Juntamente com outros amigos, quatro anos após a inauguração da Escola, pela primeira vez, padre Siqueira vai pedir novamente ajuda financeira para a população da cidade de Petrópolis – doações, donativos e presentes – para realizar um bazar beneficente. Os petropolitanos já vislumbravam a primeira parte do edifício, uma construção imponente na cidade e para esse evento contou com a ajuda de suas amigas, as senhoras distintas, que, através de uma comissão, organizaram todo o evento para que tivesse sucesso e pudesse ajudar as meninas que já estavam instaladas na Escola. Conforme a publicação no Jornal Mercantil161, as senhoras amigas do sacerdote que organizaram o evento foram: Condessa de Barral162, Viscondessa de Souza Franco163, Viscondessa de Silva, Viscondessa de Mauá, Baronesa da Lagoa, Dona Josefa Leonissa de Torres e Alvim, Dona Eulália Pulcheria Bulhões de Oliveira Bello, Mme. Ramirez, Dona Amália Caymari e Dona Maria da Gloria Vaz. Além de contar com todo o apoio das majestades imperiais, a comissão também contribuiu com prendas e se comprometeu a exibir os objetos à venda para outras senhoras da cidade. Para a realização desse evento, também chamado “Festa da Caridade”164, que aconteceu no dia 02 de fevereiro do ano de 1875, o desejo do padre Siqueira era que o bazar pudesse apresentar à população de Petrópolis o trabalho já realizado pelas acolhidas (os de agulha citados anteriormente), além de arrecadar dinheiro com as prendas doadas pelas senhoras e demais colaboradores. Entre amigos e benfeitores, padre Siqueira compartilhou seus sonhos com aqueles que puderam ver de perto a sua Obra.
como já estava com sua saúde bastante abalada, dita o que queria deixar por escrito: “por me achar fraco, pedi ao meu amigo Ricardo Narciso da Fonseca que escrevesse este testamento conforme lhe ditava” (TESTAMENTO, 1881). Assim também, “esses documentos contêm ricas e variadas informações sobre múltiplos aspectos da vida do morto, bem como da sociedade em que viveu” (FURTADO, 2009, p. 93).
No Brasil, os testamentos pouco variaram ao longo dos tempos. Segundo as Ordenações Filipinas165, os testamentos deveriam ser escritos por ou na presença de um tabelião, acompanhado de mais cinco testemunhas, livres, varões, maiores de 14 anos de idade, mas muitas vezes o testamento é realizado à beira da morte e o testador nem sempre é capaz de cumprir todas as exigências formais, estabelecidas (FURTADO, 2009). As Ordenações Filipinas previam ainda outro tipo de testamento, o testamento palavra, que era apenas ditado na presença de seis testemunhas, homens ou mulheres, que tinham a obrigação de, logo após a morte do testador, declará-lo e registrá-lo perante ao tabelião (FURTADO, 2009). Nas análises do documento do testamento do padre Siqueira, foi possível identificar as testemunhas presentes, são elas: Francisco Antônio de Lima e Castro [...] de Fagundes, Joaquim José da Silva Leite, João Cordeiro de Carvalho, Victorino Rodrigues de Figueiredo, José Joaquim da Silva Leite e capitão Ricardo Narciso da Fonseca que foi o redator, além do tabelião Ignácio da Gama Moret. O documento que se encontra na Sala-Museu da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo (Figura 71 a e b) 166. é uma cópia, solicitada no ano de 1887, pois o documento original encontra-se no cartório do 1º ofício da cidade de Petrópolis. O documento contém 22 páginas e está bastante danificado pelo tempo.
165 As Ordenações Filipinas resultaram da reforma feita por Felipe II da Espanha (Felipe I de Portugal), ao Código Manuelino, durante o período da União Ibérica. Continuou vigindo em Portugal ao final da União, por confirmação de D. João IV. Até a promulgação do primeiro Código Civil brasileiro, em 1916, estiveram também vigentes no Brasil. Blake informa que esta é a primeira edição brasileira deste código. Fonte:
https://www2.senado.leg.br/ Acessado em: 11 de Nov. de 2021.
166 O texto correspondente à Figura 71 é (a) Doc. Nº 3 Testamento do Revmo P. João F. de Siqueira.
Testamento. (b) Ignácio da Gama Moret serventuário vitalício do ofício de tabelião, escrivão provo [...] de órfãs e mais ofícios nesta cidade de Petrópolis e seu termo por sua majestade o Imperador a quem Deus guarde por muitos anos etc etc. Certifico que revendo os testamentos existentes neste meu cartório e podendo entre eles me foi pedido por certidão a do theor maneira e forma seguintes: JMJ. Em nome da Santíssima Trindade, eu João Francisco de Siqueira Anddrade, presbítero secular da Igreja Católica Apostólica Romana, natural da cidade de Jacareí, na província de São Paulo, filho legítimo de Miguel Nunes de Siqueira e de Claudina Maria de Andrade, ambos já falecidos e morador actualmente, nesta...(Continua no anexo I)
Figura 71 - Testamento do padre Siqueira
(a) Capa
(b) Primeira página
Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1887.
Tomando o princípio de Furtado (2009), é necessário tomar alguns cuidados ao escolher o testamento como documento histórico, principalmente, estar atento à possibilidade de haver distorções nas informações. Testamentos são documentos oficiais redigidos por normas e técnicas estabelecidas e é comum o uso de um escrivão ou mesmo de um escriba no leito de morte. Enfim, documento distorcido ou não, o testamento do Padre Siqueira traz inúmeras informações acerca do seu legado.
Pensando nas múltiplas informações que este documento pode revelar, é importante ressaltar que, no ato da escrita do testamento, padre Siqueira mora provisoriamente, conforme escrito no próprio documento, na rua Dona Leopoldina, residência nº 15, na cidade de Petrópolis, próximo à sua Obra. Sua preocupação com a infância feminina desvalida é ditada claramente e chega a ser enfático dizendo “não admitir-se na Escola Doméstica de Nossa
Senhora do Amparo senão meninas exclusivamente pobres e expostas ao desamparo e a miséria” (TESTAMENTO, 1880). Ressalta o princípio da Escola, “educar as meninas para a religião e para o trabalho” (TESTAMENTO, 1880) e comenta sobre a forma da educação “as mais inteligentes, para professoras, ministrando-se então a estas uma maior cultura e em geral as boas mães de família podendo permanecer na casa por sua livre e espontânea vontade”
(TESTAMENTO, 1880). Fica claro em suas colocações a ênfase de que “não serão consideradas jamais nesta classe de meninas pobres e desvalidadas as ingênuas ou libertas”
(TESTAMENTO, 1880).
Furtado (2009) aponta que esse tipo de documento pode revelar várias possibilidades, entre elas a religiosidade, a vida familiar, a cultura material entre outras diversas temáticas que transparecem. Produzidos num contexto de morte, esses documentos ajudam a formar um retrato bastante revelador da vida do falecido e da sociedade que o cercava (ARAÚJO, 2005, p. 115). Assim, a escrita toma forma e as regras que o sacerdote queria deixar transparecem nos escritos de seu testamento. Ele não somente pensava em educar as mulheres para o trabalho e para o exercício dos afazeres do lar (boas mães de famílias), mas, também deixa testamentado que “o pessoal docente nacional, [deveria ser] tirado de preferência entre as educandas da própria casa” (TESTAMENTO, 1880), assim, as meninas já em idade adulta, conforme a sua aptidão, teriam emprego garantido na própria Instituição. Também imagina outra possibilidade para as alunas, então, determina que:
O pessoal docente, uma vez organizado, tem o título de Congregação de Nossa Senhora do Amparo e que, para a sua boa ordem e direção, tome a Regra da Terceira Ordem de São Francisco da Penitência, regra esta aprovada pela Igreja e adotada no Brasil por inúmeras Irmandades (TESTAMENTO, 1880).
Dessa forma, as alunas que não quisessem sair da casa (Escola) para trabalhar em outra instituição também poderiam tornar-se congregadas. Essa parte do testamento traz a possibilidade de uma idealização de que ele não queria que sua Obra ficasse somente em Petrópolis, mas aspirava a possibilidade de que se expandisse pelo Brasil e até mesmo fora do país. Comenta que se ele falecesse antes de ter organizado a instituição, ficaria responsável pela Obra, seu irmão, o cônego José Bento de Andrade (TESTAMENTO, 1880). Com a impossibilidade de seu irmão assumir a Escola, pois, morava em Jacareí e estava envolvido em outras atividades educativas, nomeia como procurador o cônego Amador Bueno de Barros.
Este, procura fazer valer do testamento do sacerdote, e apresenta ao Interlúdio Apostólico, Monsenhor Rocco Chia, o pedido para criar a Congregação. Em resposta, o Rescrito Apostólico, de 25 de março de 1886, determina que, com o pessoal docente já organizado e a Escola funcionando, cria-se na mesma Escola uma congregação de Filhas de Maria como já existe em outros colégios e autoriza a dita congregação a denominar-se Congregação de Nossa
Senhora do Amparo, observando a Regra de São Francisco de Assis, aprovada pela Igreja e moderada pelo Santíssimo Padre, o Papa Leão XIII, além da Regra do respectivo Manual das Filhas de Maria167.
É importante ressaltar que também se fazia necessário que a diocese aprovasse a Congregação. Na época, Petrópolis ainda não era sede de uma diocese, o território petropolitano era parte da então diocese do Rio de Janeiro, que compreendia toda a província homônima.
Assim, estando em Petrópolis, o Bispo do Rio de Janeiro, d. Pedro Maria de Lacerda, conseguiu a aprovação diocesana para a congregação, o Rescrito foi apresentado ao monsenhor Raimundo da Silva Brito, vigário geral da diocese que a autorizou a forma lacônica em 25 de março de 1886. No ano seguinte, a princesa Isabel, regente, em nome do Imperador d. Pedro II, atendendo ao que requereu o cônego Amador Bueno de Barros, procurador do cônego José Bento de Andrade, diretor da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, concedeu o seu beneplácito para que pudesse ter execução o Rescrito da Nunciatura Apostólica, cumprindo o testamento do padre Siqueira que trata da organização do pessoal docente constituindo-se em Congregação Franciscana de Nossa Senhora do Amparo.
A inauguração solene da congregação se deu aos 23 de março de 1888. A cerimônia foi oficiada pelo cônego Amador Bueno de Barros e as primeiras congregadas foram: Francisca Narcisa de Siqueira, sobrinha do padre Siqueira, também conhecida como Mamãezinha, que assume a congregação até o ano de 1897168, Eulália Maria Francisca de Mello (primeira aluna matriculada na Escola)169, Francisca Bibiana Garcia, Francisca Maria Rita da Silva170, Amélia Augusta Monteiro do Amaral171, Cândida Bárbara da Silva172, Júlia Castilho Lessa Nunes173,
167 Revista Alegramo-nos no Senhor 100 anos de aliança. Congregação da Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo. Petrópolis, 2006.
168 A digna sobrinha do Padre Siqueira, Irmã Francisca (Mamãezinha), diretora da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, à proporção que os anos passam, vão aumentando seus merecimentos pela soma de trabalhos que vai acumulando no exercício de sua difícil missão. Com toda modéstia cristã, que muito realça seus méritos, ela, confundindo-se com suas cooperadas, sempre à frente de todo movimento da escola, esquecida de sua compleição fraca, animada de uma coragem varonil, vai dirigindo com esmero tudo que tem relação com os interesses da escola. “Mamãezinha” é o título de amizade com que as educandas distinguem aquela que, se consagrando à Virgem Senhora do Amparo, por isso mesmo fez mãe de tantas crianças privadas do ente precioso ao coração bem formado. Irmã Francisca vive tão somente para a escola, do mesmo modo que seu falecido tio, o padre Siqueira. Tal é o segredo do enigma: pensa, cogita, fala em favor da escola; é a sua única ocupação, identificou-se com a causa das pobres meninas, e por isso o maior sacrifício não lhe custa. Feliz criatura, ditosa senhora! (RELATÓRIO, 1890).
169 Primeira aluna da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo. Entrou para a Escola dia 22 de janeiro 1871. Saiu da Escola no dia 23 de março de 1888 e retornou para entrar para a congregação.
170 Entrou para a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo em 16 de maio de 1878. Entrou para a congregação em 23 de março de 1888.
171 Não há registro da Amélia nos livros de entrada da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.
172 Entrou para a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo em 24 de abril de 1872. Entrou para a congregação em 23 de março de 1888, faleceu em 20 de outubro de 1909.
173 Entrou para a Escola Doméstica de Nossa Senhora doo Amparo em 01 de outubro de 1882. Entrou para a congregação em 23 de março de 1888.
Jesuína Maria da Conceição174. As congregadas fizeram a sua profissão na ordem Terceira Secular de São Francisco em 9 de março de 1889. Viveram 18 anos como congregadas. Em 1906, d. João Francisco Braga foi sagrado como novo bispo de Petrópolis (ainda pertencente ao Rio de Janeiro) ficou bastante interessado pela Obra do padre Siqueira. Ao assumir a diocese, elaborou uma Regra, transformando a Associação das congregadas em congregação Religiosa Diocesana, no dia 17 de janeiro do mesmo ano, realizando, assim, as últimas vontades do padre Siqueira em seu testamento.
Essas primeiras mulheres foram responsáveis por manter a Obra do padre Siqueira, portanto, o protagonismo das mulheres, começa a transparecer nas primeiras congregadas.
Possivelmente, o legado do padre Siqueira, foi muito maior do que o sacerdote imaginava, essas mulheres, mesmo cercada por ideais e, muitas vezes, vistas como inferiores e ou submissas aos homens, ao próprio sacerdote, atuaram fortemente levando a Obra numa dimensão da qual o padre Siqueira, jamais imaginaria. Atualmente, a congregação está presente em diversos lugares do Brasil, conforme indicado pelas setas vermelhas, no Mapa 01.
Mapa 01- Estados onde atualmente há a existência da congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo.
Fonte: IBGE. Malha digital. Mapa do Brasil, 2021.
174 Entrou para a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo em 02 de março de 1872. Entrou para a congregação em 23 de março de 1888.
No Brasil, a Congregação das Irmãs Franciscana de Nossa Senhora do Amparo está presente em diversos estados, conforme apresentado no mapa acima. Se faz presente nas seguintes cidades: no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Petrópolis – Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo e Generalato (lugar de formação das irmãs) –; no município do Rio de Janeiro – Colégio Maria Raythe; no município de Jacarepaguá/RJ – Educandário Nossa Senhora do Amparo; no município de Barra Mansa – Colégio Nossa Senhora do Amparo. No Estado de São Paulo, no município de Jacareí (terra em que nasceu o padre Siqueira) – Casa padre Siqueira. No Estado de Minas Gerais, no município de Monte Carmelo, – Colégio Nossa Senhora do Amparo –, no município de Conquista – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo – , em Mateus Leme – Educandário São José –, em Sacramento – Creche Rosa da Matta –, em Juiz de Fora – Casa Betânia Nossa Senhora do Amparo –, em Chapada Gaúcha – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo – e em São Roma – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo. No Estado de Pernambuco encontra-se presente no município de Surubim – Colégio Nossa Senhora do Amparo – e em Ferreiros – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo. No Estado do Amazonas, no município de Nhamundá. No Estado do Alagoas, encontra-se em Maceió – Escola Nossa Senhora do Amparo – e em Piratininga – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo.
Por fim, no Estado do Ceará, no município de Tururu – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo –,em Arapari – Fraternidade Santa Clara – e Deputado Irapuan Pinheiro – Fraternidade Nossa Senhora do Amparo. Atualmente as Irmãs Franciscanas de Nossa de Nossa Senhora do Amparo, também administram casas e escolas em Angola e no Peru.
Com todas essas obras espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, se concretiza mais um discurso presente em seu testamento: “Deus é Senhor de todos os bens, que não se deixem guiar pela falsa ideia de que com a morte do instituidor de uma boa obra, morre também a instituição.
Não. Isto é falso e falta de fé. Deve acontecer o contrário, se antes a instituição precisava de proteção dessa data em diante, muito mais” (TESTAMENTO, 1880). Ou seja, a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, através da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo, seguiu com as premissas do seu fundador, dando sequência e ampliando sua Obra.
Para Furtado (2009, p. 114), “as possibilidades temáticas abertas por esses documentos são amplas e por vezes se revelam inesperadas”. Dessa forma, as análises do testamento vêm desvendando o legado do padre Siqueira, que, ainda no documento, deixa delegado a quem ficaria a responsabilidade pela Obra quando ele morresse: “se acontecer eu falecer antes que tenha organizado esta instituição, fica encarregado desta missão o meu prezado irmão, o Cônego José Bento de Andrade” (TESTAMENTO, 1880). O Padre ainda acentua uma segunda
possibilidade caso o irmão também viesse a falecer: “só por sua morte ou se por ventura, por qualquer outra circunstância seja ele forçado a deixar esta instituição, ficará então a Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo sob a direção, cuidados e zelo apostólico perpétuos, do Exmo. prelado diocesano” (TESTAMENTO, 1880). Ou seja, a Congregação e a instituição deveriam ficar a cargo da diocese sob a orientação do prelado (o bispo diocesano) que estivesse à sua frente. O Padre destaca claramente o princípio da Escola em Petrópolis e chega a dizer:
“que por algum acontecimento extraordinário em qualquer época futura, este estabelecimento deixasse de ser ocupado por meninas desvalidas conforme programa que acabo de apresentar e se tivesse então, de dar outro destino ao prédio, terrenos e patrimônio, os seus descendentes seriam os legítimos herdeiros” (TESTAMENTO, 1880). E ainda acrescenta que: “é para que se cumpra esta disposição que os nomes de tão dignos benfeitores ficam impressos em vários relatórios” (TESTAMENTO, 1880). De certa, forma, nesse momento, caso a Escola deixasse de atender meninas desvalidas ou que por algum motivo perdesse sua existência, tudo deveria retornar para as mães dos benfeitores. É importante ressaltar que, as irmãs da Congregação Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo, mantêm viva a premissa do fundador e a Escola, criada por ele na cidade de Petrópolis, até os dias de hoje, somente atendendo meninas pobres175, em situação de vulnerabilidade, fazendo-se, assim, valer seu testamento. Dessa forma, padre Siqueira deixou um legado para a cidade de Petrópolis.
Analisando o testamento do padre Siqueira também sob a ótica de que ele pode ser um valioso testemunho da vida material (FURTADO, 2009), pode-se dizer que realmente o sacerdote não tinha nenhum bem de fortuna, a única coisa que relata, que pode se dizer que era um bem material era a sua livraria, “a minha livraria, que consta de mais de mil volumes de boas obras, pertencerá também ao patrimônio da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, devendo, porém, ser conservada na residência do capelão para uso dele”
(TESTAMENTO, 1880). Infelizmente, essa livraria não foi localizada e não se sabe para onde esses livros possam ter ido.
Ainda no que constitui como legado, retornamos aos amigos que agora aparecem citados em seu testamento. Já havia nomeado o irmão e Cônego José Bento de Andrade como seu sucessor e agora aparecem os conselheiros e advogados da instituição: “Exmos. senhores conselheiros Paulino José Soares de Souza, senador Cândido Mendes de Almeida, Drº Antônio
175 A Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo atualmente atende somente meninas pobres e muito carentes, mas devido à atual conjuntura econômica do país, a Escola mantém um convênio com a Mitra Diocesana e com a Secretaria Municipal de Educação de Petrópolis.
Ferreira Vianna e José Agostinho Moreira Guimarães” (TESTAMENTO, 1880)176. Faz um apelo a d. Pedro II, sua esposa Teresa Cristina e sua filha a princesa Isabel, suplicando que continuassem a ajudar a Escola. Por fim, descreve a seguinte frase: “ao meu prezado irmão e primeiro testamenteiro peço a esmola de dar a meu corpo, se eu morrer em Petrópolis, uma humilde sepultura” (TESTAMENTO, 1880). Padre Siqueira não faleceu na cidade de Petrópolis, conforme já citado no segundo capítulo desta tese e nem tão pouco foi enterrado na cidade. Mas, no ano de 1864 seus restos mortais foram trazidos para Petrópolis pelo seu irmão o Cônego José Bento de Andrade em um jazigo e hoje estão próximos à capela no interior da Escola, conforme apresentado na Figura 17, no capítulo2 desta tese.