• Nenhum resultado encontrado

De malas prontas: Para onde foram essas mulheres?

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 196-200)

Refletir sobre a vida das mulheres do século XIX que viveram grande parte completamente enclausuras, silenciadas, confinadas, “domesticadas”, submissas e, por outro lado, refletir sobre as mulheres que diante de tantas imposições souberam se colocar, emancipando-se mudando completamente o rumo de suas histórias é, sem dúvida alguma, uma análise de que o contexto social era imbricado de imposições/prescrições, certas regras impostas pela sociedade da época. Muitas lutaram pela ascensão social e/ou outras até mesmo pela sobrevivência, como o caso das alunas do ano de 1871 da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo. Ouvir a história de mulheres do século XIX e perceber que muitas foram protagonistas de suas histórias e mudaram o rumo de suas vidas, talvez seja, um dos pontos mais fundamentais para a análise da temática entre educação e instrução.

No capítulo 2, desta tese, discorreu-se sobre um homem que possibilitou a contação de história de muitas mulheres. A seguir, no último subtítulo deste trabalho, será contado uma parte da história de cada uma das 25 primeiras mulheres/alunas que teceram suas histórias na Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

Figura 73 - Livro de Registro de Saída das Alunas184.

Fonte: Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo. Sala-Museu, 1871.

O livro contém 100 páginas, todas estavam escritas, com letra manuscrita sem nenhuma informação pré-determinada, ou seja, sem perguntas pré-concebidas, apenas duas páginas estavam em branco o que leva a pensar na hipótese de que alguém pulou aquelas páginas. O (a) próprio(a) (a) escriba do documento determinou a regra da escrita do livro com a numeração, a separação de uma aluna da outra com uma linha, a substituição de número de uma aluna para a outra. A caligrafia é bastante nítida e desenhada e, aparentemente, é usada da página 1 até a 99, supõe-se que talvez a mesma pessoa tenha escrito o livro do início ao fim. Para a interpretação deste material foi preciso analisar detalhes que podem parecer insignificantes (GINZBURG, 1989), mas que exigem um uso intenso do corpo documental, rigor científico desde a sua materialidade até as informações escritas que precisam ser lidas e interpretadas.

Na página 1, encontra-se o registro de saída da primeira aluna matriculada na Escola Doméstica de Nossa senhora do Amparo, Eulalia Maria Francisca de Mello, filha de Francisco João de Mello e de Maria Borges de Mello, natural de Portugal. Foi batizada aos 10 de setembro de 1864 com idade de 14 meses, com 1 ano e dois meses, na Matriz de Santa Rita. A saída de Eulalia se deu no dia 7 de junho de 1887 para ser adjunta no colégio Santa Candida. Consta no Livro de Saída que Eulalia retornou como adjunta na Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo e, posteriormente, entrou para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa

184 O texto correspondente à Figura 73 é: Sahida nº 8 Saiu no ano de 1873 a pedido de sua mãe. Comph. Sahida nº 8. Saiu a pedido de seu Padrinho Srº João Maria Castro Lima para fazer compras em São Paulo e comprar uma cadeira de professora em Lorena. Sahida dia 5 de junho de 1883.

Senhora do Amparo. Infelizmente o livro de registro de professores do ano de 1871 não foi encontrado, não se sabe até mesmo se ele existiu. No livro de registro de despesas da casa também não consta nenhuma despesa que apresente a saída da aluna Eulalia para que se possa desenvolver uma discussão mais apurada sobre a primeira aluna que saiu da Escola para exercer uma profissão, ser professora/diretora e, depois, retornou para ser adjunta e irmã consagrada (freira) na congregação. Eulália cumpriu um dos ideais do sacerdote de que, as próprias alunas, retornassem para assumir a Obra.

A profissionalização da mulher aparece em sua primeira acolhida, uma mulher, ou melhor, a primeira mulher (aluna) da Obra do padre Siqueira. Interessa observar que sistema de diferenciação permite que uns atuem sobre os outros, que objetivos se perseguem – exercer uma profissão-, que formas de institucionalização estão embricados – regulamentos e costumes – e, que tipo de racionalidade está em jogo. Dessa forma, Eulalia retorna para um exercício - ser adjunta. Retorna para os regulamentos e costumes imbricados de regras e normas ao qual vivenciou inúmeras vezes. Retorna para o exercício de empoderamento sobre as outras acolhidas. E, por fim, retorna para reafirmar que a educação e a instrução que havia recebido lhe dava condições de atuar sobre as outras alunas.

Michelle Perrot (2019) afirma que, ao longo do século XIX a instrução é contrária tanto ao papel das mulheres quanto à sua natureza: feminilidade e saber se excluem. Eulalia foi formada para as letras e para atuar no papel de dona de casa, de esposa e de mãe. Escolheu exercer uma profissão, ser gestora de escola. Rompeu a barreira de que instrução é contrária tanto ao papel das mulheres quanto a sua natureza (PERROT, 2019). Eulalia estava instruída para exercer um papel de poder, adjunta da escola mesmo que subordinada ao sacerdote, diretor – um homem.

Em 1887 quando Eulalia saiu da Escola, a educação feminina, bem ou mal, no Brasil, já dava seus passos iniciais. Ivan A. Manoel, em Igreja e Educação feminina (1996), destaca que o católico conservador, José Maria Correia de Sá e Benevides185, professor da Faculdade de Direito de São Paulo, negava a participação feminina na vida pública alegando que a mulher não deveria figurar nos cargos políticos por motivos morais e sociais. Decerto, quanto mais eram feitas as tentativas para assegurar o direito das mulheres, pensando-se na profissionalização feminina, mais o conservadorismo firmava-se, pautando-se na doutrina conservadora da Igreja. Sendo assim, a Igreja partia do suposto de que as leis divinas e naturais teriam estabelecido tarefas domésticas como domínio próprio das mulheres e as atividades sociais e cívicas como domínio masculino (MANOEL, 1996).

185 Foi político e presidente das províncias de Minas Gerais, de 14 de maio de 1869 a 26 de maio de 1870, e Rio de Janeiro, de 01 de junho a 27 de outubro de 1870.Disponível em: http://www.pensario.uff.br/texto/1870- jose-maria-correia-de-sa-benevides Acessado em: 22 de Jan. de 2022.

A saída dessas mulheres/meninas da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo carrega subjetividades que implicam nas escolhas em que cada uma pode ou não realizar ao sair da Instituição. Não é possível saber, ao certo, o que as levou a escolher determinados caminhos, o que as fez negar-se ou aceitar-se enquanto mulheres educadas e instruídas para viverem do seu próprio sustento.

Para uma melhor organização e apresentação das saídas das alunas e dos lugares para onde foram, o Quadro 11 traz as informações organizadas por categorias em procedência de:

lugares, nomes e saída. Essas informações foram cruzadas entre o livro de registro de saídas e o livro de registro de entradas das 25 primeiras alunas do ano de 1871 da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

Quadro 11 – Saída das Primeiras alunas da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.

Para onde foram? Nome Data da Saída

Retornaram para a Escola Doméstica Nossa Senhora do Amparo para assumir a Direção e ou como adjunta

Eulalia Maria Francisca de Mello Rosa Antônia Machado

Maria Antonia da Silva Ultra

07/01/1887 31/01/1889 20/12/1889

Doentes Anna Mathilda Lacher 18/12/1873

Falecidas Leopoldina Maria Maia

Anna Candida de Siqueira Lima

17/04/1883 07/05/1876 Professoras/Adjunta em outra escola

Empregada/Criada/Alugada Doméstica/Cuidadora/ Dama de Companhia/Recomendada

Maria Eulalia da Rocha Isabel Pinto Nogueira Maria Angela do Rosario Florisbella da Cunha Feijo Antonia Mathilda Van Ervan Albina Maria da Conceição Amélia de Jesus Medeiros Luíza Fortunata de Moura Francisca Henriqueta de Morais Geraldina Maria

Ludmissa Borges do Espírito Santo

14/05/1883 07/08/1884 14/07/1882 23/04/1883 14/04/1882 22/05/1883 09/03/1884 30/10/1881 26/04/1882 02/04/1881 12/04/1882

Casou-se Josephina de Souza Werneck 21/07/1878

Sem informação no Livro de saída Libania Mathildes Caldeira Amélia Siqueira Carvalho Claudina Maria de Siqueira Balbina Maria de Siqueira Lima Francisca Chagas

01/01/1873 S.I./S.I./1873 09/02/1882 09/02/1882 27/06/1883

Recolhimento Rosalina Knabel Krumser 04/12/1882

Completar a idade Francisca Henriqueta de Moraes 28/06/1885

Fonte: A Autora, 2022.

A aluna Rosa Antônia Machado, filha de Margarida Machado e de Antônio Machado, nascida aos 10 de outubro de 1863, batizada aos 22 de abril de 1865, dada como afilhada ao Senhor Antonio B. Thomás de Aquino e dona Henriqueta, consta no livro de saída que Rosa foi, como adjunta, para a casa de Senhora dona Zelia de Abrico Magalhães, no dia 21 de agosto

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 196-200)