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A Escola e seu edifício arquitetônico

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 115-123)

“Declarar um lugar, um edifício, um objeto patrimônio muda imediatamente o olhar que se porta sobre ele; permite e proíbe certos gestos” (HARTOG, 2020, p. 46). Dessa forma, ao se

94 Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

olhar para o prédio da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo é possível ver a grandiosidade da Obra que ali se encontra, um edifício, um patrimônio que atualmente, ainda, encanta a todos que o vêm. Padre Siqueira apresentou seu estabelecimento da seguinte forma:

“um belo e vasto edifício que se está sendo construído expressamente, à custa de subscrições alcançadas e de doações espontâneas. As obras estão adiantadas e já podemos afirmar que sua arquitetura, de gosto moderno, sem luxo e nem riqueza, tem merecido atenção e elogios”

(CORREIO PAULISTANO, 1870)95. E, sim, o estabelecimento mereceu atenção e elogios pelos diversos detalhes escolhidos e principalmente pela sua arquitetura. Todo o monumento arquitetônico construído com detalhes leva-nos às diversas interpretações como uma “história cristalizada, [...] fonte potencializada para a leitura e percepção de significados” (MARTINS, 2009, p. 289).

A arquitetura projetada e construída seguindo a esquina da avenida apresenta o formato de “L” com enormes e diversas janelas que se abriam para vislumbrar as imensas árvores, as belas flores e um rio majestoso, que também se fechavam para guardar cada menina que foi recebida e amparada com suas histórias de vida. “A cultura material envolve dois grandes elementos inter-relacionados: o edifício, ou artefato fixo, e a infinidade de artefatos móveis que estão em seu interior ou à sua volta” (FUNARI; ZARANKIN, 2005). Pensar em abrir as janelas e a porta de entrada da Escola, com a chave que pode ser vista na Figura 42, não é somente a possibilidade de abrir uma escola – seu prédio físico ou a sua cultura material –, mas abrir as histórias de vida de cada uma dessas meninas.

Figura 42 - Chave da porta de entrada da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo

Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1871.

Quantas meninas não passaram pela mesma porta e quantas outras ao passarem por essa porta não abandonaram uma história e começaram a construir outras. Quantas não subiram e desceram as escadas de madeira que dão acesso ao andar superior da Escola (conforme

95 Biblioteca Nacional. Jornal Correio Paulistano, 1870, Ed. 4172, Ano XVII, p. 1 e 2.

apresentado no capítulo 1). Analisar essas problematizações faz-nos recuar no tempo e tentar se colocar ali, dentro da Escola, como uma das acolhidas. Para Martins (2009), “percorrer o sistemático uso das fontes pelo historiador do patrimônio e levantá-las, implica primeiramente retomar a prática inicial dos órgãos preservacionistas, circunscrita a um campo restrito:

patrimônio edificado de pedra e cal”. Dessa forma, a Obra do padre Siqueira para a educação da pobreza tornou-se um edifício monumental, ainda existente na cidade de Petrópolis, com todas as suas implicações e subjetividades que possibilitam diversas leituras.

A missa de inauguração da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo se deu em uma antiga capela que já existia ao lado da Escola (Figura 43).

Figura 43 - Antiga Capela ao lado do Prédio da Escola

Fonte: Sala-museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1871.

No centro da fotografia encontra-se padre Siqueira, encostado em uma das pilastras que compõem a arquitetura da capela. Estavam também presentes as responsáveis pela educação das crianças, as mestras – irmãs da Congregação do Imaculado Coração de Maria –, madre Barbara da Santíssima Trindade, acompanhada das irmãs Isabel do Precioso Sangue, Maria de Jesus Estanislau da Assunção e Joana da Cruz. As primeiras alunas, vestidas com um típico uniforme preto para solenidades, estavam posicionadas em fileiras, uma ao lado da outra, com as menores à frente. Essa organização marca claramente a pretensão da fotografia em ser produzida na e para a escola. Atualmente, essa capela é considerada pelas irmãs da Congregação Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo como uma antiga capela (ou seja, ela já existia antes da construção da Escola) que se localizava ao lado do prédio da Escola. Ao olharmos para a

capela, mais precisamente nos detalhes de sua fachada ornamentada, é possível perceber detalhes de uma construção neoclássico96 com quatro pilastras que compõem a sua frente e os dois vitrais que também apontam para o mesmo cenário. A “fotografia enquanto resultado de ciência, técnica e arte” (CIAVATTA, 2002 p. 12 apud ALVES, 2010 p. 108) permite termos em “mãos” a materialização da imagem que “rompe a barreira do tempo, imortalizando aquela fração da vida, e, com ela, um pouco da própria pessoa” (ALVES, 2010 p. 111).

A missa da solene inauguração, que foi celebrada às 10h pelo Exmo. Internúncio Apostólico Monsenhor d. Domingos Sanguigni e seguida por um pequeno discurso de padre Siqueira aos presentes na cerimônia, as majestades imperiais e quase toda a população da cidade de Petrópolis. A solenidade ganhou destaque nas páginas do jornal O Apóstolo97 (Figura 44) 98 que revelou outros fatos do dia da inauguração.

Figura 44 – Fatos do dia da Inauguração. Jornal O Apóstolo.

Fonte: Biblioteca Nacional, 1871.99

96 O neoclassicismo foi um movimento artístico (pintura, literatura, escultura e arquitetura), surgido na Europa por volta de 1750, durando até meados do século XIX. Este movimento teve como objetivo principal resgatar os valores estéticos e culturais das civilizações da Antiguidade Clássica (Grécia e Roma). Fonte:

https://www.historiadasartes.com/nomundo/arte-seculo-18/neoclassico/. Acessado em: 21 de jul de 2021.

97 Biblioteca Nacional. Jornal o Apóstolo, 1871- Ed 05 – p. 40.

98 O texto correspondente à Figura 44 é: “Escola Doméstica – No dia 22 do corrente, na cidade de Petrópolis inaugurou a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo o Revdo. Padre João Francisco de Siqueira Andrade. Às 10horas da manhã, SS.MM. Imperiais assistiram à missa celebrada pelo Ex. e Rev. Sr.

Internúncio Apostólico, Monsenhor D. Domingos Sangiogni. Terminada a missa, o Revdo. Padre Siqueira pronunciou algumas palavras, tão repassadas de unção, que comoveram o auditório numeroso, que assistiu ao ato, agradecendo aos benfeitores que até ali o tinham ajudado e excitando a caridade de todos, para que fosse criada a obra importante que tinha tomado sobre si para realizar.”

99 Disponível em: Biblioteca Nacional. Jornal o Apóstolo, 1871- Ed 05 – p. 40.

Mesmo com toda a grandiosidade da Obra, vista na foto de abertura deste capítulo, apenas estava pronta uma parte do edifício. Era possível acolher as primeiras meninas que precisavam de educação e cuidados. Em seus relatos, padre Siqueira afirma que anteriormente tinha a ideia de construir uma Escola, num primeiro momento para meninos, e depois se focou na educação das meninas: “ainda estudante, apenas sonhava com o porvir, a educação da mocidade já constituía o objeto principal de todos os meus cuidados e preocupações, e havia assentado de, logo depois de ter abraçado o sacerdócio, ocupar-me de um asilo de meninos pobres” (RELATÓRIO, 1877). Ainda no mesmo documento explica sobre a mudança de seu propósito: “passando a fundar um estabelecimento não mais para o sexo masculino, porém para o sexo feminino, ainda se deu só depois que, quando já ordenado, fiz uma viagem à República Oriental e tive então a ocasião de apreciar pessoalmente ali, onde não há escravos, as imensas vantagens desta empresa sobre a primeira.” (RELATÓRIO, 1877).

Partindo do princípio de que o sacerdote sempre teve em mente em montar um asilo, um estabelecimento de ensino, eis que agora a Obra estava pronta: um prédio “que antes de tudo, era um lugar planejado no espaço, formado por uma estrutura arquitetônica, dentro do qual têm lugar práticas vinculadas ao processo de ensino do saber ‘legítimo’” (FUNARI;

ZARANKIN, 2005), ou seja, a Escola. “A arquitetura escolar é um elemento cultural e pedagógico não só pelos condicionamentos que suas estruturas induzem, [...] mas também pelo papel de simbolização que desempenha na vida social” (FRAGO, 2001, p. 333). Ali, dentro daquele “lugar”, as meninas foram “educadas”, “tecidas”, “moldadas”. Podemos citar, ainda nas palavras de Frago e Escolano Benito (2001), que o edifício escolar é uma forma que comporta determinada força semântica através de signos e símbolos que exibem uma variante chamada de arquitetura institucional. Assim, o próprio prédio, exerce uma força educativa constituindo-se em um espaço problematizador e potencializar configurando-se em um gênero específico na ordem espacial.

A construção analisada como uma cultura material escolar tem uma tradição secular que contribuiu – e ainda contribui – para a formação de muitas mulheres. Nesse lugar, as meninas pobres tiveram estudo, alimentação, roupas, trabalhos, entre tantas outras coisas que ficavam

“guardadas” no interior do prédio arquitetônico. A Escola, no entanto, era um local que exercia a função de educar para que no futuro as meninas pudessem utilizar todo o conhecimento para o seu próprio sustento. A importância da função do lugar que acolheu indivíduos (meninas) que frequentavam os espaços escolares, a força de socialização que eles vivenciaram imprime marcas profundas na construção de identidades (ALVES, 2010). Dessa forma, a Escola cumpriria uma função cultural e social e sua arquitetura favorecia o desenvolvimento das necessidades físicas e de diversos outros fatores, como intelectuais e culturais que também se relacionam com a pedagogia.

Analisar a arquitetura possibilita entender o quanto esses espaços comunicam formas e governam os sujeitos. Pensar nos lugares onde as meninas passavam, andavam, conversavam, instiga a pensar nos sentidos e os afetos a eles atribuídos. Um exemplo disso é a distribuição das classes, divididas por idades e aptidões, que será aprofundada mais adiante, ou como se realizava a limpeza das salas e a organização diária dos serviços que também era de responsabilidade das meninas. Os diferentes elementos expressam o quanto a arquitetura escolar informa e contribui para o entendimento de diversas práticas exercidas, vivenciadas, em seu interior. As duas imagens (a e b) apresentadas na Figura 45 permite apreciar por dois ângulos a arquitetura monumental da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo e analisar a sua arquitetura como uma cultura material escolar. Na imagem (a), tem-se uma fotografia onde a visualização da Escola está lateral, e na imagem (b) destaca-se uma fotografia com uma aproximação mais frontal. Dessa forma, pode-se compreender e realizar comparações em diferentes visualizações.

Figura 45 - Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

(a) visão lateral da Escola;

(b) visão frontal da Escola.

Fonte: Sala-museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1871.

Analisando a fotografia (b), percebe-se a imponência da construção localizada em uma das principais avenidas da cidade de Petrópolis, a parte frontal do monumento arquitetônico contém duas portas de entrada, uma em cada ponta do prédio. As diversas janelas altas e largas possibilitavam a boa ventilação do 1º e 2º piso e na frente do prédio da Escola encontra-se um rio que corta de uma ponta a outra e diversas árvores frutíferas, trazendo, assim, todo um cenário que completa a arquitetura da Escola. A escolha do local para a construção do prédio foi algo mencionado pelo sacerdote: “o local do estabelecimento é Petrópolis. Petrópolis, pela amenidade e salubridade de seu clima e pela tranquilidade de vida de seus habitantes, reúne todas as condições para estabelecimentos dessa ordem” (CORREIO PAULISTO, 1870)100. Na fotografia (a), percebe-se a outra parte da Escola, que margeia a avenida e o rio e a outra fachada, na posição de “L”, dando continuidade para o outro lado da avenida. Nessa fotografia também é possível vislumbrar a antiga capela, a mesma onde foi realizada a missa de inauguração, lembrando que essa capela é uma construção anterior à Escola.

O edifício da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo expressava a soberania naquele lugar, uma construção que relaciona a grandeza dimensional à grandeza moral – “uma instituição civilizadora e protetora dos libertos e desvalidos que ora se levanta em nosso país”

100 Biblioteca Nacional. Jornal Correio Paulistano, 1870, Ed. 4172, Ano XVII, p. 1 e 2.

(CORREIO PAULISTO, 1870)101–, ou seja, “a arquitetura transforma-se em pedagogia eloquente que ensina aos indivíduos os princípios da sociedade” (BENCOSTTA, 2007, p. 123 apud POLETTO, 2020). Ainda sobre a parte externa da Instituição, a Figura 46 (a, b e c) permite um olhar do conjunto arquitetônico em diferentes épocas.

Figura 46 - Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

(a) Imagem de 1880

(b) Imagem 1890

101 Biblioteca Nacional. Jornal Correio Paulistano, 1870, Ed. 4172, Ano XVII, p. 1 e 2.

(c) Imagem de 1900

Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1880, 1890 e 1900.

Na sequência da análise da arquitetura externa da Escola, a monumentalidade da Obra, observada através das fotografias dos anos de 1880, 1890 e 1900, não se perdeu. Ainda que estivesse somente pronta a 1ª parte do edifício, é como se não faltasse mais nenhuma outra parte. Na fotografia do ano de 1880, a Escola é cercada por lotes de casas, mas as árvores nesta época estavam grandes, cobrindo quase toda a fachada. Em 1890, é possível perceber uma pequena obra já realizada ao lado da Escola. Já na fotografia tirada no ano de 1900, é possível ver detalhes de sua porta de entrada, seu muro baixo e até mesmo uma cruz ao lado esquerda, na ponta do prédio.

Através das fotografias apresentadas, percebe-se o quanto a arquitetura escolar pressupõe o espaço e o tempo, ambos como produtores de estratégias que permitiram – e permitem –os atores circularem ciclicamente (em determinados tempos algumas saiam e outras entravam). Esse espaço de formação chamado Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, no decorrer do tempo, contribuiu para o crescimento da cidade e de toda a urbanização na localidade, demonstrando o cruzamento das relações entre a escola e o tecido urbano da cidade de Petrópolis. Percebe-se que a cada período histórico há um discurso: arquitetônico, visual, ou oral, uma ordem ou uma orientação. Vários foram os discursos realizados no interior da Escola assim as descrições da função arquitetônica externa dão lugar às descrições da parte interna.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 115-123)