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A oração e a leitura da ata

No documento Rio de Janeiro (páginas 115-119)

pudessem utilizar a informação sobre a contribuição financeira contra eles: já pensou se alguém sai falando por aí que o movimento tá pedindo dinheiro pras pessoas participarem das reuniões?. Nesta ocasião, Claudia, Marcio e Marcia, da coordenação, concordaram em continuar utilizando o papel, mas enfatizar, durante a reunião que a contribuição não era obrigatória, e que não era uma condição para as pessoas participarem das reuniões. No entanto, alguns meses depois este papel deixou de ser utilizado.

Por que as pessoas estão recuando na hora de fazer uma oração? Estão com vergonha de Jesus? Vergonha de Deus? Vejo amigos evangélicos recuando, parece que estão com vergonha de Deus, vergonha de Jesus, e não evangélicos também... Porque somos todos irmãos. Seja macumbeiro, feiticeiro, evangélico. Estamos aqui pra conseguir nossa casa! Mas vai vir de cima, temos que pedir a Deus. Isso para aquele que crê, aquele que não crê, que não tá nem aí – disse batendo as mãos -, eu só lamento.

Pude perceber certo constrangimento entre diversas pessoas, muitos olhares desviavam, mas nada foi dito. Todos permaneceram em silêncio. A mulher deu prosseguimento à oração, que incluía pedidos a Deus para que o objetivo da casa fosse alcançado. Após isto, pediu que todos rezassem um Pai Nosso, e assim foi feito.

Percebo que a depender da configuração de pessoas – considerando que a rotatividade de pessoas no grupo é grande - que está compondo a reunião a reação ao momento da oração é um pouco diferente. Em uma reunião que acompanhei no mês de outubro de 2016, ao ouvir o rotineiro Alguém quer vir aqui na frente fazer a oração?, notei um desconforto maior, e mesmo uma certa recusa em participar da oração, de forma que ainda não havia presenciado. Mesmo diante do pedido insistente para que todos se levantassem durante a oração, a grande maioria das pessoas permaneceu sentada. Neste dia, na falta de algum voluntário para conduzir a oração, foi um componente da coordenação que o fez, rezando somente o “Pai Nosso”. A maioria dos presentes não fechou os olhos, como de costume, ou esboçou qualquer participação. No dia desta reunião havia também certa tensão no ar por conta do cadastro do grupo: as coordenadoras do grupo haviam solicitado que todos os núcleos familiares levassem os documentos exigidos pela Caixa para que fossem anexados ao cadastro de cada família. No entanto, as pessoas não o fizeram. As coordenadoras haviam feito um plantão durante toda a manhã do dia da reunião em vão: estavam visivelmente chateadas por terem ficado esperando e ninguém ter aparecido. Tive a sensação de que isso havia gerado um clima de tensão geral que influenciou o momento da oração.

Em outra reunião, em dezembro de 2017, a dinâmica se deu de forma um pouco diferente. Claudia pediu que alguém fosse até a frente fazer a oração, e um homem magro e baixo se levantou imediatamente e foi até lá. Muito entusiasmado ele pediu que todos ficassem de pé, e foi atendido. Ele fechou os olhos, ergueu as mãos e fez uma fala firme em um volume de voz bem alto: nós vamos conseguir nossa casa no ano de 2018! Nosso Deus vai abrir os caminhos para que as chaves venham para

a nossa mão! Eu creio que nós vamos conseguir em nome de Jesus! Senhor, cai por terra todos os empecilhos, todas as barreiras. Ao concluir, ele pediu que todos rezassem o “Pai Nosso”, como de costume. O mais comum era que houvesse algum desânimo e resistência na hora de conduzir a oração, e o entusiasmo deste homem se destacou em minha observação. Notei também que a pessoa a conduzir a oração nunca era a mesma. A cada reunião levantava-se uma pessoa diferente para fazê-lo – quase sempre alguém da plenária.

3.4 “Ir ou não ir aos atos?” e o caso de Rosemeire

Em uma reunião realizada em outubro de 2015, Jurema pediu a palavra para falar sobre o ato que estava sendo programado para o dia 5 de outubro – Dia Mundial do Habitat. As intervenções de Jurema nas assembleias quase sempre são para dar informes sobre questões burocráticas – ou seja, estão conectadas com as mediações que ela estabelece com as diversas instâncias do Estado, como já mencionei anteriormente na tese – ou para falar sobre manifestações e atos políticos, sempre com a tentativa de mobilizar os participantes da assembleia.

Neste dia, ao perguntar quem poderia participar do ato, que ocorreria numa segunda-feira, e obter apenas alguns poucos voluntários – cinco pessoas levantaram o braço indicando que poderiam participar -, Jurema começou a se mostrar irritada.

Ela insistia, afirmando que era necessário um grupo maior para que o ato tivesse sucesso. Um homem, que estava lá pela primeira vai até a frente e faz um discurso Pessoal, vocês tem que ir. Eu que ainda nem estou no grupo vou fazer de tudo pra ir.

Eu pago aluguel há 8 anos. Se eu estivesse no lugar de vocês, que já conseguiram entrar no grupo, com certeza iria. As pessoas permaneceram sérias e em silêncio.

Algumas demonstravam certa irritação com a insistência, e um burburinho aos poucos tomava conta da sala. No meio da multidão uma das mulheres falou baixo, mas de forma que os que estavam mais próximos puderam ouvir: Quem pode, pode, quem não pode, não pode.

As convocações para atos e manifestações nas ruas sempre geram desconforto e tensão. Aparentemente as pessoas não se sentem motivadas a participar, e Jurema, que considera esta uma parte essencial para manter o caráter político cooperativa – levar suas reivindicações para o espaço público - sempre demonstra irritação e frustração diante do que ela compreende como falta de interesse

do grupo. Um ponto que também gera conflito é a falta de participação nos atos também por parte das pessoas que compõem a coordenação: para Jurema, eles deveriam dar o exemplo para a plenária, e por isso deveriam participar. No entanto, para as pessoas da coordenação, eles já executam um trabalho a mais sendo parte da coordenação, portanto, a participação nos atos deveria ser da plenária e não deles.

Assim, a tensão parece crescer: durante as reuniões as pessoas da coordenação enfatizam o pedido de Jurema, insistem para que as famílias participem, mas eles próprios não se comprometem com a participação nos atos.

Durante o momento de tensão que perpassava a chamada para o ato, uma mulher, que também estava lá pela primeira vez, foi até a frente para falar ao grupo.

Extremamente magra, olhos fundos, aparência cansada. Surpreendendo a todos, começou a relatar, emocionada, episódios dramáticos de sua vida: Rosemeire começou dizendo que tinha morado na rua por vários meses deste ano. Ela e seus dois filhos: um menino de cinco anos, fruto de um estupro que sofreu em outro período de sua vida em que morou na rua, e outro menino de quinze anos. Contou que foi para um abrigo da prefeitura, e lá, um funcionário teria, em suas palavras, praticado pedofilia contra seu filho mais novo. Ela explicou que seu filho havia sido fotografado nu, durante o banho por este funcionário. Ao levar o ocorrido para a diretora do abrigo, a mesma não teria acreditado. Rosemeire não desistiu de punir o culpado, e foi até a justiça. Recorreu à defensoria. De acordo com seu relato, a diretora, ao saber disso, a chamou em sua sala e foi extremamente agressiva com ela, dizendo: você não poderia ter feito isso!. Posteriormente, ela conta que foi expulsa do abrigo e perdeu a guarda de seus dois filhos. Essa última parte era a que relatava com mais comoção:

o meu filho é muito apegado a mim. Ele passou mal quando a gente se separou. Eu tinha preparado ele pra isso, mas mesmo assim ele se desesperou, passou mal.

Segundo ela, os meninos foram separados e levados cada um para um abrigo. Para ela, restou a rua novamente. Movida pela vontade de conseguir de volta a guarda de seus filhos, Rosemeire procurou a ajuda de uma igreja local. Disse que estava morando em uma quitinete alugada na Boiuna por quatrocentos reais, pagos pela Igreja. Todo o seu relato foi marcado por muita emoção. Sua fala pareceu emocionar a maioria das pessoas na sala. Eu também fiquei comovida, e não reparei a reação das pessoas durante o relato. Mas percebi diversas pessoas secavam as lágrimas após ela concluir a fala.

Alessandro e Jurema me disseram posteriormente que estavam pensando em indicá-la ao grupo de Gamboa, que ainda teria vagas para a União preencher. No entanto, em uma conversa posterior, Rosemeire relatou que já tinha sido beneficiada pelo MCMV tradicional, e havia recebido um apartamento num bairro da zona oeste.

Ela relata que foi expulsa de seu apartamento pela milícia, mas isso a impediria de ser incluída em outro projeto financiado pelo MCMV, uma vez que seu nome consta como beneficiária do programa. Na ocasião, o grupo se organizou para tentar ajudá- la: um dos membros da coordenação indicou um advogado que poderia auxiliá-la na tentativa de obter de volta a guarda de seus filhos, e algumas mulheres fizeram uma lista de itens que ela estivesse precisando e pudessem ser doados. Rosemeire voltou na reunião seguinte, e depois não apareceu mais.

No documento Rio de Janeiro (páginas 115-119)