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A inauguração de Esperança

No documento Rio de Janeiro (páginas 81-86)

forte tensão: a possibilidade de o movimento ser criminalizado em algum momento.

Assim, Jurema se mostra sempre muito cautelosa com assuntos que envolvem dinheiro das pessoas que compõem os grupos.

Houve em seguida a esta conversa uma breve reunião com algumas mulheres que faziam parte da coordenação da cooperativa – Marlene, Neide e Maria. Jurema dizia a elas que precisavam colher os nomes das madrinhas e padrinhos para o dia da inauguração, que ocorreria no dia primeiro de maio. A ideia era que todas as famílias escolhessem uma pessoa para lhes entregar o certificado de entrega das casas quando fossem chamadas ao palco. Alguns escolhiam como padrinhos ou madrinhas pessoas da cooperativa que os indicaram para entrar na cooperativa, outros escolhiam pessoas de fora, quase sempre familiares que deram apoio. Mas um número bastante expressivo de pessoas apontou Jurema como madrinha. Durante a reunião Jurema reclamou bastante sobre a falta de mobilização das pessoas para ajudar nos preparativos da inauguração. Segundo ela, foi muito difícil que as pessoas se disponibilizassem a ajudar nas tarefas de organização do evento.

Eu perguntei pro grupo: ‘quem pode ajudar com a feijoada?’, ninguém. ‘Quem pode ajudar servindo o refrigerante?’, ninguém. Virei as costas e fui embora da reunião. Aí depois o povo aparece dizendo que pode ajudar. Querem que a gente faça tudo pra eles.

Este tipo de situação era relatada de forma recorrente e sempre causava certa irritação em Jurema: segundo ela as pessoas tentavam escapar das tarefas voltadas para o coletivo, o que para ela, revelava certo egoísmo. O que me parecia era que as pessoas, apesar de animadas para a inauguração, estavam muito preocupadas em fazer os ajustes finais de suas casas. Neste dia muitos estavam concentrados em acabamentos no exterior das casas, para que estivessem bonitas no dia da inauguração. Apesar disso, já se sabia que não haveria tempo para acertar todos os detalhes que faltavam para a data em questão. Acabamentos nas partes externas, principalmente, ainda estavam sendo feitos. Havia muitos tanques na área de serviço por colocar, telhas, grades e portões que ainda não tinham sido instalados, entre outros detalhes.

ainda faltavam alguns ajustes nas casas, alguns visíveis, outros nem tanto: grades ainda não haviam sido colocadas no lugar, muros que ainda não estavam terminados, e outros detalhes no interior das casas que alguns moradores haviam me relatado.

Mas o dia da inauguração tinha, sobretudo, a finalidade de marcar a data em que as pessoas, finalmente, tinham passado a morar nas casas da cooperativa. Os ajustes finais seriam feitos aos poucos, pelos moradores, após as mudanças. Nas semanas que antecederam a inauguração houve muita preocupação dos moradores em deixar tudo o mais pronto possível, inclusive no interior das casas. A preocupação principal era com o pessoal da Caixa, que de acordo com o que foi me relatado, estaria presente na inauguração e entrariam nas casas para ver o resultado do trabalho do mutirão.

Havia sido informada na semana anterior que inicialmente haveria um culto ecumênico. Quando cheguei, o mesmo já havia terminado. Posteriormente conversando com Carol, perguntei como tinha sido e ela me disse que não assistiu, pois tinha ficado circulando por aí durante o culto. Logo em seguida me mostrou um folheto que havia sido distribuído durante o mesmo e me contou que havia sido conduzido somente por um padre. No folheto em questão havia alguns trechos bíblicos e um “pai nosso”.

O evento parecia um sucesso: muitas pessoas circulava pelas ruas. No centro da cooperativa havia um palco montado em cima de um caminhão, com grandes caixas de som e microfones. Estavam presentes diversos atores, dentre eles os que pude identificar foram: representantes de outros movimentos populares – Central de Movimentos Populares (CMP), Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), além de muitos familiares e amigos convidados dos moradores da Cooperativa Esperança, funcionários da Caixa Econômica Federal, da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), Fundação Bento Rubião, representantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e Fiocruz. Faixas e bandeiras da União e uma bandeira da CMP estavam expostas no palco montado. Lideranças da União e também membros da coordenação de Esperança usavam a camisa da União neste dia. Além disso, havia também faixas com reivindicações do movimento ao poder público, que geralmente são usadas em atos e manifestações, fixadas nos muros das casas, entre elas uma em evidência com a seguinte frase: Secretaria de Patrimônio da União: Queremos as terras da União para moradia do povão.

Havia muitas pessoas fotografando e filmando o evento, pertencentes a diversas organizações não-governamentais, como foi o caso do IBASE (Instituto

Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Segundo Alexandre, assistente social da FBR, havia também um grupo de pessoas que estavam filmando para fazer um documentário.

Figura 5 – Faixa fixada no muro da Cooperativa Esperança

Fonte: Foto da autora

Após o “culto ecumênico” e antes do início da cerimônia de entrega dos certificados de conclusão das casas, houve um tempo em que as pessoas estavam circulando, conversando e se cumprimentando. O clima geral era de animação e as pessoas conversavam com entusiasmo. Para muitos presentes aquela era a primeira visita à Esperança, portanto, existia um grande interesse em ver as casas. Percebi pessoas observando as construções. Algumas casas estavam abertas para que o público presente pudesse conhecer o interior das mesmas. Alguns minutos depois a cerimônia de entrega começou e as atenções ficaram todas voltadas para o palco.

Cada família subiu ao palco, uma de cada vez, para receber as chaves de sua casa e o certificado de participação no mutirão. A maioria dos que subiram ao palco estavam extremamente emocionados. Muitos choros, agradecimentos a Deus, à União, e muito frequentemente à Jurema.

Conforme mencionado anteriormente, todos haviam escolhido previamente um padrinho ou madrinha que iria lhe entregar o certificado no evento. Muitos escolheram Jurema, o que fez com que ela descesse e subisse ao palco diversas vezes. Ela não só parecia muito à vontade com isso, mas também bastante feliz. Alguns moradores subiam ao palco visivelmente envergonhados, falavam pouco e se mantinham com braços cruzados ou encolhidos junto ao corpo, mas para a maioria dos moradores da cooperativa a ocasião parecia ser uma espécie de catarse coletiva. O momento de entrega do certificado e das chaves das casas se deu como um ato ritual, permeado de simbologias e representações (TURNER, 1974), e acompanhado de uma

performance de sofrimento e emoção. Esta performance pode ser analisada, de acordo com Dawsey (2013), sob a noção de Erlebnis, elaborada por Turner (1982) que pode ser interpretada como experiência ou experiência vivida – como um processo que se divide em algumas etapas, todas observadas durante o ritual da inauguração:

1) algo acontece a nível da percepção, provocando uma aguda sensação de dor ou prazer; 2) imagens de experiências passadas são evocadas; 3) emoções associadas a essas experiências do passado são revividas; 4) um sentido (meaning) é gerado na medida em que conexões se estabelecem, fazendo com que o passado e o presente entrem, conforme uma expressão de Dilthey, em uma “relação musical”; e 5) a experiência se completa através de uma forma de expressão. Daí, a noção de performance.

Assim, quase todos falavam, muito emocionados, sobre as dificuldades e o trabalho duro no mutirão, evocando as experiências passadas e revivendo-as. Muitos choraram durante as falas. O orgulho de ter conseguido também ficava bastante evidente. Uma “cooperada”, entusiasmada, entoou o grito de guerra: com luta, com garra, a casa sai na marra!48 e foi acompanhada por muitos dos que estavam presentes de forma entusiasmada. Em seguida foi bastante aplaudida. Uma mulher, acompanhado do marido e do filho no palco, ao subir no palco, falou e, tom de animação ao microfone: depois que entrei no projeto casei e tive uma filha. Entre também, vale a pena, você pode casar!. Muitos riram e aplaudiram.

Figura 6 – Palco na inauguração da Cooperativa Esperança

Fonte: Foto da autora

A maioria dos depoimentos estavam permeados de emoção e de orgulho pela

“luta bem-sucedida”. Uma mulher, com lágrimas nos olhos, relatou que, como era solteira, cumpriu todas as horas do mutirão sozinha.

48 Esta frase é comum em atos e manifestações organizadas pela União, tanto em espaços públicos, como em instituições do Estado como Caixa Econômica e Secretaria de Patrimônio da União (SPU).

Eu achei que não ia conseguir, achei que não ia conseguir. Eu falava: mas eu não sei nada de obra. Aí me falaram: mas aprende, você aprende. E eu consegui!

Uma senhora relatou chorando, que não pôde trabalhar na maior parte do tempo mutirão, porque teve dois enfartos durante o período de obras. Ela contou com a ajuda de outros cooperados que “doaram horas” para ela – “Agradeço por cada pedrinha que vocês colocaram pra mim.” Foi relatado por Jurema o caso de uma mulher que havia sido excluída do grupo por causa dos critérios do programa Crédito Solidário (que exigia CPF “limpo”), mas que foi resgatada quando o grupo migrou para o MCMV Entidades.

Coordenadores da União e representantes da FBR e outros movimentos salientaram em suas falas a necessidade de “continuar na luta”, pois “muitos outros companheiros ainda estão sem moradia”. A valorização pelo longo período de luta também apareceu com frequência nos discursos. Valério, representante da FBR, disse quando subiu ao palco: aqui não é um projeto que a pessoa se inscreve e vai pra casa esperar, essa não é a proposta. Enfatizando que essa era uma das diferenças entre o MCMV tradicional e o Entidades. A proposta não é se inscrever e esperar, mas sim, participar de todo o processo “lutando” para alcançar seu objetivo:

valorização da luta, muito choro, risada, aplausos e emoção. Assim se deu a performance e o rito que ali foram desenhados: todos os núcleos familiares subiram ao palco, e após a entrega das chaves, o evento foi esvaziando aos poucos.

Figura 7 – Inauguração da Cooperativa Esperança

Fonte: Acervo da UMP-RJ

Figura 8 – Casa da Cooperativa Esperança

Figura 9 – Casas da Cooperativa Esperança e vista da rua

Fonte: Fotos da autora

No documento Rio de Janeiro (páginas 81-86)