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O movimento do ‘campo de públicas’

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 99-105)

Este aspecto nos parece crucial para a formação de gestores públicos.

Entendemos que o exercício profissional alimenta a construção teórica e, desta forma, ressignifica os projetos pedagógicos dos cursos, reafirmando a área pública como campo de conhecimento teórico e prático.

Tememos que a não absorção de egressos dos cursos de graduação em administração pública pelo setor público e a decorrente migração destes para a iniciativa privada possa gerar, em médio e longo prazo, um fator de desestímulo à formação nesta área, com impacto negativo sobre o projeto maior pretendido, qual seja, o de consolidação da área pública como campo de formação acadêmica e profissional, bem como de pesquisa e produção científica correlatas.

pública, com formações acadêmicas diversas nas áreas das Ciências Sociais e Humanas.

A articulação principal desta rede se deu a partir de 2002, em torno de fóruns temáticos específicos – presenciais e virtuais - que buscaram iniciar a discussão sobre as prerrogativas para a graduação em administração pública, de modo a assegurarem a sua autonomia frente à grande área de ‘Administração’ e, mais especificamente, frente às diretrizes principais da administração empresarial e aos fundamentos do business management.

Em perspectiva mais ampla, o movimento do ‘campo de públicas‘ se faz inovador, pretendendo inferir nas arenas da educação, da formação acadêmica, da prática profissional e da pesquisa científica no país e constituindo-se, desta forma, como movimento não apenas de caráter acadêmico-científico, mas também político- administrativo.

Segundo os autores, busca-se

(...) a percepção de um fato novo no ambiente das Ciências Sociais e Humanas, com consequências sobre o fazer científico, sobre o ensino superior e sobre as potenciais relações universidade-sociedade-governos (PIRES et al, 2014, p.111).

Reconhecem quatro períodos distintos em termos de movimentos pela autonomia da área pública envidados pelo ‘campo de públicas’, que se revelam entre os anos de 2002 e 2013, culminando com a aprovação da resolução das DCN, no início de 2014.

Em um primeiro momento, que se estende de 2002 a 2005, consideram que a afirmação das diferenças e das peculiaridades da área pública e o reconhecimento de sua identidade própria foram os aspectos determinantes da discussão acadêmico-científica que precedeu à própria concepção do ‘campo de públicas’

como movimento articulador da formulação e regulamentação das DCN. Registram- se, neste momento, dois eventos embrionários do futuro ‘campo de públicas’, que se constituem como marco para o ‘deslanchar’ da proposta posteriormente estruturada:

o II Encontro Nacional sobre Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Administração e o I Encontro Nacional dos Estudantes de Administração Pública, ambos realizados em 2002.

Em um segundo momento, de 2006 a 2009, afirmam que o debate priorizou a consolidação do ‘campo de públicas’ como grupo de trabalho constituído por coordenadores de cursos, professores, estudantes e egressos dos cursos de graduação na área pública, grupo este com olhar para o estudo da temática pública e para a produção científica correspondente, não apenas em nível de ensino de graduação, mas também com vistas à pesquisa de pós-graduação. Pretendiam, neste momento, “construir uma filosofia explícita e clara nesse ensino; produzir referências bibliográficas adequadas às várias realidades; e ensejar vínculos com o setor público" (PIRES et al, 2014, p.114).

Em um terceiro momento, que se estende de 2010 à aprovação da resolução que institui as DCN, os autores argumentam que os esforços do grupo foram concentrados na atuação permanente junto ao Conselho Nacional de Educação, no sentido de exercerem pressão para a regulamentação das DCN, sobretudo face à ameaça do Conselho de Federal de Administração (CFA) e da Associação Nacional de Graduação em Administração (ANGRAD), órgãos que, sob uma argumentação classista e corporativista em defesa dos “direitos e prerrogativas do administrador” e de seus “domínios de conhecimento”, impetraram recurso junto ao Ministério da Educação (ME) contra a aprovação das DCN para a área pública. Vale destacar que o ME, diante da pressão sofrida, decidiu em 2010 pelo indeferimento do recurso e arquivamento do processo, respaldado pelo argumento de que não caberia a um órgão regulador do exercício profissional a interferência em um processo relativo à formação acadêmica e, portanto, pertinente à arena educacional.

No quarto momento, da aprovação das DCN, em janeiro de 2014, aos dias atuais, a perspectiva do grupo se concentra no seu reconhecimento no âmbito do sistema de avaliação educacional, tendo em vista a sua legitimidade institucional.

Visa “(...) sua efetiva consolidação como área de ensino e pesquisa com vida própria no sistema de graduação” (PIRES et al, 2014, p.117).

O grupo pretende integrar a Comissão que debaterá os parâmetros para a avaliação futura dos cursos registrados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP/ME) sob a referência da ‘área pública’ – bacharelados interdisciplinares em gestão/políticas públicas e/ou social, em consonância com as DCN do curso de administração pública então instituídas.

Cabe destacar os dados do INEP de 2013, que revelam a existência de mais de 200

cursos de graduação no país pertinentes à abrangência do ‘campo de públicas’, com mais de 49 mil matrículas ativas.

A nova área de conhecimento pretendida pelo ‘campo de públicas’– a chamada ‘área pública’ – em linha com os princípios defendidos nas DCN, visa se consolidar como unidade a partir da diversidade, isto é, pretende integrar saberes, conhecimentos e disciplinas em torno de elementos comuns que demarquem o conceito de “público”, reconhecendo e abarcando a diversidade de projetos pedagógicos e de cursos formulados pelas IES.

É neste sentido que os autores a reconhecem como “uma nova área de conhecimento multidisciplinar no país, marcada mais pelo adjetivo pública (e pelos valores formativos atinentes à esfera pública, tais como o ethos republicano e a cultura democrática) e menos pelo substantivo (administração, gestão, política, etc.)”

(PIRES et al, 2014, p. 122).

O ‘campo de públicas’ defende este novo campo do saber como o locus multi ou interdisciplinar que fundamenta tanto a formação acadêmica como a formação profissional de agentes públicos tecnopolíticos, a partir da integração das bases teóricas principais das Ciências Sociais (e nestas se incluem a Ciência Política, a Sociologia e a Antropologia), Administrativas, Econômicas e Jurídicas.

Propõe, igualmente, a diversidade de campos de atuação profissional para estes agentes públicos – ao que chamam de “profissiografia multifuncional” – com ocupações em órgãos governamentais, no setor público estatal, no terceiro setor e mesmo na iniciativa privada, em segmentos que tenham forte conexão com a dinâmica pública.

Considerando a trajetória do movimento do ‘campo de públicas’, Pires et al (2014) apontam para os desafios atuais impostos e à sua consolidação e à sua continuidade, desafios estes de naturezas distintas, conforme a seguir:

Institucional, no sentido de se constituir como organização jurídico- administrativa, sem, todavia, perder a sua concepção política original de atuar como fórum consultivo e deliberativo.

Organizativa, no sentido de acolher uma variedade de cursos e de propostas acadêmicas, organicidade esta agravada pela dispersão geográfica das IES patrocinadoras.

Epistemológica e metodológica, no sentido de compatibilizar saberes de correntes de pensamento diversas, que se servem de campos de conhecimento,

referências conceituais e métodos científicos distintos para a sua construção e, em decorrência, requerem instrumentos também distintos para a sua avaliação.

Pedagógica, no sentido de gerar uma produção científica robusta, com identidade própria e, ao mesmo tempo, diversificada, que sirva de referência para a construção de um material didático novo, adequado à formação interdisciplinar pretendida.

Relacional – no sentido de assegurar a sua interação efetiva com outras entidades e redes, de modo a não restringir as temáticas abordadas aos espaços acadêmicos, bem como assegurar articulação política para a defesa de suas proposições.

Terminológica, no sentido de mudar, no médio prazo, a nomenclatura das DCN – de ‘administração pública’ para ‘campo de públicas’, de modo a melhor traduzir o arranjo multidisciplinar concebido, bem como de demarcar o campo de disputas decorrente.

Os autores consideram, ainda, que no estágio atual de organização do

‘campo de públicas’ como rede, ainda predominam traços de uma “liderança coletiva difusa”.

Isto significa dizer, por um lado, que estão assegurados os aspectos políticos que denotam a ‘batalha de ideias’, em um terreno mais horizontal e menos burocratizado, o qual delimita o campo da discussão premente.

Por outro lado, o baixo grau de institucionalização característico deste tipo de arranjo interfere na sua capacidade organizativa e, deste modo, pode comprometer a sua ação efetiva, como possível instancia articuladora de propostas para a área pública, com caráter deliberativo-normativo.

Tendo em vista dotar ‘campo de públicas’ de um formato institucional, seus articuladores principais organizaram, em 2015, a Associação Nacional de Ensino e Pesquisa no Campo de Públicas (ANEPCP).

Esta Associação é, hoje, a instituição que busca a valorização e a construção da identidade do ‘campo de públicas’, no momento pós-DCN. Propõe a geração, a expansão, o aprofundamento e a disseminação de conhecimentos próprios do

‘campo’, entendendo que estas são condições para a sua consolidação e a sua materialização enquanto comunidade científica.

Uma vez consolidadas as DCN, com reflexos diretos nos projetos pedagógicos dos cursos criados (PPC), a ANEPCP busca, hoje, discutir uma agenda

comum para além das propostas de ensino, de forma a articular projetos de pesquisa e de extensão para a área pública.

Nesta mesma linha de argumentos, Gonçalves (2014) reconhece o ‘campo de públicas’ como “a expressão de uma coletividade que se articula na direção da construção de uma identidade própria para a Administração Pública brasileira”

(GONÇALVES, 2014, p.14).

Acreditamos que a construção da identidade é, por si só, um campo aberto de disputas que expressam a diversidade desta “coletividade”. Daí depreendemos que o maior desafio ao ‘campo’ está exatamente na sua delimitação, isto é, na sua capacidade de absorver a disputa epistemológica e, ao mesmo tempo, determinar o seu posicionamento ideológico, posicionamento este a ser claramente firmado na identidade construída.

Podemos considerar que houve uma sinergia no ‘campo de públicas’

enquanto seus integrantes tinham como meta principal a instituição das DCN, ainda que tenha havido um embate grande com relação ao nome pelo qual ficaram definidas: graduação em administração pública.

Até aquele momento, a organização do grupo se fez muito em função do combate ao “inimigo comum”, protagonizado pelos Conselhos de Classe e pela Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração (ANGRAD), entidades refratárias à proposta de criação de um campo autônomo, independente da tradicional Administração. Uma vez consolidado este campo novo, a partir da instituição das DCN, as IES passaram a definir projetos distintos para os seus cursos, motivados por fatores e situações bem diferenciadas, o que nos leva a imaginar que hoje o ‘campo de públicas’ seja mais difuso com relação às suas concepções principais.

Buscaremos aprofundar esta análise a partir do mapa empírico a ser construído neste trabalho, investigando em que medida este campo de disputas está

“pacificado”, se há, de fato, uma “identidade própria” para a gestão pública e de que forma esta identidade se repercute na formação de gestores públicos oferecida pelas IES que compõem a amostra selecionada.

4.3 As Diretrizes Curriculares nacionais da graduação em administração

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 99-105)