• Nenhum resultado encontrado

Moradores antigos e moradores recentes da Colônia

No documento Rio de Janeiro (páginas 61-64)

A transformação da Colônia Juliano Moreira em um bairro resultou em uma maior heterogeneidade no que diz respeito à população residente. Quando a Colônia

38 Os relatos que constam neste texto foram retirados de entrevistas e conversas realizadas com mulheres moradoras de Esperança durante e após a construção das casas. As conversas ocorreram dentro da própria cooperativa, na maioria das vezes, dentro da casa das próprias mulheres.

ainda era uma instituição fechada, além dos internos, somente funcionários e seus familiares moravam neste território. Com a gradativa desativação dos pavimentos da instituição, ao longo das décadas de 70 e 80, a maioria dos “funcionários mais abastados” se mudou da Colônia, vendendo suas casas para outros funcionários, ou mesmo para “pessoas de fora”, ou seja, que nunca tiveram relações de trabalho com o hospital (HOPPE, POTENGY, 2015). Os “moradores antigos” são, em parte, ex- funcionários da Colônia e familiares, mas também há os que “vieram de fora”, e são considerados “antigos” pelo tempo de moradia (DELGADO; VENANCIO, 1989). Os moradores ex-funcionários e familiares são chamados pelos moradores de Esperança de herdeiros da Colônia. Em diversas conversas em Esperança me foi dito que o início foi muito difícil, porque o pessoal da Colônia não queria a gente aqui. Em algumas conversas fui informada que este pessoal era não somente os moradores antigos, mas também milicianos39 que atuam na área da Colônia.

Neide, que é agente comunitária, conta que tentava vender a imagem do grupo Esperança para os moradores antigos. Há duas questões que causam desconforto nos “moradores antigos”, segundo ela: de um lado, o medo de que venham pessoas perigosas e bandidos para a Colônia. Neide relata o seguinte diálogo que teve com uma moradora antiga: de onde vocês vieram? Do Alemão?, Neide respondeu: Não, não. A gente é daqui de Jacarepaguá mesmo. Eu moro no Mapuá, aqui pertinho.

Ser de Jacarepaguá aparece como um argumento utilizado com frequência pelos moradores de Esperança aparentemente com o objetivo de justificar um determinado direito a este território, que é a Colônia. Ser de Jacarepaguá parece também ser uma forma de aproximação e de se diferenciar dos supostos bandidos que viriam de favelas mais distantes e consideradas perigosas, como o Alemão, citado na fala da moradora. Há também outra questão: os moradores antigos consideram injusto que pessoas que vieram de fora tenham acesso à moradia de qualidade, enquanto existem moradores antigos da Colônia morando em condições de extrema precariedade. Existe então uma noção segundo a qual o direito ao território e às casas

39 As categorias “milícia” e “milicianos” aparecem durante a pesquisa de campo e geralmente é solicitado pelos meus interlocutores que algumas informações sejam ocultadas. De acordo com a pesquisa realizada por Cano e Duarte (2012): “o tema das milícias adquiriu notoriedade no Rio de Janeiro no ano de 2006, quando o termo foi cunhado para descrever grupos de agentes armados do Estado (policiais, bombeiros, agentes penitenciários etc.) que controlavam comunidades e favelas, oferecendo “proteção” em troca de taxas a serem pagas pelos comerciantes e os

residentes. Estes grupos passaram também a lucrar com o controle monopolístico sobre diversas atividades econômicas exercidas nestes territórios, como a venda de gás, o transporte alternativo e o serviço clandestino de TV a cabo.”

novas construídas na Colônia teriam que ser preferencialmente destinadas àqueles que já habitavam aquele espaço.

Chegaram ao ponto de dizer na minha cara que não era justo eles estarem com merda entrando dentro de casa, sendo moradores daqui há 20 anos, e a gente estar ganhando um condomínio de luxo (Neide).

Uma questão que gerava tensão e ansiedade no grupo nos meses que antecederam a inauguração de Esperança era a construção de um gigantesco conjunto habitacional - aproximadamente 1.200 unidades - do MCMV tradicional realizado exatamente ao lado da cooperativa Esperança. Diversas pessoas comentaram comigo que havia o rumor de que em uma data específica do mês de março ocorreria a mudança das pessoas que morariam naquele conjunto ao lado, e que as casas de Esperança também seriam ocupadas por pessoas deste grupo desconhecido. O conjunto do MCMV ao lado foi durante algum tempo alvo de muita desconfiança e desconforto. Chamou minha atenção um episódio em particular:

inicialmente o projeto das moradias que compõem a cooperativa Esperança previa que as casas não teriam muros ou grades. Com a chegada deste conjunto habitacional mencionado anteriormente, levantou-se a possibilidade de modificar este projeto.

Diante da desconfiança e do medo suscitado por estes novos moradores ainda desconhecidos, o grupo decidiu em assembleia que o melhor seria que as casas passassem a ter muros e grades. Alguns relatos foram aparecendo espontaneamente em minhas idas ao campo, fazendo referência a este caso. Uma interlocutora disse em uma conversa que tibemos: aqui é muito tranquilo, não tem barulho, mas não sabemos como vai ser quando chegar a turma do funil né?. Os moradores da Cooperativa Esperança pareciam ver os novos vizinhos de forma semelhante a como foram vistos pelos moradores antigos: como potencialmente perigosos.

[...] a gente cogitou a possibilidade de colocar cerca viva. E isso permaneceu essa proposta até quando a gente migrou pro crédito solidário... Só que quando a unidade começou a perceber a migração que teve dentro da colônia, essa construção dos prédios aí [...] O pessoal ficou com medo. Aí começaram a pedir pra colocar muro, a gente levou pra plenária e a plenária aprovou. Apesar de eu ser contra [...] eu acho que muro você perde a graça da casa, entendeu? Esse negócio de muro isso é coisa de cadeia. Eu não gosto de muro. Mas aí assim, é decisão do coletivo, eu tenho que acatar a decisão do coletivo. Aí colocaram muro. [...] Mas fazer o que, né? É decisão da autogestão (Jurema).

Há, portanto, em jogo, uma explícita divisão entre estabelecidos e outsiders (ELIAS; SCOTSON, 1994), onde os estabelecidos são os moradores antigos em

relação aos recém-chegados e os outsiders moradores de Esperança; em outro momento, em relação aos futuros moradores do MCMV tradicional, são os moradores de Esperança que se colocam como estabelecidos em relação aos outsiders que ainda chegarão. Assim, uma trama de rumores e inseguranças perpassa as relações na área da Colônia: os moradores antigos em relação aos moradores novos, que inclui as pessoas de Esperança; e os moradores de Esperança em relação aos futuros moradores do MCMV de prédios. As relações e tensões em relação à milícia local também aparecem no emaranhado de situações relatadas de forma mais ou menos explícita durante as conversas na pesquisa de campo.

Neide me contou que se arrependeu de ter escolhido a localização de sua casa ao lado dos prédios – no momento da escolha as obras ainda não haviam sido iniciadas e não se sabia que haveria aquela construção ao lado. A desconfiança dos moradores de Esperança em relação aos que morarão no conjunto ao lado é perpassada por julgamentos morais e medo: não sabemos de onde eles vieram, se são bandidos, dizia uma das moradoras de Esperança para mim durante uma conversa. É curioso observar que a desconfiança sempre perpassa a dúvida sobre qual é a origem dos futuros moradores: de onde eles vêm? Aparentemente esta informação traz mais ou menos insegurança: caso sejam de outras regiões de Jacarepaguá, vê-se com menos desconfiança, caso sejam de favelas consideradas violentas, vê-se com maior desconfiança. A origem do morador ou ao menos o seu último local de moradia parece indicar se este pode ser considerado como bandido ou não.

No documento Rio de Janeiro (páginas 61-64)