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Opúsculo sobre a educação

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 188-192)

Ferreira Vianna e José Agostinho Moreira Guimarães” (TESTAMENTO, 1880)176. Faz um apelo a d. Pedro II, sua esposa Teresa Cristina e sua filha a princesa Isabel, suplicando que continuassem a ajudar a Escola. Por fim, descreve a seguinte frase: “ao meu prezado irmão e primeiro testamenteiro peço a esmola de dar a meu corpo, se eu morrer em Petrópolis, uma humilde sepultura” (TESTAMENTO, 1880). Padre Siqueira não faleceu na cidade de Petrópolis, conforme já citado no segundo capítulo desta tese e nem tão pouco foi enterrado na cidade. Mas, no ano de 1864 seus restos mortais foram trazidos para Petrópolis pelo seu irmão o Cônego José Bento de Andrade em um jazigo e hoje estão próximos à capela no interior da Escola, conforme apresentado na Figura 17, no capítulo2 desta tese.

Figura 72 - Opúsculo sobre a Educação

Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1877.

Para Karnal e Tatsch (2009, p. 21), “um documento é dado como documento histórico em função de uma determinada visão de uma época”, dessa forma, é importante a reflexão acerca da visão que o sacerdote tinha de sua época. Qual seria o sentido de deixar por escrito a sua visão de educação? Toma-se como base que o documento não é apenas um documento em si, mas um diálogo entre o passado e o presente, pode-se pensar na hipótese da existência desse diálogo acerca da educação para a infância. Sendo assim, todo documento histórico é uma construção permanente, suas subjetividades permitem diversas leituras. (KARNAL E TATSCH, 2009). Se eternizar, deixar registrado seu ideal de educação, deixar um legado. Além disso, também trata-se de um discurso militante em prol de uma educação para as mulheres, já

que as diversas leituras realizadas permitem observar essa mutabilidade no texto. Ora descreve sobre a importância da educação, ora relata sobre a moral e a teologia, ora traz informações acerca da mulher, do ensino e, por fim, relata sobre a “educação de e para o amor”.

Na introdução do Opúsculo, padre Siqueira começa com a seguinte ideia: “a educação é para o homem o que o alicerce é para o edifício a segurança deste depende tanto seu alicerce como daquele depende a sua educação” (OPÚSCULO, 1877). Sua preocupação com a educação era tão grande que chega a compará-la ao alicerce de um edifício, ou seja, o homem só fica erguido, se for pela educação. Para essa discussão, toma-se novamente como base Vasconcelos e Boto (2020) no texto A educação domiciliar como alternativa a ser interrogada: problemas e proposta, em que as autoras destacam prerrogativas da legislação brasileira e autores clássicos defensores da escolarização. Sendo assim, essa discussão se dará na interpretação tanto do Opúsculo, quanto da toda a Obra (a Escola) criada pelo padre Siqueira, um sacerdote que acreditava em uma educação que passa pela escolarização em sua Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

As autoras destacam que a escola constitui uma instância de socialização, que ensina, além de ler e escrever, a se comportar, transmitindo saberes, valores e formas de agir. Dessa forma, o sujeito escolarizado tem ou deveria ter algo a mais. Ainda corroboram sinalizando que a função socializadora da escola não seria necessária apenas pelo conhecimento que transmite, mas pelo contexto no qual é transmitido. Sendo assim, a escola institui por seus ritos, por suas palavras e por seus sinais uma cultura que lhe é própria e que terá certamente um caráter civilizador. A cultura escolar dialoga claramente com a codificação dos saberes e a sua rotina possibilita o convívio entre iguais. Há cumplicidade e rivalidade, tudo isso é educativo, um contínuo aprendizado de equações dos conflitos inerentes à sociedade (VASCONCELOS;

BOTO, 2020). O Opúsculo sobre a educação traz essa realidade da educação, que, de certa forma, passa pelo processo de escolarização, através daquela Escola que era a responsável pelo alicerce vida das mulheres que passaram pela educação “siqueirana”, ou seja, do padre Siqueira.

A importância da educação é claramente enaltecida em todo o teor do documento, porque, para o sacerdote “a educação é tudo! É mais que tudo! É a vida do gênero humano, é o caminho da luz, da paz, da verdadeira nobreza e felicidade” (OPÚSCULO, 1877).

Educar na Escola talvez fosse a principal vontade do sacerdote, uma discussão que se torna mais ampla quando se pensa em educar meninas, dentro de uma escola. Mudar a realidade daquelas que eram incapazes economicamente de receberem qualquer tipo de educação que não fosse pelo processo de escolarização. É importante analisar o termo educação por vários ângulos, Alves (2020), salienta que há uma grande variedade de significados, que possuem realidades análogas, o autor chega a sinalizar que educar significa extrair, criar, avançar e elevar. Para o sacerdote, o ser humano precisava da educação para extrair algo, criar, avançar e

elevar-se. Dessa forma, as mulheres poderiam elevar-se a um lugar que talvez ainda não tivessem ocupado, assim, a ótica da palavra educação no Opúsculo é sempre direcionada para uma elevação, para um conhecimento de si e do outro, pois “o homem educado sabe definir a sua posição. Conhece a soma de aptidões de que é dotado, mede suas forças antes de qualquer empresa” (OPÚSCULO, 1877).

O documento também discute questões teológicas e morais em seu escopo, pois o padre entendia que “a educação moral e religiosa primeiro que tudo garante o direito individual e o da propriedade” (OPÚSCULO, 1877). Em outros documentos já analisados neste estudo, padre Siqueira sempre colocou a religião e a moral acima de muitas coisas, não seria diferente aqui, em seu Opúsculo, no qual aponta que a educação e a religião caminhavam lado a lado e, como dois grandes veleiros (HARTOG, 2020), seriam formadores, exerceriam um papel primordial na vida de suas alunas. Chega a dizer quase ao final do documento que “a ausência de Deus no homem é semelhante a ausência de luz” (OPÚSCULO, 1877). Enfim, o destaque teológico traçado pelo sacerdote no teor do documento ressalta que, para ele, na época, o homem não poderia viver sem Deus, poderia até ser educado, mas se não tivesse Deus, de nada adiantaria a boa educação.

Ampliando a discussão da teologia, a palavra amor, trazida pelo sacerdote no seu documento, também pode ser será analisada sob essa ótica. Quando o sacerdote fala sobre a palavra amor, o sentido pode ser comparado com amar a Deus sobre todas as coisas, seguindo o mesmo princípio estabelecido nos evangelhos, sendo o amor é um ato necessário ao homem, chegando a dizer que o amor é um dogma, ou seja, uma lei a ser cumprida: “a lei do amor é o preceito mais sublime imposto pelo homem, senão mesmo, que é uma lei necessária”

(OPÚSCULO, 1877).

Sendo assim, para Jinzenji (2012, p. 15), ler um documento é, portanto, escutá-lo naquilo que não apresenta explicitamente, mas que faz parte do cenário (inclusive sonoro) de sua produção. Dessa forma, ao “escutar” o documento, observa-se que a palavra amor era algo importante para o sacerdote, em quase todo o Opúsculo ela é citada com conotações relevantes, principalmente quando se trata do amor ao próximo e do amor a Deus em primeiro lugar: “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e para amar eternamente. Portanto, o preceito do amor devia também ser um preceito eterno, como era eterno o Ente que tinha de ser amado”

(OPÚSCULO, 1877). Por fim, um dos pontos mais importantes do Opúsculo sobre a educação do padre Siqueira é o lugar da mulher, chega a dizer “a mulher é tudo do mundo” (OPÚSCULO, 1877).

A produção de determinados papéis para a mulher descrita no Opúsculo, emponderando-as (dentro de seus papéis), tornando-as parte responsável pelas diversas esferas da família, casa e trabalho. Ele imaginava “primeiramente, formar a mulher de modo a torna-

se uma digna mãe de família, implantando em seu coração os princípios religiosos e de uma moral sã” (OPÚSCULO, 1877). Ser mãe de família, ter princípios, saber se portar diante dos outros era um propósito fundamental para a educação na Escola. Em um dos relatórios publicados no Jornal Mercantil179, o sacerdote chega a dizer que a “missão da mulher na terra não se limita a de serva obediente; a ela exclusivamente está confiado o futuro da sociedade, porque a ela compete a educação da família” (RELATÓRIO, 1880). Pode-se dizer que mesmo tentando romper barreiras para que as mulheres estivessem preparadas para enfrentar diversidades, não deixa de enfatizar que deveriam ser boas mães de família. Seria ali, educando seus filhos que elas mudariam a sociedade. Manoel (1996) comenta que, em 1852, o Jornal das Senhoras, do Rio de Janeiro, dirigido por Joana Paula Manso Noronha, se propunha a lutar para o desenvolvimento social e para a emancipação moral da mulher, o mesmo jornal também afirma que nada seria conseguido para a emancipação feminina sem a educação da mulher.

Manoel (1996) também traz que o jornal conservador Monitor Católico publicava, em dezembro de 1879, que o modernismo exagerado da jornalista a levou a um dia projetar a educação da mulher na liberdade. O catolicismo conservador da época partia do suposto de que as leis divinas e naturais teriam estabelecido as tarefas domésticas como domínio próprio das mulheres e as atividades sociais e cívicas como domínio masculino (MANOEL, 1996).

Por outro lado, as mulheres exerciam outras atividades como parteiras, doceiras, lavadeiras, costureiras, vendedoras ambulantes e prostitutas (FIGUEIREDO, 1999;

FURTADO; VENÂNCIO, 2000), além de professoras, escritoras, redatoras de jornais (KELLEY, 2006) e muitas outras. Também exerciam atividades econômicas como chefes de família no início do século XIX (SAMARA, 1997), como era o caso das viúvas dos soldados da guerra que trabalhavam para sustentar seus filhos. Padre Siqueira idealizava que as meninas (mulheres) pudessem viver dignamente de seus trabalhos, pudessem conduzir suas próprias histórias. Assim, a boa educação/instrução seria o que todas mereciam. O Opúsculo sobre a educação do padre Siqueira encontra eco num discurso problematizador, cercado de inferências, misturando a educação, a teologia/moral e o empoderamento feminino, mesmo que dentro das limitações do que era proposto para época.

A seguir, para compreender para onde foram as primeiras alunas que estiveram na Escola no ano de 1871, será necessário entender o contexto social das mulheres para a época.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 188-192)