Um homem morava em uma cidade muito bonita. Ele saía sempre correndo de casa para os sérios e graves compromissos de seu trabalho. Usava as ruas bem cuidadas da sua cidade apenas como uma pista onde ele ia em busca de dinheiro para um dia viver bem em um lugar bonito. Um dia ele encontrou uma pedra mal colocada na calçada, afinal a cidade era bem cuidada, mas, como nada é perfeito, nela tropeçou. No pronto- socorro colocaram gesso no pé machucado. Passou a ter a maior dificuldade para andar. Durante as suas idas, agora devagar, ao trabalho, para sua surpresa, percebeu os mil detalhes, pessoas, casas, sons e cheiros que formam a essência da uma cidade.
Passou a cumprimentar os novos conhecidos e os velhos moradores, que o viam sempre passar apressado. Em conversa, soube de muitas histórias do local, como de um parente que viveu naquelas ruas há muito tempo. Isto lhe deu um sentimento novo:
de pertencer a uma evolução, de ser um elo importante e de viver em um belo lugar (MELLO, 2005, p. 7).
Para iniciar a narrativa sobre a cidade de Petrópolis, serão tomados por base os escritos de Virginio Cordeiro de Mello (2005), que em seu livro “Petrópolis um passeio pelo centro
55 Meninas que iriam trabalhar em casas de famílias em troca de casa, alimentação e etc.
56 Primeiro ensino – palavra usada pelo padre Siqueira para se referir ao primeiro ensino.
histórico” relata a experiência de andar pela cidade e perceber os diversos monumentos instalados desde sua fundação, porque esse era o cenário da Petrópolis que padre Siqueira habitou. A praça d. Pedro; a igreja Luterana, construída em 1863 que é o principal monumento de referência dos colonos alemães; o palácio da princesa Isabel, construída em 1853 pelo Barão de Pilar e vendida para o Conde d’Eu em 1876;57.
A origem da cidade se deu devido à Paula Marianna Leopoldina Joanna Carlota Faustina Mathias Francisca Xavier de Paula Michaela Gabriela Raphaela Gonzaga, a quinta filha do casal imperial d. Pedro I e d. Leopoldina. Seus dois prenomes principais foram a homenagem do pai às províncias de São Paulo e Minas Gerais (cuja capital era Mariana), que tanto auxiliaram d. Pedro e d. Leopoldina no processo emancipatório do Brasil. Ao nascer, d. Paula foi infanta de Portugal e do Brasil, haja vista não existir, ainda, uma Constituição brasileira, promulgada somente em 25 de março de 1824; a partir daí, d. Paula foi somente princesa do Brasil, ainda que genealogicamente continuasse a ser infanta portuguesa.
Foi, em grande medida, para tratar das enfermidades de d. Paula que d. Pedro I se decidiu pela aquisição da antiga fazenda do padre Corrêa. d. Paula era asmática e epilética, como todos os demais seus irmãos – exceção para d. Maria da Glória – mais tarde d. Maria II, rainha de Portugal (CERQUEIRA, 2017). D. Pedro I tentou comprar a fazenda, mas não teve sucesso, o padre Correa não quis fazer negócio com ele, no entanto, não desistiu e comprou uma fazenda ao lado chamada Córrego Seco. Neste local, d. Pedro I fez seus planos de construir o Palácio da Concórdia (CERQUEIRA, 2017), porém, seus planos novamente não deram certo e o seu sucessor, d. Pedro II, decidiu continuar os planos em 1843 quando assinou o decreto da construção do Palácio de Verão. As obras foram concluídas em 1847 e dali por diante, d. Pedro II não deixou mais a pequena cidade de Petrópolis. Segundo Rezzuti (2019), a fazenda do Córrego Seco, no alto as Serra da Estrela, estava hipotecada e a dívida somente foi liquidada em 1840 com a Lei Orçamentária. Em 16 de março de 1843, por meio do Decreto Imperial nº 155, d. Pedro II autorizou o plano de mordomo-mor, Paulo Barbosa, de arrendar a fazenda ao major e engenheiro militar Júlio Frederico Koeler. A cidade de Petrópolis, segundo testemunho deixado pelo mordomo, deve seu nome a Paulo Barbosa: “Lembrei-me de Petersburgo, cidade de Pedro, recorri ao grego [...] e sendo o Imperador d. Pedro, julguei que lhe cabia bem esse nome” (REZZUTTI, 2019, p. 169).
Retornando a Mello (2015), andar pela cidade é um recuo no tempo e na história. A maioria das ruas é fundo de vale. Nelas, temos um rio, sempre manso e de nomes como Quitandinha, Piabanha e Palatinado, inclusive a Escola Doméstica de Nossa Senhora do
57 A belíssima Catedral em estilo neogótico, construída em 1884; o palácio de Cristal, inaugurado em 1884 com uma estrutura toda de vidro encomendada pelo Conde d’Eu, marido da princesa Isabel. O palácio de Cristal foi palco da festa da Liberdade em 1888. Todos esses monumentos fazem de Petrópolis uma cidade única e especial.
Amparo fica à frente de um desses principais rios da cidade. A colonização alemã se deu pouco a pouco, mesmo antes de a cidade ser fundada. Primeiro chegou um navio e depois o outro com as famílias alemãs para buscarem novas oportunidades e trabalharem na construção da Serra da Estrela (MELLO, 2015). A viagem sempre era bastante penosa, desciam no Rio de Janeiro e partiam de barco a vela para o Porto da Estrela, no fundo da Baía de Guanabara, atual Magé.
Depois iam a pé, por mais ou menos três dias até o meio da Serra, o fim da viagem era a Fazenda do Córrego Seco, onde se apresentavam (MELLO, 2015). Petrópolis também foi cenário para a Corte Imperial, d. Pedro II vinha constantemente à cidade nos verões cariocas para fugir do calor intenso do Rio de Janeiro, com isso, a cidade viu sua construção e emancipação com as marcas imperiais.
Segundo Resende e Knibel, (2015), no Brasil oitocentista, Petrópolis foi reconhecida como uma das cidades que mais se preocupava com a qualidade da educação, muitos professores de cidades vizinhas, e até mesma da província do Rio de Janeiro, vinham para Petrópolis para lecionar na cidade. A cidade era muito procurada por mestres desejosos em lecionar para alunos petropolitanos ou oriundos de outros lugares. Torna-se um lugar privilegiado, principalmente no que se diz respeito à educação, todos os relatos evidenciam que d. Pedro II, supervisionava pessoalmente várias instituições de ensino, públicas ou privadas.
Petrópolis ganhava fama de ter um ótimo ensino, excelentes professores e de zelar pela formação moral e religiosa dos seus alunos, com isso, vários professores deixavam o Rio de Janeiro para subir a serra e lecionar na cidade (CASADEI, 1991).
É importante deixar que a imaginação sobre a cidade se envolva com as referências históricas (MELLO, 2015) e, procurar se colocar ali, naquele território, escolhido pelo sacerdote para iniciar a sua Obra. A cidade de Petrópolis traz a alma de seu passado, imbricado de memórias de seus conterrâneos que sempre comentam todas as histórias vividas neste lugar.
Padre Siqueira encontra nela um dos melhores lugares para construir a sua Obra “em Petrópolis, lugar próprio para isto, quer pelo lado sanitário, quer econômico” (JORNAL CORREIO MERCANTIL, 1868)58. Assim, a história consiste, como toda a ciência, em constatar fatos, em analisar, aproximar, estabelecer relações (LUCA, 2012). Esse lugar, escolhido por ele, conforme pôde ser visto em sua própria narrativa consiste em um lugar privilegiado para a tessitura da vida de muitas meninas órfãs. Petrópolis se torna o berço da Obra do Padre Siqueira para a educação da pobreza, a mais desvalida, a do sexo feminino. Um homem e uma Obra para a educação da pobreza. Gestos de um indivíduo e acontecimentos seguindo lado a lado, descortinando o rumo que se dará sobre a história da Obra do Padre Siqueira.
58 Texto do Padre Siqueira Publicado no Jornal Correio Mercantil – Ano XXV, 1868. Ed. 236, p.3. Apelo para a criação da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo 1868.
Dona Ana Leocádia Cunha Barbosa Moreira Guimarães, amiga que fez em Baependi, recebe padre Siqueira em sua casa em Laranjeiras, Rio de Janeiro. O casal Moreira Guimarães vivia, desde 1855, no bairro de Laranjeiras, mas, como família de posses, possuía uma casa em Corrêas, junto à fazenda Imperial de Petrópolis, onde costumava passar a temporada quente do verão. Chamava-se o recanto “Fazenda da Olaria” (BAGGIO, 1987). Essa região acabou formando o bairro de atual Corrêas, pois, Ana Leocádia é de origem da família de onde saíram o padre Tomás de Aquino Corrêa e Arcângela da Silva, mãe de Ana Leocádia.
Aos 15 dias do mês de julho do ano de 1868, torna-se concreto o primeiro passo para a construção de seu sonho. Padre Siqueira pega o Estatuo e com uma carta em mãos, se apresenta em Petrópolis, ao Imperador d. Pedro II.
Senhor, com profundo respeito, venho à augusta presença de Vossa Majestade Imperial, ter a súbita honra de apresentar o programa do estabelecimento pio, que tenho projetado e sobre cujo assunto Vossa Majestade já se dignou ouvir-me. Esforço- me para ver realizado o meu pensamento, confiando em Deus, em Vossa Majestade e no povo brasileiro, cuja caridade não me há de faltar. A educação de um povo, Senhor, não está somente nos estudos que levam ao caminho das ciências. Cada um para o que nasceu e conforme as suas condições. O pobre precisa do trabalho como riqueza, para isso, a instrução apropriada, o costume e a moralidade se tornam indispensáveis.
Atualmente, quando os altos poderes do Estado se ocupam da importante questão sobre a emancipação da escravatura, é quando julgo mais oportuno pôr em prática o meu pensamento; então, não me parece somente de utilidade ou caridade, considero antes como necessidade. Tenho permanecido em algumas das províncias do Império e tenho encarado com atenção para a educação da pobreza que constitui a maioria do país; e o que vi, Senhor! Foi que limitava ao ensino tosco da nossa língua e das quatro operações; - a religião completamente esquecida, os maus costumes, a indiferença pelo trabalho, os vícios, enfim, dominando a criança desde a tenra idade, crescendo com elas para serem transmitidos à nova geração, pois foi esse o legado de seus pais.
Então fui impelido a revelar e por em prática o meu pensamento, a tal ponto, que, o silêncio por mais tempo, convencer-me-ia de uma falta grave perante Deus e a sociedade. D’ahi me vem o pensamento de criar um estabelecimento para a pobreza, a mais desvalida, a do sexo feminino; dando-lhe uma educação conveniente para o serviço doméstico convencido de que assim cumprirei com um dever como sacerdote, servindo à religião e à sociedade a que pertenço. Beja a mão de Nossa Majestade Imperial o seu mais humilde e reverente súbdito.(PE. JOÃO FRANCISCO DE SIQUEIRA ANDRADE, Rio de Janeiro, 18 de junho de 1868)
Relata esse feito em seu diário de viagens “Apresentei-me à Sua Majestade Imperial e em poucas palavras lhe fiz sentir e conhecer o meu pensamento” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868). Detalha para o Imperador o que se fazia sentir em seu coração, apresentando-lhe os primeiros passos para a construção de sua Obra. “Como toda a narrativa de vida, ela precisa se submeter a uma cronologia de fatos, mas, contrariamente à vida, ao destino” (DEL PRIORE, 2018, p. 79). Padre Siqueira deixou o Programa com sua majestade por dois meses, e recebeu a seguinte resposta: “A ideia é boa e humanitária, porém dificílima, mas que desse começo à obra” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868). Diante disso, faz imprimir o Programa e deu início aos trabalhos.
Ainda no mesmo ano, realiza o segundo passo para a idealização do seu sonho, escreve um apelo ao povo brasileiro e o publica no Jornal Correio Mercantil59, em 27 de agosto. Era um dos tantos documentos escritos pelo padre Siqueira e seu primeiro apelo ao povo, Figura 31.
59 Jornal Correio Mercantil – Ano XXV, 1868. Ed. 236, p.3. Disponível em: Biblioteca Nacional.
Figura 31 - Primeiro apelo do Padre Siqueira ao povo - Jornal Correio Mercantil, 186860
Fonte: Biblioteca Nacional, 186861.
60 O texto correspondente à Figura 31 é: “Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo: em Petrópolis.
Apelo que faz o padre João de Siqueira a todos os cristãos para a criação de um estabelecimento pio para o sexo feminino, em condições proporcionadas à primeira necessidade do Brasil. Depois de, respeitosamente, ter apresentado a Sua Majestade se dignado dar sua aprovação, oferecendo ao mesmo tempo o seu poderoso auxílio; cumpre-me o dever de oferecê-lo à consideração de todos os cristãos em cuja caridade, depois de Deus, deposito todas as minhas esperanças. Dois grandes motivos impelem-me a levar a efeito esse meu pensamento. Primeiro, a salvação das almas, arredando do caminho da perdição, especialmente essas pobres e infelizes meninas, que sem residência fixa e sem nunca sujeitar-se ao trabalho por falta de uma educação apropriada, percorrem as ruas esmolando, cuja vida será, antes de tudo, um escárnio à religião, um escândalo à sociedade, não vindo a ser nem ao menos úteis ao país como mães de família; motivo este que, para ninguém, será indiferente. O segundo é prevenir uma substituição conveniente e vantajosa ao elemento servil, no seio das famílias, facilitando a todos os bons cristãos proprietários, senhores e senhoras um meio de praticar um ato de caridade tão nobre quão sublime, preparando ao mesmo tempo boas alugadas para, no tempo, competente serem dignamente empregadas em suas próprias casas, (como se acha bem expresso no Art. 6º do Cap. 4 do programa); pois é desnecessário dizer que uma alugada educada no trabalho desde a sua infância e dirigida pelos princípios da moral e da religião, faz a felicidade e o descanso de uma família inteira, quando pelo contrário, sem esses princípios da moral e da religião, faz a felicidade e o descanso de uma família inteira, quando ao contrário, sem esses princípios não faz senão levar a desordem e a desgraça!
Mas talvez venha a alguém esta réplica: a tal é imprópria! A isso respondo somente que um estabelecimento nas condições postas no meu programa é de uma extrema necessidade que ninguém a desconhecerá, quer encarando pelo lado da mesma guerra que já tem atirado ao mundo centenas de meninas desvalidas, e ainda em tenra idade; quer pelo lado da abolição da escravatura. Por conseguinte, considerando sob um ponto de vista sério essas mesmas questões, cada um, ditado por sua própria consciência fará o que entender e puder, confiando em Deus que sempre recompensa dando cem por um. E assim, todos faremos um grande bem a essas infelizes e inocentes meninas, à sociedade, à Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo e, daremos o nosso
No seu apelo, deixa transparecer suas vontades e os seus valores, registrando nas linhas a importância de se ter um estabelecimento de ensino voltado para a camada mais necessitada.
Evidencia que tinha noção dos estabelecimentos de ensino já existentes no Brasil, mas que o que ele queria seria totalmente diferente, seria somente voltado para a camada pobre, que não tinha sequer esperança do futuro. Implora ajuda ao povo brasileiro expondo os motivos que o levaram a pensar nas “infelizes” meninas e dá importante destaque a uma educação apropriada àquelas sem condições e sem residência fixa. Apresenta um local para a construção da Escola e, por fim, relata que grandes estabelecimentos de caridade e de educação se sustentam na Europa da forma que estava propondo, ou seja, pela caridade.
A trajetória de padre Siqueira é, em boa medida, a história de uma luta por igualdade social e melhoria de vida das meninas órfãs, sem deixar de ser a história de um homem (SOUZA, 2009). Depois de quatro meses de muitas lutas, já havia angariado várias assinaturas em seu livro de benfeitores e foi “seguindo como me haviam ordenado” (DIÁRIO DE
pequeno auxílio ao governo que luta hoje, com tantas dificuldades, apoiados igualmente a ele. Senhores, eu reconheço que nada sou e nada posso sem Deus e sem vós, somente tenho a melhor boa vontade sem nenhuma outra ambição mais que a da gloria de Deus e do bem estar da sociedade a que pertenço, de cuja verdade, por hora só Deus é testemunha, porém, tenho a firme confiança de que vós também o sereis aceitando, como espero, esta minha boa vontade. Peço, pois, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que, depois de haveres pesado na balança fiel de vossas delicadas consciências as dádivas ou riquezas que o Deus todo poderoso vos tem, tão liberalmente, prodigalizado, repartais com esta obra aquela porção que julgares que ela merece e exige de vossa caridade e patriotismo. Senhores, ainda há pouco por ocasião da guerra, acabastes de dar a mais eloquente prova de zelo e patriotismo; pois bem, mais um ato de caridade para uma educação nas condições apresentadas será o verdadeiro complemento de vosso zelo e patriotismo! É inquestionável que o progresso material de um povo é amuralha da nação, porém, é também certo que a moral religiosa é o seu alicerce. Não quero dizer que já não existam no Brasil, e especialmente na Corte, importantíssimos estabelecimentos pios sabiamente dirigidos; existem até demais. O estabelecimento pio de que ainda, e com urgência necessita o país, é aquele onde se dê exclusivamente a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus. Isto é, à classe pobre, a educação proporcionada a fazê-la feliz na condição que a Providência Divina a colocou, à alta sociedade; a educação que satisfaça as suas naturais e justas aspirações;
eis o meu tirocínio, ou antes, o objeto de todos os meus cuidados já há muito tempo. Declaro finalmente, que já tenho negociado uma casa com todas as proporções para um estabelecimento de tal ordem, em Petrópolis, lugar próprio para isto, que pelo lado sanitário, quer econômico: já estão prevenidas as Irmãs para o ensino e direção das meninas. Tenho quase organizado os estatutos para a criação de uma sociedade, que mais tarde, com o mesmo trabalho das meninas e com as esmolas e joias que for recebendo, sem ônus e com muita vantagem, sustentará a Escola do modo seguinte: poderão alistar-se pessoas de toda e qualquer posição social honesta, de qualquer idade e de ambos os sexos, contribuindo apenas com um anual de três mil e seis contos que corresponde a trezentos reis mensais, ficando por isso, com certos direitos que estarão expressos nos respectivos estatutos, os quais, depois de legal e religiosamente aprovados, serão apresentados. Serão encarregados de agenciar e receber esses anuais debaixo de uma escrituração muito bem ordenada, os meus próprios irmãos sacerdotes, especialmente os Revdos. Párocos em suas respectivas freguesias, dos quais espero um religioso apoio; além daqueles sacerdotes que logo espero tê-los comigo para auxiliar-me. É por meio dessas sociedades que grandes estabelecimentos da caridade e de educação de pobres levantam-se e sustentam-se na Europa, como estou bem informado, prestando os mais importantes serviços ao país.
Confiando, pois, na Providência Divina e em vós, que estou certo não rejeitareis a um sacerdote, que amando de coração o país que viu nascer e fiel às leis de seu alto ministério, cheio de confiança irá bater às portas de vossos caridosos corações, a fim de solicitar uma esmola para uma obra, que, segundo opiniões prudentes, sábias e religiosas, é tão quão caridosa e de grandes vantagens futuras; lanço-me nos vossos braços. O padre J. F. de Siqueira Andrade.”
61 Jornal Correio Mercantil – Ano XXV, 1868. Ed. 236, p.3. Disponível em: Biblioteca Nacional.
VIAGENS, 1868). Padre Siqueira dá sequência ao seu ideal, com seu propósito, luta pela sua Obra. D. Pedro II apreciou os nomes que já ornavam o livro, porém “apresentou-me tais considerações tão opostas e absurdas à minha esperança” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868), que novamente teve vontade de desistir, sentiu-se inseguro diante de tantos desafios. Nesse momento, “quase resolvi deixar tudo e seguir para a Europa, com o fim de recolher-me em um mosteiro dos Trapistas62 e não mais dar notícias” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868).
Sabia que estava diante de um grande desafio, talvez o maior de todos, mas seguia também o encorajamento de d. Pedro II: “não desanime, continue” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868). O diário de viagens do padre Siqueira permite um olhar em sua intimidade, faz o estatuto, leva-o ao imperador, ouve que será difícil, tem vontade de desistir, ouve novamente que era para continuar apesar dos dilemas e ansiedades comuns a qualquer pessoa. Ainda que parcialmente, pode-se identificar um personagem que, apesar de seus dilemas, também estava disposto em seguir o seu propósito.
O diário “inscreve-se numa perspectiva autobiográfica, por se tratar de um texto em que o sujeito fala e se refere a si mesmo” (VIÑAO, 2000b, p. 11 apud PIMENTA, 2017, p. 346), sendo assim, padre Siqueira deixa em suas narrativas características autobiográficas, naquilo que cada narrador deseja registrar a partir de seu discurso (LACERDA, 2000). Sentimentos como a insegurança, o medo, as frustrações aparecem como produto de um testemunho ocular da história de seu tempo, como se cada escritor pudesse elaborar de forma impermeável as subjetividades de seu próprio discurso (PIMENTA, 2017).
Padre Siqueira continuou, reuniu forças, juntou esperanças e deu seguimento ao seu propósito. Permaneceu na Corte durante quatro meses e, nesse espaço de tempo, “foi uma verdadeira luta e temeridade da minha parte” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868). O termo “corte”
era muito mais geográfico, um sinônimo da cidade do Rio (REZZUTTI, 2019), um lugar onde existiam cerimonias sempre aos primeiros sábados de cada mês, no Palácio de São Cristóvão, em que o corpo diplomático se reunia. Também havia grandes recepções nas datas nacionais, geralmente no Paço da cidade sempre após um momento religioso na Capela Imperial. Depois desses quatro meses, resolve sair e escreve que vai “deixar a Corte onde estava, direcionando meu trabalho pelo interior da Província” (DIÁRIO DE VIAGENS, 1868) munido de uma carta63 que, espontaneamente, lhe ofereceram os amigos sr. conselheiro João Augusto Moreira Guimarães, Manuel José Moreira Guimarães, Aluísio Montenegro. Partiu aos 21 de outubro de
62 Trapistas: monges beneditinos cenobitas. Os mosteiros trapistas tiveram início com a abadia de Notre-Dame de La Trappe, fundada em 1664 na Normandia, noroeste da França.
63 Essa carta não se encontra nos Arquivos do padre Siqueira.