Escola. Outro ponto importante a ressaltar é que a escrita desse segundo capítulo obedecerá a um tempo cronológico, dessa forma, o leitor fará uma viagem no tempo e compreenderá melhor a trajetória do sacerdote até o início da Obra – a Escola.
benemérito fundador da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo.” O mesmo jornal ainda dá ênfase que a memória do padre Siqueira ficará para sempre guardada pelo seu virtuoso trabalho prestado como sacerdote à causa da infância desvalida. Porém, a notícia do jornal errou no local de sua morte. A Gazeta de notícias16 também relatou: “O ilustre sacerdote deixa um nome cercado de bênçãos, por isso que sua existência consagrou-se toda à pratica da caridade”.
A notícia de sua morte se espalhou rapidamente e logo chegou a São Paulo, estado onde nasceu e esteve por várias vezes angariando fundos para a sua Obra, assim, o Correio Paulista17 também relata o falecimento do sacerdote se reportando a ele como: “filho desta província e fundador de um grande estabelecimento de educação para meninas, em Petrópolis.” Por fim, também o jornal O Apóstolo18 do Rio de Janeiro exclama: “O Amparo perpetuará seu nome”.
A ideia de que sua Obra permaneceria por muitas gerações sempre foi uma das grandes ambições do padre Siqueira, enfatizada em um apelo ao povo no ano de 1871 em que disse que todas as gerações se recordariam dos nomes daqueles que sempre o ajudaram para que a Obra se concretizasse. Em seu testamento, o próprio sacerdote afirmou: “com a morte do instituidor de uma boa obra, não pode morrer a instituição, ao contrário, ela deverá perpetuar com sua memória” (TESTAMENTO, 1880).
As pistas encontradas nos jornais das cidades e em outros documentos remetem a um sacerdote que se dedicou ao serviço da caridade, que esmolou, cuidou e abrigou diversas meninas órfãs em seu colégio. A repercussão de seu falecimento permite identificar parte de uma história que hoje se transformou em memória.
A história de qualquer coisa é apenas o que podemos saber sobre esta coisa, jamais a totalidade. A lacuna é onipresente. O passado não está pronto. Ele ainda está por fazer e articular-se no presente, ou melhor, na presença, onde elaboramos a memória e a transformamos em discurso (PENA, 2004, p. 23).
Mesmo com toda a memória transformada em discurso, não será possível compreender o que realmente o levou a “doar” a vida por uma Obra, pois sempre haverá a intenção da verdade e nunca a verdade. A totalidade dos fatos será impossível de ser esclarecida, cabe, então, um olhar no percurso realizado pelo Padre e não a origem ou a meta. Nada está pronto, tudo está sendo feito (PENA, 2004). Olhar para o sacerdote com as lentes ampliadas em seus documentos e egodocumentos permitirá conhecer, mesmo que superficialmente, sua vida, seus amigos, seus anseios, seus percursos entre tantas outras coisas que o historiador consegue evidenciar ao
16 Biblioteca Nacional, Gazeta de Notícias, 1881, Ed. 99, Ano VII, p.1.
17 Biblioteca Nacional, Jornal Correio Paulistano, 1881. Ed. 7371, Ano XXVIII, p. 2.
18 Biblioteca Nacional. Jornal O Apóstolo, 1881, Ed. 41, p2.
problematizar cada documento. Um simples documento histórico quando problematizado vira fonte histórica (CUNHA, 2015)
Seu sepultamento ocorreu aos 10 dias do mês abril do ano 1881, conforme consta no registro do cemitério19 Campo da Saudade – Avareí – Jacareí/ SP (Figura 18). O sacerdote faleceu, na cidade de São José dos Campos, dez anos após ver concretizada a sua Obra para a educação da pobreza.
Figura 18 - Registro no cemitério de Campo da Saudade – Jacareí/SP20.
(a) Registro no livro do cemitério
19 Este documento foi solicitado pelas irmãs da Congregação de Nossa Senhora do Amparo para o processo de canonização do padre Siqueira.
20 O texto correspondente à Figura 18 é (a): Sepultura particular nº 724. Reverendo padre João de Siqueira, quarenta e dois anos de idade mais ou menos, foi hoje enterrado em uma sepultura particular com o nº setecentos e vinte e quatro, falecido ontem de inflamação no fígado segundo atestado do Reverendo padre Antônio Pereira Bicudo. Jacareí 12 de abril de 1881. Ilmo Srº João Antonio Minaguaia. (b) Registro no Cemitério Campo da Saudade – Avareí – Jacereí/SP. Livro nº 3 de 1880 – Pág. 60. Sepultura particular nº 724. Reverendíssimo Padre João Siqueira, quarenta e dois anos mais ou menos, foi enterrado em sepultura particular numero setecentos e vinte e quatro, falecimento de inflamação de fígado segundo atesta o Reverendíssimo Padre Antônio Pereira Bicudo. Jacareí, 12 de abril de 1881. Solicitamos, Registro do sepultamento, para fins do Processo de Beatificação do Padre João Francisco de Siqueira Andrade, falecido aos 10 dias do mês de abril de 1881 em São José dos Campos/SP. Irmã Ana Maria Martins da Costa, da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo – Petrópolis/RJ.
(b) Transcrição a pedido das Irmãs da Congregação Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo
Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 2021.
Ao olhar as informações e as muitas possibilidades de pesquisa contidas nos chamados registros dos eventos vitais elaborados e conservados pela Igreja (BASSANEZI, 2009), é possível identificar que o sacerdote foi enterrado em uma sepultura particular numerada, possivelmente de sua família, por ser em sua terra natal Jacareí. O local, a data e a causa de sua morte foram confirmados: Falece no dia 10 de abril de 1881 em São José dos Campos, por inflamação no fígado (REGISTRO DO CEMITÉRIO, 1881). Quem atestou o documento foi o reverendo padre Antônio Pereira Bicudo e o escrivão, o senhor João Antonio Minaguaia. As fontes vitais permitem ao historiador a interpretação de variados dados. Dessa forma:
No que diz respeito à causa da morte, muitas vezes aparecem termos muito difíceis de serem classificados pelos historiadores, pois são imprecisos ou indicam apenas sintomas, tais como “febres” ou “dores”. A imprecisão do diagnóstico devia-se muitas vezes ao pouco ou nenhum conhecimento que o pároco ou familiar possuía sobre o assunto. Para se aprofundar no tema e compreender os nomes dados às “doenças” e demais causas mortis [...], os historiadores recorrem a antigos dicionários, dicionários médicos especializados, a teses de Medicina do passado ou a especialistas na área.
Cruzando as informações, conseguem obter muitos dados sobre as condições de saúde e a mortalidade no período estudado. (BASSANEZI, 2009, p. 154)21.
Em seu velório, se encontrava uma multidão composta de todas as classes sociais, desde a alta nobreza até a baixa esfera da pobreza. Para todo o povo ele foi o apóstolo da caridade, um humilde, esforçado e infatigável evangelizador que conviveu com ricos e pobres. Em seus diários de viagens, por várias vezes aparecem relatos de que dormiu em fazendas com os barões, as baronesas, os viscondes e as viscondessas22. Pedia esmolas e levava para a construção um edifício que perpetuará sua memória.
As custas do velório foram descritas pelo cônego José Bento de Andrade23 no livro de despesas da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, assim como todas as outras que fazia durante suas viagens e ou qualquer outro gasto (Figura 19).
Figura 19 - Livro de despesas do ano de 1881. Despesas com o funeral do Padre Siqueira24.
Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1881.
21 Em princípio, toda a população pode ser recuperada através desses registros. Por isso, os livros que os contêm são considerados fontes democráticas. Mesmo que, para determinados momentos e locais, uma parcela dos nascimentos, das uniões conjugais e dos óbitos, por algum motivo, não tenha sido anotada, esses livros incluem de fato todos os setores da sociedade. Homens e mulheres, ricos e pobres, brancos, negros e índios, nacionais e estrangeiros, filhos legítimos e ilegítimos/naturais, crianças expostas ou enjeitadas e também escravos e libertos (antes de 1888) tiveram (e têm) os seus eventos vitais registrados. (BASSANEZI, 2009, p. 142).
22 Relato dos diários de viagens (1875): “Celebrei na casa do senhor Comendador José de Souza Breves.
Pernoitei na casa do amigo Senhor João Guedes. Estive na casa da senhora Viscondessa do Rio Novo e na casa da Baronesa de Entre Rios”.
23 Cônego José Bento de Andrade, irmão do padre Siquera.
24 Outra despesa realizada em abril com o funeral do Revdo. Pe. João Francisco de Siqueira Andrade fundador deste Estabelecimento, e inclusive as viagens durante este ano, além de tantas já mencionadas para este fim, do Cônego José. 1:960,465; 2.490,266.
O Padre teve uma curta travessia nesta terra, pois somente viveu até os 42 anos (mais ou menos – conforme o registro vital), sem perder seu propósito, seu ideal, de tirar da pobreza a infância desvalida. Sua saúde foi bastante precária, em seus diários de viagens, comentou sobre cansaço e algumas dores.
O cruzamento das informações de seus documentos, tanto no atestado de óbito quanto nas receitas dos médicos, proporcionam um olhar atento do historiador acerca dos fatos narrados até o momento. Um olhar microscópico (GINZBURG, 1989) sobre esses documentos possibilitaram decifrar que o sacerdote durante anos tomou remédios para essa inflamação do fígado, doença que oficialmente o levou a morte, conforme pode ser observado em seu atestado de óbito.
Entre prontuários médicos, e/ou receitas, foram encontradas mais de sessenta, com datas que variam entre 1869 até 1881. Entre tantos remédios como licor ardenicol, vinho ferreginoso, xarope de genciana e muitas, muitas, pastilhas. Conforme pode ser visto na Figura 20, serão analisadas três receitas das tantas guardadas em seu arquivo na Sala-Museu.
Figura 20 - Receita e receituário de remédio25.
(a) Receita
25 O texto correspondente à Figura 20 é (a): “O Reverendíssimo Sr. Padre Cequeira Comprou Petrópolis, 20 de novembro de 1869. 1 vidro de Ana Cauhita de kemp. 24 1 caixa de Pastilhas de Borthé. O mesmo de Pastilhas de Jujubos. 1870 Fevereiro 2 32 pastilhas de tolu. 1 vidro de assucar candi. 40 pastilhas de jujubos.
18 20 pastilhas de jujubos. 1 vidro de Agoa de flor de caranja. Abril 20 3 vidros de fígado de bacalhau. 2 vidros de peitoral de anacauhita. 40 740. Recebem Petrópolis, 29/04/1870”. O texto correspondente a Figura (b) é: “Para o Rve. Sr. João de Siqueira nº 7574, Uso Interno. R. Licôr de aedenicol de Foioler – 01 oitava.
Vinho ferreginoso. Xarope de genciana. [ ão bancos]. Inº e Mº para tomar 3 colheres de sopa ao dia. Vinho de [quenina] de laborraeque. Dº de cabembo e Dº absynthio [ ão bancos]. Iv. e mº para tomar ½ colix meia hora antes das duas principais refeições diárias obrº 5/73”. O texto correspondente a Figura (c) é: “Para a casa do Senhor Padre J. de Siqueira. Uso int: Cozimento de cevada – 1 bj. Clhorato de potassa – 40 grãos – xl de belladana – 1 onça; mº para tomar um cálix de hora a hora. Ext: Cozimento de cevada – 1 bj. Chlorato de potassa – 1 oitava. Mº para buchehcar – 1g. 11-5-71”.
(b) Receituário
(c) Receituário
Fonte: Sala- Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1869 - 1881.
Mesmo o século XIX sendo conhecido como aquele das luzes, das bases científicas e dos grandes avanços da medicina, ainda era difícil o diagnóstico das doenças e das infecções.
E “no Brasil colonial, a assistência médica da população era prestada pelas Santas Casas de Misericórdia” (SILVA, 2010). Por mais que o padre Siqueira tivesse recebido diversos cuidados, ainda era difícil diagnosticar o que realmente tinha. Para Figueiredo (2005), o ensino formal, transmitido entre gerações, nas conversas com médicos e entendidos, nas consultas às farmácias e boticas. Estas situações, difíceis de serem auferidas, indicam que há uma circulação de saber envolvendo pessoas formadas nas academias e pessoas leigas (com ou sem nenhuma formação acadêmica). É possível perceber nas receitas que o tratamento e o diagnóstico do padre Siqueira oscilavam entre médicos e farmacêuticos e que os diversos unguentos, cozimentos, entre outros tantos medicamentos, fizeram parte de quase toda sua trajetória.
Seus últimos dias foram bem dolorosos, sua saúde já estava bastante abalada. Diante das dificuldades que passava, devido à sua saúde, vai para a cidade de Campos do Jordão26, morar em uma casinha, adquirida por usos e frutos, conforme consta no livro de registro de despesas da Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo no ano de 1881 (Figura 21).
Figura 21 - Despesas de compra da casa em Campos do Jordão27.
Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1881.
Para Arendt, (2013 apud AVELAR; SCHMIDT, 2018), a vida individual por ser narrada como uma história tem um começo e fim. Teria sido a morte do padre Siqueira o fim de sua trajetória ou o início. Juntar as peças que estão separadas, unir os fatos, problematizar documentos, tudo isso é necessário para compreender uma vida e uma Obra que perpetuará a sua memória. “O texto histórico, enfim, precisa de uma ordem àquilo que foi pesquisado”
(BARROS, 2013). Assim, para uma maior compreensão temporal dos fatos narrados, o texto, a partir de agora obedecerá a uma ordem temporal, a cada ano, com as camadas do tempo (KOSELLECK, 2014), sendo retiradas e as narrativas apresentadas, formando assim, a colcha de retalhos da história do Padre Siqueira e de sua Obra.
Nascido no dia 15 do mês de julho de 1837, na cidade de Jacareí, São Paulo, João Francisco de Siqueira Andrade foi batizado e crismado com apenas quinze dias de nascido, aos trinta e um dias do mês de julho (Figura 22).
26 O clima da cidade de Campos de Jordão era muito favorável para quem estava com alguma moléstia, fato que possivelmente o levou a morar nesta cidade.
27 O texto correspondente é à Figura 21 é: “300 de Mateus da Costa Santos que foi recebida por conta do uso- fruto, digo, da venda feita ao mesmo do uso-fruto de uma pequena casa nos Campos do Jordão, onde residiu, por algum tempo o Reverdº, fundador deste Asilo Pe. João de Siqueira, quando enfermo”.
Figura 22 - Certificado de assentamento de batismo28.
Fonte: Sala-Museu. Escola Doméstica de Nossa Senhora do Amparo, 1837.
Para Bassanezi (2009), os registros de batismo, casamento e óbito da Igreja formam o corpo de dados mais importante existente para fundamentar os estudos da dinâmica e do estado das populações modernas e tradição cristã. Seu certificado de batismo, manuscrito lavrado aos vinte e oito de agosto de 1860 pelo vigário José Bueno da Cunha, traz em sua introdução a palavra “certifico”, que confirma, que atesta ou que corrobora com alguma coisa. Portanto, certificar que alguém recebeu determinada coisa, implica numa ordem de caráter verdadeiro, sendo assim, esse documento com muitas marcas temporais, esclarece também que padre Siqueira, João29, foi batizado e crismado30 no mesmo dia.
28 O texto correspondente à Figura 22 é: “Certifico que revendo os assentos de baptismo de pessoas livres d’esta Freguesia, que tiveram lugar no dia trinta e um de julho de mil oitocentos e trinta e sete, acha-se o assento do theor seguinte = João = No mesmo dia baptisei, e pus os Santos Óleos a João filho de Miguel Nunes de Siqueira e Claudina Maria de Andrade: Padrinhos: José Leme da Silva e Dona Maria da Penha.
Viúva. E nada mais se continha em o dito assento, que bem e fielmente aqui copiei do próprio original a que me reporto e afirmo in fide Parochi. Jacaray, 28 de agosto de 1860. O Vigário José Bueno da Cunha”.
29 No caso brasileiro, geralmente o batizando aparece registrado só com o prenome (BASSANEZI, 2009, p.
149).
30 Santos Óleos.
O batismo nessa época não se relacionava apenas à fé religiosa. As epidemias ocorridas no Brasil oitocentista alarmavam profundamente a população, e as crianças, talvez por serem mais frágeis, tornavam-se os grandes alvos das moléstias (AGUIAR, 2015). Para combater a variedade de malignidades a que ficavam expostos os “meúdos”, buscava-se a proteção divina, prática muito difundida no Brasil desde os tempos coloniais. Muitos acreditavam que a criança batizada estaria menos propensa à morte precoce e, mesmo assim, se o pior acontecesse, o melhor seria morrer como cristão. Talvez seus pais, conforme consta no registro de batismo, Miguel Nunes de Siqueira e Claudina Maria de Andrade, tivessem essa preocupação. Bassanezi (2009, p. 143) aponta que “por ser tratar de fonte nominativa (documentos que trazem nomes de pessoas), esses registros se prestam a cruzamentos entre si e com outras fontes nominativas”.
Seus irmãos eram Ana Claudia de Andrade, Daniel de Siqueira Andrade, Francisco de Siqueira Andrade, Narciso Antunes de Siqueira, Maria da Penha, Manoel Joaquim de Andrade Sobrinho, José Bento de Andrade, o primogênito. Narciso, um dos irmãos do Padre, foi o genitor de irmã Francisca Narcisa Pia, a “mamãezinha”, que mais tarde, foi coadjutora na fundação de sua Escola em Petrópolis. Por ser de família de posses, o padre Siqueira foi cercado por diversos cuidados, os quais pertenciam somente à elite. Os inúmeros livros adquiridos ao longo de sua vida, totalizando mais de 1.000 volumes de Obras, foram em grande parte comprados pela família que sempre o incentivou às boas leituras31. Suas brincadeiras eram comuns a todas as crianças da mesma faixa etária, fazia lições diárias e momentos de oração em família – muitas vezes sua própria mãe tomava sua lição32. O destaque intelectual sempre fez parte do seu dia a dia, principalmente nas lições com o catecismo, assim, com apenas 20 anos, em agosto de 1857 decidiu estudar mais sobre Cristo e a Igreja. Entrou para o Seminário Episcopal de São Paulo, onde permaneceu por sete anos, saindo em maio de 1864 direto para o Seminário Episcopal de Porto Alegre com cartas Demissórias33 expedidas em seu favor pelo Bispo de São Paulo, d. Sebastião Pinto do Rego.
A vida de seminarista foi fundada em estudos, três anos dedicados à filosofia e quatro à teologia. No curso de filosofia do Seminário, estudou:
Lógica, crítica, ontologia, teodiceia e cosmologia, psicologia e ética, história da filosofia, questões de biologia e antropologia, questões de física e química, apologética cientifica, hebraico, grego bíblico, psicologia experimental, sociologia e economia política, literatura, pedagogia, arte sacra e arqueologia, pedagogia catequética, história das religiões, canto gregoriano e liturgia prática. (SEMINÁRIO DO BRASIL, 1955).
31 Livros doados para a congregação em seu testamento. Esses livros se perderam ao longo dos anos.
32 Fato comum às crianças de família abastadas da época.
33 Carta de recomendação espedida por um bispo em favor de um clérigo, para ordenação em outra diocese.
Tradução do Latim da Carta Demissória feita por Frei Alberto Beckhauser, OFM, 24 de abril de 2013. Sala- Museu EDNSA, OS 1 A.02.06 e A.02,07.
Depois, no curso de teologia, cumpriu as seguintes disciplinas:
Teologia fundamental, teologia dogmática, sagrada escritura, teologia moral, direito canônico, direito público eclesiástico, história eclesiástica, liturgia, ascética e mística, teologia pastoral e rubricas, medicina pastoral, catequética, ação católica, eloquência sagrada, escrituração paroquial, canto gregoriano, teologia fundamental, teologia dogmática, introdução à sagrada escritura, exegese do antigo testamento, exegese do novo testamento, teologia moral, direito público eclesiástico, direito canônico, história eclesiástica, patrologia, liturgia e rubricas, ascética e mística, explicação dos salmos, teologia pastoral, catequética, ação católica, medicina pastoral, escrituração paroquial e contabilidade, canto gregoriano e música sacra e eloquência sagrada. (SEMINÁRIO DO BRASIL, 1955).
Além de cursar as disciplinas citadas e inúmeras aulas o sacerdote também tinha uma vida regrada de oração, durante o dia rezava as orações em comum, orações mentais, atendia à missa cotidiana e à confissão com comunhão mensal, além de prestar serviços de seminaristas na Catedral (FREITAS, 1979, p. 188). Outra prescrição nos estatutos dos seminários era o hábito de falar em público (CONCÍLIO DE TRENTO, Sessão XXIII, Cap. 18), um hábito que foi executado pelo padre Siqueira, basta ver nas inúmeras homilias, além de muito bem escritas, mantinha a atenção de todos durante horas.
Permanecendo na província fronteiriça de São Pedro do Rio Grande do Sul, ordenou-se sacerdote em 08 de dezembro de 1864, pelas mãos congratulatórias do Bispo d. Sebastião Dias Laranjeiras.
Ao assumir os graus sacramentais, chegava ao ministério sacerdotal, tornando-se uma espécie de outro Cristo, representando-o no púlpito, no altar e no confessionário. O sacramento da ordem, recebido pela imposição das mãos do bispo, consagrar a hóstia e ministrar outros sacramentos. Assim, o caráter recebido durante a ordenação dura para sempre na alma. (DEL PRIORE; AMANTINO, 2013).
A ordenação dos padres era entendida pela Igreja como um sacramento que imprime caráter, uma identidade irrevogável e um poder permanente (DEL PRIORE; AMANTINO, 2013, p. 51). Eles deveriam ser reconhecidos por roupas diferentes, ou seja, pela tradicional batina34, pela postura e pelo comportamento. Muitos estavam integrados às fazendas, dançavam e tocavam violas nas festas familiares. Ainda para Del Priore e Amantino (2013), “[...] aderiam ao sistema patriarcal e chegavam a morar nas próprias casas-grandes, acomodando-se, à confortável situação de pessoas da família. Com intimidade entre os personagens da casa, atuavam como padrinho dos meninos, tio-padre, mestres de escola ou capelão”. Por estarem integrados às fazendas, muitos sacerdotes capelães davam aulas nas próprias casas. Para Vasconcelos (2005, p.12), “[...] as aulas domésticas ministradas no espaço da própria casa, por
34 A batina ou sotaina é uma roupa eclesiástica, própria dos seminaristas e clérigos (diáconos, presbíteros - padre e bispos). Tradicionalmente, possui 33 botões de alto a baixo, representando a idade de Cristo, cinco botões em cada punho, representando as cinco chagas de Cristo e sete botões no braço representando os sete Sacramentos. https://www.dicionarioinformal.com.br/batina/. Acesso em: 26 jul. 2020.