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As matriarcas de Israel

No documento MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA (páginas 84-88)

A marca da maternidade é a fecundidade. Não por causa de um atributo físico- biológico, mas porque tudo em que o amor se manifesta se torna fecundo. A fecundidade do povo de Israel reside no seu amor ao Senhor e à aliança que Ele fez com os filhos e as filhas de Abraão. É na fecundidade do amor que os

1 INÁCIO DE ANTIOQUIA, Efésios 19,1 (SChr 10, p. 88).

livros do Antigo Testamento descrevem a história da salvação, que vai preparando, a passos lentos, a vinda de Cristo ao mundo. Estes primeiros documentos, tais como são lidos na Igreja e entendidos à luz da ulterior e plena revelação, iluminam pouco a pouco, sempre com maior clareza, a figura da mulher, a da Mãe do Redentor (LG 55).

Destacam-se na história da salvação as matriarcas de Israel, que antecederam Maria de Nazaré, cada qual a seu modo, e que contribuíram para a história da salvação de modo singular. Mas não apenas as matriarcas, e sim todas as mulheres que, pela sua maternidade, expressam a força de Deus que vence a esterilidade e os tempos de crise e se colocam a serviço como mães de homens dotados de graça singular para exercer determinada função no projeto de Deus para Israel. Essas mulheres antecedem Maria em suas lutas e firmeza na fé2.

As virtudes dessas mulheres são paradigmáticas para todo o povo de Deus e, de modo especial, para Maria, que encontra nelas sua prefiguração3.

Gostaríamos de destacar algumas dessas mulheres que aparecem nos textos bíblicos e verificar sua contribuição.

Eva: segundo o livro do Gênesis, Adão nomeia sua companheira como Eva, que significa “Mãe dos viventes” (Gn 3,20). Eva não concebeu seus filhos de modo extraordinário, mas pode ser acolhida como o “símbolo do feminino” que principia o ciclo de fecundação/parto/maternidade de toda mulher.

É lamentável a forma negativa com que a tradição teológica acolheu o símbolo “Eva”, ligando-a, na maioria das vezes, apenas à desobediência e ao motivo de queda para Adão e sua descendência. Essa visão conduziu povos de matriz judaico-cristã a um olhar sombrio sobre todas as mulheres, que, nascendo sob o “signo de Eva”, ainda são tratadas com suspeita e inferioridade.

Também é lamentável que o paralelismo patrístico que associa Eva ao Espírito Santo tenha desaparecido da literatura cristã. Eva enquanto “mãe dos viventes”, pode ser pensada à luz do Espírito Santo que é “Aquele que dá a vida” e, por isso, exerce um papel materno desde o início da criação4.

Sara: em Gn 17,15 ela tem seu nome mudado de Sarai para Sara, que significa

“princesa”. É esposa de Abraão, marcada com o sofrimento da esterilidade (Gn 11,31), contudo foi agraciada com o dom da maternidade concebendo Isaac que significa “filho do

2 BOFF, Lina. Mariologia: interpelações para a vida e para a fé. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 29-30.

3 COSTA, Jonas Nogueira da. A fecundidade de Deus: a concepção virginal de Jesus como expressão privilegiada do poder de geração do Espírito Santo. In: VITÓRIO, Jaldemir; GODOY, Manuel (Org.). Tempos do Espírito. Inspiração e discernimento. São Paulo: Paulinas, 2016, p. 137.

4 COMBLIN, José. O Espírito Santo e a libertação: o Deus que liberta seu povo. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 71.

sorriso”, pois Sara ri quando os mensageiros divinos dizem que conceberá na velhice (Gn 18,1-15).

Ana: vemos nessa mulher o protótipo do sofrimento em relação à esterilidade. Esposa de Elcana e por ele cercada de carinho, vive o estigma que a esterilidade ocasiona, até o nascimento de Samuel, quando sua humilhação se converte em vida nova.

A mulher de Manué: não sabemos o nome dessa mulher, mas de seu marido e de seu famoso filho Sansão. Recebendo a visita de um anjo é informada de que sua esterilidade se findará ao conceber um filho (Jz 13,1-25). Sansão não será comandante de exército, como também não libertará Israel das mãos dos filisteus, contudo, suas façanhas serão consideradas como o início da libertação de Israel5.

Rute: sua história é de um acentuado heroísmo, em que uma mulher estrangeira integra-se na comunidade de Israel. Tal integração implica acolher o Deus de Noemi, o Deus de Israel, e assim fazendo, torna-se uma das mulheres protagonistas da história de libertação do povo de Israel, o que nos sugere sua inabalável confiança em Deus. Quando Noemi perdeu seu marido e filhos, decide voltar para Israel, tendo por companhia Rute (que era moabita).

Esta, seguindo o conselho da sogra, une-se a Booz, parente da família, o que lhe garante o direito à propriedade mediante a lei do levirato e de sua descendência nascerá Davi6.

Isabel: já avançando no Novo Testamento, sabemos pelo relato lucano que Maria foi informada pelo anjo que sua parenta, Isabel, irá conceber um filho em idade avançada (Lc 1,18).

É interessante a observação de Lina Boff ao chamar-nos a atenção para o fato de que quando Maria chega à casa de Zacarias ela saúda não o dono da casa, mas Isabel. Não se dirige a quem preside a casa, mas a quem com ela partilha o mistério de Deus, ligado à dimensão materna que ambas estão vivendo em profundidade (Lc 1,40)7.

Há outras mulheres que merecem ser louvadas na história de Israel, como Agar, Lia, Raquel, a mãe e a irmã de Moisés, Débora, a mãe dos sete irmãos macabeus, Judite etc.

Não obstante a beleza que caracteriza todos esses textos bíblicos, não podemos nos esquivar de considerar a tônica patriarcal que marca todos eles. O valor de uma mulher reside em sua capacidade de dar filhos homens a seus maridos e a seu povo8. Também deve-se

5 GRINDEL, John A. Juízes. In: BERGANT, Dianne; KARRIS, Robert J. (Org.). Comentário bíblico. 6.ed. São Paulo: Loyola, 2012, v. I, p. 242.

6 McKENZIE, John. Rute. In: ______. Dicionário bíblico. 4.ed. São Paulo: Paulus, 2011, p. 738.

7 BOFF, Lina, Mariologia: interpelações para a vida e para a fé, p. 42.

8 Uma honrosa exceção deve ser lembrada, que é Débora. Essa mulher não entra para a história de Israel como uma mãe exemplar que, por graça, superou a esterilidade e foi mãe de um grande varão, mas por sua ação profética em tempos de crise. Quando os israelitas foram oprimidos pelos cananeus, eles foram a Débora que

considerar que o louvor dado aos ventres que geraram se relaciona não apenas com a intervenção de Deus na história de Israel pelos filhos dessas mulheres, mas também com o sofrimento da esterilidade considerada uma maldição, em que seus ventres são comparados como uma sepultura9.

O que queremos frisar, contudo, é a ação de Deus, que por sua força, vence a esterilidade dessas mulheres e que, nos seus filhos concebidos, o povo de Israel encontra alguém capacitado para garantir-lhes a vida. Assim, a força do Senhor que é vida e libertação manifesta-se, primeiramente nessas mulheres que estavam como que mortas pela situação de esterilidade, e também no povo de Israel que encontrou nos seus filhos um sinal de vida vindo do próprio Deus.

Outro elemento que não podemos deixar à margem, mesmo que não o aprofundando em nossa pesquisa, é com relação à questão da violência sexual contra as mulheres que encontramos de um modo velado na maioria dos relatos bíblicos. Lembremos de Betsabeia que foi trazida ao leito de Davi, e que para ali mantê-la, orquestrou a morte de Urias. Essa mulher foi reduzida a uma frase “Estou grávida” (2Sm 11,5), às lagrimas pela morte de Urias (2Sm 11,26), à doença e morte de seu primeiro filho com Davi (2Sm 12,15-18) e que foi consolada por Davi, que se deitou com ela e geraram Salomão (2Sm 12,24). “Assim, na dor e limitada pelo aparato monárquico-militar, ela entra na história da salvação desse povo de Deus, lembrando que os patriarcas são também algozes...”10.

Em seu conjunto, apesar de todo o peso do patriarcalismo, a cultura judaica que temos diante dos olhos é profundamente marcada pelo valor da fecundidade. Ela pode ser visibilizada no mandato divino: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei- a!” (Gn 1,28). Esse mandato foi acolhido como uma participação da humanidade na obra da criação e alcançou sua maior expressão na fecundidade de Maria. A fecundidade virginal da Mãe do Senhor também foi acolhida como uma participação na fecundidade de Deus Pai através do Espírito Santo11.

ordenou, em nome do Senhor, que se reunissem dez mil homens de Zabulon e Neftali junto ao monte Tabor.

Ela mesma decretou o início da batalha e a vitória conquistada também a ela é atribuída (McKENZIE, Débora.

In: _____, Dicionário bíblico, p. 201).

9 SERRA, La donna dell’Alleanza, p. 55.

10 REIMER, Ivoni Richter. Maria, Jesus e Paulo com as mulheres: textos, interpretações e história. São Paulo:

Paulus, 2013, p. 32.

11 GARCÍA-MURGA, María, p. 229; BARTOSIK, Mariologia e pneumatologia, p. 321.

No documento MARIOLOGIA PNEUMATOLÓGICA (páginas 84-88)