2.11 As narrativas das mulheres de Esperança – o engajamento e os
2.11.1 Kathleen
Kathleen tem 34 anos de idade e mora na cooperativa com sua única filha de 18 anos. Sempre morou na região de Jacarepaguá – exceto por um curto período durante a sua infância que passou na cidade de Sapucaia, Minas Gerais. Este é um ponto em comum entre as moradoras da Cooperativa: os deslocamentos e mudanças de residência ao longo da vida geralmente estão em maior parte restritos à própria região de Jacarepaguá – entre lugares “melhores” – como a Taquara, que possui um amplo centro comercial - e “piores” – como a Cidade de Deus, onde há forte presença do tráfico e constantes “operações policiais” e tiroteios. Além desta questão, os lugares “piores” da região também costumam estar associados ao risco de enchentes.
Kathleen engravidou ainda adolescente, aos 16 anos, e se casou nesta mesma época. Seu divórcio ocorreu dez anos depois. Em nossas conversas ela nunca falava sobre o período em que esteve casada. Após o divórcio, conta que ficou “numa situação muito difícil”.
Depois de 10 anos a gente se separou. Conclusão: ele conseguiu comprar o espaço dele, e teve lá os problemas da vida dele. Teve outra mulher. Eu posso falar, não tenho problema nenhum com isso. Pegou outra mulher e botou pra morar nessa casa com ele. E eu, sem ter opção nenhuma, fui pra Cidade de Deus com a minha filha. Cidade de Deus já não é um lugar bom.
Fui morar na quadra do karatê, que é o lugar onde tem tráfico, tiro, problema dos garotos subirem em cima da laje e fumar, se drogar.
O momento pós-separação é narrado por ela como um momento crítico de sua vida: morando em “área de risco”, sozinha com sua filha e desempregada. Narra com certo orgulho as estratégias que adotou nesta época para “arranjar algum dinheiro”:
“vendia docinho na rua”, “panfletava”. Afirma que às vezes “tinha que comer todo dia arroz e feijão”, mas “o que passou, passou, e hoje não lhe falta nada”.
Kathleen conta que estava “desesperada pra sair da área de risco” e por isso, permaneceu participando das reuniões do grupo Esperança – “apesar da demora”.
Muitas vezes não tinha dinheiro para pagar a passagem e ia de bicicleta da Cidade de Deus até Shangri-lá – onde aconteciam as reuniões – o que significava uma hora pedalando. Não tendo com quem deixar a filha, ainda criança na época, diz que a menina ficava sozinha em casa, a quem ela recomendava: “Não fica na janela por causa do tiro. Abaixa, fica ali, a comida tá ali enrolada num paninho pra esquentar”.
Kathleen morou por cinco anos na Cidade de Deus, e após este período, quando o
“projeto estava quase indo” – se referindo ao início da construção das casas da
cooperativa - recebeu uma proposta de sua ex-sogra para morar com ela, dizendo que
“ali não era lugar para ela ficar.” Para Kathleen esta foi uma boa opção para se afastar da “violência da Cidade de Deus”, e também manter sua filha perto de familiares que poderiam “ficar de olho nela” em sua ausência. Por outro lado considerava uma situação desconfortável morar na casa da ex-sogra, principalmente porque ficava “em cima da casa do ex-marido”, que nesta época já tinha formado outra família.
Tava tendo aquela época de invasão. A polícia brigava com o tráfico pra poder manter aquele controle. Monopolizar ali. A polícia virou... Tem aquele nome, né? Agora eu esqueci. Milícia. A polícia tomou conta e os bandidos recuaram, aí ficou melhor. Mas até esse confronto eu tava lá. Aí eu fiquei morando aqui na Taquara, em cima da casa do meu ex-marido. Uma situação muito difícil...
Então eu achei que era melhor eu estar aqui morando em cima da casa dele, com a minha ex-sogra, com toda a família da minha filha, do que ficar lá. Aqui ele tava lá, de uma hora ou de ou de outra ele falava ‘Natália, aparece’. Aí a Natália ia lá, olhava, “Ah tá, tá bem’. Então é isso que me deixava mais tranquila. Não deixava ela sozinha.
Ao ser perguntada sobre como ingressou na Cooperativa Esperança, Kathleen me respondeu que foi “uma história tipo telefone sem fio”, onde “alguém da Igreja” da sua cunhada soube que alguém na Taquara “estava dando oportunidade pras pessoas terem um terreno para construir a casa”. Segundo ela, perguntou para muitas pessoas até conseguir obter a informação de que se tratava de uma reunião que acontecia em Shangri-lá e que ela deveria ir até lá “procurar a Jurema”.
A Internacional da Graça de Deus. Alguém de lá era do grupo. E a Jurema deve ter falado com alguém do grupo que tinha vaga disponível. Eu não sei até hoje quem é essa benção. Aí essa pessoa passou pra alguém, pra uma amiga na igreja que tinha vaga. Aí se espalhou, né? Se espalhou a notícia.
Aí conclusão: eu descobri onde era a reunião.
Houve um longo período desde que começou a participar das reuniões até o início das obras. Katlheen é sempre muito animada e falante, e diz que foi seu
“otimismo” que a fez “continuar acreditando e não desistir.” As narrativas de minhas interlocutoras com frequência passam por ideias como “não perder a fé” – embora ao serem perguntadas a respeito, a maioria delas declare não ter religião - “continuar acreditando”, “persistir” - mesmo quando todos achavam “que era loucura” continuar participando das reuniões durante tantos anos mesmo sem nenhuma certeza sobre o terreno e o financiamento para construção das casas. Kathleen, assim como outras interlocutoras, conta que amigos e familiares achavam “loucura”, afirmavam que elas estavam “sendo enroladas”, e que a casa “não ia sair nunca”. A “fé”, associada ao fato
de que ela não possuía meios de comprar uma casa de outra forma, a fazia permanecer no grupo.
Eu levava muita fé, porque eu sou uma pessoa muito otimista. Eu não consigo aceitar derrota fácil não. Quando eu achava que tava demorando muito o prazo, eu fazia todas as contas. Contabilidade entre o que eu tô gastando até ir na reunião, que era a passagem que eu gastava, e quanto que eu gastaria com uma casa. E se você fizer uma comparação você sabe que uma casa não vai custar o dinheiro da passagem.
Kathleen relata com muito entusiasmo como conseguiu mudar de vida, depois que entrou para a cooperativa. Assim que começou a fazer parte da coordenação do grupo, como secretária, conta que fez uma série de cursos, que ajudaram a executar suas tarefas na cooperativa e também possibilitou que ela conseguisse um emprego posteriormente. Desta forma, para ela, a experiência de ingresso na cooperativa passa por um longo período de “sacrifícios” – antes e durante o “mutirão” -, que culminou em grandes recompensas: sua casa e um “bom emprego”. Ela enfatiza que agora pode dar melhores condições de vida para a sua filha, e também já garante que ela poderá cursar uma faculdade.
Onde tinha de graça eu fiz. Na Faetec, Cebrae, tudo disponível na internet.
Uns cursos eu ia pessoalmente e outros eu fazia pela internet. Conclusão: tô cheia de cursos, cheia de certificados ali de tudo quanto é coisa. Me formei em contabilidade, sou técnica, e me profissionalizei em algumas profissões também, RH... Porque quando eu era jovem, eu queria oportunidade e as pessoas não davam. Porque olhavam pra mim e me subestimavam. ‘Minha filha, você não sabe fazer isso. Minha filha, você não sabe fazer aquilo.’ Então eu fui fazendo todos esses cursos. Fiz recursos humanos, fiz logística, fiz evento. Fiz um monte de coisa. Tudo pra que eu pudesse melhorar na vida, a cabeça e o modo de pensar. Acho que se cada um tivesse feito isso, teria ajudado na vida de cada um.
Kathleen fala com entusiasmo do emprego recentemente conquistado como
“assistente acadêmica” numa faculdade na Freguesia, onde planeja também cursar a graduação em Administração: Eu pedi muito pra Deus que eu pudesse ter um acesso melhor pra poder ter uma faculdade. Ou seja, eu não vou nem pagar. É bolsa, uma coisa que eu ganho.
Segundo ela, esta é uma atribuição difícil, porque recebe muitas críticas de outros membros do grupo, e por isso, “ninguém fica”. As críticas ao trabalho executado na secretaria, para Kathleen, acabavam soando como “ofensas”, mesmo sem intenção, “porque as pessoas não sabem trabalhar a fala”, “tem um jeito duro de falar”.
Além disso, havia a dificuldade de ter que participar não só da reunião “geral” – a assembleia, aos domingos – mas também da “reunião de coordenação” às sextas-
feiras. A “reunião de coordenação” tinha o intuito de decidir tudo o que seria feito durante o mutirão no final de semana. “É grade, é muro, é empena. Aí a gente vê quantas pessoas tem na sexta-feira. Aí diz assim: Clarindo vai ficar nessa parte, vai ficar com a equipe da limpeza. As meninas vão varrer rua. É muito cansativo, muito.”
Outra dificuldade Kathleen afirma ter enfrentado na coordenação foi devido à sua idade. Ela diz que “carinha nova ninguém leva a sério”.
Tem que ser uma babá, um babá das pessoas, e ter muita paciência. É muita gente. Fator de idade não significa nada. [...] ‘Ah, garota nova, tá dando moral em que? Quem é essa garota? Eu tenho 54 anos e tá dando lição de moral em mim?’ E não é isso. O fato é você tentar ajudar e a pessoa interpretar diferente.