Arroyo (2012) reitera a fragilidade da educação em seu propósito emancipador, uma vez que se coloca muito mais voltada à instrução para o mercado do que propriamente à formação humana. Apresenta as razões históricas que fundamentam uma perspectiva sectária e excludente de educação, segundo a qual à classe trabalhadora compete a instrução elementar, ficando reservado o saber, ou a educação em sentido amplo, aos donos ou herdeiros do capital.
Conforme suas palavras,
A história da educação burguesa para o povo comum gira em torno desse binômio: permitir sua instrução e reprimir sua educação-formação, ou o binômio libertar e reprimir, libertar o povo dos preconceitos da velha ordem através de um mínimo de modernidade, e reprimir o saber e poder de classe (Arroyo, 2012, p.104).
A tarefa educacional premente, segundo Mészáros (2008), consiste na tarefa de transformação social ampla e emancipadora. Uma é parte indissolúvel da outra. A formação de uma nova consciência se materializa pela educação em sentido amplo, isto é, aquela que desenvolve sob o conjunto das relações sociais existentes no processo produtivo.
Ainda, para o autor,
(...) a educação não pode funcionar suspensa no ar. Ela pode e deve ser articulada adequadamente e redefinida constantemente no seu inter- relacionamento dialético com as condições cambiantes e as necessidades da transformação social emancipadora e progressiva em curso. Ou ambas têm êxito e se sustentam, ou fracassam juntas (MÉSZÁROS, 2008, p. 76).
Nesse sentido, consideramos a formação humana plena e emancipadora dos gestores públicos um dos principais alicerces para a consolidação de ‘nova’
governança pública.
assegurar a acumulação capitalista em tempos de subconsumo, face a um mercado cada vez mais restrito.
Gurgel (2003) apresenta este novo discurso no seio da proposta de administração flexível, a qual impõe a elevação da exploração do trabalho como mecanismo central para a reprodução do processo de acumulação do capital. A flexibilidade, tratada pelo autor como “palavra-açúcar”, soa como uma nova ordem mundial imposta pelo capital – pretensamente moderna e empreendedora – a qual acolhe como princípio a desregulamentação das relações de trabalho.
Sob a égide do ‘espírito empreendedor’, a ideologia dominante no campo
‘teórico’ da gestão contemporânea propõe a empregabilidade como uma responsabilidade do trabalhador, evidenciando uma inversão na lógica do sistema social de organização do trabalho.
Neste processo, a noção de individualidade – e o irracionalismo filosófico dela decorrente – se coloca como cerne do pensamento administrativo, ainda que de forma mascarada. Gurgel aponta que o discurso premente evoca a cooperação como ‘profissão de fé’. Entretanto, o sentido desta cooperação não passa pela organização coletiva da classe trabalhadora na perspectiva de disputa no campo das relações sociais de produção. Ao contrário, reforça, através deste discurso, a subsunção do trabalho ao capital, de modo inquestionável.
Resgatando as teses sobre a herança neoliberal de Dos Santos (2013), vê-se aqui um retorno ao pensamento do ‘indivíduo possessivo’, alienado do movimento histórico a partir do qual constrói e transforma a sua existência.
Na mesma linha de reflexão, Ramos (2011) destaca que o individualismo se torna, pelo pensamento pós-moderno, uma condição indispensável para o processo de acumulação flexível, na medida em que fragiliza as ações coletivas, esvaziando o movimento de ascensão dos trabalhadores diante de uma nova lógica do sistema capitalista. Segundo a autora, “parece haver uma atrofia dos sujeitos coletivos e da própria sociedade civil, cujo sentido volta a ser de espaço em que se estabelecem as relações privadas, sob a ética da liberdade individual” (RAMOS, 2011, p. 302).
Ramos aponta que a teoria das competências, no plano da educação, e o conceito de empregabilidade, no plano do trabalho, se mostram como partes indissociáveis de uma nova engrenagem do capital, a qual pretende estabelecer, de modo ainda mais rígido, mecanismos de regulação do valor e da produtividade do trabalho, ainda que sob o falso ideário de ‘flexibilidade’.
A ‘pedagogia das competências’, objeto de estudo da autora nesta obra, restringe o processo educacional à prescrição das competências a serem desenvolvidas no processo de formação profissional, na perspectiva de atendimento às demandas do mercado e, de forma mais ampla, da acumulação capitalista.
Nestes termos, a educação se descola de seu objetivo maior de formação humana, em sentido emancipatório. Educar para que mercado, qualificar em quais competências, atender a que lógica na dinâmica das relações de produção? Estas seriam as questões norteadoras da ‘nova’ pedagogia, em claro alinhamento ao pensamento neoliberal contemporâneo.
Perde-se de vista a noção gramsciana de que o desenvolvimento humano se faz pelo processo histórico do qual o homem é parte constituinte. Perde-se também a perspectiva de que os sujeitos coletivos, socialmente organizados, podem promover, pela consciência livre, as transformações sociais que venham a romper com a lógica mercantil e individualista do projeto hegemônico no campo da educação e da formação humana.
Ramos (2011) destaca, ainda, que a ‘pedagogia das competências’ incorpora elementos da teoria do capital humano, na medida em que, alinhada aos fundamentos da teoria funcionalista, atrela os ganhos de produtividade do trabalho ao desenvolvimento de competências específicas dos trabalhadores. Por esta lógica, o trabalhador, por meio da qualificação técnica, passaria a um estágio superior de adequação aos novos processos de produção, estes decorrentes da revolução científico-tecnológica, de modo a conformar sua adaptação a um novo estágio de
‘equilíbrio’ da estrutura social.
Sobre o conceito de capital humano, Dos Santos (2004) ironiza o caráter pretensamente inovador das “descobertas progressistas” de seus formuladores, teóricos alinhados ao pensamento neoliberal, no sentido de buscarem revelar as interações entre níveis de educação, de distribuição de renda e de desenvolvimento econômico. Segundo o autor,
o grave inconveniente destes trabalhos é sua incapacidade ideológica de articular corretamente a corrente causal. Segundo eles, a ausência de educação gera a desigualdade e não, como ocorre na realidade, a desigualdade social é que gera a ausência de educação (DOS SANTOS, 2004, p.71).
O autor alerta, ainda, que o desenvolvimento tecnológico e, por decorrência, a maior produtividade do sistema de produção deveriam liberar boa parte do tempo de trabalho dos trabalhadores, o que, entretanto, não se admite na lógica da acumulação crescente do capital.
Chama atenção para o fato de que este descompasso entre avanço tecnológico e (re) distribuição do tempo entre o necessário aos novos processos produtivos e ao tempo livre tem implicações diretas na manutenção das desigualdades sociais. Na medida em que não se cogitam reduções proporcionais nas jornadas de trabalho, despeja-se sobre o mercado um contingente expressivo de desempregados, com consequências sociais graves.
O autor defende que é o tempo livre de um número crescente de trabalhadores que pode libertá-los do trabalho repetitivo e exaustivo, de modo que as forças produtivas da humanidade possam verdadeiramente se desenvolver.
Todavia, as teses do capital humano e das competências não apontam para este descompasso e, nem tampouco, assumem suas consequências, uma vez que não reconhecem as contradições inerentes à dinâmica do capitalismo moderno e suas implicações no agravamento das condições da existência humana.
Ao contrário, a ‘pedagogia das competências’, articulada ao conceito de empregabilidade, reforça a ideologia dominante, a qual propõe o capitalismo como sistema que assegura o bem-estar dos indivíduos.
A argumentação em defesa deste discurso se pauta pela lógica da liberdade individual, procurando demonstrar que o sistema capitalista moderno, apoiado pela construção teórica do capital humano e da teoria das competências, faculta aos indivíduos a escolha dos conhecimentos e habilidades que desejam desenvolver, bem como das oportunidades em que pretendem empregá-las.
Trata-se, portanto, de um forte apelo ideológico ao conformismo, ainda que velado pela falsa ideia da liberdade de escolha e autonomia dos trabalhadores, no conjunto das relações ‘flexíveis’ de expropriação do trabalho a que são submetidos.
A formação profissional, nestes termos, se distancia de uma proposta mais ampla de formação humana. Trata-se, meramente, de preparar os novos profissionais para lidarem com um espectro amplo de possibilidades e incertezas, característico dos tempos modernos: devem ser capazes de assumir um leque diversificado de tarefas e ocupações, devem estar preparados para novas rotinas de trabalho, devem compreender a mobilidade de emprego como inerente à dinâmica
das “modernas” relações trabalhistas e , sobretudo, devem encarar as condições de subemprego e/ou desemprego como decorrentes exclusivamente de falhas na gestão pessoal de suas competências.
A autora adverte que, por trás deste discurso ideológico, há a prerrogativa de
‘adaptação natural’ do homem ao sistema que opera as relações sociais de produção, de forma que se neutralizem as tensões inerentes à dinâmica deste sistema. Sintetiza este raciocínio, afirmando que “a questão da luta de classes é resolvida pelo desenvolvimento e pelo aproveitamento das competências individuais, de modo que a possibilidade de inclusão social se subordina à capacidade de adaptação natural” (RAMOS, 2001, p. 291).
Motta (2008) concorda e complementa esta linha de raciocínio, apontando como a ideologia do capita social vem reforçar este processo de despolitização e de conformismo.
Para exemplificar a abrangência do conceito de capital social, a autora analisa criticamente as Políticas de Desenvolvimento do Milênio (PDM) propostas pela Organização das Nações Unidas (ONU) com relação ao combate à pobreza no planeta.
Adverte que as PDM não buscam o enfrentamento das contradições inerentes ao sistema capitalista. Ao invés disto, buscam minimizar seus impactos, de modo a atenuar a condição de pobreza no mundo, promovendo, para tanto, a ideologia do capital social como uma questão de ordem moral, pactuada em nível global, por uma frente solidária assentada sob a tríade público-privado-sociedade civil.
Neste sentido, argumenta que o pensamento neoliberal contemporâneo impõe ao processo educativo e de formação humana administrar a riqueza e a pobreza, isto é, não somente produzir ‘capital humano’ que reforce a produtividade e o lucro, mas também produzir ‘capital social’, desenvolvendo a “vocação”, desde que ainda minimamente produtiva, das camadas mais pobres da sociedade, que não fazem jus às competências requeridas pelo mercado.
Tem-se, assim, uma proposta de educação dividida, segmentada, que reserva a alguns o desenvolvimento de competências para a entrada no mercado competitivo e globalizado e, a outros, apenas capacidades básicas que assegurem condições mínimas de sobrevivência.
A ‘saída’ apontada pela ideologia do capital social não questiona as contradições do modo de produção capitalista em contexto globalizado, e nem
tampouco as relações de causalidade com o avanço da pobreza e extrema miséria no mundo.
Em seu estágio produtivo mais avançado, em compasso com o desenvolvimento científico-tecnológico, o capital não cria condições de absorção proporcional do trabalho.
Harvey (2005), no estudo da geopolítica do capitalismo, propõe ampliar o campo desta análise, sobretudo nos impactos dos deslocamentos temporais e espaciais do sistema capitalista, em uma conjuntura global.
Afirma, como ponto de partida para a análise da crise do capitalismo, que o modo capitalista de produção é tecnologicamente dinâmico e reforça que a manutenção desta dinâmica é fundamental para a circulação do capital e, portanto, para a sobrevivência do capitalismo enquanto sistema.
O autor argumenta, todavia, que o crescimento e o progresso tecnológico são antagônicos, uma vez que o capital excedente – gerado pelos ganhos de produtividade advindos da incorporação tecnológica crescente, acompanhada do maior controle do capital sobre a intensidade do trabalho e da diminuição do poder dos trabalhadores na relação de produção – também gera força de trabalho excedente.
A lógica de argumentação do autor é a de que excedentes não absorvidos são desvalorizados. Assim, o capital excedente pode se desvalorizar mediante desvalorização da moeda, do valor da mercadoria ou ainda como capacidade produtiva subutilizada. Já a desvalorização do trabalho se evidencia pela redução da renda, pelas perdas decorrentes no padrão de vida e mesmo por questões relativas à seguridade, que afetam a própria condição de sua existência, apontadas por indicadores sociais tais como mortalidade infantil, expectativa de vida, entre outros.
Pelas palavras do autor, “as crises de desvalorização geram intensas ondas de choque em todos os aspectos da sociedade capitalista. Frequentemente criam tensões sociais e políticas agudas. Assim, com a agitação provocada, novas formas políticas e ideologias podem emergir” (HARVEY, 2005, p.131).
É neste sentido que a ideologia do capital social se apresenta. Os valores de solidariedade e de cooperação impostos à sociedade no pacto global de combate à pobreza no planeta neutralizam as tensões políticas e sociais, de forma que estas tensões se acomodem num ambiente social pretensamente harmonioso e coeso, que não ponha em xeque as disputas no campo das relações sociais de produção.
Assim mais uma vez a ideologia neoliberal dominante se retroalimenta como processo único ou “natural”. Se naturalizam, por um lado, a lógica de mercado e os princípios de produtividade, lucratividade e consumo e, por outro, também a condição de pobreza, como uma anomalia social natural e inerente à condição humana.
A lógica deste pensamento único deflagra o seu caráter irracional.
a irracionalidade que se oculta no âmago do modo supostamente racional de produção vem à tona para todos verem. Esse é o tipo de irracionalidade, envolvendo grande capacidade produtiva ociosa e grande desemprego, em que a maioria das economias ocidentais mergulhou nos últimos anos (HARVEY, 2005, p.131).
A análise geopolítica de sua obra propõe examinar em que medida o deslocamento espacial e temporal se apresentam como alternativas para a absorção dos excedentes de capital e de trabalho, de modo a se garantir a circulação do capital, essencial à sobrevivência do sistema capitalista. A conclusão apontada é a de que estas estratégias, na dinâmica do capitalismo internacional, apenas ampliam o espectro para as operações capitalistas, de modo a difundir as contradições inerentes em esferas geopolíticas maiores, o que torna ainda mais complexa a análise desta dinâmica, e mais ainda, de como superá-la enquanto sistema global de produção e de acumulação.
O que se coloca, portanto, é como se valer dos momentos de crises para transformá-las em oportunidades para o progresso humano, o que requer o exame profundo de como as crises se apresentam como fenômeno e de como se desenvolvem, no conjunto das relações sociais de produção, como essência.
Compreender a teia destas contradições é o desafio para um caminho de superação do desequilíbrio social, econômico e político que se manifesta no mundo contemporâneo.