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O que forma uma “família” e quem pode participar da

No documento Rio de Janeiro (páginas 119-122)

Alessandro e Jurema me disseram posteriormente que estavam pensando em indicá-la ao grupo de Gamboa, que ainda teria vagas para a União preencher. No entanto, em uma conversa posterior, Rosemeire relatou que já tinha sido beneficiada pelo MCMV tradicional, e havia recebido um apartamento num bairro da zona oeste.

Ela relata que foi expulsa de seu apartamento pela milícia, mas isso a impediria de ser incluída em outro projeto financiado pelo MCMV, uma vez que seu nome consta como beneficiária do programa. Na ocasião, o grupo se organizou para tentar ajudá- la: um dos membros da coordenação indicou um advogado que poderia auxiliá-la na tentativa de obter de volta a guarda de seus filhos, e algumas mulheres fizeram uma lista de itens que ela estivesse precisando e pudessem ser doados. Rosemeire voltou na reunião seguinte, e depois não apareceu mais.

nenhuma outra rede de apoio60-, tinha acabado de sair das ruas e estava sem a guarda dos seus filhos. Através da observação deste episódio fica implícita a existência da necessidade de um determinado perfil das famílias pobres, que vai de encontro à compreensão de que a família se constitui enquanto uma ordem moral (SARTI, 1994), que não se refere apenas às hierarquias no interior da mesma, mas também a como ela é percebida socialmente. À Rosemeire, apesar de não ter sido oferecida uma vaga no grupo, foram oferecidas outras formas de apoio, baseadas, no entanto, na lógica filantrópica: doações de roupas, móveis e alimentos foram feitas pelas pessoas da plenária e da coordenação. As pessoas do grupo não ficaram indiferentes ao relato emocionado sobre sua condição de precariedade e seus problemas, no entanto, a forma de apoio oferecida estava baseada na lógica da caridade.

É facilmente observável que as famílias que fazem parte do grupo não se encontram em uma situação emergencial que precisa ser solucionada em curto prazo.

Considerando que há um longo tempo de organização até que as casas sejam construídas, fica evidente que caso a família se encontre em uma situação insustentável, provavelmente precisará buscar outras formas de resolver o problema da falta de moradia. A maioria das pessoas que compõem o grupo relatam morar precariamente – em áreas consideradas de risco ou violentas – morar de favor na casa de algum familiar ou passar por dificuldades para conseguir pagar o aluguel. Não há ninguém em situação mais extrema, como morando na rua, por exemplo.

Apesar de existirem outros arranjos familiares, é perceptível que o mais comum no grupo é o formado por uma mulher e filho(s), que se constitui como um arranjo familiar considerado, de acordo com a nomenclatura utilizada nas políticas públicas, como em situação de vulnerabilidade61, tais como: idosos, crianças e mulheres chefes de família de camadas pobres da população. Ser morador de área de risco também seria determinante para estar incluído nesta categoria de vulnerabilidade social, que está permeada pela noção de risco. No entanto, também podemos compreender o perfil das famílias como em situação de precariedade, considerando que diferente da

60 Sobre a importância das redes de apoio para famílias pobres ver Sarti (1994).

61 A categoria “vulnerabilidade”, conforme aponta Carmo e Guizardi (2018) não possui uma definição fechada, mas poderia ser compreendida como “condicionada à ausência ou precariedade no acesso à renda, mas atrelada também às fragilidades de vínculos afetivo-relacionais e desigualdade de acesso a bens e serviços públicos” (CARMO; GUIZARDI, 2018, p.2).

noção de vulnerabilidade (que remete à vitimização) a precariedade permite uma dimensão de positivação (FERNANDES, 2014).

A precariedade não atuaria apenas no registro da vitimização, da submissão ou da cordialidade - como veremos. Mas consistiria numa estratégia para contornar os mecanismos de usurpação e violência que atravessam essa cena. Também como uma maneira de se contrapor aos mecanismos que tentam inscrevê-la como “vítima” ou “necessitada”, revalidando formas de dominação/ disciplinarização que lhes são direcionadas ou, ainda, procuram eliminar ou eliminam efetivamente essa camada de baixa renda (transformando-a em homo sacer/ vida matável) (FERNANDES, 2014, p. 6).

Destaco, no entanto, que a precariedade à qual Fernandes se refere, ao pesquisar as ocupações urbanas no centro do Rio de Janeiro, não é a mesma que aparece no meu campo. Aliás, a fala de Jurema que transcrevi no início deste tópico sobre o grupo de Gamboa parece revelar que o pessoal de ocupação é visto por ela, e por outras pessoas da União, como mais complicados justamente por ocuparem um outro lugar na precariedade – com outras formas de viração e circulação na cidade (FERNANDES, 2014).

Em uma das reuniões do grupo Guerreiras Urbanas, onde estavam sendo rediscutidos os critérios para ingressar e permanecer no grupo esta questão gerou algumas tensões. Estes critérios constam no regulamento que era distribuído para as pessoas que estavam participando da reunião do grupo pela primeira vez, conforme consta no tópico 4.2 da tese. A discussão se deu com ênfase neste tópico:

2) Dar prioridade às famílias com maior número de crianças, adolescentes e idosos; famílias de pais e mães solteiras; e famílias que moram em áreas de risco e sujeito a remoção ou despejo, e as que o aluguel compromete mais de cinquenta por cento da renda familiar;

2.1) Entende-se por situação de risco áreas sujeitas a enchentes constantes, encostas de morros ou qualquer outra situação que ofereça risco a vida da família do cooperado.

Há algumas mulheres solteiras e sem filhos que se manifestaram durante a reunião afirmando que se sentiam em desvantagem. Marlene, uma mulher negra com mais ou menos quarenta anos, solteira e sem filhos, que compõe a plenária, se encaixa neste perfil, e estava indignada: Então eu não tenho prioridade, mesmo participando sempre?, e continuava Então quem tem mais filhos tem prioridade mesmo se não participar de todas as reuniões? A prioridade de acordo com o número de crianças na família causou algum desconforto também naquelas que tinham apenas um filho. Uma mulher, disse em voz baixa, de forma que só quem estava

próximo a ela pôde ouvir: Ué, a pessoa quis ter um monte de filho e ganha prioridade por isso? Não tá certo não. Houve desdobramento no sentido de estabelecer uma espécie de hierarquia das prioridades: a prioridade das famílias com maior número de crianças prevaleceria sobre a prioridade dos idosos?62 A família que morasse em área de maior risco, com apenas uma criança, teria prioridade comparada a uma família com maior número de filhos que morasse em área não considerada de risco? Muitas perguntas foram feitas, mas não houve conclusão. Grazia, assistente social, interferiu na discussão e disse: Gente, não precisamos definir esses critérios agora. Do jeito que vocês estão falando parece que tá com uma fila lá fora pra participar do grupo. A gente tá na luta pra conseguir fechar o grupo, nem tem gente suficiente. A fala de Grazia não pôs fim à discussão, mas a tornou visivelmente menos acalorada. As pessoas ainda comentavam o tópico, sem a mesma indignação de antes. Em uma conversa posterior com Grazia e Jurema, me foi dito que esses critérios só são de fato colocados em prática quando o grupo está fechado, ou seja, com o contrato assinado com a Caixa. Durante a etapa de organização, na qual se encontra o grupo Guerreiras, não há ainda essa preocupação, já que a rotatividade é grande e o perfil do grupo muda o tempo todo.

No documento Rio de Janeiro (páginas 119-122)