas a questão se torna mais desafiadora quando pensamos o princípio aplicado à Igreja com sua história de um povo que é santo, mas também pecador.

Desse modo, gostaríamos de elencar três realidades em que podemos aplicar o conceito de sinergia à Igreja, que são os sacramentos, a mística e nos movimentos de libertação. Com a eleição dessas três realidades não queremos reduzir a ação do Espírito Santo a unicamente essas instâncias, pois isso seria uma “domesticação” daquele que é “vento que sopra onde quer” (Jo 3,8). Além disso, não queremos aplicar o conceito de forma generalizada que leve a uma compreensão acrítica dos contratestemunhos da Igreja em seus membros. Sendo assim,

As núpcias foram celebradas; a Igreja é a esposa, mas ela ainda não é a toda pura que o batismo inaugurou. Ela é tentada, em seus membros pecadores, a se unir com outros esposos (1Cor 6,15s). A união, que deve se consumar num só espírito (Espírito), ainda é imperfeita94.

Vejamos, então, primeiramente, a relação “Espírito Santo – Igreja” mediante os sacramentos, sob a ótica da sinergia. Segundo J. Comblin

[Precisamos] salientar que os sacramentos são instrumentos do Espírito Santo e não o Espírito o instrumento dos sacramentos. Os sacramentos são sinais que transmitem o Espírito em virtude de uma promessa de Jesus, não porque o Espírito seja prisioneiro do clero95.

Essa compreensão de sacramento é extremamente oportuna, pela natureza da nossa reflexão, como também enquanto crítica de toda uma pretensa teologia que reduza os sacramentos a categorias de meios de salvação em que se enfatize demasiadamente a forma válida com que são celebrados. Pouco importa a liturgia entendida como um “evento salvífico”, o que vale é a forma como os sacramentos são vistos sob a ótica do direito96.

A primazia da fórmula válida para o sacramento em detrimento da liturgia e de seu caráter pneumatológico busca seu respaldo em posturas canônicas da Idade Média, que incluem afirmações como esta de Tomás de Aquino, ao dizer que “se o sacerdote pronunciar somente as palavras em questão com a intenção de consagrar, realizar-se-ia o sacramento”97.

94 CONGAR, Yves. “Ele é o Senhor e dá a vida”. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 2010, p. 82.

95 COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 141.

96 Ibid., p. 143.

97 TOMÁS DE AQUINO, Sth III, q. 78, a. 1, ad. 4.

A reforma litúrgica trouxe uma nova impostação a essa questão valorizando o caráter pneumatológico dos sacramentos, sobretudo no que tange à epiclese da eucaristia98. Não se deve ater ao momento exato da transubstanciação, como se o presbítero fosse um mago a produzir uma mágica mediante palavras misteriosas. Não é a força do presbítero que realiza o sacramento da eucaristia ou os demais sacramentos, nem a forma exata e juridicamente ordenada pelo direito, mas o Espírito Santo na comunhão da Igreja, que também não realiza uma mágica, mas “um evento salvífico”99.

De um modo geral, para todos os sacramentos, podemos dizer que não há sacramentos sem o Espírito Santo. Ele é o princípio da ação da Igreja que celebra os sacramentos como eventos salvíficos, ou seja, há uma sinergia entre o Espírito Santo e a Igreja na sua ação sacramental.

Por causa dessa sinergia, também podemos falar da fecundidade da ação sacramental da Igreja. Assim, como o Espírito Santo fez de Maria a Mãe do Senhor, Ele faz da Igreja pela ação sacramental / litúrgica “Corpo de Cristo”, inserindo-nos numa experiência salvífica de amor trinitário.

Outro modo de apresentar a sinergia do Espírito Santo com a Igreja mediante a experiência mística. A mística pode ser compreendida como a possibilidade de o ser humano penetrar em profundidade no coração do objeto maior da experiência religiosa, o coração de Deus por graça e iniciativa divina100. Desse modo, podemos dizer que “[Os] místicos encontram a Deus no mais profundo e no mais alto de si mesmos”101.

Não é o esforço humano, em sentido pelagiano, que nos leva à experiência mística, mas a iniciativa do Espírito de conduzir alguém a uma experiência singular de amor.

Por causa dessa singularidade da mística, enquanto experiência de amor é que dizemos que “Ao amar não se deve dizer: ‘Deus está no meu coração’, mas ‘eu estou no coração de Deus’”102.

Chegar ao “coração de Deus” pode ser compreendido como um estado em que a pessoa se vê unida a Deus de modo singular. Cada pessoa percorre um próprio percurso, sob a inspiração da graça, para alcançar esse modo de união (GE, 11). Mas nesse estado, segundo a

98 “A antiga missa romana de Pio V não tinha epiclese e os teólogos latinos achavam-na inútil. Davam muito valor ao momento exato da transubstanciação: diziam que ela se produzia no momento exato em que o sacerdote pronunciava as palavras da consagração. Se assim acontece, para que acrescentar uma epiclese para pedir ao Espírito Santo que faça aquilo que o sacerdote já tem o poder de fazer pelas palavras da consagração?” (COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 142).

99 COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 142-143.

100 WOLFF, Elias. Espiritualidade do diálogo inter-religioso. Contribuições na perspectiva cristã. São Paulo:

Paulinas, 2016, p. 18.

101 PEDROSA-PÁDUA, Lúcia. Santa Teresa de Jesus. Mística e humanização. São Paulo: Paulinas, 2015, p. 32.

102 GIBRAN, Khalil. O profeta. São Paulo: Planeta, 2019, p. 24.

doutrina de João da Cruz, a pessoa não pode “fazer atos; é o Espírito Santo que os produz todos, movendo-a a agir; por isso todos os atos dela são divinos, pois a alma é divinizada e toda movida por Deus”103. A comunhão com Deus conduz a fazer com que a pessoa seja conduzida por um princípio divino, o próprio Espírito Santo.

Nas palavras do místico carmelita, encontramos o mesmo conceito de sinergia apresentado por D. Bertetto, agora aplicado à vida mística. O Espírito Santo é o “princípio divino” na vida de Maria, nos sacramentos e na vida mística. Agora, vejamos como podemos aplicar esse princípio na vida dos pobres.

Para falarmos da sinergia do Espírito Santo com a Igreja nos movimentos de libertação, primeiramente é mister esclarecer o que entendemos por “movimentos de libertação”, termo por demais genérico. Aqui usaremos o termo para designar todos os grupos que, sob o signo da “pobreza”, buscam formas mais humanizadas de vida e expressão da fé.

Para J. Comblin, a pobreza sempre desafiou a Igreja e, de um modo especial, com o movimento espiritual dos pobres entre os séculos XII e XIV e com os pobres da atualidade na América Latina104.

Dentre os movimentos medievais, J. Comblin destaca os valdenses. Estes foram condenados como hereges por terem negado a estrutura institucional da Igreja, mas algo de revolucionário estava contido nessa proposta105.

Pedro Valdo e seus seguidores queriam seguir o Evangelho, com direito à pregação leiga e vivendo a pobreza voluntária106. Isso gerou um grave conflito com os bispos, que os acusaram de propagadores de rebelião e desleixo para com os sacramentos. Da parte do povo simples, essas pessoas eram vistas com admiração e respeito, pois, como os apóstolos, eles

“seguiam nus o Cristo nu”107.

Outro grupo mencionado é o dos franciscanos espirituais. Esse grupo pregava maior radicalidade na vivência da pobreza e seu discurso era uma ameaça tanto para a Igreja (entendida por eles como uma “Igreja carnal”) como para a sociedade. Era o desejo desse grupo uma nova Igreja, uma Igreja espiritual, livre da tutela do poder clerical e de outras

103 JOÃO DA CRUZ, Inefabilidad de la vida de amor nel el alma transformada. In: CRISOGONO DE JESUS (Org.). Vida y obras de San Juan de la Cruz. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1950, p. 1184.

104 COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 74-75.

105 Ibid., p. 75.

106 Dentro dessa mesma perspectiva, devem ser lembrados também outros grupos, com suas particularidades, mas que têm também essa vertente anti-hierárquica, como os humilhados, pobres de Deus, cátaros e albigenses (CODINA, Víctor. Creio no Espírito Santo. Pneumatologia narrativa. São Paulo: Paulinas, 1997, p. 44).

107 CONFERÊNCIA DOS ASSISTENTES GERAIS DA ORDEM FRANCISCANA SECULAR. Manual para a assistência à Ordem Franciscana Secular (OFS) e à Juventude Franciscana (JUFRA). Rio de Janeiro: Ordem Franciscana Secular do Brasil, 2014, p. 25 e 32.

formas de governo que não fossem “espirituais”. Esse grupo recebeu forte influência de Joaquim de Fiore, em quem se apoiou para considerar Francisco de Assis como o representante máximo da “Era do Espírito Santo”108.

Sobre o monge cisterciense da Calábria, Joaquim de Fiore, e a sua tese da “Era do Espírito”, J. Comblin faz uma breve referência. Da nossa parte, gostaríamos de também, brevemente, lembrar os princípios que regem sua “teoria das eras”, fundada numa interpretação triteísta da Trindade.

Para o monge calabrês, existindo três Pessoas divinas, também existem três estados ou eras do mundo. A saber

ao longo da história sucedem-se, [...], em uma sobreposição parcial, os três estádios do Pai (tanto anterior à lei e sob a lei, ordo conjugalis), do Filho (tempo da graça, ordo clericalis) e do Espírito Santo (tempo de uma graça maior ainda, ordo spiritualis). O terceiro estado, em germe desde a época de Bento, marca um progresso efetivo em relação aos dois precedentes: com efeito, é nele que a plena manifestação do Espírito permitirá que os “homens espirituais” decifrem inteiramente o mistério divino ainda selado na letra do Antigo e do Novo Testamento. O terceiro estado é pois a época do rejuvenescimento da história: os pequenos e os humildes serão os protagonistas, neles se realizará a promessa do Magnificat e se manifestará plenamente o mistério da eleição divina do mais jovem – Jacó – em vez do primogênito – Esaú – [...]109.

As ideias de Joaquim de Fiore, unidas aos ideais dos franciscanos espirituais, fermentaram e agitaram os movimentos de pobreza na Idade Média. Contudo, para J.

Comblin, a questão era política e não teológica. Tanto que, em seu ponto de vista o debate teológico não concluiu nada110.

Mesmo que a reflexão teológica nada tenha concluído e tudo terminado em condenações, J. Comblin nos permite compreender que os movimentos pauperísticos medievais elucidam uma verdade já contida nos Evangelhos. Essa verdade é a compreensão de que “[o] Espírito Santo age na história pela mediação dos pobres. Quando os pobres conseguem agir na história, aí está o Espírito de Deus atuando”111.

A ação dos pobres em perspectiva libertadora, portanto, tem seu princípio de ação no Espírito Santo. Logo, podemos falar de sinergia do Espírito Santo com os movimentos de libertação, pois é o Espírito quem move todo o desejo e iniciativa de fazer com que os foram impossibilitados socialmente de um protagonismo tenham direito de reivindicar “seu lugar ao sol”.

108 COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 75-75; BOFF, Leonardo, O Espírito Santo, p. 143.

109 POTESTÀ, Gian-Luca. Milenarismo. In: LACOSTE, Jean-Yves (Org.). Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas / Loyola, 2004,p. 1141-1143.

110 COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 76-77.

111 Ibid., p. 77.

Estamos conscientes da contradição que nossa lógica apresenta, pois, se falamos de sinergia entre o Espírito Santo e a Igreja na realidade dos movimentos de libertação dos pobres, como entender que a própria Igreja condenou as pessoas envolvidas nesse processo que acima elencamos? A ação do Espírito na Igreja não se confunde com os homens que condenaram esses movimentos.

Por isso, sendo o Espírito Santo, princípio de ação libertadora, o “Doador de vida”

para os pobres, através da lente das lutas que os momentos de libertação iniciaram, podemos dizer que

As instituições religiosas ou eclesiásticas, por mais poderosas e vetustas que sejam, são incapazes de amordaçar o Espírito, que sempre lhes escapa o controle. Quando tudo parece bem controlado e ajustado, aparece alguém, movido pelo Espírito, para fugir das regras e mostrar caminhos alternativos. O destino de homens e mulheres, dotados da liberdade que provém do Espírito, é bem conhecido112.

É justamente essa iniciativa e protagonismo do Espírito Santo que vemos nos movimentos de libertação latino-americanos e em outros lugares do mundo. Como na Idade Média, esses movimentos de liberação reivindicam o direito de “falar na Igreja”, sua dignidade laical e uma nova estrutura eclesiástica mais “comunitária” e menos “principesca”.

Quem principia essa ação é o Espírito Santo agindo naqueles que sonham e lutam segundo a sua divina vontade. Como o Espírito encontrou abertura em Maria de Nazaré, encontra também abertura nos que sonham e lutam por um mundo à luz do Reino de Deus.

Maria, em toda a sua vida, agiu sob o impulso do Espírito, princípio de toda a sua ação. O mesmo princípio de ação do Paráclito pode ser visto nos sacramentos, na vida mística e nos pobres em perspectiva de libertação.

No documento MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA (páginas 106-111)