isso politicamente, por meio das instituições políticas (MENICUCCI, 2017, informação verbal).
A crítica com relação ao momento político que vivemos no Brasil hoje é bastante contundente. Acredita que a relação legislativa e a relação entre os poderes Legislativo e Executivo têm definido aquilo que consideram ser “bom para o Brasil”, mas sob a forma de um “conluio”, isto é, sem consulta à sociedade e às instituições. A entrevistada nos devolve a pergunta enfaticamente, afirmando que
“essa não é a melhor forma de produção do interesse público, não é?” (MENICUCCI, 2017, informação verbal).
Esta crítica com relação ao momento político atual, no qual os interesses de grupos têm pautado as decisões públicas, principalmente no que diz respeito às restrições impostas pelo Governo às políticas sociais, fica claramente evidenciada nos depoimentos dos demais coordenadores de curso, quando apontam suas preocupações quanto às perspectivas de consolidação de uma ‘nova’ governança pública.
republicano; atuação tecnopolítica; e orientação para o interesse público e para o bem comum.
Estes princípios estão presentes nos processos de revisão dos cursos em tramitação nas IES analisadas. Se não foram simplesmente resgatados dos projetos originais, passam a integrá-los como um campo específico, de forma a estabelecer um sentido de “resultado social” para as propostas então defendidas.
De forma geral, o que se espera desses ‘novos’ gestores públicos é que, por sua capacidade reflexiva e crítica, sejam capazes de compreender a complexidade das relações que envolvem a esfera pública e que possam gerar soluções para os problemas sociais, por meio do investimento e do gerenciamento qualificado dos recursos públicos.
Daí se estabelecer como referência para este perfil uma formação política sólida – o que lhe dará competência analítica crítica, bem como uma formação instrumental moderna, o que lhe dará suporte técnico para a decisão política. Em outras palavras, compreender para empreender as transformações requeridas na máquina pública, de forma a melhor atender às demandas sociais.
Decorrem, desta referência, as características “gerais” deste profissional, expressas quase que indistintamente em todos os PPC analisados:
Ter visão estratégica, a partir de formação teórico-conceitual sólida;
Possuir espírito crítico, de modo a ampliar a compreensão da realidade;
Ser capaz de liderar equipes multidisciplinares e/ou multifuncionais;
Ser capaz de intervir de forma inovadora;
Ser capaz de interagir e integrar pessoas e grupos;
Ter habilidade analítica, propositiva e normativa;
Ter habilidade para promover o diálogo e a ação coletiva;
Ser capaz de agir democraticamente.
A forma como estas características gerais aparecem nos discursos dos coordenadores de curso entrevistados revela os aspectos aos quais atribuem prioridade. Não que elenquem ou estabeleçam uma “ordem” de importância, mas sinalizam, nos seus depoimentos, aquilo que vem à mente em primeiro plano, aquilo que entendem que melhor define este perfil profissional.
Naturalmente, esta visão é “contaminada” por suas respectivas áreas de formação, bem como pela concepção “ideológica” das IES ou dos núcleos institucionais que representam. O discurso de cada um reflete bem isso. E se
mostram parcialmente diferentes exatamente porque estamos falando de pluri e de interdisciplinaridade: um ‘objeto’ observado sob vários ângulos, cujas percepções se complementam.
O que melhor define este ‘objeto’ é a realidade que o materializa A compreensão de como as relações sociais se estabelecem na nossa realidade determina a forma como desejamos interagir, participar dessas relações. Como o papel em tela é o do gestor público, assumimos o nosso ponto de vista – na qualidade de também “gestores” da coisa pública – com relação ao perfil ou comportamento esperado daqueles que cumprirão este papel.
A título de ilustração, apresentamos alguns relatos que refletem este perfil, segundo os entrevistados, com a ressalva de que não devem ser entendidos como recortes isolados, mas como aspectos destacados de um todo, de uma concepção mais completa e mais integrada que representa o comportamento humano esperado desses futuros profissionais.
Teixeira (2017, informação verbal) diz que a FGV forma o “servidor público generalista”, o qual determina, por si, onde focará a sua formação.
Vocês podem se inserir em tais áreas, nós vamos dar suporte, nós garantimos uma boa formação para vocês. Agora, se vocês querem atuar em terceiro setor, tem eletiva; se vocês querem atuar em governo, foquem mais em eletiva; se vocês querem atuar em empresas, em fundações empresariais, em relações governamentais, em lobby, não é? Foquem em eletivas, ou façam eletivas em administração de empresas (TEIXEIRA, 2017, informação verbal).
Ainda, destaca que a concepção central do curso é a de formar líderes: “No nosso projeto pedagógico o que está claro é que a gente quer formar líderes.
(Avaliamos) se ele se enquadra no tipo de líder que a gente quer formar, que é um líder horizontal” (TEIXEIRA, 2017, informação verbal).
Lanzara (2017, informação verbal) avalia que o ‘campo de públicas’ ainda está em busca de uma identidade, porque sua conformação é bastante heterogênea.
Ele abarca desde cursos de políticas públicas, de administração pública propriamente dita, de gestão pública, de gestão social, o que se revela numa variedade enorme de propostas, organizadas dentro de uma nomenclatura “guarda- chuva”.
O administrador público formado pela UFF/Volta Redonda deverá ser capaz de promover uma “intervenção crítica na realidade; (...) um profissional capaz de
lidar com os desafios, digamos assim, relacionados com os problemas brasileiros.
Essa que é a grande questão, o combate às desigualdades” (LANZARA, 2017, informação verbal).
Costa (2017, informação verbal) avalia que o egresso do curso de Administração Pública e Social da UFRGS
tem um pouco dessa formação voltada mais para atuar efetivamente no aparato burocrático do Estado, mas tem uma formação voltada para pensar a possibilidade desse diálogo entre o Estado e a sociedade civil. Essa é a grande ênfase, a grande diferenciação, digamos assim (COSTA, 2017, informação verbal).
Ainda, destaca que é um perfil não exclusivo para atuar na máquina do Estado; daí o nome do curso incluir a expressão “social”. Afirma que esta foi uma das questões mais discutidas no momento de proposição e revisão do curso.
Menicucci (2017, informação verbal) entende que o profissional que a UFMG espera formar no curso de Gestão Pública é aquele que irá atuar nas redes institucionais e sociais que estão processando temas de interesse público.
Nós temos aqui a turma pensando que o profissional tem que entender como é que funciona essa gestão, essas ações para garantir o interesse público e entender que a técnica não se desfigura com o processo político.
A técnica não é neutra; ela está a serviço de alguns objetivos e os objetivos vão ser políticos. Ele tem que entender que ele faz parte (disso) (MENICUCCI, 2017, informação verbal).
A entrevistada compreende as ‘redes’ para além do Estado, absorvendo, neste entendimento, as instituições sociais que participam do processo de produção de serviços públicos, da gestão da ‘coisa’ pública, da gestão de políticas públicas, enfim, “as instituições estão envolvidas com a gestão pública, entendendo que isso é amplo, que se você tem essa linha, você não vai estar se igualando a alguns cursos que, claro, são estereotipados” (MENICUCCI, 2017, informação verbal).
Midlej e Silva (2017, informação verbal) ratifica o compromisso do curso de Gestão de Políticas Públicas da UnB de formar profissionais aptos a participar, a trabalhar efetivamente na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas e controle social.
Nos nossos valores de curso, a gente trabalha muito essa questão e também como que eles vão atuar, participando dos processos decisórios, não só como meros reprodutores de uma burocracia que já está aí, que já
existe. E, também, nós trabalhamos muito essa relação Estado-sociedade, como é que se dá a relação Estado-sociedade, como é que o gestor tem que olhar para a sociedade, como também participante do processo de políticas públicas. Porque, veja, é esse gestor que vai entrar na máquina do Estado, dos Governos, que vai ter que ser capaz de realmente fazer com que a participação social aconteça de fato. Está nas mãos dele (MIDLEJ e SILVA, 2017, informação verbal).
Este último aspecto, a participação social, aparece como uma preocupação central do quadro docente envolvido com o curso, no sentido de buscar fortalecer os mecanismos de controle social, bem como uma atuação ética e sustentável por parte dos futuros profissionais da área pública.
O curso de Administração Pública da Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho, da Fundação João Pinheiro/MG (CSAP), pretende formar gestores que venham a compor a carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do Estado. Em seu projeto pedagógico, destaca que
visa precipuamente esta formação de servidores públicos, qualificados para atuarem no progresso da Administração Pública mineira, tanto em se tratando da melhoria da estrutura administrativa de gestão, quanto em se falando de formulação e avaliação de políticas públicas planejadas e desenvolvidas para a sociedade. Tem por finalidade exatamente formar e capacitar recursos humanos para a administração pública, prioritariamente para o Estado de Minas Gerais (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2017, Projeto Pedagógico do Curso de Administração Pública, p.7).
Rodrigues e Oliveira (2017, informação verbal), ao responderem às questões propostas no roteiro de pesquisa que lhes foi encaminhado, afirmam que o CSAP intenciona a formação de um egresso com perfil “tecnopolítico”, orientado para o bem público. Acreditam que a Escola contribua para modernização da gestão pública em Minas Gerais à medida que forma profissionais não apenas tecnicamente qualificados, com conhecimento na área, mas também com visão humanista e crítica em relação às demandas sociais.
Este perfil do egresso se coaduna com a narrativa disposta nas DCN, de formação de um profissional crítico e atento ao interesse público, bem como evidencia a aderência da proposta da Escola de Governo à prerrogativa de inserção acadêmica de seus estudantes no campo aplicado da gestão pública, ainda durante a sua formação, por meio dos estágios supervisionados e das diversas atividades de extensão promovidas.