isto é, pretende uma reestruturação não apenas instrumental, mas, sobretudo, nas relações estabelecidas entre governos, cidadãos e demais grupos de interesse subentendidos como ‘atores’ ou agentes da função pública, numa perspectiva perene, com vistas ao futuro.
A governança de TI é mais ampla e foca a utilização da TI de maneira que possa atender às demandas e objetivos presentes e futuros do negócio e de seus clientes – ou, no caso do setor público, da administração pública e de seus usuários (cidadãos, empresas, terceiro setor) (CEPIK et al, 2010, p.14).
Os autores em tela estabelecem uma comparação entre os modelos de tratamento da TI no setor público, alinhando-os aos processos de reforma administrativa disseminados ao longo do século XXI. Assim, reconhecem a gestão de recursos de informação como alusiva aos objetivos do NPM, com enfoque na contenção dos gastos públicos e na utilização mais eficiente de recursos. A gestão do conhecimento, em substituição à gestão da informação, viria, na era da internet, ampliar o escopo de aplicação da TI, já apontando para um sentido de governança, sentido este incorporado por alguns governos da América Latina, na proposição de um modelo de gestão pública societal, ainda que de forma incipiente. A governança de TI, por sua vez, pretende, na visão dos autores, consolidar um novo modelo de administração pública, então denominado ‘Governança da Era Digital’ (GED), o qual incorpora a TI como chave para o objetivo maior do setor público, de atendimento pleno e eficaz às demandas dos cidadãos.
É neste sentido que se coloca o desenvolvimento das TIC como elemento central aos objetivos da gestão pública. Bonina e Cordella (2008, apud Cepik et al, 2010) incorporam à discussão o conceito de ‘valor público’, reforçando que o investimento governamental em TI deve ser avaliado sob o prisma da efetividade social do gasto, e não apenas por uma relação de eficiência, pautada por indicadores econômicos. “O valor público não está, portanto, relacionado à eficiência da ação da administração pública, mas à eficácia no atendimento dos programas de governo” (Bonina e Cordella, 2008, apud CEPIK et al, 2010, p. 20).
Nesta linha de argumentação, as TIC assumem um papel fundamental na configuração desta nova perspectiva para a gestão pública – a GED. Facultam aos Governos a melhor alocação de recursos públicos, a partir de um maior grau de
transparência e confiabilidade das informações, bem como da comunicação entre seus órgãos.
A GED, com foco nas TIC, se propõe a contribuir para o estabelecimento de um novo patamar na relação do Estado com a sociedade, a partir de um redesenho dos processos de governo.
A tese central é a de que, por meio da intensificação tecnológica, as TIC possibilitam a ampliação dos meios de acesso dos cidadãos aos serviços públicos e à própria administração, configurando um modelo de gestão mais integrado.
Entretanto, a mera incorporação tecnológica pela gestão pública não necessariamente assegura aos cidadãos a possibilidade de ativar mecanismos mais participativos e deliberativos sobre a gestão, o que fragiliza a pretensa argumentação “revolucionária” da proposta, como determinante de um novo comportamento social.
Cepik et al (2010) apresentam três aspectos que demarcam a GED: a reintegração dos elementos ou órgãos governamentais, fragmentados pela
‘agencialização’ levada a cabo no NPM; o desenvolvimento de uma visão ‘holística’
da administração, desenhada a partir de das demandas de seus diversos usuários; e a configuração de ‘instituições políticas digitais’, com automação de processos e serviços, por meio da desintermediação da relação entre órgãos públicos e seus usuários.
A reintegração pressupõe estruturas cooperativas e integradas a partir da convergência das TIC. Propõe a reabsorção pelo setor público de atividades antes terceirizadas, bem como a unificação de padrões de governo eletrônico, com vistas à interoperabilidade, aliados à simplificação da rede, para melhor coordenação das atividades governamentais ofertadas por sistemas. Trata de uma medida de
‘regovernamentalização’, com reestruturação das funções administrativas em novas arquiteturas tecnológicas, de modo a facilitar o atendimento às demandas sobre os órgãos públicos.
Na mesma linha, a ‘visão holística’ da administração prevê a reorganização da estrutura governamental em função dos seus usuários, de suas demandas ou de áreas específicas de serviços. Para tal, propõe mecanismos interativos para alimentação da base de dados, sobretudo através de centrais de atendimento on- line. Visa tornar os processos governamentais mais ágeis, a partir do uso das TIC concomitante à ‘reengenharia completa’ de serviços. Parte da compreensão de um
contexto instável e de constantes turbulências, no qual as atividades governamentais se processam, compreensão esta divergente do pressuposto de estabilidade sustentado até então pelo aparato burocrático, segundo o qual é possível se estabelecer o controle da ação pública pela centralidade das decisões, amparadas pela legalidade dos processos administrativos.
Observamos que a proposta em questão expressa sua preocupação central com o atendimento às demandas dos usuários dos serviços públicos. Há que se distinguir, no campo semântico, o significado desta expressão. ‘Usuários’ nos remete à lógica de mercado. ‘Usuários’ são sujeitos que mantém relações de direitos e deveres mediadas por contratos, de natureza individual. ‘Cidadãos’ são sujeitos que mantém relações de direitos e deveres pautadas pelo interesse público, de natureza social, coletiva e solidária.
As ‘instituições políticas digitais’ buscam desenvolver novas formas de processos e serviços públicos, de modo automatizado e sem a intermediação dos agentes públicos. Assim, prevê o redirecionamento dos usuários para canais estritamente eletrônicos de atendimento, de modo que sejam corresponsáveis pelos serviços demandados. Numa perspectiva mais ampla, pretende-se difundir o que os autores denominam ‘governo livro aberto', isto é, um padrão de oferta de serviços e informações aos usuários, de modo a ampliar a sua interação com a gestão, bem como a sua capacidade de autoadministração.
A crítica a esta visão se assenta na perspectiva individualista que se coloca ao atendimento das demandas públicas. Mais uma vez, a ‘clientelização’ do cidadão, isto é, o seu reconhecimento, pelo poder público, como consumidor de serviços, estabelece uma lógica individual, seletiva e por vezes excludente para o atendimento público, o que se contradiz com a natureza da função pública, coletiva e solidária por essência.
A questão central frente às proposições defendidas pela GED diz respeito a um processo de transformação maior que se coloca como requisito à sua implantação. Trata-se de um ideário de gestão que requer um novo padrão de interação governo-sociedade, o que requer, em última instância, o reconhecimento de cidadãos, ao invés de usuários ou consumidores de serviços públicos, regidos pela lógica de mercado.
Há que se desenvolver a cultura participativa, sendo esta suportada por projetos que promovam não apenas a difusão de informações aos cidadãos por
meio das TIC, mas, sobretudo, que os habilite a interagir e usufruir dos benefícios desta participação no seio da gestão pública.
Neste ponto, há que se amadurecer as duas pontas do processo: de um lado, as TIC devem vir para envolver o cidadão no processo da gestão em si, através da coprodução dos serviços demandados; de outro, a ação governamental deve estar preparada para o reordenamento de fontes de poder, a partir da incorporação de novos ‘atores’, sujeitos do processo decisório facultado pelas TIC.
Hanna (2007, apud Cepik et al, 2010) apresenta o conceito de e- transformation para designar o patamar de mudanças pretendidas a partir da GED.
Segundo o autor, as mudanças tecnológicas funcionam como indutoras de uma nova agenda; por si só, não são capazes de revolucionar a cultura organizacional e nem tampouco o comportamento da sociedade civil. Daí associar o conceito a um modelo de desenvolvimento proposto não somente à esfera pública, mas também ao setor privado, calcado em transformações mais profundas na economia, nos sistemas de produção e na sociedade como um todo.
Pelas palavras do autor,
(...) as primeiras e principais barreiras encontradas para a realização da Governança da Era Digital, sobretudo o ideal de um governo integrado e voltado às necessidades do cidadão, não são barreiras tecnológicas, mas sim institucionais. Instituições especializadas e novas competências são pré-requisitos para se criar, adquirir, adaptar, difundir e utilizar as novas tecnologias, bem como para sincronizá-las às reformas administrativas, aos investimentos, às inovações em matéria de gestão e às mudanças organizacionais correspondentes (Hanna, 2007, apud CEPIK, 2010, p. 31).
Para tanto, um conjunto maior de ações governamentais se faz necessário para induzir a sociedade civil e as instituições públicas ao patamar de desenvolvimento pretendido.
Não obstante a crítica relacionada à finalidade e à abrangência dos serviços públicos e à perspectiva individualista pela qual a GED atribui a oferta destes serviços, outras críticas se revelam quanto aos aspectos operacionais do modelo, no que diz respeito à capacitação requerida ao cidadão para que possa operar as novas tecnologias.
Sob o mesmo argumento, trata-se igualmente de um fator restritivo e excludente de acesso à gestão pública e aos serviços ofertados, o que se contrapõe à noção de ‘público’.
Em resposta, alguns autores chamam a atenção para as iniciativas que visem promover a educação tecnológica, de modo a habilitar ‘recursos humanos’ ao uso das TIC, dentro e fora da administração.
Também apontam como fundamental, no caso brasileiro, o incentivo e fomento ao desenvolvimento da indústria nacional de TIC, como forma de alimentar a economia doméstica e de assegurar, minimamente, a soberania nacional na gestão da informação e do conhecimento.
Ainda, no âmbito das políticas públicas, há que se prover acesso à rede e às TIC de forma abrangente e barata, o que requer investimento maciço na criação de uma ampla infraestrutura de telecomunicações, bem como a formulação e implementação de uma estratégia nacional de TIC, que seja ao mesmo tempo indutora das transformações requeridas à gestão pública e resultado destas.
De todo modo, vê-se claramente a lógica de mercado como determinante para o modelo defendido pela GED, o que se revela, sem máscaras, no seu compromisso com o desenvolvimento da indústria da informação, bem como na terminologia aplicada às suas linhas de argumentação, muitas vezes omissas com relação ao desenvolvimento social.
Os indivíduos – ‘usuários’ – se apropriam da GED, e não o Estado, uma vez que não cumpre sua função pública quando se materializa em um aparelho governamental restritivo, de alcance seletivo, ainda que pretensamente ‘planificado’
pelo mundo virtual.